5 GRUPO ESCOLAR TENENTE CORONEL JOSÉ CORREIA: ESPAÇO DE
5.4 O GRUPO ESCOLAR COMO ESPAÇO DE EXCLUSÃO SOCIAL
Apesar de ter se tornado um importante espaço de convergência e circulação de hábitos e atividades culturais e literárias no Assú, a implantação do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia não anulou a presença de outros modelos de instrução primária na cidade. O Decreto n° 239, de 15 de dezembro de 1910 orienta em seu artigo 2° que “o ensino primário será dado nos grupos escolares, cadeiras isoladas e escolas nocturnas estabelecidas em cada município”.
Em seu artigo 5°, a Lei n. 405 de 29 de novembro de 1916 (RIO GRANDE DO NORTE, p. 9) registra que as escolas isoladas eram estabelecimentos de “ensino primário creado pelo governo do Estado, da mesma forma que os grupos escolares, porém sem dependência de outras
escolas”, podendo “ser mixtas, masculinas e femininas, diurnas e nocturnas” e ministrando “o ensino por meio de cursos graduados, infantil e elementar, com o mesmo material escolar e pedagógico que os grupos escolares”.
Além do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia, que por volta de 1929 contava com uma matrícula de 161 alunos52, existiam mais três escolas subvencionadas pelo governo estadual ou municipal funcionando no centro do Assú: a Escola Santa Ignes, mista, dirigida pela professora particular Maria Eufrosina Fernandes com a matrícula de 116 alunos; a Escola Santa Therezinha, mista, dirigida pela professora particular Josefa Soares de Macedo com 24 alunos, e o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, da Congregação das Filhas do Amor Divino, com uma matrícula de 78 alunas. (PINHEIRO, 1997). O Colégio Nossa Senhora das Vitórias funcionava em um prédio próprio e atendia prioritariamente meninas de elite, inclusive de outras cidades da região, que ficavam na escola em regime de externato, semi-internato ou internato.
Outras escolas funcionavam nesse mesmo período na zona rural da cidade: Escola Rudimentar53 do Piató de Baixo, mista, dirigida pela professora Luiza de França Siqueira de
Faria, com a matrícula de 57 alunos; Escola Rudimentar de Comboeiro, mista, dirigida pelo professor João Ignácio Pereira Netto, com uma matrícula de 40 alunos; Escola Rudimentar de Rosário, mista, dirigida pelo professor José de Calazans de Oliveira, com uma matrícula de 30 alunos e a Escola Rudimentar de Canto do Mangue, mista, dirigida pelo professor Virgílio Bráulio dos Santos, com uma matrícula de 37 alunos. Os professores dessas escolas rudimentares eram particulares, contratados pelo Departamento de Educação do Estado. O munícipio dava a casa, o mobiliário e o expediente. (AMORIM, 2008).
Observamos nos dados apresentados que existiam 379 alunos matriculados no centro da cidade e 164 na zona rural, contabilizando um total de 543 alunos matriculados no município em 1929.
Pinheiro (1997, p. 147) apresenta alguns dados referentes ao ano de 1920:
Tanto as escolas particulares subvencionadas quanto a pública atendiam a um número reduzido da população, pois segundo a estatística registrada no recenseamento de 1920, o município do Assú contava com 24.779 habitantes, dos quais 11.992 pertenciam ao sexo feminino e 12.787 ao sexo masculino,
52 Percebemos que o atendimento no Grupo Escolar aumentou consideravelmente nesse ano em relação a matrícula no ano de inauguração, 1911, que era de 90 alunos. A implantação do Curso Complementar misto pode ter favorecido esse aumento.
53 As escolas isoladas e rudimentares contavam com um sistema misto e eram “disseminadas por vilas, povoações ou fazendas, atendendo a uma clientela infantil, adolescente ou adulta, formada, em sua maioria, por pessoas pobres ou que, mesmo abastadas, encontravam-se distanciadas dos centros mais evoluídos”. (ARAÚJO, 1979, p. 128).
sendo 13.124 adultos e 11.655 crianças. Das crianças, 4.870 encontravam-se com idade igual ou maior que oito anos, portanto em idade escolar, e 6.785 menores de oito anos. Quanto aos adultos, 3.383 sabiam ler e escrever, enquanto que 9.741 eram analfabetos.
O Colégio Nossa Senhora das Vitórias ainda não havia sido construído em 1920 e não encontramos informações sobre outras escolas funcionando na cidade do Assú nesse ano além do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia.
No ano de 1929, quando existem registros de outras escolas em todo o município como mostramos anteriormente, o número total de alunos matriculados era de 543. Por volta dessa época, a estimativa populacional era de 28000 habitantes. Concluímos que as escolas presentes no município atendiam um percentual de aproximadamente 2% da população. Esses dados evidenciam que a educação escolar precisava ser bastante difundida para que o índice de analfabetismo diminuísse de forma mais consolidada no município.
Em relatório de 1928, Amorim (2008, p. 16) afirmava à época que “o município de Assú é um dos que mais se preocupa com a instrução pública. Não obstante a média de frequência escolar é muito baixa em relação à sua população infantil”, explicando-se a dificuldade de combate ao analfabetismo na cidade “pela grande disseminação das habitações e falta de meios fáceis de comunicação”. De acordo com Pinheiro (1997, p. 147), considerando a quantidade de pessoas em idade escolar na cidade, o grande número de analfabetos decorria “da reduzida oferta de escolas, uma vez que as escolas subvencionadas particulares atendiam [...] praticamente aos filhos de proprietários rurais, comerciantes e alguns filhos de moradores das fazendas”.
Agregue-se a isso o fato de os prédios construídos para o funcionamento de um Grupo Escolar não possuírem “um número grande de salas de aula, e que cada municipalidade construía apenas um edifício para o funcionamento de um grupo escolar”. (AZEVEDO; STAMATTO, 2012, p. 119).
As escolas mais importantes que funcionavam no centro do Assú em 1929 eram o Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia e o Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Por contarem com um espaço arquitetônico próprio, mais estruturado para a aplicação das aulas, uma organização bem elaborada em termos de hierarquia e métodos didáticos e pedagógicos, poderiam ser os espaços preferidos para o atendimento dos filhos da elite local. Dessa forma, apesar de parecer colaborar com a diminuição do analfabetismo, dado que concentrava a maior quantidade de alunos, o Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia não favorecia o acesso à maioria da população. De acordo com Pinheiro (1997, p. 148), o perfil excludente era notado em elementos simples:
A seletividade e excludência estavam presentes em decisões de aparente irrelevância, como por exemplo, o fardamento escolar. A primeira farda (1911), segundo se observa em fotografias e descrições feitas através de depoimentos orais, expressam um tipo de indumentária própria a uma camada social mais favorecida. O referido fardamento é assim apresentado: para as meninas, vestido branco, com faixa na cintura de cor azul natiê, saia com pregas, blusa com gola e punhos contornados com bico; para os meninos, calça curta e camisa de cor branca. Todas as crianças usavam chapéu da mesma cor e tecido da farda, sapato e meia.
Segundo Saviani (2013, p. 175), durante a Primeira República os Grupos Escolares funcionavam como “uma escola mais eficiente para o objetivo de seleção e formação das elites. A questão da educação de massas populares ainda não se colocava”. Apesar de ter se mostrado um modelo escolar desenvolvido e organizado em relação as antigas Escolas de Primeiras Letras do período imperial e ofertarem uma educação de qualidade, os Grupos Escolares se tornaram uma instituição educativa que não atingia a grande parcela da população.
Como citado anteriormente, as escolas existentes em Assú atendiam principalmente os filhos da elite local formada em geral por proprietários rurais, comerciantes e fazendeiros. Essas famílias poderiam estar preocupadas com um projeto social mais amplo voltado à formação escolar de seus filhos para o atendimento dos serviços públicos e privados da cidade. Dessa forma, as novas gerações continuariam exercendo os melhores serviços e direcionando para as classes mais pobres e, talvez, mais desinformadas, os serviços braçais. É importante lembrar que para Frago (1993, p. 41), o processo de alfabetização escolar historicamente mantém uma correspondência direta com a estrutura sócio-ocupacional e:
mostra sua distribuição desigual entre os diferentes estamentos, classes, categorias ou grupos sociais. O modelo ou processo de alfabetização seguido pode modificar essa distribuição, atenuar ou acentuar diferenças, afetar ou não determinados grupos, mas, em qualquer tempo e lugar, não se pode fazer sua história sem fazer, ao mesmo tempo, a história da sua distribuição social desigual. Sua evolução não é, em todo caso, linear. Uns grupos avançam e outros estancam ou retrocedem comparativamente, mas a generalização do processo sempre ocorre, em suas linhas gerais, das camadas sociais superiores para as inferiores.
O paradigma excludente dos Grupos Escolares em suas primeiras décadas de funcionamento é identificado em diversos lugares do Brasil. Na Paraíba, Pinheiro (2002, p. 125) observa que a “implantação e expansão desse novo tipo de instituição escolar ocorreu de forma desigual e atendeu necessidades sociais e culturais condicionadas a particularidades políticas e econômicas e no nível de organização escolar existente em cada estado”. Em São Paulo, Souza (1998, p. 113) aponta que em suas primeiras décadas de funcionamento os Grupos Escolares apresentavam um perfil seletivo “voltado para alguns setores, isto é, aqueles mais bem
integrados na sociedade urbana e mantendo excluídos os trabalhadores subalternos, os negros, os pobres, os miseráveis”.
Nesse sentido, percebemos que em seus primeiros anos de funcionamento os Grupos Escolares mantém uma relação intrínseca com interesses particulares associando a imagem dessas instituições a espaços que reforçam hábitos excludentes, fazendo desse perfil uma identidade inerente à essas instituições educativas. De acordo com Magalhães (2004, p. 69):
na sua ação concreta e do quotidiano, como na dimensão temporal, as instituições educativas, sendo instâncias complexas e multifacetadas, engendram e desenvolvem culturas, representações, formas de organização, relacionamento e ação que se constituem em fatores de diferenciação e de identidade. Inseridas em contextos geográficos e em tempos históricos marcados por fatores de natureza sociocultural, conjunturas e circunstâncias históricas específicas, estas instituições, se bem que estruturadas por uma matriz de base e perseguindo objetivos comuns, existem de forma própria e este quadro existencial fomenta representações e apropriações, elas mesmas, diferenciadas.
Como observamos nos capítulos anteriores, a cidade do Assú no final do século XIX e primeiras décadas do século XX, era marcada por diversos elementos excludentes. Até mesmo a expansão cultural e literária desenvolvida de forma tão importante na cidade apresentava marcas da contribuição e participação ativa prioritariamente da elite local. Assim, acreditamos que ao menos em suas primeiras décadas de funcionamento o Grupo Escolar Tenente Correia José Correia, e, consequentemente, as atividades culturais e literárias presentes na instituição educativa, continuaram reproduzindo o mesmo perfil excludente identificado nas Escolas de Primeiras Letras do Império, perpetuando essa realidade tão enraizada na cidade.
CONCLUSÃO
Por meio deste trabalho tentamos reconstruir a história da Educação Primária na cidade do Assú em dois períodos importantes da formação de nosso país: Império e Primeira República.
O objetivo geral que estipulamos tinha como meta uma análise da importância da Educação Primária para a construção da identidade dessa pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte, conhecida como Atenas Norte-rio-grandense, considerando as influências e contribuições que se estabeleceram entre as atividades culturais e literárias desenvolvidas na cidade e o processo de escolarização nos períodos estudados.
A cidade recebeu essa cognominação exatamente em função da expansão cultural e literária com destaque para o jornalismo, o teatro e a produção poética. E os espaços de escolarização aos quais nos referimos são as Escolas de Primeiras Letras, implantadas na cidade em 1829, e o Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia, inaugurado em 1911, modelos de escolarização de instrução primária, remetendo exatamente ao nosso objeto de estudo.
Observamos que a Educação Primária ofertada nas Escolas de Primeiras Letras foi importante no processo de interação com a cultura local, por se tratar de espaços de alfabetização, com práticas de leitura e escrita, atividades essenciais para o desenvolvimento cognitivo e formativo dos educandos e necessárias para a inserção em um mundo letrado. Entretanto, a participação de professores e alunos das Escolas de Primeiras Letras no universo cultural e literário da cidade do Assú ocorria de forma isolada, não estabelecendo uma relação mais próxima do espaço escolar.
Por parte dos professores, identificamos a participação de Elias Souto, jornalista, orador e escritor, e do professor Olegário Oliveira, que desenvolveu atividades no campo da poesia. Em relação aos alunos de Escolas de Primeiras Letras no Assú, destacamos a atuação de Luiz Carlos Wanderley, jornalista, teatrólogo e poeta e membro de uma das famílias que mais contribuiu com o movimento cultural e literário na cidade. Podemos citar os nomes dos irmãos Francisco Amorim, Palmério Filho e Teógenes Amorim, que colaboraram significativamente com o desenvolvimento das letras na cidade, atuando no jornalismo, na produção poética e textos diversos. E identificamos ainda os nomes do jornalista Afonso de Ligori Soares de Macêdo e dos poetas Mariano Coelho e Antônio Soares de Araújo. Todos receberam as primeiras letras na cidade do Assú e faziam parte da elite local.
Com a implantação do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia, em 1911, a interação entre o processo de escolarização e as atividades culturais e literárias da cidade ficaram mais evidentes. Além de ofertar a leitura, a escrita e diversas outras disciplinas voltadas para uma formação mais integral dos alunos, a presença da instituição educativa na cidade favorecia a circulação e a convergência de um conjunto de práticas do universo urbano nesse espaço de instrução primária.
Dois fatores foram essenciais para a circulação das atividades que faziam do Grupo Escolar um espaço de intercâmbio sociocultural: a primeira era a orientação presente nos documentos que regulamentavam o funcionamento dos Grupos Escolares para a aplicação do uso de poesias durante as aulas e o teatro nas festividades ocorridas na instituição, e a segunda era a atuação de alguns professores no universo cultural e literário da cidade do Assú.
Esse segundo ponto ficou evidente nas figuras da professora Sinhazinha Wanderley e do diretor e professor Alfredo Simonetti. A professora participava do universo cultural e literário da cidade do Assú escrevendo textos para jornais, poesias e compondo músicas. No Grupo Escolar da cidade, ela preparava versos e poesias para seus alunos declamarem despertando neles o interesse por essa produção literária. Entre os alunos que se tornaram poetas e escritores por influência da professora podemos citar Rômulo Chaves Wanderley e João de Oliveira Fonseca. O professor Alfredo Simonetti atuou junto à imprensa assuense colaborando com jornais locais e escreveu poesias e versos. Recebendo apoio incondicional do professor, alguns de seus alunos criaram um jornal de circulação local, O Paládio, e organizaram no Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia o Grêmio Complementarista com o objetivo de desenvolver atividades culturais e literárias na cidade.
Essas constatações reforçam a hipótese levantada em nosso trabalho de que existia um movimento de interação entre as instituições de Educação Primária e as atividades culturais e literárias desenvolvidas na cidade do Assú. Mesmo que essa percepção tenha ficado mais evidente no Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia, a instrução primária contribuiu significativamente para a construção da identidade da cidade como Atenas Norte-rio-grandense na medida em que a alfabetização mostra-se como um processo cognitivo importante e necessário para o registro de atividades culturais e literárias e, ao mesmo tempo, esses modelos educacionais apresentam influências dessas atividades por meio da produção de jornais, poesias e apresentações teatrais.
para alcançarmos esse objetivo foi essencial a análise do objeto de estudo a partir das reflexões de Frago (1993), sobre a história da alfabetização e de Magalhães (2004), sobre os conceitos de comunidade envolvente e agentes e sujeitos.
No processo de alfabetização, atentamos para a forma como essa atividade contribui com o próprio desenvolvimento cultural do ser humano e a inserção do alfabetizado no mundo da escrita, da leitura e da imaginação, ações totalmente relacionadas com o universo cultural e literário que se expandiu na cidade do Assú dentro do recorte temporal investigado.
O conceito de comunidade envolvente (MAGALHÃES, 2004) se refere as relações estabelecidas entre a instituição educativa e o contexto sociocultural e geográfico em que está inserida. Dessa forma, esse conceito contribuiu com a análise das interações efetivadas entre os espaços de instrução primária e o contexto sociocultural da cidade do Assú, considerando as contribuições e influências que se manifestam entre instituição educativa e sociedade.
E a noção de agentes e sujeitos mantem uma relação com a participação dos envolvidos no processo educacional para alcançar os intentos e as metas estipuladas para as instituições. Percebemos essa relação na atuação de alguns professores de Escolas de Primeiras Letras, mas, ela ficou mais evidente na atuação do corpo docente e discente do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia.
Atingir o objetivo geral proposto possibilitou o levantamento de outras observações relacionadas aos objetivos específicos de nosso trabalho.
O primeiro refere-se as transformações no território original da cidade do Assú. Este, passou por modificações importantes a partir do século XVII com a colonização portuguesa. Apesar do conflito conhecido como Guerra dos Bárbaros, as mudanças ocorridas na região favoreceram o desenvolvimento econômico da cidade com as charqueadas, o algodão e a carnaúba e beneficiaram melhoramentos no espaço urbano e social, além de influenciar o movimento literário e cultural da cidade. Todavia, ficou evidente que o processo de expansão econômica e cultural apresentou hábitos excludentes, favorecendo principalmente a elite e deixando as pessoas de outras classes mais simples à margem dos progressos iniciados pela colonização.
O segundo objetivo específico diz respeito a implantação da Educação Primária na cidade do Assú por meio das Escolas de Primeiras Letras e do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia.
As Escolas de Primeiras Letras foram criadas na cidade em 1829 e os primeiros a exercerem o magistério foram o senhor José Félix do Espírito Santo, numa cadeira masculina ainda em 1829, e a senhora Maria Joaquina Ezequiel da Trindade assumindo a cadeira feminina em 1834. Depois desses professores pioneiros, diversos outros letrados exerceram o magistério no Assú. Porém, observamos que a cadeira feminina passava por um fenômeno de supressão em diversos momentos e dificultava o atendimento escolar para esse público.
Sobre os métodos pedagógicos nas Escolas de Primeiras Letras, estes seguiam padrões pautados na figura do professor, que lecionava geralmente em sua própria residência e poderia exercer sua autoridade aplicando castigos físicos. E as disciplinas abarcavam um número restrito de temas, mais voltados para a inserção dos alunos no mundo letrado com a escrita, a leitura e os cálculos.
O Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia foi implantado na cidade em 1911 e apresentava uma série de inovações em relação as Escolas de Primeiras Letras, com um sentido totalmente diferente no processo de escolarização. Esse novo modelo institucional contava com um prédio próprio para o funcionamento das aulas, exigia profissionais mais preparados para o exercício do magistério, estava pautado no método intuitivo, colocando o aluno no centro da experiência pedagógica e despertando suas habilidades por meio dos sentidos e da observação. A instituição educativa contava também com uma quantidade maior de disciplinas voltadas para uma formação mais integral e universal.
Outro fator destacado nos Grupos Escolares é que esses espaços visavam despertar relações entre as finalidades patrióticas e cívicas propostas no ideário republicano, fazendo desse modelo muito mais que uma escola de ensinar a ler, escrever e contar. Existia uma emergência iminente de moldar, disciplinar e controlar professores e alunos, formando cidadãos preocupados com hábitos de higiene, civilidade e urbanidade, participando e contribuindo com os valores de ordem e progresso da nação.
Reforçamos novamente as contribuições de Frago (1993) nesse objetivo, pois, na passagem dos espaços de Educação Primária, a própria alfabetização ganha conotações diferentes. A noção de instituição educativa de Magalhães (2004) também se faz presente, dado que a materialização do espaço educacional ocorre a partir de um conjunto de normas, interesses políticos, espacialidade e recursos.
Ainda sobre Magalhães, retomamos o conceito de agentes e sujeitos. Nas Escolas de Primeiras Letras e no Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia evidenciam-se normas orientando o comportamento desses agentes e sujeitos e na passagem de um modelo para o outro são estabelecidas novas propostas para a orientação dos comportamentos. Ainda utilizamos o conceito de práticas educativas de Magalhães (2004), que mantem uma relação