• Nenhum resultado encontrado

4. PESQUISAR, FORMAR, TRANSFORMAR: O MOVIMENTO DE APREENSÃO

4.1. A escola

4.1.1 O grupo

Neste primeiro encontro já recebemos a confirmação de que havia docentes interessados em participar. Combinamos de realizar os encontros no momento da Jornada Especial Integral de Formação, (JEIF), com duração de aproximadamente uma hora. Também ficou acordado que retornaríamos em quinze dias para organizar os grupos de acordo com a inscrição voluntária nas temáticas disponíveis.

Retornamos a escola e notamos que poucas pessoas haviam tido acesso a lista de inscrição. Por isso, optamos por falar um pouco mais sobe nossos pressupostos teórico-metodológicos, éticos e políticos, apresentados ao longo dessa dissertação.

No decorrer da apresentação o grupo foi bastante participativo, respondeu as questões que colocamos, fizeram outras perguntas, ilustraram com exemplos da prática. Pesquisadora 119 e eu falamos um pouco sobre as especificidades de nossas temáticas. (DIÁRIO DE BORDO20, 12 de setembro de 2019)

Ao término desta explanação, recolhemos a lista de inscrição e observamos que os grupos de inscritos contavam com mais participantes, além de mais pessoas terem assinalado a opção de não participar das atividades propostas.

Inicialmente, cinco docentes escolheram discutir o machismo nas relações escolares.

Desde o primeiro encontro, pontuamos que não haveria a necessidade de permanência nos grupos, bem como o convite para ingresso estaria permanentemente aberto. E dada esta possibilidade, ao longo dos encontros recebemos mais uma participante em nosso grupo, assim, além de mim, o grupo é composto por seis docentes que apresento a seguir.

19 Os nomes das duas pesquisadoras que participaram do movimento de Pesquisa-trans-Formação nesta escola junto a mim foram codificados para Pesquisadora 1 e Pesquisadora 2.

Quadro 1 – Docentes participantes

Nome21 Formação inicial Função Tempo de

trabalho na escola

Sérgio Licenciatura em

Matemática

Professor de matemática – 6º aos 7º anos do EFII22

10 anos

Elisabeth Licenciatura em

História

Professora de História – 7º aos 9º anos do EFII

10 anos

Joana Licenciatura em

História, Pedagogia

Professora da Sala de Leitura – 1º aos 5º anos do EFI23

8 anos

Carolina Licenciatura em

Letras

Professora da sala de Leitura – 6º aos 9º anos do EFII

13 anos

Paulínia __ Professora de Ciências

Naturais – 6º aos 9º anos do EFII

10 anos

Dandara Licenciatura em

História

Professora de História – 6º aos 9º anos do EFII

__

FONTE: Autora

Como alertei logo nas primeiras páginas, nossos recursos linguísticos não favorecem uma fácil inclusão da mulher em nossos discursos. Optei, para garantir a concordância nominal no texto, escrever de modo formal, no masculino, sem flexionar os pronomes. Mas, como apresentado no Quadro 1, vemos que o grupo é composto majoritariamente por professoras, por isso, considero adequado, a partir de agora quando me referir ao grupo, utilizar os pronomes femininos sem flexionar.

Algumas informações não constam no quadro, como a formação inicial de Paulínia, e o tempo de escola de Dandara, porque como o grupo foi bastante rotativo,

21 Para preservar a identidade das participantes os nomes foram codificados, estes são, portanto, fictícios criados por mim.

22Ensino Fundamental II 23Ensino Fundamental I

algumas participantes não participaram das discussões iniciais, e não retomei algumas questões ao longo do processo, uma vez que considerei mais relevante garantir o fluxo das atividades em curso.

Ainda assim, apreendemos que este é um grupo que está nesta escola já a bastante tempo, sendo que a participante com menos tempo de casa está na escola a 8 anos. Esta característica se repete no grande grupo, quer dizer, na totalidade dos docentes.

Esta estabilidade no grupo pode contribuir com o sentimento de amizade que permeia as relações entre docentes. Observamos isto nas conversas de corredor, ao utilizarmos a sala de professores, e nas falas no grupo.

Enquanto eu preparava os materiais para a apresentação Sérgio, Cora e Elisabeth conversavam sobre o final de semana. O grupo havia participado de uma palestra na escola Florestan Fernandez, uma atividade, que segundo o grupo era obrigatória. Este é um grupo bastante unido. Trabalham juntos há um longo tempo e têm uma relação de amizade. (DIÁRIO DE BORDO, 30 de setembro de 2019)

As docentes participantes dizem morar no bairro ou em bairros próximos à escola. Por isso, demonstram conhecer bem as condições de vida de seus estudantes.

Também, notamos que a maioria das professoras do grupo trabalha com as crianças do EFII, que em geral têm entre 12 e 15 anos. Algumas docentes, como Sérgio e Elisabeth falam sobre as dificuldades de trabalhar com as crianças dos 6º anos. Dizem que estas chegam ao EFII com muitas dificuldades advindas do processo educacional anterior

Elisabeth: Eu não...eu...eu não me vejo mais no sexto ano sabe...tenho uma dificuldade enorme.

Sérgio: Sexto ano... (acenos com a cabeça)

Elisabeth: Nossa! (risos) É... eu não sei como que...haja folego! (risos)

(TRANSCRIÇÕES, 1º encontro)

Este é um grupo bastante engajado: Algumas pessoas – Sérgio, Dandara – citam com frequência movimentos sociais e sindicais dos quais fazem parte; e todas comentam muito sobre cursos, formações e palestras que participam, buscando nestas situações melhorarem sua práxis pedagógica.

O grupo apresenta a especificidade de congregar pessoas com diferentes experiências religiosas: Sérgio se declara ateu; Elisabeth, Joana e Carolina professam

religiões cristãs. No entanto, o grupo faz análises bastante críticas sobre as religiões, inclusive sobre as suas, entendendo que, como instituição do sistema capitalista estão coadunadas com ideias dominantes.

Elisabeth participou de eventos na igreja que frequenta e percebeu na fala das pessoas que congregam com ela o machismo (...)

(DIÁRIO DE BORDO, 13 de fevereiro de 2020)

Elisabeth: Então, esse conjunto ideológico eu tive na, na minha religião lá, formações, formações lá tal, em várias dessas reuniões eles alertavam a mulher pra uma coisa, que eu acho interessante (...) (TRANSCRIÇÕES, 11º encontro)

Sérgio: Eu cresci numa religião cristã, minha mãe foi cristã e eu não sou cristão. (TRANSCRIÇÕES, 4º encontro)

Compor este grupo durante o período de quase dois semestres foi uma experiência muito gratificante para mim. Cada encontro era marcado por muitas discussões, teorias, desabafos, risos, alguns conflitos e muito afeto; todos os elementos que estão compondo as análises.

Encerramos o encontro e o semestre nos despedindo de modo afetuoso, e firmando o compromisso de nos encontrarmos novamente no próximo ano. (DIÁRIO DE BORDO, 05 de dezembro de 2019)

Neste encontro participaram todas/o: Elisabeth, Sérgio, Joana, Carolina, Dandara e Cora, que chegou depois. Demoramos um pouco para iniciar, estávamos nos recebendo, conversando sobre as férias, uma confraternização muito boa! (DIÁRIO DE BORDO, 13 de fevereiro de 2020)