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O guarda-roupa do Lume e o processo de criação

Capítulo II – Clown o sentido cômico do corpo e os trajes que o vestem

6. O guarda-roupa do Lume e o processo de criação

Ainda dentro do processo de trabalho do clown através da máscara, surge um elemento

de criação que merece destaque por sua importância para o processo de criação dos trajes de

cena do Lume Teatro: o guarda-roupa.

(...) Depois na hora de vestir a gente trabalha com um acervo de figurinos enorme, aliás o acervo do Lume de figurino, por menor que já tenha sido, sempre foi utilizado, devida à necessidade dele por causa do trabalho do palhaço nos retiros de clown. E na época do trabalho com a Sue foi muito importante porque quanto mais possibilidades você tem, mais você viaja na sua imaginação. (Naomi Silman, entrevista apêndice A4)

Figura 8 – Jesser de Souza no retiro em Pocinhos (MG), (Fonte: Arquivo do Lume Teatro. Foto: Sue Morrison.)

Figura 9 – Raquel Scotti Hirson no retiro em Pocinhos (MG) (Fonte: Arquivo do Lume Teatro. Foto: Sue Morrison.)

Aqui, a atriz faz menção a um conjunto de trajes que não necessariamente são usados

em espetáculos. A origem deste conjunto se deu primeiro através de doações dos próprios

atores do Lume e seus parentes. Em seguida esses trajes passaram a ser disponibilizados para

retiros de clown e outros cursos. Com o uso recorrente foi necessário criar uma regra de utilização dos trajes: quando um palhaço encontrava o seu figurino e essa peça de roupa era parte do acervo do Lume, ele podia leva-lo consigo, desde que deixasse outra peça de roupa ou acessório em troca. Essa regra possibilitou uma maior diversidade de trajes no acervo. Relatou-se que quando um palhaço encontrava uma peça de roupa para compor seu figurino no acervo no Lume, a tendência era que o palhaço deixasse várias outras peças de roupas em sinal de gratidão. Por último, depois que a Sede do Lume ficou mais conhecida como espaço de pesquisa teatral, pessoas da comunidade de Barão Geraldo e da UNICAMP passaram a aparecer com sacolas de doação25.

Esse guarda-roupa/acervo é a primeira etapa do processo de criação de muitos dos

figurinos do Lume, pois é dele que saem os trajes que são usados durante o trabalho cotidiano.

Esse acervo tem uma variedade grande de itens como calças, vestidos, blusas, paletós,

sapatos, perucas, que permitem que os atores experimentem diferentes possibilidades,

mantendo ou descartando trajes conforme o desenvolvimento do trabalho de ator. Por vezes,

algum traje funciona tão bem que passa a fazer parte do traje de cena do espetáculo

26

, em

outros momentos ele é apenas um ponto de partida.

Quando falamos em processo criativo, por que seria este o primeiro passo em relação à

criação dos trajes de cena? A partir de autores como Ostrower (2013), Ghiselin (1952) e

Kneller (1973), podemos definir processo criativo como o ato de criar algo novo a partir da

reordenação e ressignificação (intencional segundo enfatiza Ostrower) de nossas referências e

subjetividades. Se partirmos dessa definição de processo criativo, então o procedimento dos

atores do Lume Teatro, de utilizarem um acervo de roupas, torna-se um ato claro: é uma

forma de o ator encontrar por si só o traje de cena, reordenando e ressignificando aquilo que

se encontra nesse guarda-roupa de referências.

O guarda-roupa do Lume Teatro é, principalmente no caso do clown27

, um instrumento

de trabalho do ator, em que ele pode ter autonomia na criação do traje de cena, uma vez que

para o Lume Teatro o traje do clown tem íntima ligação com a arte de ator.

25 Todo o relato da criação do guarda-roupas do Lume vem de comunicação pessoal com a atriz Raquel Scotti Hirson.

26 Um exemplo disso será descrito no capítulo III.

27 Há casos, em outras linhas de pesquisa do Lume, em que o ator monta um figurino com trajes do guarda-roupa e posteriormente um figurinista entra no processo para refinar os figurinos. Em outros casos, até o figurinista parte desse acervo para fazer propostas que depois serão mais bem desenvolvidas.

Um caso de utilização de acervo, que é passível de comparação, é o do processo do

Théâtre du Soleil. No livro “O figurino Teatral e as renovações do século XX”, Fausto Viana

descreve o histórico do aclamado grupo e o desenvolvimento do processo de criação dos

trajes de cena ao longo dessa história. O que nos interessa no caso do Soleil é que lá os trajes

de espetáculos anteriores podem ser usados no processo de criação de um espetáculo novo.

Viana (2010) relata que há também à disposição dos atores uma sala de costuras com muitos

tecidos e algumas costureiras que podem executar a ideia do ator, uma vez que ele converse

com a diretora do grupo, Ariane Mnouchkine.

Se por um lado, Lume e Soleil têm em comum a reutilização de trajes de espetáculos

anteriores, por outro, a forma como isso ocorre é diferente. Geralmente, no Lume, o processo

de criação se inicia com o trabalho do ator e só depois de algum tempo é iniciada a

experimentação com trajes. No Soleil, a encenadora Mnouchkine dá predefinições cênicas aos

atores, que em retorno fazem uma proposta de improvisação com todos os elementos de cena

presentes (maquiagem, figurino, luz, som). O traje, portanto, é usado pelos atores desde o

primeiro momento.

Através das comparações com o ambiente universitário e com o Théâtre du Soleil

pode-se perceber que, ainda que tenha elementos em comum, o processo de criação de trajes

em cada um dos casos citados é diferente. Cada grupo/ator encontra seu modo de trabalho

cênico e também encontra o modo de produção do figurino. No caso do objeto deste estudo –

o processo de criação dos trajes de cena do Lume teatro – pode-se perceber que ele está

intimamente ligado ao ator.

Uma vez que, já estabelecemos qual a relação entre o clown e seu traje (a lógica do

palhaço), e compreendemos que a primeira ferramenta para encontrar o traje é o acervo de

roupas do Lume Teatro, passaremos então a descrever os espetáculos de clown do Lume, seu

processo de criação e as lógicas de cada palhaço.