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O H UMOR NA ESQUERDA : M ARX , P ROPP E P ISCATOR

A tradição estética e política do riso: teorias e experiências do cômico

O H UMOR NA ESQUERDA : M ARX , P ROPP E P ISCATOR

O CÔMICO COMO INSTRUMENTO DE LIBERTAÇÃO EM MARX POR PAUL-LAURENT

ASSOUN

A condição de vítima não impede que o sujeito ria. O sofrimento não mata o senso de humor nem elimina necessariamente toda alegria. Ao se divertir, o indivíduo pode – ou não – estar se alienando. A ambigüidade do riso está frequentemente vinculada à ambigüidade da consciência cotidiana em geral.51

Leandro Konder. A questão da ideologia.

O riso abre espaços para contestação e, muitas vezes, é utilizado como meio. Por isso se justifica aqui a teoria do riso de Vladimir Propp, para quem o riso pode ser uma arma de atuação política. O entendimento do cômico nas suas dimensões positivas para a esquerda está no princípio de análise de Karl Marx sobre o Dezoito Brumário, razão de sua inserção neste trabalho.

Em Marx o problema do trágico/cômico relacionado a uma situação humana e não exclusivamente a uma forma estética não se excluem. É possível ver como a concepção de tragédia se fixa sobre a percepção da tragédia revolucionária — esta é para Marx e Engels o conflito entre um postulado histórico e sua impossibilidade prática.

Por não ser uma questão de ordem particular, mas sim universal, as forças em conflito que são da ordem de uma classe, condicionadas historicamente, são impossibilitadas de satisfazer as aspirações em vigor. Essa impossibilidade é o que transforma o conflito em trágico: não há saída. Marx chama a atenção para o fato de que não existe conflito trágico revolucionário quando dele estão ausentes as forças revolucionárias, ou seja, o conflito trágico é necessariamente um conflito de classes. Assim, a natureza do conflito revolucionário, as formas históricas que ela apresenta, vincula-se à tragédia da revolução, vista pelo ângulo de seu fracasso52.

51 KONDER, Leandro. A questão da ideologia. São Paulo: Cia das Letras, 2002, p. 141. 52

O 18 Brumário de Luís Bonaparte de Karl Marx foi escrito no contexto das lutas

políticas que levaram ao poder o sobrinho de Luís I e uma das coisas que a obra evidencia são as relações de poder e como elas são sustentadas por modos de pensar diversos que mistificam estas relações. O que se intenta aqui é mostrar como o enunciado da lei da repetição histórica está relacionada ao conceito de trágico e cômico em Marx.

A lei da duplicação histórica se refere antes de tudo a uma condição da ação histórica, como identificação de agentes, atores históricos com as figura do passado. Marx reelabora o que está posto em Hegel e Heine de forma complementar: ―Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira como tragédia e a segunda como farsa‖53.

A proposição, segundo Paul-Laurent Assoun, resume o pensamento de Hegel e é tomada por uma recordação de leitura associada à sua própria reflexão sobre Luís Bonaparte. Assoun afirma que Marx vê nesse comentário a expressão da idéia do sistema hegeliano. Para Marx, a repetição também tem um sentido fundamental, daí seu aspecto de síntese, mas ele não a trata como a confirmação da necessidade histórica, mas sim como ―um problema cuja solução enriquece a concepção da necessidade histórica‖54

. A fonte positiva para Marx foi uma obra de Heine, na qual o filósofo diz: ―Depois da tragédia vem a farsa‖55

. Essa reatualização é o encontro de duas fontes, a da filosofia da história hegeliana e a da visão heiniana da história.56

A repetição está, para Assoun, associada ao trágico/cômico. O que interessa a ele é perceber, no contexto da fórmula de Marx, que sentidos possuem as palavras que foram tomadas num sentido evidente/corrente. Daí questiona: o que é então preciso colocar atrás destas palavras?57 Ele entende que o sentido da oposição trágico/cômico em Marx é o de uma unidade teórica. A primeira observação importante a esse respeito é que a oposição está no contexto da obra de Marx e não apenas no 18 Brumário — ela estaria ali de forma sintética. Então ―é preciso considerar essa recorrência como não-

53 MARX, Karl. O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 21. 54

ASSOUN, Paul-Laurent. Marx e a repetição histórica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 69.

55 HEINE, Heinrich. De L’Allemagne, t I, 1878, p. 131, apud ASSOUN, Paul-Laurent, op. cit., p. 71. 56 ASSOUN, Paul-Laurent. Marx e a repetição histórica, op. cit. p. 71.

57

fortuita: ela é de fato o indício de que uma considerável trama teórica se desenrola sob essa metáfora precisa e que se deve desvendar para a elucidação dessa mesma metáfora‖58

.

A passagem do sublime da filosofia grega às ―ideologias‖ tardias, epicuristas, estéticas, céticas, é para Assoun o objeto da reflexão de Marx, preocupado com o problema da decadência das formas históricas. Estas formas em Hegel (o ceticismo, o epicurismo e o estoicismo) são retomadas por Marx como ―experiências privilegiadas da negatividade da consciência de si e da fecundidade da crítica‖59

. Assoun faz uma aproximação entre O Dezoito Brumário e a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel para mostrar que a perenidade da oposição entre trágico e cômico revela um sintoma: o cômico como modo de revelação de subjetividade.

Assoun avalia que a Alemanha apresenta, nesse contexto vivido por Marx, uma produção econômica e um regime político e de organização social já ultrapassados pela maioria das grandes nações européias e lembra que para Marx há algo de mais estranho ainda, pois a Alemanha tomou para si parte nas restaurações dos povos modernos sem ter participado de suas revoluções. O caso alemão é então para Marx um verdadeiro monstro histórico e Assoun enfatiza que devemos tomar essas metáforas naturalistas ao pé da letra. Se cada nação participa do processo global de evolução histórica, este se impõe ainda que em desordem a cada uma das nações. Assoun lembra ainda que para Marx o caso alemão é notável nesses termos, pois, se de um lado,

a evolução particular que o define está em atraso em relação à evolução geral; do outro lado, e sobretudo, a evolução particular é aberrante em relação ao esquema da evolução geral: principalmente, o ciclo universal antigo regime-revolução-restauração torna-se o ciclo absurdo antigo regime-restauração; a fase revolucionária é pura e simplesmente apagada.60

Marx entende que a repetição tem característica de tomada de consciência das transformações das condições materiais que geram a impossibilidade da própria repetição. Ela é farsa porque muda de direção, quando deveria produzir o novo. O

58 Ibidem, p. 82.

59 Ibidem, p. 83. 60

regime alemão corresponde, no momento presente daquele contexto, à manutenção de uma fase passada.

Assim, o trágico e o cômico são duas categorias históricas opostas – enquanto determinações de duas formas opostas de contradições históricas. O trágico é a expressão da convergência da forma universal da contradição histórica (enquanto inerente ao mundo histórico) e da forma particular da contradição histórica (cuja individualidade histórica é o sujeito). O cômico é a expressão da divergência desses

dois níveis da contradição histórica61 (grifos nossos).

Essa caracterização do trágico e do cômico se dá no nível da natureza da contradição histórica. Assoun revela que Marx discute também uma caracterização subjetiva: se o vivido no antigo regime é trágico, ele se traduz por uma adesão que ele próprio cria, portanto, individual, que faz crer em sua justificação; por outro lado, no cômico há uma falta de adesão à sua justificação. A consciência da individualidade histórica perde o seu fundamento, pois ―o antigo regime imagina apenas que ainda crê em si mesmo e exige do mundo a mesma ficção‖62.

Nesse sentido, o cômico é a confirmação da repetição falhada. É a tentativa no presente de um retorno a um ponto de partida de uma forma histórica que já não se encontra mais como tal, mas que tenta representar-se como o real. No entanto, Assoun ressalta que não há uma contradição no sentido de oposição entre trágico e cômico, assim como não há entre real e fictício.

A história não é feita de duas dimensões heterogêneas – a dimensão trágica, em que consistiria sua realidade, sua efetividade, sua verdadeira essência, e a dimensão cômica, em que consistiria sua irrealidade, sua facticidade, sua aparência ilusória. O cômico não é uma duplicata falsa da história, seu avesso fantasmático: é um momento necessário de sua realização. E é aí que se prepara a grande teoria de O Dezoito Brumário.63

Podemos entender então que a história atravessa várias fases quando chega a cabo uma forma antiga, sendo que, para Marx, a última fase da história universal se dá em forma de comédia. Separar-se alegremente do passado possui uma conotação aqui

61 Ibidem, p. 88. 62 Ibidem, p. 88. 63

de uma enorme capacidade de destruição e de crítica, pois se o que define a fase cômica é aquilo que não é mais e aquilo que continua a ser, a comédia então é uma forma histórica que vive sua própria morte. Assim, se por um lado, essa forma já está fora da história real, por outro ela faz de sua própria crítica sua historicidade, uma vez que é sujeito de sua própria morte e possui, portanto, uma enorme capacidade de destruição que comporta sua recomposição.

No vivido trágico da contradição, a humanidade está com efeito absorvida no passado próximo que opera até na explosão do seu presente. No vivido cômico que lhe sucede, sua própria contradição

já é um objeto separado dela mesma: é portanto, um instrumento de libertação. A trágica dissociação sofrida transforma-se na

serenidade de um adeus assumido. O cômico, portanto, é de fato o

sinal da nascente maturidade histórica64 (grifos nossos).

Essa libertação é dada por uma consciência simultânea entre a ―caducidade da necessidade exterior e a caducidade de seu ser passado: assim, aquilo de que ela chorou torna-se aquilo de que se ri no presente‖65. Aqui é preciso chamar a atenção para a apropriação desse pensamento por Propp para discutir a função do riso. Sobre a dialética da aceitação da mudança do velho no novo, Marx acentua:

Nas revoluções sociais pode tornar-se cômico o que pertence ao passado e não corresponde às novas normas criadas pela ordem ou regime social que venceu. Marx notou isso... Eis exatamente as palavras (dele):

―A História age a fundo e atravessa várias fases quando leva à sepultura uma forma antiquada da vida. A última fase de sua forma histórica universal é a sua comédia. Aos deuses da Grécia, que já tinham – em forma de tragédia – sidoferidos de morte no Prometeu

acorrentado de Ésquilo, coube uma segunda vez – em forma de comédia – morrer nos Diálogos de Luciano. Por que a marcha da História é assim? Isso é necessário para que a humanidade se separe alegremente de seu passado‖.... Quando a luta termina, os restos do passado no presente estãosujeitos à ridicularização.66

64 Ibidem, p. 90.

65 Ibidem, p. 98. 66