1.1 A LÍNGUAGEM COMO FUNDAMENTO DA CONSTRUÇÃO MONOTEÍSTA
1.1.2 O Redator Final e a Língua Hebraica
1.1.2.2 O hebraísmo e o hebraico no Redator Final
Segundo Koester (2005, p. 121), o hebraísmo é uma implantação semítica, ou seja, resulta das traduções de textos hebraicos no Novo Testamento, que se utilizou de citações da Septuaginta ou de traduções de escribas. Além disso, o hebraísmo ocorre de duas maneiras distintas: uma em citações e outra em alusões de narrativas hebraicas. Nesta tese, tem-se que o Protohebreus é um exemplo de hebraísmo, porém com característica específica em suas citações, mesclando cópias, interpretações e traduções nos textos citados.
A característica singular do texto grego de Hebreus pode se percebida visualmente em Hb 7,1-2, em que ocorrem semelhanças e distinções entre o texto da Septuaginta, como mostra este quadro.
Quadro 2 - Comparação de Hb 7,1-2 com a Septuaginta Hb 7,1-2
7,1 Porque este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão quando este regressava da matança dos reis, e o abençoou. 7,2 A quem também Abraão separou o dízimo de tudo sendo primeiramente, por interpretação do seu nome, rei de justiça, e depois também rei de Salém, que é rei
de paz.
Gênesis 14,18-20 (Septuaginta)
14,18 Ora, Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; pois era sacerdote do Deus Altíssimo, 14,19 e abençoou a Abrão, dizendo: bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra! 14,20 E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos! E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.
Fonte: Elaborado pelo pesquisador (2019).
Ao observar o quadro 2, há a referência de Hb 7,1-2 que apresenta semelhanças com o texto da Septuaginta. Essas aproximações estão nos trechos sublinhados. Esses se referem a traduções e interpretações do texto original, percebidas parcialmente na tradução. Observa-se que, na própria tradução, encontram-se termos semelhantes e diferentes, além de intepretações do texto que caracterizam os elementos do hebraísmo no Protohebreus.
Como o Protohebreus destinou-se aos judeus conhecedores da tradição, sua argumentação não poderia se fundamentar unicamente em percepções helênicas. Nesse caso, o Redator Final considerou a estrutura proposta pelos autores anteriores. Nessa perspectiva, o conhecimento da língua hebraica é indispensável para a harmonização de toda obra.
Bittencourt (1993) descreve que o estilo de escrita de Hebreus não se assemelha a uma obra epistemológica. Seus escritores possuíam uma habilidade na língua grega mais do que qualquer autor do Novo Testamento. Nessa linguística, o Redator Final trouxe nos escritos jogos de palavras e sons. Seu conhecimento do grego e do hebraico fazia com que a construção da redação final gerasse uma linearidade26
entre os textos.
Outro fator importante sobre a redação de Hebreus é como ela se comporta em relação a vários textos do Novo Testamento. Segundo Barrera (1995), a obra não se configura como um texto hermenêutico helenístico, mas aproxima-se de uma
26
“exegese judaica”. Todavia, apesar de demonstrar o conhecimento da língua grega e as semelhanças dos manuseios da língua hebraica, a particularidade de uma obra se fundamenta em seu processo hermenêutico corroborado em padrões que se fixam além da tradição judaica e se organiza com um olhar exegético da dualidade da divindade hebraica.
Barrera (1995, p. 611) corrobora com essa ideia, descrevendo Hebreus como uma obra de análise exegética minuciosa do Primeiro Testamento. Paralelamente à sua análise, estabelece-se sua interpretação tipológica de Cristo. Na tradição cristã, a tipologia de Cristo está na percepção de Jesus no Primeiro Testamento27. Na aplicação do método, há algumas alusões alegóricas de Jesus em relação a personagens ou símbolos28
do Primeiro Testamento, como, por exemplo, a arca de Noé e o servo sofredor de Isaias, sendo um tipo de Jesus. A tipologia de Hebreus, por sua vez, não se fundamenta apenas nas interpretações alegóricas de Cristo nos textos hebraicos, mas na compreensão dos termos e das descrições referentes ao sagrado visto pelo povo hebreu.
Nota-se a dualidade entre a transcendência e a imanência bem como seu antagonismo que aparecem na produção da obra de Hebreus. As características da imanência no Protohebreus se unem à transcendência explícita no âmbito do Redator Final de Hebreus. No entanto, a construção harmônica dos textos trabalha a presença da transcendência e da imanência, como se esse tema estivesse contido desde os primeiros relatos de toda obra. Isso se dá porque o Redator Final uniu a alta e abaixa cristologia em um único sentido. Nessa perspectiva, Elohim e Iahweh estão presentes29 não como personagens narrados, mas como sentidos emprestados aos elementos fundamentais da linguagem.
27
A tipologia relaciona Jesus com personagens ou circunstâncias. Ex. Davi e a arca Noé são um tipo de Jesus.
28 “O caráter convencional do símbolo no interior do fundamento social como todas as suas
ambiguidades, seu caráter sincrético, polissêmico, que caracteriza o movimento unitário e afetivo de todos os indivíduos de uma cultura sobre a mesma figura sincrética. [...] Nesse caso, o símbolo prevalece sobre a imagem, à medida que, enquanto a imagem esta mais diretamente identificada ao seu objeto referente – embora não seja a sua reprodução, mas a reprodução do objeto -, o símbolo ultrapassa o seu referente e contém, pelos seus estímulos afetivos, meios para agir, mobilizar os homens e atuar segundo suas próprias regras normativas (relacional ou de substituição). Tanto a imagem como o símbolo constituem representação. Essas não significam substituições puras dos objetos apresentados na perepção, mas são, antes, reapresentações, ou seja, a apresentação do objeto percebido de outra forma, atribuindo-lhe significados diferentes, mas sempre limitados pelo próprio objeto que é dado a perceber. É necessário examinar a natureza mesma da relação social na qual a representação, como imagem ou símbolo irá atuar (LAPLATINE; TRINDADE, 2005).
29
Toda estrutura estabelecida no livro de Hebreus foi construída para atingir especificamente os cristãos pós-70, que buscavam distinguir-se das estruturas judaicas da época. Isso não significava que eles estavam desconsiderando as tradições. A tradição não consistia nas disposições judaicas, mas nas redações propostas pelo Primeiro Testamento. Dessa forma, o destino da obra era muito importante, pois lidava com conhecedores do hebraico. Nesse aspecto, eles não poderiam receber apenas instruções catequéticas da obra de Hebreus, pois seriam refutados com a compreensão de estudiosos. Por essa razão, Hebreus não é uma paráfrase do Primeiro Testamento, mas uma interpretação dos textos antigos.
Em relação ao destinatário da obra de Hebreus, Hale (2001, p. 337) explicita que o livro foi destinado a um grupo específico, o qual possuía um privilégio de instrução que não era comum a todos. Considera a escrita como sendo o grego de maior complexidade do Novo Testamento, possuindo o cuidado com a “linguagem, ordem, ritmo e sintaxe”. A característica linguística de Hebreus se dá por linguagem sistemática, moderada e lógica, ou seja, as palavras foram medidas, estabelecendo entre si coerência nos raciocínios.
Tendo em vista esses elementos, o Redator Final de Hebreus aglutinou a arte da linguagem com a compreensão hermenêutica de seu tempo. Entende-se que a redação da obra de Hebreus era destinada a um grupo intelectualizado, pois o uso do grego não era comum a pessoas de pequeno arcabouço intelectual. Ao entender que o receptor era instruído e possuía grande conhecimento da tradição, o Redator Final concatenou o seu conhecimento da língua com a sua concepção cultural e intelectual da literatura hebraica. As citações mostram características particulares, fundamentadas em um processo de tradução específico.