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O Hipertexto é um texto? A textualidade digital

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2.6 Hipertexto: novas possibilidades de leitura na era cibernética

2.6.4 O Hipertexto é um texto? A textualidade digital

O hipertexto, disposto nos sites da internet, pode ser considerado uma inovação textual, principalmente em função da quantidade de links dispersos sobre uma estrutura não linear multimodal. Pode-se afirmar que a

novidade do hipertexto está na tecnologia, que lhe permite integrar, de modo eficaz, elementos que, no texto impresso, se apresentam sob a forma de notas, citações bibliográficas, entre outros, linearizando o deslinearizado e deslinearizando o linearizado, ou seja, subvertendo os movimentos e redefinindo as funções dos constituintes textuais clássicos (PERFETTI apud KOCH, 2002, p. 67).

Além disso, o hipertexto tem a tecnologia a seu favor, possibilitando que a linguagem verbal dispute espaço com a não verbal, manifestando a multissemiose. Obviamente, é preciso

reconhecer que é possível fazer leitura hipertextual em suportes que não sejam a internet. A bíblia, livro mais lido do mundo, é o maior exemplo de leitura não linear existente. E, se é verdade que um texto impresso pode caracterizar-se por ser um hipertexto, ressalta-se que se o hipertexto é um texto, ele prioritariamente deve estar sujeito às mesmas condições de textualidade que o texto impresso tem como critérios. Beaugrande (1997) apud Koch (2002, p.67-71) menciona que tais critérios são: intertextualidade; informatividade; situatividade; coerência; relevância e topicidade.

A intertextualidade se faz presente no hipertexto através dos textos múltiplos que são

linkados. Nos dizeres de Koch (2002, p.67), “O hipertexto é, por natureza e essência,

intertextual. Por ser um ‘texto múltiplo’, funde e sobrepõe inúmeros textos simultaneamente acessíveis ao simples toque do mouse”. Essa acessibilidade permite que os leitores posicionem-se perante a leitura, escolhendo quais links deve acessar para construir a significação necessária. Por isso, essas escolhas conferem aos hiperleitores um posicionamento atuante, que ainda será analisado na seção 2.7 do presente trabalho.

Os leitores encontram nos hipertextos intertextos que têm um “fio condutor em comum”, ou seja, são interligados por palavras, que embora possam não apresentar o mesmo universo semântico, são apresentadas como sendo polifônicas, pois apresentam as diversas “vozes” que permeiam os textos hipertextuais. Assim, no fator intertextualidade, o texto impresso se assemelha ao hipertexto, pois ambos mantêm na ordem do discurso uma raiz dialógica e discursiva falando mais alto.

Quanto à informatividade, está relacionada à enorme quantidade de informações que o leitor terá ao acessar os hipertextos. Koch (2002, p. 68) afirma que “o hiperleitor de maneira não-trivial, faz uma busca quase infinita de informações não-previsíveis e não-redundantes no universo de textos que o compõe”. De acordo com a autora, ao acessar tais informações, o leitor age através de hipóteses, sobre o que poderá estar por “detrás” dos links, acarretando com isso uma não previsibilidade, já que não é possível prever a leitura sem antes lê-la. Todo esse universo “do que se pode encontrar” nos links, constitui uma peça fundamental no processo cognitivo da leitura. Dessa forma, o hiperleitor, munido da curiosidade, clica em vários links, objetivando resgatar maior número possível de informações disponíveis para a construção de sentido.

A situatividade está relacionada à “disposição topográfica do intertexto no espaço virtual, tendo em vista suas inúmeras ramificações e a sua disponibilidade no espaço virtual para todo e qualquer hipernavegador” (KOCH, 2002, p. 68). É um fator determinante para a construção de sentido pela arquitetura hipertextual, quantidade de links e disponibilidade do

hipernavegador em processar tais informações. Na situatividade se encontra a coerência hipertextual, que pode ser assim analisada: o hipertexto se constitui por diversas ligações de temas sem nenhuma relação cognitiva ou semântica, possibilitando que existam incoerências na compreensão global do texto. Por isso, importa mencionar, de acordo com Van Dijk (1997

apud Koch), que o leitor deve produzir,

inferências não só para o preenchimento de lacunas, como para a resolução de “enigmas” ou desencontros (mismatches), para a reformulação de hipóteses abordadas, tomando como base seus conhecimentos prévios (enciclopédicos ou episódicos), a pressuposição de conhecimentos compartilhados, sem como seu modelo cognitivo de contexto, que inclui o conhecimento de gênero hipertextual (VAN DIJK, 1997 apud KOCH, 2002, p.71).

Dessa forma, a produção de inferências possibilita que os leitores operem cognitivamente, buscando levantar hipóteses sobre o que poderão encontrar do outro “lado” do link, constituindo, com isso, um processo cognitivo de escolhas significativas, ao passo que o link incoerente possa ser abandonado pelo leitor, pois não atende ao propósito textual.

Os hipertextos podem ou não ter conteúdos relevantes para o leitor, porque o texto amparado por links espalhados no ciberespaço, motivados pelas fronteiras que não são definidas, deixam uma escritura livre. Por esse motivo, cabe ao leitor identificar se tais textos são relevantes, se possibilitarão coerência com os textos pesquisados nos demais links. Segundo Koch (2002, p. 69), “do ponto de vista da leitura, perceber o que é relevante vai depender em muito da habilidade do hiperleitor não só de seguir as pistas que lhe são oferecidas, como de saber até onde ir e onde parar”.

De acordo com a autora, o hiperleitor deve procurar quais textos são relevantes para a resolução de um determinado “problema”, quais poderão preencher as lacunas que imergem no processo de leitura. Esse “hiperleitor deve ter sempre em mente o tópico, o objetivo da leitura e o ‘problema’ a ser resolvido, ou seja, buscar no hipertexto as informações, as opiniões, os argumentos relevantes para a sua mais adequada solução” (KOCH, 2002, p. 69). Essas informações relevantes constituirão o cabedal de informações que o leitor precisa para preencher as lacunas, sendo as outras informações improdutivas automaticamente abandonadas ao se clicar no botão “voltar” ou “sair do navegador”.

Dessa forma, o objetivo deverá orientar todo o processo de leitura do hiperleitor, pois, do contrário, caso ele queira visitar links sem um propósito definido, formará uma “conexão em cascata”, processo este que deixa à margem do navegador várias páginas. Ao final desse processo de busca “sem propósitos definidos”, o hiperleitor não saberá, ao certo, o que estava procurando.

A topicidade, por sua vez, está relacionada à noção de tópico. Esse mecanismo define um conjunto de soluções possíveis ao problema que se coloca. Na visão de Schutz (1970)

apud Koch (2002, p.68), “a topicidade é função da ‘problematicidade’, no sentido de saliência

relativamente a determinado background: tópico é aquilo que é problematizado em relação a um pano de fundo dado”. É o que pode ser problematizado no texto, o seu conflito gerador. No caso dos hipertextos, existe um tópico composto por certo contexto mostrado ao se clicar no link. Essas informações possibilitam inferir que o hipertexto possibilita um maior esforço cognitivo.

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