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O homem do limiar

No documento OS DESCAMINHOS DO MITO (páginas 121-124)

CAPÍTULO III: BUROCRACIA

6. O homem do limiar

No momento em que ganha uma ficha com a mais alta numeração por ele já recebida, Pererico se dá conta que nunca irá conseguir chegar ao final daquela fila, assumindo a partir daí, sua condição de marginalizado. Irá então perceber que só o que existe mesmo é a fila, o próprio processo sem sentido e interminável. Mesmo assim, ainda vai tomar algumas resoluções desesperadas, como tentar se encontrar com o gerente fora da fila, ficando de tocaia noites a fio, sem sucesso, na expectativa de pegá-lo após o fim do expediente. Em meio a seu desespero, tenta

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Ver análise desse e dos demais contos do Primeiras histórias em PACHECO, Ana Paula (2006). Lugar do Mito: narrativa e processo social nas Primeiras Histórias de Guimarães Rosa. São Paulo: Nankin.

122 restabelecer um tipo de contato mais antigo, saído da época dos senhores de engenho, quando as relações paternalistas se davam diretamente no trato do sinhô com seus dependentes. O que de fato lhe é repugnante não são as relações de compadrio, como poderia fazer supor sua posição de distanciamento na fila, mas ter de pedir auxílio para aqueles que considera inferiores, como Damião. De forma alguma dispensaria o favorecimento do gerente, contando inclusive com isso em um delírio de grandeza. Mas, como bem explicita Os Comensais, no universo mais urbano em que Murilo se concentra nessa última fase, o abismo entre as classes se tornou irreconciliável. Deixamos o reino de Teleco e dos Dragões, em que o opressor ainda adotava o outro, e passamos para um espaço em que o verdadeiro convidado, que daria sentido à festa, não se apresenta. Só restam os dependentes, a lutar entre si.

Reconhece finalmente que seu acesso ao gerente depende diretamente de angariar ou não a simpatia do outro, e que no seu caso essa oportunidade foi perdida. “Não podia exigir, a qualquer pretexto, a simpatia do outro”. Acaba desistindo da fila, passando a aproveitar mais sua vida presente com Galimene, embora esse abandono nunca chegue a ser total. Ele continuará ainda sendo assombrado pelo espectro do seu compromisso, e ainda que tome consciência da inutilidade de seus esforços, desistindo de correr atrás de objetivos inatingíveis, não consegue deixar de viver para aquilo. Ele se afasta da fila, mas passa a viver a seu redor, sem integrá-la de fato, mas tampouco conseguindo livrar-se por completo.

Esse é o momento em que a história atinge o clímax de absurdo e degradação, com a personagem presa no limite entre dois mundos, sem conseguir se fixar em nada. Não entra de fato na Fila, mas não a abandona; não fica com Galimene integralmente, pois não consegue entregar-se ao presente, mas também não deixa de ser sustentado por ela; não volta para casa e nem se livra dos laços que o prendem ao passado. Tal relação de ambigüidade, envolvendo inúmeros elementos contraditórios, é ao mesmo tempo moderna – a condição do desterro do sujeito em um mundo alienado, sem poder fixar-se a nada – e arcaica – o favor é justamente estar no limiar das coisas, sem jamais conseguir integrá-las. O desaparecimento do mito deixou a ambigüidade fantástica ainda mais organicamente estruturada.

123 Para conseguir sustentar essa situação limite (e é notável a habilidade com que Murilo gradativamente vai ruindo o arcabouço lógico da história até chegar a esse ponto em que as personagens tomam atitudes completamente absurdas), Pererico decide finalmente aceitar os oferecimentos de Galimene, passando a morar com ela. O agravamento da situação, unido ao fato de não passar por sua cabeça procurar uma alternativa longe da fila, como voltar para casa ou arranjar um trabalho, acaba “amolecendo” seus princípios morais, e a personagem passa a reproduzir o mesmo sistema de exploração do qual procura se livrar no seu trato com Damião. A necessidade faz com que Pererico acabe se habituando a situações degradantes, como ter que esperar o último cliente de Galimene ir embora para poder dormir. Mas nesse momento nem se coloca questões de ordem moral como ciúmes, ou alguma espécie de desconforto com a situação, afinal, quanto mais tarde for para cama, mais comida terá na mesa no dia seguinte. Sua vida intima é submetida e determinada por cálculos racionalistas típicos de uma sociedade burocratizada que reduz a vida dos indivíduos ao mínimo da subsistência. Em nome de sua ética (o compromisso com o patrão), que considera o que de mais importante existe para um homem, acaba negando a maior parte de seus próprios valores éticos, se convertendo naquele tipo de parasita que tanto odeia. Aos desprivilegiados, estando de acordo ou não, só resta aceitar as regras do jogo53.

No mesmo parágrafo o foco passa da intimidade do casal para a nova atitude de Pererico frente a fila, forçando a analogia. Diante de Damião sente-se culpado, pede desculpas, faz travessuras (como pegar a senha e ir embora). O próprio agir da personagem perde a coerência, e ele se aproxima do porteiro como um menino se aproxima de um pai severo, com um misto de medo, respeito, e descaso. Sabendo da inutilidade de seus esforços, já não consegue levar a sério aquilo que ainda continua a determinar sua existência, assumindo por isso essa postura descompromissada. Damião mantém uma postura paternal, invertendo a norma da impessoalidade burocrática, ao passo que na intimidade Pererico inverte

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Daí os limites da atitude humilde prezada por Murilo, que é um valor imposto pela falta de escolha, pela ausência de alternativas. Frente ao despojamento absoluto, a postura humilde não ajuda a resolver o problema, mas ao menos se recusa a reproduzir o estado de violência e conflito que torna a vida ainda pior. Não é uma saída, mas uma espécie de conformismo positivo.

124 a ótica amorosa ao subordiná-la a cálculos racionais, num qüiproquó típico de relações de dependência. Nesse momento a personagem encarna perfeitamente o papel existencialista por excelência, aquele agir sem esperanças que é a própria matriz do absurdo, e seus gestos e atitudes perdem o sentido lógico imediato.

Pererico é um homem fragmentado típico da modernidade, preso a um extremo individualismo que limita seu acesso ao mundo. As origens de seu alheamento, no entanto, estão em valores do passado. Mesmo nos momentos mais agradáveis em que se pega a conversar com Galimene, ele não deixa de pensar na roça e em seus animais. Como um Quixote moderno, não se afasta de seus objetivos, por mais que estes não façam sentido dentro do contexto em que se encontra. Não consegue sequer compreender porque haveria de conhecer o mar (domínio de Galimene, filha de marinheiros, e lugar por excelência da aventura e do devaneio), uma vez que é um homem da terra. Decerto que sua vida junto à mulher não serviria para por um fim ao absurdo, mas poderia talvez contribuir para tornar o fardo menos massacrante. “O novo relacionamento quebrava a monotonia da interminável espera”. O amor naquele contexto serve aos mecanismos de dominação, mas pode também aliviar um pouco o sofrimento dos sujeitos, se usado como elemento humanizante, uma forma de encontrar prazer no interior do absurdo, a despeito de toda dor. Entretanto, o mundo de Pererico se limita à sua consciência e aos valores passados que já não encontram lugar. A Galimene resta só lamentar em silêncio, esperando o dia da sua partida.

No documento OS DESCAMINHOS DO MITO (páginas 121-124)