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O COMPLEXO DE SAÚDE MENTAL JULIANO MOREIRA

5.1 O HOMEM QUE TRADICIONALIZA E IMPLICA SEU NOME

O Professor Juliano Moreira (1872 –1932)45 nasceu em Salvador, na Freguesia da Sé, a poucos metros do atual bairro do Pelourinho. Mestiço, nasceu dezesseis anos antes da abolição oficial da escravatura no Brasil. Era filho do português Manoel do Carmo Moreira Junior, que trabalhava como inspetor de iluminação pública, e da brasileira afro-descendente Galdina Joaquim do Amaral, que era doméstica na casa de Adriano Gordilho, o Barão de Itapuã, o qual veio a se tornar seu padrinho e seu grande incentivador.

Extraordinariamente precoce em seu percurso acadêmico, aos quatorze anos (1886) já era aluno da Faculdade de Medicina da Bahia, berço do ensino médico no Brasil, tendo chegado ao fim da vida dominando os idiomas francês, inglês, italiano e o alemão. Aos dezoito anos (1890), cursando o quinto ano, foi interno da Clínica Dermatológica e Sifiliográfica. Aos dezenove anos, finaliza o seu curso e, logo após sua formatura (1891), apresenta a tese "Sífilis Maligna Precoce", produção que o tornou referência mundial no campo de conhecimento da sífilis. Clinicou, num curto espaço de tempo, na Santa da Casa da Misericórdia, sendo médico-adjunto do centenário serviço filantrópico que hoje é denominado Hospital Santa Isabel.

Em 1894, submete-se ao concurso na faculdade onde se graduara para professor da 12ª seção, que compreendia as doenças nervosas e mentais. Submeteu-se a uma banca examinadora, composta, em sua maioria, de professores declarados escravocratas, sendo a Faculdade de Medicina tinha fama de racista. O evento mobilizou o mundo acadêmico baiano de então e todas as provas foram acompanhadas com a presença maciça dos estudantes e de outras pessoas que lotaram o salão daquela que era considerada a área nobre da faculdade. O concurso foi realizado seis anos após a Lei Áurea46 ter sido assinada e três anos após a promulgação da primeira Constituição do Brasil republicano. Semanas depois, em dezesseis

45 Todas as informações bibliográficas e de datas, nomes e fatos históricas contidas neste capítulo, não

referenciadas, foram coletadas principalmente do site

www.memorialjulianomoreira.ba.gov.br/Instituição.asp - acessado em 07/10/09, às 10:00hs.

46 Segundo Vicentino e Dorigo (1997), ao invés de ter sido uma conquista do lento processo abolicionista brasileiro, a Lei Áurea foi mais intensamente uma consequência do lento processo de decadência da escravidão.

de junho, é nomeado Professor e, em seu discurso de posse, o médico e Professor Juliano Moreira declarou47:

Há quem se arreceie de que a pigmentação seja nuvem capaz de marear o brilho dessa faculdade. Subir sem outro borgão que não seja a abnegação ao trabalho, eis o que há de mais escabroso. Tentei subir assim, e se méritos tenho em minha vida este é um (...) Só o vício, a subserviência e a ignorância tisnam a pasta humana quando a ela se misturam (HJM, 2009).

Naquele mesmo ano, inicia-se na clínica dos alienados como assistente da cátedra de Clínica Psiquiátrica e de Doenças Nervosas, liderando, naqueles anos, o movimento de professores e médicos que viria a se tornar a Sociedade de Medicina e Cirurgia e de Medicina Legal. Contrapunha-se às idéias evolucionistas daquela época, as que implicavam a raça negra, no que tange à inferioridade da mestiçagem, e aqueles que enxergavam os fatores climáticos dos trópicos como etiopatogênicos de várias doenças, incluindo-se as doenças mentais. Minoritário em sua posição, mas obstinado e questionador, ele contrariava tais pensamentos e sustentava que se deveria.

deixar os ridículos preconceitos de cores e castas e realizar um “trabalho de higienização mental dos povos”. Os verdadeiros inimigos das degenerações nervosas seriam a ignorância, o alcoolismo, a sífilis, as verminoses, as condições sanitárias e educacionais (HJM, 2009).

Foi um dos mais ativos e constantes profissionais do Asylo São João de Deus, hospital que, em 1935, passa a se chamar Hospício São João de Deus, quando um de seus pavilhões recebe seu nome e, décadas adiante, toda a unidade. Na virada do Século XIX, é um dos cientistas mais conceituados do país, membro de diversas sociedades médicas nacionais e no exterior, inclusive, da Academia Brasileira de Ciência. Nos anos subseqüentes, representa o Brasil em congressos internacionais, na qualidade de conferencista, além de ser presidente de vários deles. Em 1901, é aclamado como Presidente de Honra do IV Congresso Internacional de Assistência aos Alienados em Berlim. Dois anos depois, Juliano Moreira vai residir definitivamente no Rio de Janeiro, a Capital Federal, na função de diretor do Hospício

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Nacional e da Assistência Médico-Legal aos Alienados Dom Pedro II, sendo responsável por grandes embates e mudanças na história da Saúde Mental no Brasil.

Mesmo lidando com oposições e desafetos, busca, com determinação e com tenacidade, recursos do governo, ampliando parcerias afinadas com seus propósitos. Entre as reformas materiais e éticas que empreende no Palácio Dom Pedro II, retira as grades das janelas das enfermarias, proíbe os coletes e camisas de força e recupera e constrói pavilhões. Implanta, no Pavilhão Seabra, um amplo e arejado prédio com equipamentos trazidos da Europa para fazer funcionar oficinas terapêuticas. O grande salão no pavimento superior passa a ser um local de cultura onde os encontros musicais atingem os corredores e chegam aos ouvidos dos pacientes, professores, cientistas e trabalhadores. Implanta oficinas artísticas, antecipando-se às terapias ocupacionais desenvolvidas algumas décadas depois pela sensível, criativa e inovadora psiquiatra alagoana Nise da Silveira48. Entre as oficinas profissionalizantes, havia a de ferreiro, bombeiro, mecânica elétrica, carpintaria, marcenaria, tipografia e encadernação, sapataria, colchoaria, vassouraria e pintura.

Procurando estender esses avanços para outros asilos brasileiros, consegue que, em 22 de dezembro de 1903, o Decreto nº. 1132 do Presidente Rodrigues Alves sancione a resolução do Congresso Nacional que aprova a Lei Federal da Assistência a Alienados. Em 1907, passa a fazer parte do Instituto Internacional para o Estudo da Etiologia e Profilaxia das Doenças Mentais. Mobiliza apoio governamental e implanta, em 1921, o primeiro Manicômio Judiciário em todo continente americano.

Nutria um grande interesse pelos aspectos culturais da psiquiatria, denominada, na sua época, de Patologia Comparada e, atualmente, de Psiquiatria Transcultural. Caudatária exclusiva da escola francesa, a psiquiatria brasileira era uma cópia passiva da metrópole européia, não considerando as diversidades culturais existentes, desafio enfrentado por Juliano Moreira, que conseguiu dar nuances antropológicas, ampliando o conhecimento com traços sócio-culturais brasileiros (HJM, 2009).

Caracterizou-se como um ferrenho crítico ao uso de termos pejorativos tais como: maluco e doido. Em defesa dos alienados, repetia sempre que a maioria dos doentes mentais estava fora dos hospitais e sanatórios especializados (HJM, 2009). Chegou ao fim da vida, no Rio de Janeiro, vítima de tuberculose, após várias tentativas de tratamento no Brasil e no exterior, principalmente, na Europa. Seu nome está tão intrinsecamente associado ao estudo e tratamento das doenças mentais, que, desde a década de quarenta, no século passado,

48 Nise da Silveira, nasceu em 1905 e formou-se em 1926, na Faculdade de Medicina da Bahia. www.ccs.saude.gov.br/cinco.../nise_biografia.htm; acessado em 13/02/10, às 15:00hs.

contabiliza-se mais de uma dezena de instituições e pavilhões de hospitais psiquiátricos batizados com seu nome em todo Brasil (JACOBINA, 2001).