4 A (in)constitucionalidade do homeschooling no Brasil
Diante das controvérsias suscitadas pela prática do homeschooling e devido ao já mencionado ativismo engendrado perante os tribunais pelos seus proponentes, a matéria já foi objeto de discussão nas cortes constitucionais de diversos países.
Neste capítulo, busca-se expor alguns destes debates constitucionais, com ênfase na discussão travada em nosso Supremo Tribunal Federal no julgamento do Recurso Extraordinário 888.815/RS, além de realizar uma argumentação à luz da Constituição Federal de 1988 defendendo a inconstitucionalidade do homeschooling.
Ao final, também se analisam alguns projetos de lei surgidos na esteira do julgamento do referido recurso.
Comentando os referidos casos, Bartholet (2020, p. 27-28) ressalta que, embora tais decisões tenham reforçado os direitos parentais em relação à educação, a Corte também reconheceu que tais direitos podem ser limitados pelo Estado através da imposição de regulamentações “razoáveis” para garantir uma educação adequada. Assim, embora tenham removido regulamentações estatais consideradas
“não razoáveis”, as decisões também trazem argumentos que permitem uma limitação à educação domiciliar. No caso Meyer, por exemplo, se reconheceu o direito estadual à imposição de um currículo mínimo; em Pierce, que certos conteúdos essenciais à cidadania deveriam ser ensinados, em prol do bem comum.
Posteriormente, em um caso julgado na década de 1960, ambos os precedentes foram utilizados para assegurar padrões mínimos em escolas privadas.
No entanto, um caso diretamente ligado ao homeschooling – Wisconsin v.
Yoder – foi finalmente julgado pela Suprema Corte dos Estados Unidos em 1972, época em que a temática ganhava destaque crescente na sociedade norte-americana, como descrito no capítulo anterior. A família Yoder, integrante da ordem religiosa dos amish, se recusou a matricular seus filhos na escola após terem completado a oitava série, razão pela qual foi alvo de ação movida pelo estado do Wisconsin, cuja lei exigia a frequência escolar até os dezesseis anos de idade.
Destaca-se que a escolha da família se deu em razão de que o ensino posterior à oitava série poderia conter valores contrários ao do grupo religioso que pertenciam, além de forçar um contato com pessoas de fora da ordem amish. Com base na liberdade de religião, a Suprema Corte decidiu de forma favorável aos réus (MORAES; SOUZA, 2017, p. 11-12).
A decisão no caso Yoder suscitou – desde sua publicação até os dias de hoje – controvérsia no âmbito constitucional estadunidense. Em seu voto divergente, citado por Fineman e Shepherd (2016, p. 91), o então juiz da Suprema Corte William O. Douglas afirmou:
While the parents, absent dissent, normally speak for the entire family, the education of the child is a matter on which the child will often have decided views. He may want to be a pianist or an astronaut or an oceanographer. To do so he will have to break from the Amish tradition. It is the future of the student, not the future of the parents, that is imperiled by today’s decision14.
14 “Embora os pais, na ausência de dissenso, normalmente falem em nome de toda a família, a educação da criança é um assunto em que a própria criança frequentemente terá opiniões decididas.
Ela poderá querer ser pianista ou astronauta ou oceanógrafa. Para fazê-lo, ela terá de romper com a tradição amish. É o futuro do estudante, não o futuro dos pais, que entra em perigo com a decisão de
Similarmente, em uma perspectiva contemporânea, Bartholet (2020, p. 31-32) entende que a decisão da Suprema Corte foi profundamente problemática e que deveria ou ser anulada ou ter seu alcance restrito ao caso específico, pois ignorou os interesses das crianças em prol dos interesses dos pais e da comunidade amish.
A autora citada considera que a tendência observada no tribunal desde então revela a tendência da tradição constitucional do país em favorecer direitos negativos, de não intervenção estatal, o que ocasiona uma reticência na utilização do direito positivo para fazer os direitos das crianças prevalecerem.
Também são dignas de nota três decisões jurisprudenciais europeias mais recentes – uma alemã, uma belga e uma espanhola – acerca do tema da educação domiciliar, todas trazidas em Boletim de Jurisprudência Internacional do Supremo Tribunal Federal, divulgado à época em que o tema era debatido por nossa suprema corte.
A primeira delas, do Tribunal Constitucional da Alemanha, determinou que, em prol do desenvolvimento físico e psicológico dos menores, o homeschooling seria inconstitucional, em especial devido à necessidade de que estes estabeleçam contato com ideias divergentes, bem como a um interesse social em evitar o surgimento de “sociedades paralelas” pautadas em valores religiosos ou políticos específicos (STF, 2018a, p. 12).
A decisão do Tribunal Constitucional foi objeto de recurso perante a Corte de Direitos Humanos da União Europeia, sob a alegação de que teria violado os direitos fundamentais em relação à paternidade, bem como a Convenção Europeia de Direitos Humanos, que “resguarda o direito dos pais de garantir que [a] educação esteja em conformidade com suas crenças religiosas e filosóficas”. No entanto, a Corte Europeia manteve a decisão alemã, reconhecendo tanto o papel do Estado em educar crianças e adolescentes quanto os direitos dos pais em educar seus filhos de acordo com os seus valores, o que poderia ocorrer de maneira complementar – e não substitutiva – à educação escolar. Assim, entenderam não haver violação ao direito parental à educação (BARTHOLET, 2020, p. 63-64;
MORAES; SOUZA, 2017, p. 14).
Ademais, a defesa argumentou pela existência de discriminação religiosa na decisão recorrida, tendo em vista que o Tribunal alemão havia concedido excepcionalmente o direito ao homeschooling em casos envolvendo famílias que
hoje”. Tradução nossa.
possuem um modo de vida itinerante devido ao trabalho, mas não considerou legítima a opção pela educação domiciliar baseada nas crenças religiosas dos pais.
Essa argumentação também não foi acolhida pela Corte Europeia, que defendeu a ideia de que situações semelhantes podem receber um tratamento distinto, conforme as particularidades do caso, pois “nem todo tratamento diferenciado pode ser tido como discriminatório”, além de enfatizar que há uma certa autonomia de cada Estado-membro “para apurar a existência (ou não) de discriminação em casos de tratamentos desiguais” (MORAES; LIMA, 2020, p. 47-48).
A Corte Constitucional Belga, por sua vez, entendeu ser lícita a existência de leis que, embora autorizem o homeschooling, impõem regulamentações estatais significativas a essa modalidade de ensino, inclusive determinando a matrícula em instituição do sistema educacional, a fim de que possam ser realizadas avaliações compulsórias de desempenho. As regulamentações estatais seriam necessárias pois deve haver a garantia de uma equivalência na qualidade de ensino entre as crianças em educação domiciliar e as crianças que frequentam escolas regulares, sem que se possa falar em violação à liberdade de ensino e à liberdade de escolha dos pais (STF, 2018a, p. 14-16).
Por fim, na decisão do Tribunal Constitucional da Espanha mencionada no boletim, foi rejeitado o recurso de uma família irresignada com decisão judicial que determinou a matrícula dos filhos em escola, com base na legislação educacional infraconstitucional. Quanto à fundamentação, por um lado, o Tribunal não considerou que a obrigatoriedade da matrícula em instituições de ensino é um dever imposto pela Constituição espanhola. Por outro lado, entendeu que a opção do legislador infraconstitucional pela obrigatoriedade é (1) adequada, pois a garantia do ensino básico “legitima algumas restrições à liberdade de ensino”; (2) necessária, porque a educação domiciliar “não garante o livre desenvolvimento da personalidade em contato com a sociedade plural”; e (3) proporcional, pois é mais vantajosa para a garantia dos “complexos objetivos constitucionais para a educação”, além de deixar aberta a possibilidade de que os pais criem centros de ensino devidamente regulamentados, ou que complementem em casa a educação escolar, conforme seus valores e convicções (STF, 2018b, p. 17-18).
Percebe-se, portanto, que as discussões constitucionais acerca do homeschooling se correlacionam profundamente com as discussões traçadas no segundo capítulo do presente trabalho, com questionamentos acerca do papel do
Estado na educação, liberdade religiosa, qualidade do ensino e conflito entre a liberdade dos pais e famílias com a liberdade de crianças e adolescentes. Estes temas também figuram no debate constitucional sobre a educação domiciliar no Brasil, como se verá a seguir.
4.2 O homeschooling chega ao STF: o julgamento do Recurso Extraordinário