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Capítulo 1 – A gênese do cultivo de juta e malva no Brasil: textos e contextos

1.1 O ideário modernizante fluminense e paulista (1860-1910)

Aberta a todas as inteligências e a todos os estudos especiais, a Revista Agrícola, fundada pelo Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, enregistará com maior reconhecimento, em suas páginas, todas as observações que se prendam a lavoura nacional. A união de todas as dedicações em prol da mais santa das causas, a prosperidade rural, conseguirá, assim o esperamos, melhorar as circunstâncias que nos preocupam na atualidade. Assim o espera o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, sempre dedicado ao engrandecimento da lavoura (Miguel Antônio da Silva, 1869 in Revista Agrícola n. 1).

Se hoje a palavra positivismo tem outra conotação e remete geralmente a uma situação negativa, principalmente no campo das ciências sociais, no século 19, positivismo significava o coroamento da ciência, remetia naturalmente a ideia de progresso e de ordem, como forma de garantir o desenvolvimento da sociedade. O Brasil se constituiu em um campo fértil para a disseminação das ideias positivistas. Conforme Silva (1982), a partir da segunda metade do século 19, daquilo que ficou conhecido como o Segundo Império, as ideias positivistas chegaram ao Brasil, trazidas por brasileiros que foram completar seus estudos na França, tendo mesmo alguns que foram alunos do próprio Auguste Comte. Sendo o principal instrumental teórico e analítico da realidade social, o positivismo não marcou apenas a vida política brasileira, mas também a agricultura que recebeu forte influência dessa filosofia. Como afirma Ferraro (2005), os engenheiros brasileiros do início do século 20 eram considerados pessoas de grande prestígio – e os agrônomos estavam começando a ocupar um lugar semelhante – porque eram considerados portadores do progresso, verdadeiros agentes civilizadores, sendo, portanto, considerados agentes de transformação social, visto que tinham o domínio das técnicas capazes de subjugar a natureza, considerada naquele momento, invencível.

De acordo com Castro (1993, p. 77), muitos profissionais brasileiros, formados no exterior, foram influenciados de forma significativa pelas ideias em voga na Europa durante o século 19. “O positivismo e o evolucionismo, mesclados com o liberalismo e as circunstâncias locais impregnavam a atmosfera intelectual e moral da época, fornecendo-lhes o instrumental teórico com o qual pretendiam analisar e transformar a sociedade”. No cenário paulista, personalidades importantes ligadas ao campo da agronomia graduaram-se fora do país, em importantes escolas agrícolas da Europa, como por exemplo, Luiz Vicente de Souza Queiroz (1849-1898)18, que estudou na Escola de Agricultura de Grignon, na França; Jorge Tibiriçá

18 Estudou nas Escolas de Agricultura de Grignon, na França, e a de Zurique, na Suíça Alemã. Idealizador da

Piratininga (1855-1928)19, formado na famosa Escola de Agronomia de Hohenheim, próximo da conhecida cidade de Stuttgart, na Alemanha e Edmundo Navarro de Andrade (1881-1941)20, formado pela Escola Nacional de Agricultura de Coimbra.

Influenciado pela atmosfera positivista da segunda metade do século 19, e pelos discursos de modernização21 das atividades agrícolas do país, por meio do uso da ciência agronômica, e atento aos problemas que o Brasil enfrentava na área da agricultura22, o governo Imperial criou o Ministério da Agricultura, do Comércio e Obras Públicas (MACOP) na década de 1860 e, também, alguns Institutos Agrícolas, como Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, criado pelo Decreto n. 2.697 de 30 de junho de 1860. Além deste, foram criados o Imperial Instituto Pernambucano de Agricultura, criado pelo decreto n. 2.572 de 20 de janeiro de 1860; o Imperial Instituto Rio Grandense de Agricultura, criado pelo Decreto n. 2.816 de 10 de agosto de 1861; e a Estação Agronômica de Campinas, criada pelo Decreto n. 3.314 de 16 de outubro de 1885. Com a proclamação da República, a Estação foi transformada em Instituto Agronômico de Campinas. O governo já havia criado em 1859 o Imperial Instituto Baiano de Agricultura, por meio do Decreto n. 2.500 de 1º de novembro. A finalidade da criação desses

19 Regressou da Europa em 1879 formado em Ciências Químicas e doutor em filosofia pela Universidade de

Zurique, além de engenheiro agrônomo formado pela famosa Universidade de Hohenheim.

20 Edmundo Navarro de Andrade nasceu em São Paulo capital, se graduou em agronomia pela Escola Superior de

Agricultura de Coimbra em 1903. Foi diretor do Horto Florestal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Ficou bastante conhecido por seus estudos sobre o Eucalipto

21 O que significava modernização da agricultura no contexto do final do século 19 e início do século 20?

Significava o início de uma nova forma de se produzir no campo, que passava a ser pautada pelos avanços da ciência e das técnicas que, por sua vez, se fundamentavam nas principais correntes do pensamento político, científico e ideológico daquele momento, dentre os quais se destacavam: o positivismo, o darwinismo, o racialismo, o utilitarismo e o liberalismo. Conforme Ferraro (2005, p. 7), o sentido da expressão “ser moderno no campo naquele período, significava desenvolver um novo tipo de agricultura fundamentada nessas correntes de pensamento, ainda que hoje, algumas destas ideologias, sejam consideradas como politicamente incorretas, como o racialismo”.

22 A economia imperial era totalmente dependente da agricultura. Todavia, o uso de técnicas arcaicas e a falta de

cuidados com a renovação do solo evidenciavam um procedimento que trazia consequências graves para a deterioração do mesmo e afetavam diretamente os cultivos não apenas do Rio de Janeiro e de São Paulo, mas do país como um todo. No periódico O Auxiliador da Indústria Nacional de maio de 1887 há um artigo escrito por Pedro D. G. Paes Leme, intitulado “Botânica industrial: aclimação de plantas” que retrata com clareza a situação de preocupação em relação à modernização da agricultura no Rio de Janeiro, da necessidade de se adotar a ciência e o ensino como forma de melhorar a agricultura e livrá-la do fracasso total. Eis o trecho: a província do Rio, o tesouro do Brasil, vê desaparecer seus cafeeiros, e existem municípios onde a devastação é geral. Pernambuco vê ameaçados seus belos canaviais. E não nos iludamos com a notícia de que certas variedades de canas ou cafeeiros resistem aos males conhecidos. Não há temperamento que suporte os perniciosos efeitos da incúria. Se não forem atacados na primeira geração sê-lo-ão depois. Sem desconhecer que a introdução de novas sementes é o meio mais fácil de obtermos as mais belas espécies cultivadas com esmero em outros países, não podemos deixar de lembrar que só a escola prática de agricultura poderá incutir no ânimo tíbio de nossos fazendeiros, que com pequeno esforço e despendido cada um deles poderá obter em curto prazo, fazendo cuidadosa escolha das sementes e processos de cultura, variedades robustas, reunindo os caracteres mais recomendáveis. Sem escolas, sem exemplos, será impossível manter a agricultura brasileira no grão de esplendor que atinge no solo ubérrimo de todo o país, e ensinarmos aos nossos concidadãos o fatal princípio, que se tornará lei para eles, que no Brasil tudo degenera (LEME, 1887 p. 106).

institutos era alavancar o desenvolvimento da agricultura brasileira, dando a ela tratamento científico já disponível naquele momento, mas devido a dotação orçamentária nem sempre ser suficiente, esses órgãos, na maioria das vezes, não puderam oferecer bons resultados acerca dos serviços previstos quando de sua fundação, que incluíam, por exemplo, a criação de escolas agrícolas.

O Imperial Instituto Fluminense de Agricultura era uma instituição de caráter privado, recebia dotação do Ministério da Agricultura para a sua manutenção e era dirigida por membros nomeados pelo imperador. Constituído de quatro órgãos principais – Jardim Botânico, Fazenda Normal, Asilo Agrícola e Revista Agrícola, que funcionou de 1869-1891. A criação desse Instituto mostra, de forma clara, a preocupação do governo imperial com a agricultura da província do Rio de Janeiro. Um período no qual o governo, com apoio da maioria das elites, buscava alinhar o país às ‘nações civilizadas’. Para tanto, projetava banir os ‘atrasos’ da sociedade por meio da educação, do aprimoramento das técnicas agrícolas e da substituição da mão de obra escrava pela do imigrante (BEDIAGA, 2011). O estatuto do IIFA é bem avançado e propõe medidas de modernização arrojadas que, por exemplo, só serão adotadas em São Paulo anos mais tarde. No capítulo primeiro do seu estatuto, sob o título “Do fim do Instituto e de sua organização”, os Artigos 1º e 2º trazem a seguinte mensagem:

Artigo 1º. O Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, fundado nesta Capital por sua Majestade o Imperador, e sob a sua imediata proteção, tem por fim animar e desenvolver a lavoura do Município e Província do Rio de Janeiro, já diretamente pelos meios a seu alcance, e já indiretamente auxiliando o Governo Geral e Provincial em tudo quanto possa concorrer para este fim.

Artigo 2º. O instituto deverá, em proporção com os seus recursos: 1º, facilitar a substituição dos braços necessários à lavoura por meio de máquinas e instrumentos apropriados, promovendo a introdução e adoção daqueles, cuja utilidade for praticamente demonstrada, e bem assim estudando e ensaiando o sistema de colonização nacional e estrangeira que parecer mais profícuo; fundar estabelecimentos normais onde se experimentem as máquinas e instrumentos aplicáveis à nossa lavoura, se ensaiem os sistemas mais convenientes da cultura da terra, os métodos adequados ao fabrico, perfeição e conservação dos produtos agrícolas, assim como a extinção dos vermes e insetos nocivos; 3º, promover a aquisição das melhores sementes e renovos de plantas e, experimentada a sua superioridade, facilitar a distribuição pelos lavradores; 4º cuidar do melhoramento das raças dos animais, promovendo a generalização das melhores espécies; 5º auxiliar pelos meios a seu alcance a administração pública no empenho de facilitar o transporte dos gêneros, promovendo a abertura de novas vias de comunicação onde forem necessárias a conservação e melhoramento das atuais, e que de todas resultem à lavoura vantagens correspondentes ao despeito feito neste importante ramo do serviço; promover a exposição anual dos produtos da agricultura, animando-a por meio de prêmios, e facilitando o transporte e venda dos ditos produtos; 7º formar e rever anualmente a estatística rural, acompanhando-a de uma exposição acerca do estado da Agricultura, seu progresso ou decadência, causas permanentes ou transitórias que para isso tenham influído e, finalmente, sobre tudo quanto possa interessá-la; 8º criar e manter um periódico no qual além dos trabalhos próprios do

Instituto e dos estabelecimentos normais, se publiquem artigos, memórias, traduções e notícias de reconhecida utilidade para a nossa Agricultura.

As metas eram claras: animar e desenvolver a lavoura; introduzir máquinas e outros instrumentos agrícolas; fundar estabelecimentos escolares; acompanhar o agricultor com a distribuição de sementes e acompanhamento da sua lavoura; criar estradas para escoar a produção; promover os cultivos por meio de prêmios e exposições anuais e, obviamente, criar um meio eficaz de divulgação dos estudos e experiências que seriam feitas nos estabelecimentos – a Revista Agrícola, que foi o principal meio de divulgação do ideário modernizante do governo imperial e, também, das experiências de cultivo, aclimatação e adaptação de novas espécies feitas no Jardim Botânico, na Fazenda Normal e no Asilo Agrícola23. Segundo Bediaga (2011, p. 186):

A linha editorial da Revista Agrícola refletia, assim, a necessidade de interação entre produtor, ciência e governo. No século 19, as ciências agrícolas já detinham parâmetros internacionais. Concomitante a eles, e em necessário diálogo, havia os padrões locais – de fundamental importância para a aplicação das ciências agrárias à realidade local. O produtor era então convocado a fornecer informações que, somadas ao conhecimento produzido pela ciência, retornariam ao campo com ‘maior perfeição’. Uma vez que os novos conhecimentos fossem assimilados pelos agricultores, o país seria beneficiado com a melhora da economia e o ‘progresso’ do campo – desde que o governo cumprisse com sua parte na construção de vias de escoamento de produção, crédito agrícola e outros.

Os temas publicados na Revista Agrícola são bastante diversos. Em seus 86 números, que somaram 5.200 páginas, praticamente todos os temas relevantes relacionados à agricultura da época foram mencionados de alguma forma. Bediaga (2011, p. 174) elaborou com muita propriedade um levantamento completo dos temas que mais apareceram nesse periódico, respeitando obviamente os referenciais científicos da época. Reproduzo na integra a sua catalogação, por entender que se trata de um esforço gigantesco de análise e síntese (Box 1).

23 Além dos artigos estrangeiros traduzidos, a revista contou com a colaboração de nomes importantes da ciência

como Emílio Augusto Goeldi (1859-1917). De nacionalidade suíça Goeldi era naturalista e zoólogo. Chegou ao Brasil com 25 anos para trabalhar no Museu Nacional a convite do então diretor Ladislau Netto no ano de 1884. Como subdiretor da Seção de Zoologia do Museu, desenvolveu estudos sobre répteis, insetos, aracnídeos e mamíferos durante cinco anos. Em 1893, Goeldi aceitou o convite do governador do Pará Lauro Sodré para assumir a direção do Museu Paraense de História Natural e Etnografia. Em pouco tempo, transformou aquela instituição que estava praticamente abandonada em um importante centro de pesquisa. Atualmente, o Museu Paraense Emílio Goeldi é um dos principais centros de pesquisa da Amazônia, sendo referência em diversas áreas do conhecimento.

Box 1: Temas que mais aparecem na Revista Agrícola (1869-1891).

As instituições mantidas pelo Imperial Instituto Fluminense de Agricultura foram de fundamental importância para a realização de pesquisas e experiências científicas ligadas à agricultura no estado do Rio de Janeiro. Na Fazenda Normal, foram realizados inúmeros cultivos de plantas estrangeiras, inclusive de juta, além de plantas de outras partes do território nacional. Em Relatório publicado na Revista Agrícola n. 17 de 1886, há uma lista de várias espécies que estavam sendo cultivadas nesses estabelecimentos, também há o relato de outras que morreram quando da travessia do oceano ou no próprio estabelecimento. Na parte que menciona o “Viveiro de Mudas do Jardim Botânico”, a lista de plantas, nacionais e exóticas, ornamentais, alimentícias, madeireiras etc., é quase interminável, constando o nome de plantas como: abacateiros, caneleiras, coração de negro, pés de lichia, moscadeiras, sagu, fruta-pão, cajá e areca; aroeiras, cedro rosa, jacarandá, sapucaia, arco de pipa, ipê, copaíba; palmeira de Java, orelha de elefante, sobreiro, begônias; umbuzeiro, cravo-da-índia, pimenta e cactos.

Agronomia: designava agricultura em geral, a arte de cultivar, multiplicar e reproduzir as plantas baseada em técnicas e conhecimentos científicos. Inclui a horticultura e o melhoramento de espécies vegetais. Botânica: descrição dos vegetais, suas características morfológicas e fisiológicas, sua distribuição geográfica e sua classificação nos sistemas taxonômicos. Usava-se também a expressão ‘botânica agrícola’.

Educação agrícola: textos que versavam sobre o ensino agrícola.

Exposição: notícias publicadas sobre as exposições nacionais e universais.

Geologia agrícola: gênese, constituição, propriedades, classificação e nutrição do solo. O termo corresponde, em parte, ao atual campo da pedologia ou edafologia. Convém ressaltar que se usava também o termo ‘agrologia’ que, segundo Graciela Oliver, designava a “ciência que trata do conhecimento dos terrenos nas suas relações com a agricultura”.

Mecânica agrícola: descrição de instrumentos de cultura e colheita, semeadores e máquinas agrícolas, seus usos e benefícios nas atividades rurais.

Meteorologia agrícola: campo científico voltado para a investigação dos fenômenos produzidos na atmosfera e sua influência nos vegetais – tanto no tempo real quanto no tempo futuro –, com o objetivo de orientar os lavradores no planejamento das atividades agrícolas.

Outros temas

Patologia vegetal: refere-se a doenças das plantas. A entomologia agrícola foi aqui incluída porque algumas enfermidades eram identificadas devido à presença de insetos, porém ainda não se mencionava esse vocábulo. O termo corresponde, em parte, à atual fitopatologia.

Política agrícola: relacionado com os valores dos produtos; produtividade e mercado; e ações governamentais no Brasil e no exterior, com vistas ao incremento da agricultura como crédito agrícola e construções de portos e estradas para escoamento de produtos. Incorpora a economia rural.

Política institucional: estrutura e funcionamento do IIFA e instituições congêneres, como Imperial Instituto Baiano de Agricultura (IIBA), Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), e Associação Brasileira de Aclimação (ABA).

Química agrícola: composição dos elementos químicos das plantas e dos solos e suas relações com a nutrição dos vegetais.

Silvicultura: cultivo de árvores florestais com finalidade de estudo e exploração econômica das florestas. Usava-se também o termo “economia das florestas”.

Variedades: temas que eram publicados na seção “Noticiário Agrícola”.

Zootecnia: nutrição, reprodução e melhoria de raças de animais economicamente úteis, visando ao aumento e à melhoria da produção. Inclui a zoologia e a criação de abelhas (apicultura) e bichos-da-seda (sericultura).

Também há registros de plantas da Amazônia que já haviam passado pelo processo de adaptação como a seringueira, jarina, pupunha, açaí, ipadu, paxiubeira, vitória-régia, samaumeira, cumaruzeiro, pau mulato, dentre outras. Na parte do Relatório que menciona os cultivos realizados na Fazenda Normal e no Asilo Agrícola, as espécies listadas são: aipim, feijão, arroz, amendoim, batata doce, araruta, milho, fava, abóbora, inhame, algodão, fumo, café, cana-de-açúcar, juta, sorgo, cacau e mamona. Todos esses cultivos dão indicativos de que havia uma preocupação por parte do governo em abastecer o estado do Rio de Janeiro de alimentos e, também, de conhecimento acerca de outras culturas que poderiam ser introduzidas e/ou ampliadas no estado, como forma de sair do monocultivo do café e passar a vislumbrar a possibilidade de introdução da policultura24, uma vez que a riqueza do café estava se transformando em uma doce lembrança. Como dito, todos esses processos de aclimatação, experiências e testes eram publicados na Revista Agrícola e em outros periódicos, como O Auxiliador da Indústria Nacional e o Jornal do Agricultor. Esses periódicos contavam com uma Redação extremamente qualificada, formada por profissionais altamente gabaritados. Segundo Capilé (2010, p. 185):

Os autores participantes das duas últimas redações cada vez mais estavam por dentro das atividades científicas, sejam pela participação de instituições científicas ou não, como por exemplo: André Rebouças, Joaquim Casimiro Barbosa, Luiz Caminhoá, na redação de Nicolau Moreira; e Emilio Goeldi, Frederico Draenert, Josef Watzl, Wilhelm Michler, Franz Dafert e João Batista de Lacerda. Nota-se que a redação houve uma participação de figuras ilustres como Goeldi, Mischler e Lacerda, o que indica a influência da Revista. O Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, criado para animar e desenvolver a agricultura tomava para si os conhecimentos técnicos e científicos úteis à lavoura, e desenvolvia meios para aplicá-los através das publicações da Revista Agrícola e das atividades da Fazenda Normal. De um modo geral, a divulgação dos artigos da Revista Agrícola indicava que os redatores enfatizavam a desmistificação do paradigma de fertilidade vitalícia dos solos, através de artigos de regeneração do solo pelo uso da mecânica agrícola, de fertilizantes e de análises químicas de solos e plantas, visando a melhor maneira de utilizar tais fertilizantes. Dessa forma, iniciava também a queda do mito da produtividade abundante, pois os imensos latifúndios de café e cana não podiam se manter sem as ideias de regeneração, e sem o uso de técnicas de melhoramento de espécies, como a fecundação artificial.

24 Esse termo não pode ser analisado a partir do referencial teórico atual. Essa prática agrícola estava começando

a ser ventilada no Brasil naquele período, com críticas quanto a sua viabilidade de um lado e discursos apaixonados a seu favor de outro. Apesar do consenso de que era preciso diversificar a agricultura, havia certa confusão acerca do conceito. Indagava-se se a policultura deveria ser entendida como sendo uma variedade de cultivos realizada por um único fazendeiro em um mesmo terreno, ou se seria um conjunto de fazendeiros desenvolvendo cada um, uma cultura diferente, o que daria na somatória uma diversidade de cultivos. Sobre essa questão, Gomes do Carmo escreveu um artigo intitulado “Como se deve compreender a policultura”, publicado na Revista Agrícola paulista em 15 de julho de 1898. Nesse texto, ele afirma que independentemente do modo de se aplicar a policultura, esta, só teria resultado econômico se, na prática cultural, se fizesse intervir a mecânica agrícola de modo racional e adaptável ao nosso meio. Sem isso, ele afirma, “melhor será continuar com o exclusivismo cultural do café [...]” (pág. 253).

O fim do lema: “aqui plantando, tudo se dá”, foi, em parte, marcado pelas atividades do IIFA.

Eu mesmo pude verificar por meio da análise de muitos exemplares da Revista Agrícola a informação dada por Capilé. Obviamente que meu estudo não é sobre a revista em si como