1 UNIVERSO ESCOLAR E CAMPO PROFISSIONAL: ASPECTOS HISTÓRICOS E ATUAIS ORIENTAÇÕES DO ENSINO TÉCNICO
3 CATEGORIA SOCIOPROFISSIONAL DE PERTENCIMENTO SOCIAL DOS ALUNOS ENTREVISTADOS: O ESPAÇO DE POSIÇÕES E O ESPAÇO DE
3.2 O IDEAL DA LONGEVIDADE ESCOLAR E A NECESSIDADE DO TRABALHO
A necessidade do trabalho, no sentido moral e de subsistência, é o elemento comum a todos os estudantes entrevistados, integrando seus habitus. Quando questionamos acerca da interrupção da escolaridade dos pais de Rita antes da conclusão do segundo grau, ela afirmou: “Eu acho que é porque... aquele fator da gente ter que trabalhar”. Nota-se que o trabalho é incorporado pela aluna como parte das disposições de sua posição social, na medida em que não afirma que foi porque seu pai teve de trabalhar, mas, sim, “da gente ter
que trabalhar”, apesar de nunca ter exercido atividade remunerada.
Podemos afirmar, portanto, que a orientação ao trabalho compõe o ethos destes estudantes, e observa-se uma contradição vivida por alguns pais entre o ideal – a longevidade escolar – e o necessário – o trabalho –, a qual é reeditada na trajetória dos filhos como uma espécie de “propensão ao provável pela qual se realiza a causalidade do futuro objetivo em todos os casos de correspondência entre as disposições e as chances” (BOURDIEU, 1998d, p. 98). O trabalho se apresenta, assim, como uma necessidade nem sempre explícita, mas orientada pelas disposições interiorizadas, assumindo a aparência de naturalidade. Neste sentido, parece-nos que a realização de um curso técnico, sobremaneira associado ao mercado de trabalho e com exigências de ingresso menores que o ensino superior público, é compatível com as disposições interiorizadas para o trabalho e representa uma alternativa diante da dificuldade objetiva de prolongarem os estudos por outros meios.
Esta disposição interiorizada e durável condiciona o fato de que o prolongamento dos estudos além do ensino médio esteja necessariamente atrelado à inserção profissional, principalmente no caso dos alunos do Grupo 1, já que os do Grupo 2, em sua maioria, já exercem atividade remunerada, não lhes restando outra escolha. De maneira geral, nas famílias as disposições para o trabalho são mais presentes do que para longos investimentos escolares. Como é possível observar no caso de Jéferson, aluno com elevado capital escolar, que tem se esforçado para passar no vestibular após a conclusão do ensino técnico e do ensino médio, porém que está ciente de que “ela [sua mãe] vai deixar eu prestar vestibular uma vez,
se eu não passar aí vou ter que procurar um trabalho. Se eu não passar ela quer que eu trabalhe”.
O incentivo ao prolongamento dos estudos pela superação da educação básica, grau máximo alcançado pelos pais, esbarra na ausência de exemplos consolidados de longevidade escolar além ensino básico também na família extensa:
A maioria [dos familiares têm escolaridade] igual meu pai e minha mãe. Eu tenho apenas uma tia que tem curso superior, em psicologia. Meus primos e primas têm praticamente minha e idade ou mais novos. Alguns estão estudando, outros já pararam (Rita, enfermagem).
Um [tio] trabalha na roça, outro de marceneiro... não foram muito espertos na vida... Tenho um primo que estuda aqui, faz informática, o outro de São Paulo faz SENAI. Que estudam, que eu saiba, é isso daí (Pedro, eletrotécnica).
Apesar das especificidades que remetem a cada aluno, apontadas no decorrer deste capítulo, enfatizamos que todos os entrevistados possuem disposições interiorizadas que os impulsionam a melhorarem a posição social. Para tanto, o prolongamento da escolaridade apresenta-se como fundamento para se livrarem de trabalhos precários, associados ao trabalho manual, os quais são freqüentes no meio familiar. Assim sendo, em um primeiro momento, podemos afirmar que a opção pelo curso técnico consiste em uma estratégia que integra esta disposição verificada nesta fração de classe; uma espécie de prática que antecipa ao futuro objetivo, considerando as condições objetivas das famílias que os impulsionam ao trabalho.
Partindo da perspectiva de que os investimentos possuem um duplo sentido – podem significar o investimento com orientação explícita; mas também desconhecidos enquanto tais, imbuídos pelo sentido de illusio, isto é, crença e engajamento no jogo (BOURDIEU, 2007, p. 83) – verificamos que o ensino técnico se apresenta como um investimento profissional e educativo mais “palpável” para estes estudantes. Como evidenciam a fala de Rita – o ensino técnico é “uma opção mais lógica para mim” – e a de Jéferson, ao referir-se a este ensino como “a melhor opção”.
O prolongamento da escolaridade no âmbito do ensino superior configura-se para esses alunos como uma barreira social, e, para tanto, outras estratégias de escolarização são lançadas. O que difere substancialmente de segmentos sociais mais privilegiados, com significativo capital econômico e cultural, caracterizados pelo investimento em maior tempo de dedicação aos estudos, e, para os quais a formação profissional tende a ser protelada ao ensino superior, “destino inevitável” para algumas frações. Para tais segmentos, a formação é primordial e o trabalho (socialmente valorizado), conseqüência dela.
Cabe destacar que o ensino superior está mais presente nas pretensões dos alunos que optam pelo ensino técnico mais cedo (Grupo 1) do que nas daqueles com maior faixa etária (Grupo 2), para os quais tal ensino não é cogitado ou é projetado, porém para instituições e/ou cursos menos seletivos, ou, ainda, foi abandonado como possibilidade, devido ao ingresso no mercado de trabalho e constituição de família, passando a ser vislumbrado para os filhos.
As disposições ou habitus de valorização do trabalho foram igualmente constatadas na pesquisa de Geraldo Romanelli (2003) realizada a partir de depoimentos de dez “estudantes-trabalhadores”, universitários de uma faculdade particular não privilegiada em Ribeirão Preto, membros de uma fração de camada média que muito se aproxima da fração aqui estudada. Segundo Geraldo Romanelli (2003, p. 110), mesmo não sendo explícito, o ingresso dos filhos no mercado de trabalho faz parte das disposições das famílias de um segmento das camadas médias:
(...) para as quais a divisão etária do trabalho funda-se em princípios que, justamente por estarem implícitos, não são enunciados de modo claro. A estratégia de pais e mães para encaminharem os filhos para o trabalho assume um caráter de naturalidade, de tal modo que os próprios filhos incorporam o que já está previsto como se fosse fruto de sua decisão (destaque do autor).
Diante da escassez de capital econômico e cultural, as pretensões que fogem à inclinação ao trabalho, somente são passíveis de se realizarem com muito esforço, sacrifícios, privações e renúncias. Por isso, Bourdieu (2007, p. 316) afirma que, nas camadas médias que buscam ascensão, a pretensão muitas vezes converte-se em “pré-tensão”.
No capítulo seguinte, analisaremos as trajetórias escolares e profissionais dos alunos entrevistados, buscando verificar os condicionantes presentes nos percursos que, conjugados às disposições familiares aqui descritas, estimularam a cursarem o ensino técnico. Nesta direção, procuraremos responder as seguintes indagações: Quais os condicionantes para a realização do curso técnico? Como a necessidade de realizar este curso foi se concretizando? Considerando que as disposições presentes na família os orientam para a busca de um status profissional que os afastem das ocupações mais precárias, menos qualificadas, é possível afirmar que, para estes estudantes, a realização do curso técnico contribui, de fato, com a busca por um status profissional diferenciado? Quais suas aspirações e expectativas futuras no tocante ao estudo e ao trabalho, tendo em vista que, no momento da entrevista, estavam em fase de conclusão do curso técnico?
4 TRABALHO, EDUCAÇÃO E A “CAUSALIDADE DO PROVÁVEL”: VISÕES,