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O III Festival de Música Popular Brasileira

No documento talitasouzamagnolo (páginas 69-73)

2 O CENÁRIO CULTURAL NA DITADURA

2.4 A ERA DOS FESTIVAIS NA TELA DA TV

2.4.3 O III Festival de Música Popular Brasileira

O “III Festival de Música Popular Brasileira” de 1967 ocorreu em meio a um clima de expectativas e pressões por parte das gravadoras, cantores, patrocinadores e, principalmente, por parte da TV Record. A emissora, por sua vez, tentou repetir o sucesso de “O Fino da Bossa” estimulando as vaidades pessoais e manipulando as diferenças de estilos, evidenciando o clima de competição. Segundo Mello (2010), tudo isso fez com que a TV Record atingisse seu auge – na época, ele trabalhava para a emissora como técnico de som – e também deixa clara a mudança de comportamento da plateia. Na emissora, o projeto do festival recebeu diversos estímulos que foram a base do grande sucesso popular do evento. A emissora já possuía contratos com vários intérpretes e garantiu que eles fizessem parte do elenco.

Coelho (2011) considera o festival como um produto midiático cujos principais atributos são vistos como decorrência das disputas entre a perspectiva dos diretores da emissora, as concepções políticas e estéticas dos músicos e a reação do público diante das canções. De acordo com o autor, o “III Festival de MPB” aconteceu na fase inicial da ditadura militar, onde vigorou uma política de repressão e, mesmo assim, a música popular encontrou condições favoráveis para se transformar em um campo privilegiado da luta ideológica naquele momento histórico. A competição representou o ponto culminante do trabalho de todo aquele elenco, que se apresentava para a plateia para exercitar suas ousadias e defender suas composições. Uma vez que as gravadoras perceberam que o festival havia se tornado um grande veículo de comunicação para seus artistas, começaram a incentivar a formação de torcidas – fato que perturbaria e mudaria o andamento normal da competição.

Desde as 9 da manhã de 26 de julho, último dia das inscrições, que se encerrariam à meia-noite, a fachada do Teatro Record Consolação estava tomada por uma fila de rapazes e meninos, padres, freiras e tocadores de viola que serpenteava pelas escadas do prediozinho, se alongando pela calçada à frente do teatro. Naturalmente, os compositores conhecidos podiam subir direto ao escritório, entre eles, Chico Buarque e Edu Lobo, que deixaram para se inscrever na tarde do último dia. Mais de 4 mil músicas foram recebidas para a disputa de 25 milhões de cruzeiros e do troféu Viola de Ouro para o primeiro colocado, 10 milhões para o segundo, 7 milhões para o terceiro, 5 milhões para o quarto e 3 milhões para o quinto. O melhor intérprete receberia a Viola de Prata (MELLO, 2010, p.184).

Os jornais, bem como revistas e o rádio aguçavam as expectativas na cidade sobre as chances de cada um dos concorrentes. Mello (2010) comenta que, de maneira geral, a música de Gilberto Gil era uma das mais populares, a de Edu Lobo era bem quista, enquanto a

de Caetano Veloso permanecia uma grande interrogação. O empresário dos baianos Gilberto Gil, Caetano Veloso e Maria Bethânia, Guilherme Araújo, apostava suas fichas na introdução de sons eletrônicos na música popular brasileira. A escolha dos jurados foi feita de maneira cuidadosa e atenta para que o grupo eleito possuísse capacidade técnica boa o suficiente para julgar e confiabilidade para manter as avaliações em sigilo – mais importante do que isso, Paulinho de Carvalho, diretor da TV Record, ainda tinha que buscar um equilíbrio entre as tendências esquerdistas e direitistas, para que, em um momento tão político quanto crítico, nenhum dos lados desfrutassem de alguma vantagem indevida. Para o III Festival da Record, os jurados seriam: os maestros Júlio Medaglia e Sandino Hohagen, Chico Anísio, Raul Duarte, Roberto Corte, Ferreira Goulart e sua esposa Tereza Aragão, Roberto Freire, Salomão Schwartzman, os críticos musicais Sérgio Cabral e Franco Paulino, Luís Guedes, Carlos Manga e Sebastião Bastos, indicado pela Associação Brasileira de Produtores de Discos.

Ribeiro (2003) relembra que, logo na primeira eliminatória – que aconteceu dia 30 de setembro – uma grande torcida organizada apoiou “Combatente”, cantada por Jair Rodrigues, que foi desclassificada pelo júri. A primeira grande vaia do festival iniciou uma sequência de acontecimentos que estaria longe de acabar. De acordo com Mello (2010), naquela noite, foram defendidas as músicas “Disparada” de Vandré, “Dadá Maria” de Renato Teixeira, interpretada por Gal Costa e Sílvio César, acompanhados pelo conjunto de Luis Loy, “E fim” de Sônia Rosa, “Roda Viva” de Chico Buarque, “A moreninha” de Tom Zé, na voz de Djalma Dias, “Ponteio” de Edu Lobo com Marília Medalha e o conjunto Quarteto Novo, “Eu e a brisa” de Johnny Alf – que foi desclassificada para a tristeza dos organizadores e plateia presente –, “Minha gente” de Demetrius, “Ela, felicidade” de Claudete Soares, “O milagre” de Wilson Simonal, “Maria, carnaval e cinzas” de Roberto Carlos e “Bom dia” interpretada por Nana Caymmi e Gilberto Gil. As escolhidas da noite foram: “Bom dia”, “Maria, carnaval e cinzas”, “Ponteio” e “Roda Viva”. Conforme havia acontecido na primeira noite da etapa de eliminatórias, o segundo dia de shows, que aconteceu dia 6 de outubro, seria regido por aplausos e vaias, torcidas e apresentações memoráveis.

A primeira anunciada foi “Domingo no Parque”, que Gil e praticamente todos os jornalistas tinham certeza que entraria. Depois de reinterpretá-la, saiu chorando, emocionado com os aplausos. A segunda anunciada foi “O Cantador”, que deixou Elis pulando de felicidade, também recebida com aplausos imediatamente transformados em sonoras vaias para a classificação de “A estrada e o violeiro”, [...]. Quando anunciaram “Samba de Maria”, Jair, um dos mais queridos cantores da Record, teve que pagar o pato e aguentar vaias estrepitosas dirigidas ao júri. [...]. As cortinas se fecharam dando por encerrada mais uma etapa, mas um bando de torcedores não queria saber de nada, mostrando abertamente seu descontentamento e berrando repetidamente “Marmelada!” (MELLO, 2010, p.197-198).

Os ingressos para a terceira e última eliminatória e para a final se esgotaram uma semana antes. Nos bastidores do teatro, a ansiedade tomava conta dos cantores e compositores, principalmente por causa das vaias, que no caso de algumas canções já eram certas. O primeiro a se apresentar, incentivado por fortes aplausos, foi um dos favoritos do festival, Geraldo Vandré e sua “Ventania”. Em seguida vieram Simonal, defendendo sua terceira canção nas eliminatórias “Balada do Vietnã”. Agnaldo Rayol cantou “Anda que te anda” e foi sufocado com muitas vaias, antes mesmo de começar a cantar. “Viam-se focos definidos de torcedores organizados, com serpentinas, cartazes explícitos e outros artefatos para serem desferidos ou empunhados, dependendo das circunstâncias: eram já decididos a prestigiar ou derrubar. A vaia se institucionalizava e a ingenuidade das torcidas desaparecia” (MELLO, 2010, p.199).

A canção “Gabriela” foi defendida pelo grupo MBP4, “Isso não se faz” por Pixinguinha e “Menina moça” por Martinho. A maior polêmica da noite seria desencadeada por Sérgio Ricardo e seu samba-choro “Beto bom de bola” – nada se compararia, entretanto, à noite da grande final e ao triste destino de seu violão. Maria Odete defendeu a música “Canção do Cangaceiro” e Erasmo Carlos, “Capoeirada”. Ainda vieram mais três canções: “Festa no terreiro de Alaketu” de Maria Creusa, “Volta amanhã” de Hebe Camargo e “Alegria, alegria” de Caetano Veloso – esta última foi uma das maiores surpresas em todo o festival e a mais aplaudida da noite.

Chegou o sábado dia 21 de outubro. Sob a marquise feericamente iluminada do Teatro Record Centro, centenas de jovens empolgados se aglomeravam para presenciar o espetáculo que seria um divisor de águas na música popular brasileira. A fauna ia de um extremo ao outro, das cocotinhas filhinhas de papai, descoladas em seus penteados armados como um bolo à custa de muito laquê e até um recheio de Bombril, aos estudantes indignados, flamejando virulência e desejando participar da luta armada contra a ditadura. [...]. O júri tinha entrado no fosso da orquestra pela portinha de acesso sob o palco quando, às 21h40, foi dada a partida para a aguardada final do III Festival da TV Record (MELLO, 2010, p.206).

Quem não se lembra de um violão quebrado e de uma vaia generalizada que ecoou no Teatro Paramount? Ao tentar apresentar uma música com arranjo diferenciado e com caráter nacionalista – “Beto bom de bola” – Sérgio Ricardo sofreu pressão do público e, por fim, quebrou seu violão e o arremessou. Ribeiro (2003) fala que esse episódio representou a mais grave rejeição da competição. Quando a música foi apresentada, o cantor e compositor, que já tinha sido mal recebido, pediu a atenção do público para o “novo” arranjo, o que desagradou ainda mais a plateia e ia contra o regulamento que não permitia modificações

entre uma apresentação e outra. A noite contou com apresentações de todos os tipos e gostos. O Festival representou um momento que conseguiu reunir em um só lugar artistas das várias vertentes musicais que estavam inflamando – ou incomodando – as torcidas que ali estavam.

Algumas decisões, entretanto, partiram diretamente dos participantes do Festival, como foi o caso de Caetano Veloso, que colocou a guitarra elétrica na sua apresentação e afirma ter sido parte de uma decisão política. “Alegria, alegria” foi uma música altamente moderna para a época e diferente de tudo que os festivais anteriores haviam apresentado. Surpreendeu a plateia que começou ao som de vaias e acabou ovacionando o novo ídolo. Caetano subiu no palco com um grupo de rock argentino – os Beat Boys – uma camisa de gola rolê laranja e, com seu carisma, conquistou a todos (UMA noite em 67, 2010). A música conseguiu o 4º lugar. Segundo o cantor, “as pessoas aceitaram a música, e isso me deu força para que eu veiculasse minhas ideias, parecia que eu estava realmente organizando um movimento”. O 3º lugar foi para “Roda Viva”, de Chico Buarque, e a música de Gilberto Gil, “Domingo no Parque” – acompanhada pelo grupo Os Mutantes, que era formado por Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee – ficou em 2º lugar. A música que ganhou o festival daquele ano foi “Ponteio”, de Edu Lobo e Marília Medalha.

Em apenas quatro edições – de 1966 a 1969 – os Festivais da Record modificaram, modernizaram e disseminaram a música popular brasileira de uma forma como jamais havia acontecido antes. Além disso, conseguiram estruturar dois dos mais importantes movimentos musicais brasileiros do século XX: o Tropicalismo e as Canções de Protesto. Também desempenharam um papel sem precedentes na modernização da MPB e ajudaram no processo de superação e aceitação de novos estilos, instrumentos e formas de pensar – um exemplo claro deste momento foi o uso de guitarras elétricas. Os personagens que se fizeram ou que foram construídos ao longo desses anos contribuíram para a valorização dos diferentes aspectos constitutivos da canção, da letra à melodia e do arranjo à interpretação.

No documento talitasouzamagnolo (páginas 69-73)