2. DELINEAMENTO HISTÓRICO DO INSTITUTO
2.4 O Impeachment no Direito Imperial Brasileiro
dignos do mesmo. É dizer, em muitos dos casos de impeachment que resultaram em absolvição no Senado dos Estados Unidos, tal fato se deu mais pela impropriedade do meio manejado do que pela ocorrência ou não da conduta que se imputava.
Assim se deu, de acordo com Gerhardt, nos casos do Juiz da Suprema Corte Samuel Chase, do Presidente Andrew Johnson, bem como no de William J.
Clinton. Em relação ao último, sentencia Gerhardt:
Uma lição crítica a ser obtida pelas futures gerações relativamente a absolvição do Presidente Clinton é que seu mal comportamento não teve uma dimensão pública (nem dano) suficientemente grave para autorizar sua remoção do cargo. O apropriado para analisá-lo (ou outros que praticarem faltas semelhantes) seria não só a opinião pública e o julgamento da história, mas também possível censura, procedimentos civis (tal como a citação de desprezo da Juíza Susan Webber Wright e a subseqüente multa do Presidente) e persecução criminal).5
Do exposto, fica clara a opinião do autor em se tomar cautelas com o manejo do impeachment, visto existirem outros meios, menos danosos, que são aptos a combater, com eficiência, eventuais mazelas que surgirem nas relações entre autoridades sujeitas às entranhas do procedimento político em voga.
O caso Clinton, anote-se por derradeiro, ainda enseja a discussão sobre o âmbito de incidência das infrações passíveis de serem apuradas em processo de impeachment, visto que, inobstante tenha-se tentado passar a imagem de que Clinton apenas sofrera as acusações na Câmara em virtude de condutas prejudiciais à instrução de processo judicial, além de ter quebrado o juramento com a verdade, fato é que o então Presidente somente se encontrava nestas delicadas situações por motivos que, embora amplamente condenáveis sob a perspectiva moral, não extrapolavam sua ordem de assuntos privados, não interferindo diretamente no exercício do cargo presidencial.
A órbita de alcance das infrações desencadeadoras de procedimento de impeachment será oportunamente analisada em capítulo próprio deste trabalho.
No direito brasileiro, pode-se, com facilidade, delinear dois momentos distintos a se observar o impeachment, vez que sua previsão e aplicabilidade em muito se alteraram em um e outro momento.
Destarte, em princípio, é de salientar que o instituto do impeachment foi contemplado pela primeira vez no ordenamento jurídico pátrio com a edição da lei de 15 de outubro de 1827.
Faz-se mister, contudo, anotar que a edição da referida lei nada mais representa do que o acatamento de ordem mandamental contida na Constituição Imperial de 1824, a qual dispunha, em seu artigo 133, acerca da responsabilidade dos Ministros de Estado em casos de traição(inciso I), peita, suborno ou concussão (inciso II), abuso do poder (inciso III), falta de observância da lei (inciso IV), atentados contra a liberdade, segurança e a propriedade dos cidadãos (inciso V) e, finalmente, por qualquer dissipação dos bens públicos (inciso VI).
Além desta apresentação das causas de responsabilidade dos Ministros de Estado, a Carta do Império, em seu artigo 134, relegava a “lei particular” a tarefa de disciplinar o procedimento da apuração da responsabilidade naqueles casos, cuidando-se este último dispositivo, assim, daquilo que a doutrina constitucionalista moderna denominou norma constitucional de eficácia limitada, dependendo da atividade legiferante ordinária para alcançar o objetivo a que se propõe.
Posto isto, o legislador imperial editou em 1827, como já se disse, uma lei em observância ao mandamento constitucional esculpido no artigo 134.
A proposta para a edição desta lei muito suscitou de discussão nas Casas Legislativas no Império, como se pode denotar em trechos de discursos parlamentares da época colhidos por Paulo Brossard (1992, p. 42 e 43).
A iniciativa de criação desta lei, em obediência ao que determinava a Constituição de 1824, partiu do deputado Bernardo Pereira de Vasconcellos, quem apresentou o respectivo projeto à Câmara, pela primeira vez, aos 29 de maio de 1826, alegando se tratar de matéria urgentíssima (ANAIS DO CONGRESSO NACIONAL, s.a., s.p.).
Dois projetos paralelos foram apresentados aos membros da Câmara, um de autoria de Bernardo Pereira de Vasconcellos, Nicolau de Campos Vergueiro e José Ricardo da Costa Aguiar de Andrada, enquanto o outro projeto foi realizado pelos deputados “José Lino Coutinho, Manuel Caetano de Almeida e Albuquerque,
José Ricardo da Costa Aguiar de Andrada, este com restrições” (ANAIS DO CONGRESSO NACIONAL, s.a., s.p.)
Levada a matéria à apreciação do plenário da Casa, deu-se preferência ao último projeto, já que este tratava especificamente da responsabilidade dos Ministros e Conselheiros de Estado, ao invés do primeiro que trazia um emaranhado geral sobre a responsabilidade dos funcionários públicos, abrindo, apenas, um tópico (Capítulo III, Seção I), pertinente àquela matéria.
O deputado Bernardo Pereira de Vasconcellos, co-autor do projeto desprezado pelo Plenário, se opôs ao segundo no sentido de considerar-lhe inconstitucional em muitos dos delitos e principalmente das penas que previa, entre elas a de confisco de bens.
Desta forma, foi o projeto em muito discutido e reformado até que, finalmente, ocorresse a sua aprovação na Câmara em três de agosto de 1826, com a conseqüente remessa ao Senado e sanção do Imperador.
De todas estas alusões a lei de 1827, algo se nota sem exacerbado esforço: o legislador imperial agasalhara o modelo inglês de impeachment, constituindo julgamento de natureza criminal ao estabelecer penas que não se restringiam em afetar o ocupante do cargo público com a perda do mesmo, mas atacavam-lhe, igualmente, a esfera de interesses privados – ou, no dizer de Paulo Brossard, “castiga a um tempo o autoridade e atinge o homem” (1992, p. 22).
As penas estabelecidas, como se vê pelo disposto nos artigos 1º e 2º da lei de 1827, poderiam até mesmo ceifar a liberdade e a vida do condenado.
Perceba-se, todavia, que todas as medidas de responsabilização dispostas na lei de 1827 dizem respeito, tão-somente, aos Ministros e Conselheiros de Estado, em nada mencionando a figura do Imperador.
A justificativa para tanto é bastante evidente, haja vista que a noção de responsabilidade dos monarcas eram algo inimaginável à época, de sorte que o modelo brasileiro nada fez além de seguir, fielmente, toda a doutrina que possibilitou construir o impeachment que à época vigia na Inglaterra. Vale dizer, da mesma forma como os ingleses afirmavam que “the king can do no wrong”, os brasileiros não conseguiam enxergar uma hipótese na qual seria viável questionar os atos praticados pelo Imperador.
Ora, como seria possível questionar os atos do Imperador se este, de per si, compunha não apenas um, mas o mais influente dos Poderes do Estado
Brasileiro daquela época, capaz, inclusive, de determinar a ordem final no que diz respeito às decisões tomadas pelos outros três Poderes?
Tendo esta reflexão em mente, não se torna árdua a compreensão do fato de a Carta Constitucional de 1824 nada ter previsto sobre a responsabilidade do Imperador, mas, tão-somente, dos Ministros e Conselheiros de Estado.
Conforme registros de Paulo Brossard (1992, p.41), não foram poucos os casos de Ministros denunciados à Câmara como transgressores das normas de responsabilidade, tendo, pois, de apresentar defesa na respectiva Casa antes que essa formalizasse acusação perante o Senado. Ainda segundo o mesmo doutrinador:
“Um só, porém, chegou a ser acusado. Foi Clemente José Pereira. Mas o Senado, reunido como Tribunal de Justiça, na sessão de 9 de junho de 1832, em decisão unânime, absolveu o ex-ministro da Guerra, cuja acusação fora decretada em 5 de agosto de 1831.” (1992, p. 41)
Percebe-se, ante o exposto, que o instituto, mesmo em poucos anos depois de sua inserção no jovem ordenamento jurídico brasileiro, encontrou as mesmas dificuldades enfrentadas para responsabilizar um possível desrespeito frente aos deveres que gravitam ao redor do cargo público.
O impeachment, durante o período imperial da história brasileira, em verdade, não passou de pura abstração teórica idealizada para romantizar um possível escudo de proteção para a ordem constitucional recentemente inaugurada.
Editada a lei de responsabilidade em 1827, passando por tentativas frustradas de aplicar o instituto, tendo como mais próximo de sua efetivação o caso de Clemente José Pereira, absolvido pelo Senado em 1831, seria o impeachment totalmente relegado no direito imperial pátrio quando ocorreria a adoção (a primeira delas) do sistema parlamentarista de governo no Brasil, momento em que, a semelhança do que ocorrera com a Inglaterra, com porém a marcante diferença de que o sistema, na Ilha Européia, constituiu-se em fruto de lenta e madura evolução histórica, até mesmo como conseqüência da busca de uma medida alternativa ao impeachment, se dispensaria a necessidade de se utilizar o processo criminal para tirar do cargo o indivíduo que se portasse de maneira inadequada com a honraria da função mediante simples moção parlamentar.
Parafraseando o que ensina Paulo Brossard (1992, p. 42), a adoção do sistema de governo parlamentarista no Brasil simbolizou o abandono de sistema repressivo, previsto em lei, para se homenagear sistema preventivo, enraizado nos costumes.