3. CAPÍTULO 2: A estética nietzschiana:
4.5 O impulso apolíneo e a fragmentação da cultura
O impulso apolíneo,139 no entanto, sendo responsável pela delimitação, identidade e
individualização dos fenômenos de uma maneira geral, pode atuar como um elemento pernicioso à cultura à medida que promove a independência dos indivíduos, pois atuará dessa maneira como um agente de desequilíbrio da totalidade orgânica.
Por meio desse prisma, o jovem Nietzsche vê na tendência à autodeterminação dos indivíduos e na crescente valorização das individualidades um sintoma da decadência da cultura, assim como um rompimento com a noção de expressão total do povo na cultura. Essa tendência à atomização da sociedade é para o autor a origem da relação utilitária do indivíduo com o Estado, na medida em que este último converte-se em um meio para a manutenção dos escopos egoísticos do indivíduo, tendo como consequência a fragmentação da unidade orgânica e a descaracterização de sua cultura.
Em a A Visão de Mundo Dionisíaca, Nietzsche exprime essa ideia em uma analogia fisiológica: “quanto mais autônoma e arbitrariamente está o indivíduo desenvolvido, tanto mais fraco está o organismo ao qual ele serve”140
O desequilíbrio entre os princípios apolíneo e dionisíaco é, segundo o autor, a origem do enfraquecimento da cultura em todos os seus âmbitos, pois se por um lado, com a predominância do elemento apolíneo – configurador –, teríamos a crescente tendência ao egoísmo privado, por outro, o dionisíaco operando desproporcionalmente poderia levar à 139 Segundo Roberto Machado, em Nietzsche teremos uma compreensão singular da Epopeia como um recurso apolíneo que busca velar, iludir, proteger contra o caótico e informe. Essa tendência, derivar-se-ia do mesmo impulso que engendra as individualidades, o impulso apolíneo: “O indivíduo, essa criação luminosa e aparente de Homero, da qual decorrem o Estado, a pátria e a família, é um modo de aliviar a atmosfera opressora da existência, o modo de triunfar do sofrimento apagando dele seus traços ou dele se esquecendo. Esse mundo apolíneo, criador do indivíduo como luminosidade e aparência, possui solidamente unidas, uma dimensão estética e uma dimensão ética, a que se tem acesso pela noção de medida. Beleza, no sentido propriamente estético, é medida, harmonia, equilíbrio, simetria, ordem, proporção, delimitação” Machado, R. O nascimento do trágico - Capítulo 6: Nietzsche e a representação
do dionisíaco; p. 208.
140 “(…) je selbstischer willkülicher das Individuum entwickelt ist, um so scwächer ist Der Organismus, dem es dient” DW,KSA, Band I, p.557-8.
barbárie. O que Nietzsche traz de original nesse sentido é uma valorização do aspecto dionisíaco como item fundamental para revigorar a cultura. Assim, o pensador busca o equilíbrio dos princípios, que em recíproca atuação podem gerar uma expressão cultural plena e afinada com a dinâmica da vida:
“Titânico” e “bárbaro” pareciam também ao grego apolíneo o efeito que o
dionisíaco provoca: sem com isso poder dissimular a si mesmo que ele
próprio, apesar de tudo era aparentado interiormente àqueles Titãs e heróis abatidos. Sim, ele devia sentir mais ainda: toda sua existência, com toda beleza e comedimento, repousava sobre um encoberto substrato de sofrimento e conhecimento, que lhe era de novo revelado através daquele elemento dionisíaco. E vede! Apolo não podia viver sem Dioniso! O “titânico” e o “ bárbaro” eram, no fim das contas, precisamente uma necessidade tal como o apolíneo!141
O conhecimento dionisíaco puro, sem a mediação do princípio configurador apolíneo, traz consigo um elemento igualmente pernicioso à cultura: a torrente da natureza expressa cruamente em forma de dor, prazer e conhecimento trágico – esse último entendido como falta de sentido da existência – acabariam por revelar o aspecto absurdo e terrível da existência. O apolíneo, dessa forma, torna-se indispensável para conter a maré dionisíaca; sua atuação é necessária para que ocorra uma “idealização da orgia dionisíaca”, e, sob seu elemento configurador, o terrível conhecimento dionisíaco é traduzido em representações, que sublimam e justificam através da arte os aspectos tenebrosos da existência.
A percepção do fundamento dionisíaco, e sua existência em consórcio com o impulso apolíneo, seria, para Nietzsche, o ato de redenção da Vontade Grega, e isso se dá porque não há negação de nenhuma das partes do ser total. O labor artístico sobre determinados temas fundamentais no curso da vida, tais como o horror e o absurdo, seria segundo o filósofo a essência de dois gêneros consagrados do palco grego:
Aqui, nesse supremo perigo da vontade, aproxima-se, qual feiticeira da salvação e da cura, a arte; só ela tem o poder de transformar aqueles 141 Nietzsche,F. O nascimento da tragédia § 4, p.41.
pensamentos enojados sobre o horror e o absurdo da existência em representações com as quais é possível viver: são elas o sublime, enquanto domesticação artística do horrível, e o cômico, enquanto descarga artística da náusea e do absurdo. O coro satírico do ditirambo é o ato salvador da arte grega;142
O sublime e o cômico aparecem como traduções apolíneas do horrível e do absurdo, respectivamente. Para o autor, é através do conhecimento da essência trágica em toda sua profundidade, aliada ao impulso apolíneo proporcional, e portanto vigoroso, que a visão trágica do mundo se manifesta. Nietzsche viu nos gregos do período arcaico a capacidade para engendrar uma cultura trágica, e acreditava que, justamente por isso, as obras de arte daquele período se perpetuaram. Essa cristalização do espírito grego em sua arte deveria servir como um modelo para as novas gerações que pretendessem levar adiante a nobre tarefa humana da criação.