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Capítulo 3. Patrimonialização, memória e a cidade dos desejos do artista.

3.1 O início do processo de patrimonialização em Florianópolis.

Setores da população de Florianópolis percebia na década de 1970 que suas quadras de antigos casarões coloniais poderiam representar uma atração turística, sendo que, inúmeras vezes os jornais apontaram a importância da sua preservação tendo, dentre outras motivações, a questão turística162. O arquiteto Gama d’Eça, que participou do desenvolvimento projeto urbanístico da cidade naquela década mencionou o seguinte:

nós achamos que tudo que devesse ser preservado precisaria ser tombado e se criasse até uma mística em torno desses monumentos, para se atrair turistas. Porque turista não quer ver edifício de apartamentos, [...] tem muito mais sabor para um turista uma casinha velha, com aquelas janelas de canga, da época colonial, do que um edifício. 163

A expressão “[...] e se criasse até uma mística em torno desses [...]”, demonstra a ocorrência da produção de lugares memoráveis através da geração de aspectos simbólicos (JEUDY 2005, p. 22), iniciativa que partiria de personagens que detinham as rédeas políticas da cidade e que visavam, principalmente, o turismo e o consumo.

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Patrimônio. Jornal O Estado. Florianópolis, 9 dez 1973. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

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CALDAS Fº, Raul. Em busca da cidade ideal. Jornal O Estado. Florianópolis, 8 ago 1973. P. 9. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina

A preservação se insere na dinâmica do consumo de criar a necessidade de uma nova produção. Os objetos protegidos, valorizados, fazem parte do movimento econômico, seja como locais turísticos, seja como espaços comerciais ou de serviços, com cunho cultural ou não. Porém, é fundamental não perder como mote orientador das intervenções a razão original que lhes conferiu valor de preservação, porque o sentido de preservar, muito mais profundo e relacionado com o sentido de existência transcende a questão econômica. (ADAMS 2002, p.18)

Entretanto, sabemos que esse sentido “mais profundo” que justificaria os tombamentos do patrimônio não tendia, muitas vezes, a uma essência coletiva, compartilhada, visto a gama de interesses que envolvia o planejamento dos espaços urbanos. Naquela Florianópolis dos anos de 1970, muito se especulou sobre a importância ou não de se preservar certas construções, por isso se clamou por um amparo legal, uma voz autorizada que definisse oficialmente o que deveria ser preservado e o que poderia ser demolido. O “sentido nobre” que justificaria a preservação ou não de construções seria então indicado por especialistas contratados pelo poder público que realizando estudos e pesquisas, definiriam critérios para os tombamentos evitando, teoricamente, que no futuro ocorressem arrependimentos. Porém, enquanto não se criava esse tipo de órgão de preservação na cidade, nem mesmo em âmbito estadual, as demolições não cessaram e qualquer tipo de construção antiga poderia ser destruída sem qualquer critério. Durante o ano de 1972 e durante os seis primeiros meses de 1973 as desapropriações de imóveis efetivadas pelo município somaram 59, na sua maioria casas antigas 164.

Pelos jornais da época percebemos o latente desejo pela preservação, mas este convivia lado a lado com apelos ao desenvolvimento da cidade que precisava demolir para se desenvolver: “a prefeitura se vê obrigada a realizar desapropriações pra que a cidade se desenvolva165”. Antes da criação e efetiva ação do órgão oficial de preservação, iniciativas como a da professora universitária da UFSC, Sara Regina Silveira de Souza, voltou-se para a preservação de casas coloniais, porém, no sentido de sua memória imagética e estrutural,

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A cidade velha deve desaparecer o não? Jornal O Estado. Florianópolis, 1 ago 1973. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

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visto que a professora não teria o poder de evitar as demolições. Segundo essa matéria: “... as casas consideradas de importância dentro de uma linha de desenvolvimento arquitetônico característico da colonização açoriana estão sendo visitadas... Junto com o dono é feito um histórico e uma planta para caso venha a ser demolida.” 166

Percebemos no capítulo anterior que muitas foram as demolições que deram origem a altos prédios de apartamentos, e como esses imóveis estavam sendo valorizados no centro da cidade. Chama a atenção um dos anúncios de uma construtora e imobiliária da época, onde se menciona que “seria uma pena se a cidade fosse somente patrimônio histórico”, questão que ataca diretamente os apelos da época a favor da patrimonialização na cidade.

Imagem 68: Publicidade CEISA Construções e Empreendimentos Imobiliários. Jornal O Estado. Florianópolis, 15 ago 1973.

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Se uma cidade conseguisse se tornar toda ela patrimônio histórico seria como descreve Jeudy (2005, p.74) “a experimentação de um sentimento de mortificação, onde só se olharia a vida já vivida sem termos a percepção do imediatismo do estar vivo”. Entretanto, a frase do anúncio foi construída e divulgada num momento da história de Florianópolis onde os discursos favoráveis aos tombamentos estavam no auge. Sendo assim, a construtora, mesmo não se posicionando contra os processos de patrimonialização, parecia querer fazê-lo. Dias após a circulação desse anúncio foi lançado o projeto para a criação do SPHAM167. Porém, sua fundação ocorreu apenas no ano seguinte, em abril de 1974.

A criação do órgão de preservação do patrimônio em Florianópolis foi fato incentivado pelas fortes transformações urbanas pelo qual passava a cidade, mas também por uma preocupação que ocorria em âmbito nacional efetivada através da Carta de Brasília168, em 1970. Nesse encontro, representantes da área da cultura indicados pelo governo assinaram o compromisso que propunha a criação de órgãos estaduais e municipais, articulados com os conselhos estaduais do IPHAN. (ADAMS 2002, p. 45). O Estado catarinense tinha em 1974 um projeto que propunha a criação de legislação de preservação e tombamento tramitando na Assembleia Legislativa169. Porém, as primeiras ações concretas só seriam realizadas na década de 1980 após a criação da Fundação Catarinense de Cultura e a promulgação de (uma nova) lei de proteção do patrimônio cultural do Estado (ADAMS 2002, p. 46). Mas, mesmo sem órgãos regionais, contando apenas com o amparo distante da 10ª Diretoria Regional do IPHAN, sediada no Rio Grande do Sul e responsável pelo território catarinense até 1990, o Estado teve bens tombados, sendo que o primeiro ocorreu em 1938.

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Projeto cria o serviço de proteção ao patrimônio. Jornal O Estado. Florianópolis, 22 ago 1973. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

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O Compromisso, ou carta de Brasília, foi assinado em abril de 1970 durante um encontro de governadores, secretários estaduais da área cultural, prefeitos de municípios, presidentes e representantes de instituições culturais interessadas. Esse documento firmou o reconhecimento da “inadiável necessidade de ação supletiva dos estados e dos municípios à atuação federal no que se refere à proteção dos bens culturais de valor nacional.”

http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=240 acessado em 08 de março de 2012.

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Governo quer preservar o patrimônio histórico e cultural. Jornal O Estado. Florianópolis, 27 jul 1974. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

Nesse ano, quatro fortalezas localizadas na Baía Norte ingressaram para a lista de patrimônios da união. As quatro faziam parte de um sistema defensivo idealizado e construído pelo Brigadeiro José da Silva Paes entre 1739 e 1744. A preocupação com a preservação dessas interessava nacionalmente, pois eram testemunho da expansão portuguesa para o Brasil meridional, sem contar o valor artístico da arquitetura170. Entretanto, apesar de serem tombadas, as fortificações sofreram um acentuado processo de depredação a partir do final da década de 1960, quando a Marinha Brasileira deixou de vigiá-las. (ADAMS 2002, p.37). O jornal denunciou o estado de abandono no qual se encontravam esses patrimônios históricos, ressaltando o quanto o turismo da Ilha perdia com esse descaso171. O quinto tombamento, o segundo após o conjunto de fortalezas, ocorreu em 30 de janeiro de 1950 quando a casa de nascimento do pintor Victor Meirelles passou a ser patrimônio da união.

A compreensão mais ampla da preservação dos bens, no entanto, enfatiza seu valor decorrente dos fatos históricos a eles incorporados: o tombamento em âmbito federal da casa natal de Victor Meirelles é um bom exemplo. Contemplou um sobrado representativo da arquitetura luso-brasileira; mas foi o fato de ali ter nascido o grande artista plásticos que elevou a sua preservação. (ADAMS 2002, p.35)

A patrimonialização da casa de nascimento de Victor Meirelles foi alvo de comparações com outras residências de personalidades que, nesse momento de preocupações com demolições de casarões coloniais, na década de 1970, se “descobre”. Nesse sentido, uma das demolições

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Os primeiros anos da criação do SPHAN, em 1937, caracterizaram-se pela preservação de patrimônios batizados anos mais tarde como “pedra e cal”, que eram principalmente construções remanescentes do poder dominante de arquitetura colonial luso-brasileira.

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Patrimônio histórico ao abandono é atração que o turismo despreza. Jornal O Estado. Florianópolis, 24 out 1973. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

lamentadas foi a da casa onde nasceu o Conselheiro Mafra172, onde havia uma placa com os dizeres: “nesta casa nasceu o conselheiro Manoel da Silva Mafra. Homenagem popular – 12/10/1918”173. Porém, a preocupação levantada pelo jornal ocorreu no momento que a construção já estava praticamente condenada, pois, acabara de sofrer um novo desmoronamento174.

Imagem 69: Velho Doze começa a ruir. Jornal O Estado. Florianópolis, 29 out 1973. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

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Manuel da Silva Mafra, o Conselheiro Mafra (1831-1907). Advogado e político de Florianópolis, foi ministro da Justiça antes da proclamação da República e deputado estadual. Ficou famoso por fazer o dossiê jurídico que pôs fim à disputa do território do Contestado, divisa com o Paraná.

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Essa construção também era conhecida por ter abrigado a sede do Clube Doze de Agosto. Em 1968, três anos após a transferência do clube para sua sede na Rua Hercílio Luz, parte da antiga construção ruiu desabando sobre a Rua João Pinto. Em 1973, mais uma vez parte do “Velho Doze”, como era chamado pelo jornal, caiu sobre a Rua Antonio Luz. Com as estruturas comprometidas, os trabalhos de demolição se iniciaram, e no local hoje encontramos mais um prédio.

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A história da cidade e de seus vultos históricos esta sendo demolida. Jornal O Estado. Florianópolis, 9 dez 1973. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

Outra casa de personagem histórico que não conseguiu ser preservada foi a de Fernando Machado, ex-combatente da Guerra do Paraguai, localizada na rua de mesmo nome, demolida para a construção de um edifício175. Paulo Rocha, funcionário da Divisão de Planejamento e Urbanismo da capital, expressou em entrevista ao jornal O Estado sua opinião sobre a preservação de casas marcadas pela memória do nascimento de algum personagem histórico da cidade:

Muitas vezes as pessoas pensam que prédios antigos e que não tem nenhum valor como monumentos arquitetônicos de determinada época devem ser conservados somente porque nele se deu algum fato histórico, ou nasceu algum brasileiro ilustre. Do ponto de vista do patrimônio histórico esta casa não terá nenhum valor...176

Esse tipo de opinião não era exclusividade dos políticos, ou empresários da construção civil. O médico Oswaldo Rodrigues Cabral, um dos mais destacados pesquisadores da história de Santa Catarina, não identificou na construção da casa de Victor Meirelles a mesma importância arquitetônica mencionada por Adams e partilhada pelo IPHAN desde 1950. Segundo Cabral, aquela casa era um “trambolho atravancando inutilmente o meio da rua [...] se a casa ainda tivesse o menor valor arquitetônico, vá lá que se conservasse. Mas, as que tinham tal valor, casas que eram típicas de uma época, de um estilo, estas já foram demolidas...” (CABRAL 1972, p. 70). O tombamento da casa de Victor Meirelles, como vemos, teve uma importância nacional, mas na década de 1970, quando o intelectual escreveu esta passagem, a situação do trânsito e da urbanização da cidade como um todo era preocupação crucial, contexto que fez Cabral, personagem que tanto lutava pela

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A casa de Fernando não teve a mesma sorte que a de Vitor Meireles. Jornal O Estado. Florianópolis, 28 nov 1974. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

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O que deve ser conservado. Jornal O Estado. Florianópolis, 11 out 1974. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

preservação dos casarões, se posicionar contra a importância da casa tombada.

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Imagem 70: Charge com Oswaldo Rodrigues Cabral. Caderno Especial sobre Habitação. Jornal O Estado. Florianópolis, 15 ago 1973. Arquivo

Biblioteca Pública de Santa Catarina.

E não foram apenas casas particulares sendo derrubadas ou vendidas por um bom preço devido a localização central que tanto agradava as construtoras. Em 1973 uma igreja, a Capela de Nossa Senhora da Conceição178 que existiu na Praça Getúlio Vargas, foi vendida sob a alegação de que, segundo o novo Plano Diretor da cidade, a rua no local precisava ser alargada. A demolição da igreja que havia no local desde 1902 foi feita sob o protesto dos cidadãos, gerando inclusive um oficio circular de Franklin Cascaes, onde este apontou aquele fato como “um retrato de nossa época, quando prevalecem o descaso e a omissão sobre o valor das coisas do passado” 179. E para acentuar este fato, essa já era a segunda igreja vendida na cidade em menos de dois anos, pois uma capela existente no Bairro Itaguaçú passou, de uma hora para a outra, como está descrito pelo jornal,

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Texto do balão: “Se a gente soubesse que o professor tava aí, teria deixado pra outro dia...”.

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No periódico a igreja em questão aparece mencionada com os dois nomes. Nossa Senhora da Conceição possivelmente era o nome da irmandade.

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Capela nossa senhora do rosário só ficou na memória da cidade. Jornal O Estado. Florianópolis, 15 nov 1974. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

de casa para celebração de ofícios religiosos para casa de diversão noturnas, numa incrível mudança de dignidade. Apesar de tudo pode-se dizer que a capela da conceição [a igreja da Praça Getúlio Vargas] teve um destino mais feliz, pois mesmo sendo demolida certamente ficará na lembrança dos seus ex frequentadores com aquela aura de respeito...180.

Casas sendo demolidas tornaram-se fato corriqueiro, já igrejas, locais de apreço de uma comunidade e que levam um simbolismo social relevante, parecem exemplos limites dos processos de demolições. E não eram apenas igrejas e casas coloniais que desapareceram da paisagem florianopolitana na década de 1970, o aterro, que consumiu o mar também fez desaparecer uma ilhota que marcava a vista da Baía Sul181. A conhecida Ilha do Carvão e sua construção em forma de castelinho foram englobadas junto ao aterro. “Há muitos ilhéus que preferiam ver o traçado da nova ponte sofrer pequenas modificações para poupar a Ilha do Carvão. Mas logo desistiram da ideia, pois as areias do aterro a alcançaram, inexoravelmente”182.

Após o lançamento do projeto do SPHAM em 1973, apenas em abril do ano seguinte é que se efetivou a política de preservação na cidade com a promulgação da lei número 1202, que preconizava a proteção do patrimônio histórico, artístico e natural do município e criava oficialmente o órgão responsável. Entretanto, em 1974 a cidade já tinha efetuado tantas demolições e mudanças, como foi o próprio aterro

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Capela nossa senhora do rosário só ficou na memória da cidade. Jornal O Estado. Florianópolis, 15 nov 1974. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

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Na época das obras da ponte Colombo Salles a Ilha do Carvão (também conhecido como Ilha dos Ratos) e a sua construção, que serviu durante anos como depósito do carvão importado pelo extinto porto da cidade, foram aproveitadas como local para oficina de marcenaria e escritório e, posteriormente para a sustentação de um de seus pilares.

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Uma ilha excluída da paisagem. Jornal O Estado. Florianópolis, 25 jun 1974. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

da Baía Sul, que, o jornal creditava ao órgão recém-criado a missão de “salvar o que restou”, tanto que o título da reportagem foi “Patrimônio se preserva agora ou nunca mais” 183. Segundo Volnei Milis, secretário responsável pelo SPHAM, o órgão foi criado tendo como finalidade primordial:

Evitar que o centro da cidade se transforme num pandemônio [...] se a cidade não aproveitar essa oportunidade, acontecerá o que ocorreu com São Paulo, Rio, e, em menos escala, com Porto Alegre, que não tem mais nada que as ligue com seu passado. Nada que recorde sua história.

Os princípios norteadores para a legislação de Florianópolis seguiram a risca o decreto-lei de 1937, da criação do SPHAN (IPHAN), sendo que, apenas um artigo dessa legislação foi destacado pelo jornal:

O tombamento do bem pertencente a pessoa natural ou pessoa jurídica de direito privado será feito voluntaria ou compulsoriamente. Voluntário: sempre que o dono pedir e for aprovado pelo SPHAM, ou quando o proprietário anuir a notificação do SPHAM. Compulsório: quando o dono não anuir em 15 dias a solicitação. Em caso de impugnação, caberá ao SPHAM sustentar o fundamento do tombamento184.

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Patrimônio se preserva agora ou nunca mais. Jornal O Estado. Florianópolis, 1 maio 1974. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

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Patrimônio se preserva agora ou nunca mais. Jornal O Estado. Florianópolis, 1 maio 1974. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

Podemos perceber com a escolha do artigo citado a preocupação entorno do tombamento de bens privados que, se entrassem para a lista do SPHAM, não poderiam ser vendidos. No final daquele ano o serviço anunciou que já contava com uma série de bens prestes a serem tombados. Contudo, segundo informou seu presidente,

É conveniente que não sejam divulgados os nomes destes bens, para evitarmos problemas futuros. Que são os proprietários e interessados em casas e terrenos possíveis de serem tombados, que se souberam antes poderão usar de forma diversa da pretendida pelo Serviço.185

A forma diversa seria a comercialização, pois, quando tombados as construções receberiam um valor simbólico, seu uso seria disposto por um estatuto à parte que as excluiriam do circuito dos valores mercadológicos. (JEUDY 2005, p.20). Porém, várias das construções antigas que ocupavam o centro da cidade e que estariam valendo um bom preço já não poderiam ser preservadas ou mesmo tombadas tendo em vista o péssimo estado de conservação e as necessidades urbanísticas da cidade186.

Em junho de 1974, a secretaria responsável pelo SPHAM organizou um conselho formado pelas seguintes pessoas: Nereu do Valle Pereira, chefe do Departamento de Sociologia da UFSC; Sara Regina Silveira e Carlos Humberto Corrêa, do Departamento de História da UFSC; o arquiteto David Ferreira Lima, além de um advogado que seria indicado pela procuradoria da prefeitura. Esta comissão, cujo presidente era Volnei Milis, teria o poder de decidir sobre o que era só velho e o que era histórico para a cidade, e a metodologia partiria de um trabalho de campo,

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Município começa em dezembro a tombar bens da cidade. Jornal O Estado. Florianópolis, 28 nov 1974, Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

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UFSC coopera com o projeto do patrimônio. Jornal O Estado. Florianópolis, 13 jun 1974. Arquivo Biblioteca Pública de Santa Catarina.

Anotando os monumentos a serem preservados, para depois se determinar qual a melhor medida a tomar com relação aos mesmos. Primeiramente teremos que visitar os monumentos, para depois fazermos a avaliação de sua importância, para sabermos se realmente eles devem ser conservados. Eles serão catalogados e depois do estudo arquitetônico, será feita a restauração187.

Em dezembro de 1974, a Comissão Técnica do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico do Município (COTESPHAM) realizou sua primeira reunião e o principal assunto da pauta foi o sistema viário previsto com o novo Plano Diretor, principalmente a área do aterro, tendo em vista os monumentos próximos àquela região188. Um deles, o prédio da antiga Alfândega, seria, segundo o presidente da comissão, alvo das primeiras providências no que se referia aos tombamentos de monumentos históricos na cidade. Entretanto, o primeiro decreto de tombamento realizado pelo município contemplou o acervo natural das dunas da Lagoa da Conceição, no ano de 1975 (ADAMS 2002, p.53) Com isso, se queria preservar os valores geográficos e turísticos daquele local, combatendo a prática que estava se tornando comum, a de retirada de areia para construções. Outra medida do SPHAM que visava à região da Lagoa foi a retirada das placas e cartazes que estavam prejudicando a visão panorâmica do alto do morro. Percebemos, através das primeiras realizações do órgão, que os objetivos com a preservação e com os tombamentos estavam se voltando para privilegiar e incentivar a prática