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O Início do Salão Internacional de Humor de Piracicaba

No documento DANIELLE DE MARCHI TOZATTI (páginas 62-88)

Piracicaba significa, em tupi-guarani, “lugar onde o peixe pára”. A cidade paulista de Piracicaba, que fica a 152 km de São Paulo e tem hoje 320 mil habitantes, ganhou esse nome do rio que a atravessa. É conhecida como a terra da pamonha e da pinga, e desde os anos 70, quando passou a realizar o seu Salão de Humor, tornou-se uma das capitais mundiais do Humor Gráfico, e recebe a cada ano milhares de visitantes que buscam conhecer os eventos humorísticos lá realizados.

“Salão” é o nome que se dá a exposições periódicas, em especial de artistas plásticos. De acordo com Matias (2001), um salão destina-se a promover e divulgar produtos e informar sobre eles, com o intuito de criar para os consumidores uma imagem positiva da instituição promotora, não possuindo finalidades comerciais imediatas: seu objetivo principal é a promoção institucional.

O “Salão Internacional de Humor de Piracicaba” é realmente assim, uma exposição temporária com obras produzidas por cartunistas de todo o mundo, selecionadas e premiadas em quatro categorias: HQ (histórias em quadrinhos), caricatura, charge e cartum.

Seu objetivo, confirmando o que diz Matias, é informar, transmitir uma imagem criativa,

desmistificadora sobre a realidade vigente, através do traço dos cartunistas não só do Brasil, mas de todo o mundo.

Em 30 anos o Salão recebeu trabalhos de 65 países dos cinco continentes, a saber: África – Angola, Egito e Moçambique; América Central – Costa Rica, Cuba, El Salvador e Nicarágua; América do Norte – Canadá, Estados Unidos e México; América do Sul – Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela; Ásia – Casaquistão, China, Coréia do Sul, Filipinas, Índia, Irã, Israel, Japão, Líbano, Mongólia, Paquistão, Indonésia, Taiwan, Turquia; Europa – Alemanha, Armênia, Áustria, Bélgica, Bósnia, Bulgária, Chipre, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Finlândia, França, Grã-Bretanha, Grécia, Holanda, Hungria, Itália, Iugoslávia, Lituânia, Macedônia, Noruega, Polônia, Portugal, República Tcheca, Romênia, Rússia, Suíça e Ucrânia; Oceania – Austrália.

O primeiro Salão de Humor de Piracicaba aconteceu em agosto de 1974, em plena ditadura militar, justamente no ano em que a censura se acentuava e o regime militar ganhava novos contornos. O general Ernesto Geisel, um dos mentores da Revolução de 1964, acabara de assumir a Presidência da República, dando início a um novo ciclo ditatorial. No mesmo ano, os cartunistas Jaguar e Fortuna fizeram o regulamento do primeiro Salão de Humor de Piracicaba, adaptando o regulamento dos salões internacionais de Montreal e Bordighera8.

Parecia muito ousado uma cidade do interior abrigar uma mostra que traria a público cartuns proibidos de circular por ordem da censura oficial. Se de um lado existia o risco da apreensão do material e do indiciamento dos organizadores e cartunistas, no verso da

8 Todas as informações aqui citadas sobre o início do Salão de Humor de Piracicaba são do livro publicado em 2003 e lançado na abertura do XXX Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Referência: MACHADO, José; GAUDENCI Junior, Heitor. Piracicaba 30 anos de humor. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado:

Instituto do Memorial de Artes Gráficas do Brasil, 2003.

medalha estava a expectativa da população, da imprensa e dos visitantes em ver as peças que levavam temor ao governo.

E o primeiro Salão foi uma festa, até o representante do Exército de Piracicaba estava presente, causando uma certa apreensão, superada em parte quando ele declarou que ali se encontrava por curiosidade, e não a trabalho.

Ao sair, o capitão reforçou que achou o humor de bom gosto, nada de ofensivo, cumprimentando todos os cartunistas e organizadores presentes.

Um investigador da polícia era o representante do DOI-Codi (Destacamento de Operações Internas – Centro de Operações de Defesa Interna), fez vista grossa, mas não cessava de pedir aos organizadores que encerrassem

“aquilo” o mais rápido possível (Maffeis Netto apud Machado & Gaudenci, 2003, p.26).

O primeiro Salão foi cercado de muita expectativa, até porque Piracicaba já tivera um prefeito, Francisco Salgot Castillon, cassado pelo regime militar em 1969 devido a dissensões políticas locais. As denúncias contra Salgot não iam além dos fatos corriqueiros da administração, porém, alavancadas por fotos de um protesto de funcionários da Estrada de Ferro Sorocabana, onde ele aparecia deitado sobre os trilhos, em companhia de grevistas. Se um fato como esse tinha servido para cassar um prefeito que mal tinha começado sua administração, havia razões de sobra para temer pela sorte dos organizadores de uma mostra que inevitavelmente traria críticas ao governo (Ibid).

Dificilmente o Salão teria continuado se fosse realizado numa capital, mas Piracicaba apostou que num centro geograficamente neutro a iniciativa podia dar certo. Na verdade, o sucesso foi além da expectativa dos organizadores e dos cartunistas participantes, o terceiro Salão já foi internacional e Piracicaba se projetou como uma espécie de capital do humor, para onde, uma vez por ano, convergiam as obras dos mestres do cartunismo, disputando espaço com os novatos, ou os ainda não famosos, que passaram a ver ali uma forma de se projetarem no difícil mundo da saborosa arte do humor (Ibid).

Em 1974, Piracicaba ainda não havia inaugurado seu teatro municipal (que viria a abrigar a mostra a partir de 1977), e o Salão acabou sendo montado na Praça José Bonifácio, a principal da cidade, em prédio cujo térreo estava destinado à instalação do Banco

Português, que cedeu o espaço a pedido do João Sachs, farmacêutico e na época vereador (Ibid, p.29).

“Obter um espaço para o Salão não foi fácil. O local ideal seria o Teatro São José, do Clube Coronel Barbosa, negado devido às “características da iniciativa”. É preciso entender que na época Piracicaba era uma cidade de cultura bastante elitizada, onde, é claro, a arte (pintura) clássica era praticamente a única respeitada devido à tradição de seus reconhecidos e tradicionais pintores (Ibid, p.29).

Maffeis Netto conta que o Salão de Arte Contemporânea procurava um lugar ao sol. Nesse quadro, seria realmente difícil abrir espaço para o cartunismo, tanto que, para conseguir liberar o salão do Banco Português, João Sachs usou de artimanha, afirmando que os organizadores eram alunos de Archimedes Dutra, um dos pintores mais tradicionais de Piracicaba, com formação na Itália e idealizador da Casa de Artes Plásticas da cidade. A referência serviu para obter a cessão, os protestos vieram quando já era tarde demais para revertê-la e os organizadores tiveram de assumir literalmente todas as responsabilidades e riscos decorrentes do evento (Machado & Gaudenci, 2003, p.31).

A idéia de realizar uma mostra de humor havia surgido dois anos antes, quando o jornalista Roberto Antonio Cera e o artista plástico Ermelindo Nardin, inspirados por uma exposição realizada pelo Colégio Mackenzie, tiveram a idéia de incluir no Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba (S.A.C.) uma sala dedicada aos cartunistas brasileiros.

Segundo Nardin9, a idéia nasceu de conversas com o jornalista Roberto A.

Cera, da comissão organizadora do Salão de Arte Contemporânea. “Procurávamos abrir novos espaços dentro do S.A.C. para outras formas de visualidade. Pensávamos em várias possibilidades, mas o enfoque foi o desenho de humor, pela excelente qualidade das artes

9 Nardin, Ermelindo In: MACHADO, José; GAUDENCI Junior, Heitor. Piracicaba 30 anos de humor. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Instituto do Memorial de Artes Gráficas do Brasil, 2003, p.27.

gráficas produzidas no país, e que àquele momento poderiam trazer transformações ao salão, apontando inclusive para novos conceitos.” Em 1967, o S.A.C. apresentou obras do Museu de Arte Contemporânea da USP (Universidade de São Paulo), na época dirigido pelo professor Walter Zanini, especialmente a exposição Gravuras Nacionais e Estrangeiras, com obras de Picasso, Chagall, Rotluff, Marcelo Grassmann, Samico, Roberto Magalhães e outros.

Também os desenhos de “Di Cavalcanti Jovem” foram mostrados em exposições na ESALQ (Escola Superior de Agronomia Luís de Queiroz), em Piracicaba.

Foi com esse olhar que, em 1972 Roberto Antonio Cera e Ermelindo Nardin, em visita à redação do Pasquim, no Rio de Janeiro, onde trabalhavam grandes desenhistas de humor, os convidaram a expor em Piracicaba. “Nosso projeto era fazer, paralela ao S.A.C., uma exposição de artistas que apresentassem uma visão do desenho de humor no Brasil, com obras originais e publicações. E, além disso, trazer para dentro do S.A.C., através do traço, as irreverências e críticas ao momento político que vivíamos então. Essas foram as primeiras idéias e os primeiros passos para a realização do Salão de Humor de Piracicaba” (Idem nota 9).

Foram para o Rio de Janeiro, onde Nardin tinha bons relacionamentos, e na sede de O Pasquim expuseram a idéia a Jaguar, que prometeu selecionar desenhos para a exposição e, ao mesmo tempo, autorizou por escrito que a Editora Abril entregasse aos piracicabanos originais de desenhos que havia feito para a Revista Realidade. A notícia foi divulgada em Piracicaba, porém a mostra nunca aconteceu. A Abril não liberou os desenhos, por serem de “sua propriedade”, e nem os desenhos do Pasquim, prometidos por Jaguar, foram retirados.

Com a posse do prefeito Adilson Maluf (1973) e a nomeação de Luiz Antonio Lopes Fagundes para a Secretaria Municipal de Turismo, o Salão começou a tomar corpo através do trabalho de Alceu Marozzi Righeto, professor e jornalista, e de Adolpho Queiroz,

que se iniciava na carreira de jornalista. Na época, como em todas as cidades brasileiras, o conservadorismo era contestado por grupos que não se moldavam ao discurso dos militares.

Membros da “nova” imprensa nativa costumavam se reunir no Bule, um café localizado no centro da cidade, ao lado de uma banca de revistas, no mesmo prédio do tradicional Clube Coronel Barbosa, onde se localiza também a Rádio Difusora (Machado & Gaudenci, 2003, p.32).

Nesse local eram debatidos os problemas da cidade e do mundo. Todos eram fiéis leitores do Pasquim, Jornal da Tarde e Última Hora e severos críticos do governo – federal, estadual e municipal. Ali se encontravam também Cera, bancário de profissão e jornalista por vocação, e Nardin, que era de família tradicional, artista plástico de sucesso, comprometido com a arte contemporânea, mas não tinha nenhum vínculo com o cartum político. Alceu era contestador, um educador sempre à procura de inovação. Ao lado de Adolpho Queiroz e Carlos Colognese, também iniciante no jornalismo que depois foi fazer televisão e marketing em São Paulo, chegou a editar a Aldeia, uma revista-tablóide de linguagem coloquial e atrevida, incomum na época. Adolpho Queiroz começou cedo na redação de jornal. Amigo do professor de economia Barjas Negri, logo mostrou fortes tendências para a análise política; com Barjas, havia deflagrado uma dura batalha para democratizar a Universidade Metodista, então em fase de instalação. Luiz Antonio Lopes Fagundes, secretário municipal de Turismo e membro da sociedade piracicabana, era também bastante jovem e entusiasta e foi um dos incentivadores do Salão.

A proibição da apresentação do tipo de arte do Salão de Humor ao lado da arte tradicional típica do Salão de Arte Contemporânea, remete ao pensamento de Pierre Bourdieu exposto no capítulo anterior. Bourdieu (1996, p.181) considera que:

Não é suficiente dizer que a história do campo é a história da luta pelo monopólio da imposição das categorias de percepção e de apreciação legítimas; é a própria luta que faz a história do campo; é pela luta que ele se temporaliza. O envelhecimento dos autores, das obras ou das escolas é coisa

muito diferente do produto de um deslizamento mecânico para o passado:

engendra-se no combate entre aqueles que marcaram época e que lutam para perdurar e aqueles que não podem marcar época por sua vez sem expulsar o passado; aqueles que têm interesse em deter o tempo, em eternizar o estado presente; entre os dominantes que pactuam com a continuidade, a identidade, a reprodução, e os dominados, os recém-chegados, que têm interesse na descontinuidade, na ruptura, na diferença, na revolução. Marcar época é, inseparavelmente, fazer existir uma nova posição para além das posições estabelecidas, na dianteira dessas posições, na vanguarda, e, introduzindo a diferença, produzir o tempo.

Podemos relacionar a afirmação de Bourdieu aos acontecimentos que marcaram o início do Salão de Humor – a rejeição do S.A.C., a falta de apoio, a busca de incentivadores. Mas nada disso fez com que os “jovens, recém-chegados” desistissem de derrubar as barreiras e mostrar uma nova identidade através da arte gráfica.

Influenciados ou não pela tentativa da mostra de cartunismo no Salão de Arte Contemporânea, em 1974 o grupo formado por Alceu, Adolpho e Colognese resolveu criar o Salão de Humor de Piracicaba, mas para fazê-lo teriam de convencer os profissionais do Pasquim a participar do evento. Fizeram um primeiro contato com o jornalista José Maria do Prado, do Jornal Última Hora, que agendou uma reunião do grupo com Zélio Alves Pinto, cartunista de São Paulo ligado ao Pasquim. Em seu ateliê, Zélio deu o pontapé inicial: além de telefonar para o Rio de Janeiro e marcar o encontro tão almejado, prontificou-se a fazer o cartaz do primeiro Salão, caso ele viesse a se realizar.

Alceu conta que “a viagem até o Rio de Janeiro foi antológica. Da prefeitura, através do chefe de gabinete Luiz Mattiazo – um funcionário de carreira costumeiramente indicado para responder por cargos de confiança e a quem Alceu dá o crédito pela viabilização do Salão – tiveram a promessa de que a iniciativa poderia contar com a verba de uma mostra de orquídeas não realizada e a cessão de um automóvel Galaxie para a viagem”

(Machado & Gaudenci, 2003, p.35).

Com isso, foram para o Rio levando na bagagem a convicção de conseguir seu objetivo. Quem marcou o encontro no período da manhã não estava familiarizado com os hábitos notívagos de Millôr Fernandes, acostumado a comparecer a compromissos somente à tarde. O primeiro contato na redação do Pasquim foi com Paulo Francis10, que ouviu e pouco falou. Com Millôr, embora simpático, a situação não foi muito diferente: “Salão de Humor, em Piracicaba... onde é que fica?” E Paulo Francis salvou o dia: “Ô, Millôr, fica em São

10 Paulo Francis apud MACHADO, José; GAUDENCI Junior, Heitor. Piracicaba 30 anos de humor. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Instituto do Memorial de Artes Gráficas do Brasil, 2003, p.37.

Paulo, o Estado mais capitalista do Brasil, e os rapazes estão certos11. Você nunca participou de mostra alguma, e acha que o pessoal sabe quem é quem, o que está acontecendo. Isto tudo que estamos fazendo é elitismo; precisa mostrar, aparecer junto ao povo, ou você acha que alguém conhece alguma coisa neste país?...”

A apreensão inicial, de saber quem eram os jovens que desejavam criar, numa cidade do interior de São Paulo, um Salão de Humor que melhor caberia numa cidade grande, começou a ceder. Millôr Fernandes ponderou que talvez fosse a hora de os cartuns deixarem de ser elaborados apenas para publicação, passando a ocupar um novo espaço. Afinal, tratava-se de uma forma de arte expressionista, e, como tal, um salão nacional, tratava-se destratava-se certo, a exemplo do que acontecia nos principais centros de arte do mundo, acabaria definindo os clássicos do cartunismo e do humor brasileiros. Millôr acabou endossando o Salão e indicou Zélio, que morava em São Paulo, para fazer a intermediação entre os humoristas do Rio e os organizadores de Piracicaba (Machado & Gaudenci, 2003, p.37).

Esse contato deu início a uma sólida amizade de Piracicaba com os cartunistas mais festejados do Brasil. Nestes 30 anos, muita coisa mudou. Alceu Righeto, em 1977, sucedeu Luiz Antonio Lopes Fagundes como secretário municipal de Turismo e inaugurou o Teatro Municipal de Piracicaba, que passaria a abrigar o Salão de Humor. Depois, devido a desentendimentos com o prefeito, desligou-se do cargo e passou a dedicar-se ao ensino, ao jornalismo e ao radialismo (Ibid, p.37).

Em 1976, Luiz Antonio Lopes Fagundes, falando como secretário de Turismo de Piracicaba, comentou que, quando procurado para oficializar o primeiro Salão de Humor, teve um momento de hesitação, superado pela possibilidade de trazer para a região novos valores culturais, até então pouco destacados pela população. Não imaginava que o Salão de Piracicaba conseguisse transformar-se em ponto de referência do humor em todo o País. O Departamento (depois Secretaria) Municipal de Turismo assumiu o evento com o objetivo de divulgar a cidade, e o Salão de Humor, apesar de ter tido momentos críticos em seu início, superou-os justamente porque foi reconhecido em todo o Brasil, transformando-se num dos mais poderosos investimentos culturais isentos de censura realizados no País. Fagundes define o humor como “a arte das artes, que conseguiu ultrapassar as simpatias da minha cidade, e as intenções de revigorá-lo fazem parte do projeto para que ele consiga ser o tradutor do momento histórico do pensamento brasileiro” (Ibid, p.38).

11 Piracicaba é conhecida como a cidade mais capitalista do Brasil, por ter sido a primeira cidade brasileira a implantar o sistema de pagamento salarial.

O 1º Salão contou com a participação de figuras que ainda hoje são míticas nas artes gráficas brasileiras: Millôr, Ziraldo, Zélio, Jaguar, Fortuna, Ciça, que eram procurados para autógrafos no livro Sem Sahida, recém-lançado por Zélio. É claro que o apoio dado à iniciativa pela grande imprensa tinha relação com a presença desses mestres, ao que se somava a expectativa de o Salão ter suas portas lacradas já no primeiro dia. Por quê? Basta ver o cartum premiado (1º lugar) naquele ano, de Laerte Coutinho, de São Paulo/SP, inspirado na conhecida fábula de Hans Christian Andersen O Rei Está Nu, transformada em saborosa crítica ao regime militar, como mostra a Figura 1.

O 1º Salão ganhou peso no traço marcante e essencialmente crítico da charge.

Críticas contra o governo militar e o regime ditatorial foram elaboradas e premiadas nesse ano e nos seguintes, o Salão era de humor mas com grande carga crítica. Apesar de todos os acontecimentos nacionais, prevaleceu o conteúdo crítico.

Figura 1 – 1º Lugar Charge 1974

Autor/local: Laerte Coutinho/São Paulo-SP Ano/Salão 1974/1º Salão

Tema retratado: Tortura

Objetos retratados: Objetos de tortura Tamanho 30x40cm

Técnica Nanquim

Esta charge delata o período de perseguição e repressão do regime militar brasileiro fazendo alusão a fabula européia O Rei Está Nu, onde o personagem principal é

torturado até afirmar que o seu suposto ‘rei’ estava vestido. Mas que ‘rei’ seria este? E por que teria de afirmar que ele estava vestido?

Escancarada a ditadura firmou-se. A tortura foi o seu instrumento extremo de coerção e o extermínio, o último recurso da repressão política que o Ato Institucional nº5 libertou das amarras da legalidade. A ditadura envergonhada foi substituída por um regime a um só tempo anárquico nos quartéis e violento nas prisões. Foram os anos de chumbo (Gaspari, 2002, p.13).

Durante a ditadura militar no Brasil, o período de 1969 a 1974 foi a época das alegrias da conquista da Copa do Mundo de 1970, do aparecimento da televisão em cores, das inéditas taxas de crescimento econômico e de um regime de pleno emprego, o chamado milagre brasileiro. O milagre brasileiro e os anos de chumbo foram simultâneos. Ambos reais, coexistiram negando-se.

Mesmo nos chamados anos de chumbo, de censura acirrada, o 1º Salão foi realizado, e sua primeira comissão julgadora, portanto histórica, foi formada por Millôr Fernandes, Ziraldo, Zélio, Jaguar e Fortuna, que selecionaram 150 cartuns entre os 700 inscritos. Em 2º lugar ficou o cartum de Hermógenes Gomes Magalhães, Fortaleza/CE, em que um personagem que está tentando suicídio no mundo de guerra com armas apontadas para todos os lados, e em 3º lugar, o cartum sobre desmatamento de Luiz Renato Bittencourt Silva, Salvador/BA, no qual aves amarram machados, substituindo os galhos da árvore, para poderem se apoiar, como podemos observar nas Figuras 2 e 3.

A primeira edição teve repercussão favorável – e a segunda ganharia inovações que dariam mais peso ao evento e passariam a nortear o trabalho. Seguindo sugestão de Zélio Alves Pinto, tido e havido como o “padrinho do Salão” desde o primeiro momento, a promoção ganharia amplitude e investimento cultural, com shows e mostras paralelas, e em especial uma abertura para a troca de informações com o cartunismo internacional (Machado

& Gaudenci, 2003, p.38).

Figura 2 - 1º Lugar Cartum 1974

Autor/local: Hermógenes Gomes Magalhães/Fortaleza-CE Ano/Salão 1974/1º Salão

Tema retratado: Suicídio Objetos retratados: Armas Tamanho 30x40cm

Técnica Nanquim

Hermógenes deixa claro a insatisfação humana em viver em um planeta ladeado por armas de fogo, onde o homem busca o suicídio enquanto é protegido pelas mesmas armas.

Figura 3 – 3º Lugar Cartum 1974

Autor/local: Luis Renato Bittencourt Silva/Salvador-BA Ano/Salão 1974/1º Salão

Tema retratado: Meio ambiente

Objetos retratados: Aves, árvores e machado

Objetos retratados: Aves, árvores e machado

No documento DANIELLE DE MARCHI TOZATTI (páginas 62-88)

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