3. A CIDADE E A ESCOLA
5.1 O incidente de percurso
“Quando não houver saída, mesmo sem amor, sem direção, ainda há de haver esperança, é caminhando que se faz o caminho.” ( Titãs – Enquanto houver sol)
Durante a realização das entrevistas, surpreendi-me com os comentários dos professores sobre a violência na Escola.
Constatei que ali ocorrem constantemente agressões verbais entre alunos e entre alunos e professores, agressão física entre alunos, atitudes de desrespeito ao patrimônio, à instituição.
Os alunos não têm respeito pelos professores e também vice-versa. Preocupei-me não só pelo que representam, mas pelo respeito de um para com o outro. Alunos atiram mapas e carteiras pelas janelas, usam drogas e bebidas dentro da Escola, vão armados e ameaçam colegas e professores em sala de aula.
Não pensava que chegasse a esse ponto, por se tratar de uma escola central, de uma cidade do Interior. Eu via, anteriormente, apenas o lado bonito da cidade, a limpeza das ruas centrais, a beleza dos canteiros, o ambiente familiar da praça central, nas noites de domingo, com a apresentação da Banda Municipal, o belo e imponente prédio onde funciona a Escola.
Vejo que tinha uma visão romântica e ingênua, pois naquele prédio, na escola, tombada como Monumento Histórico e Cultural, ocorrem situações tão sérias e graves, discrepantes daquilo que eu visualizava.
Os professores e demais funcionários dessa Escola são ainda vistos como “beneficiados” por fazerem parte de uma “Escola Tradicional” e bem localizada na cidade.
Percebo que não tive, em minha formação e em minha vivência, requisitos que me habilitassem a lidar com esses problemas, com essas situações. Sinto-me distante e incapaz de lidar e enfrentar essa realidade. Vejo, então, que minha formação como educadora não me preparou para atuar nessa escola real.
Vi a dificuldade e o medo das pessoas que trabalham nessas condições e não sei como e o que fazer para auxiliá-las. O Diretor escolar necessita aprender a agir nessa situação. A preparação que recebe para lidar com tal situação é insuficiente e ele precisa lançar mão de suas experiências para enfrentar novas situações.
O Diretor de escola deve estar preparado para agir nessas situações tão atuais, relacionadas a uma problemática social complexa. Mas, como se preparar para tal, se nos cursos de formação esses fatos, na maioria das vezes, nem são comentados?!
Enfim, recuei e resisti. Imaginando que tal estudo só pudesse realizar-se “in loco” e pessoalmente, neguei-me a caracterizar os bairros de origem dos alunos, não por desinteresse ou falta de vontade, mas por medo de envolver-me, de aproximar-me dessa realidade.
Sendo uma figura pública, numa cidade pequena e, externa a ela, qualquer busca de informações em órgãos públicos seriam acompanhados pela comunidade. Tive receio de que à medida
que eu começasse a verificar e buscar maiores detalhes, corresse riscos. E desisti.
Não foi fácil chegar a essa conclusão, aceitar meu limite e meu medo. Ou antes disso, descobrir que o que me afastava desse trabalho era o medo. Porém, foi meu limite!
Senti-me impotente e incapaz de atuar nessas condições. Vi que não estava apta a trabalhar com aquela realidade. Descobri que tinha muito a aprender.
Diante da situação de violência que ocorre na Escola e que só pude perceber na última participação que tive no grupo, na ocasião da reunião de replanejamento, retomei o que estava escrito e inseri um outro olhar.
Onde estava a Diretora, que não participou daquele replanejamento? Será que pela sua ausência o assunto aflorou?
Pensando nessas questões reflito então:
a diretora mostrou-se com as leituras atualizadas realmente, visto que se preparava para enfrentar o Concurso Público para o Cargo de Supervisor de Ensino. Porém, sua prática não refletia suas leituras.
Ela não criou vínculo com os professores, salvo com um pequeno grupo, com o qual encontrou afinidades pessoais e maior aproximação. Mas, esse grupo, durante a entrevista e a reunião de replanejamento, fez reinvidicações, cobrou, analisou a postura da Diretora. Grupo que percebe o distanciamento entre o discurso e a atuação.
Para com o Professor coordenador, a Diretora utiliza-se de seu poder instituído, determinando o que ele deve fazer. Porém, não percebe que, com todos os erros e dificuldades, sem a devida formação pedagógica, é ele quem está mais próximo do grupo de professores e quem ouve e participa da realidade do cotidiano da Escola.
O professor coordenador mantém o vínculo com os professores e estabelece a interdependência das funções. Enquanto o grupo de professores contratados (marginalizados) busca nele o apoio para a execução de suas funções e resolução dos problemas; por outro lado disponibilizam a ele o apoio e aceitação para que também exercite sua função.
Já os professores efetivos (estabelecidos) conseguem dialogar e compartilhar suas dificuldades com ele, buscando nele o respaldo para suas atuações em sala de aula e vendo-o como mediador entre eles e a Direção, na resolução de suas dificuldades.
Não é à Diretora que eles recorrem para a resolução de seus problemas. Não é com ela que o diálogo se estabelece.
Ela “perdeu” a oportunidade de construir seu poder na Escola. Ela não conseguiu manter as expectativas e a motivação do grupo, pois, na verdade, queria ir mais longe e a sua função seria o trampolim para alcançar sua pretensão.
A diretora poderia ter seu poder instituído configurado a partir da construção do poder instituinte, visto que o grupo a acolheu com disposição, considerando que ela iria, junto com ele, trabalhar na expectativa de melhoria da Escola. Os professores viam na figura da Diretora alguém que iria compactuar com eles, fazer parte do grupo, participar de seus anseios e possibilitar suas conquistas.
Nem a Diretora, nem o grupo estão prontos para lidar com a realidade social complexa que se apresenta na Escola.
A proposta da Escola e o encaminhamento da mesma está distante do contexto social. Um dos maiores desafios da Escola, bem com de seus diretores e demais componentes, está em criar e propor atividades que levem os alunos a verem o mundo, não pronto e estabelecido, mas como tendo participantes e construtores desse mundo. Procurar desenvolver a auto-estima, através da vivência do que é ser sujeito, desenvolver habilidades, saber fazer, possibilitar a
escolha e a construção de um caminho, de uma vida em solidariedade com o outro.
A possibilidade do Diretor em efetivar sua liderança, perpassa pela sua capacidade de conhecer e envolver-se com o contexto da Escola e com todos os seus componentes. Vai além do trabalho, da obrigação, da execução. Envolve sentir, amar, acreditar.