No prólogo aoEcce Homo,Nietzsche escreve:
A realidade foi despojada de seu valor, seu sentido, sua veracidade, na medida em que se forjou um mundo ideal... O “mundo verdadeiro” e o
“mundo aparente” — leia-se: o mundo forjado e a realidade... A mentira do ideal foi até agora a maldição sobre a realidade, através dela a humanidade mesma tornou-se mendaz e falsa até seus instintos mais básicos — a ponto de adorar os valores inversos aos únicos que lhe garantiriam o florescimento, o futuro, o elevado direito ao futuro.
(NIETZSCHE, 2008, p. 10)
O mundo forjado são os conceitos-múmia que os filósofos desde sempre usaram para rebaixar a vida, essa grande razão e verdadeira realidade. É o operar dualista do metafísico. O mundo forjado é o mundo da coisa em si, regente de tudo que aparece como fenômeno (realidade).
Na história do pensamento, muitos filósofos acreditaram poder chegar à coisa em si através da razão (aquele instrumento do corpo). Kant surge justamente na tentativa de
romper com essa expectativa. Ele estará aliado com o iluminismo setecentista que via na razão tanto um princípio de crítica da tradição quanto de renovação do homem.
Essas duas instâncias — coisa em si e realidade —têm no idioma kantiano a seguinte significação: númeno e fenômeno. O movimento crítico de Kant inicia-se quando ele propõe a impossibilidade de alcançarmos a coisa em si (o númeno, que só poderá ser pensado, mas não conhecido). Tudo o que restará para nós será o mundo dos fenômenos (o que experimentamos e pode ser conhecido objetivamente na relação sujeito-objeto). E porque pressupõe essa objetividade, Kant pergunta: que condições tornam possível o conhecimento?
É na matemática e na física que ele buscará resposta, através da hipótese dos juízos sintéticos a priori com a qual irá trabalhar naCrítica da Razão Pura. Assim, os objetos, ao sujeito do conhecimento, se dão de forma esquemática, em um processo formal semelhante ao da geometria.
Aos olhos de Nietzsche, a pergunta certa a se fazer não é pela possibilidade de tais juízos, mas por que devemos crer neles. Resposta: porque eles são necessários para a conservação de um modo de vida que não se abre em peixes, em novas possibilidades de ser.
EmO Anticristo, ele questiona esse “sucesso” crítico de Kant:
Qual o porquê de toda alegria que se estendeu pelo universo erudito da Alemanha — que é formado em três quartos por filhos de pastores e professores — com o aparecimento de Kant? Por que ainda ecoa na convicção alemã que com Kant houve uma mudança para melhor? (...) Abria-se um caminho que conduzia de volta ao velho ideal; os conceitos de “mundo verdadeiro” e de moral como essência do mundo (— os dois erros mais viciosos que já existiram!) estavam, uma vez mais, graças a um ceticismo sutil e astucioso, se não demonstráveis, pelo menos irrefutáveis… (NIETZSCHE, 2017b, p. 10)
Kant, segundo Nietzsche, estaria por reviver os ídolos de outrora. Sua crítica ao ideal da razão é feita em termos ideais, se lança contra a tradição mas a repete. A pequena razão será julgada pela também pequena razão. Mesmo que considere a coisa em si inalcançável, Kant ainda a considera como o verdadeiro mundo, sua ideia torna-se um consolo, mais uma moral que atuará contra a vida enquanto autossuperação: “O mundo verdadeiro, inalcançável, indemonstrável, impossível de ser prometido, mas, já enquanto pensamento, um consolo, uma obrigação, um imperativo” (NIETZSCHE, 2017a, p. 25).
O imperativo é análogo a um mandamento bíblico, por isso há sangue de teólogo nas veias de Kant. Seu imperativo categórico seria mais uma tentativa de mascarar a origem do que chamamos verdade: ao exigir que toda ação vise uma universalização, ele tenta esconder a “pessoalidade” que há nela, o desejo íntimo do pensador, seu preconceito.
Talvez nosso médico tenha se desiludido com seus pacientes, como se falasse: “Eu buscava grandes homens, e sempre achei apenas os macacos de seu ideal” (NIETZSCHE, 2017a, p. 13). É chegada a hora de ilustrar como Nietzsche se coloca como grande homem
— criador.
CAPÍTULO 3
E AGORA, JOSÉ?: O FILÓSOFO COMO POETA CRIADOR DE VALORES
E agora, José? Agora que a luz dos valores vigentes enfraqueceu, que a noite esfriou, que não há mais portão para abrir, que o fumo, a bebida e o carinho mudaram de sentido, que sozinhos no escuro marchamos — e agora? para onde?5
Depois de trabalhar com os valores vigentes, considerando-os (em seu lombo de camelo) e golpeando-os a fim de distanciar-se dos mesmos (liberdade de leão), o que se segue? É chegada a hora da mais alta tarefa do filósofo, a de criar valores. É tempo dele tornar-se criança.
Mas em que consiste, de fato, essa tarefa? Nietzsche desenvolve essa ideia emAlém do bem e do mal:
Os autênticos filósofos são comandantes e legisladores: eles dizem “assim deve ser!”, eles determinam o para onde? e para quê? do ser humano, e nisso têm a seu dispor o trabalho prévio de todos os trabalhadores filosóficos, de todos os subjugadores do passado — estendem a mão criadora para o futuro, e tudo que é e foi torna-se para eles um meio, um instrumento, um martelo. Seu “conhecer” é criar, seu criar é legislar, sua vontade de verdade é — vontade de poder. (NIETZSCHE, 2005a, pp.
105-106)
O que impele o filósofo autêntico é algo mais fundamental que a vontade de verdade. Ele não deseja esconder o som de seus passos, caminhar faceiro como um gato— essa timidez é típica de quem está à espreita, de quem contempla e deseja tornar tudo pensável, especulativo, a fim de livrar-se da possibilidade do toque. Os sentidos nos levam ao erro!
O soar dos passos, por outro lado, revela o que há de mais basilar na realidade: a vontade criadora. Todo conhecimento será expressão dela. O filósofo do futuro faz questão de bater os pés, ele está tão leve que sapateia. Não sente mais culpa por acordar os vizinhos. Ele próprio é um barulho, é uma dinamite.
Nietzsche deixou sua legislação nos diversos textos que produziu. Vamos, pois, nos debruçar diante de alguns deles, mais precisamente nos que estão sob a forma de poemas,
5 Referência ao poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade. Disponível em: ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. 1a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. pp. 28-29.
que ainda ocupam um lugar secundário em sua obra. Nosso filósofo criador assume a máscara de poeta fazedor de versos.
Antes, porém, é preciso tresvalorar a própria figura do criador.