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2 OS QUATRO CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA PSICANÁLISE: O

2.1. O conceito de inconsciente

2.1.2. O inconsciente em Lacan

A formulação do conceito de inconsciente na obra de Lacan passa por três grandes viradas, a ponto de se configurarem diferentes noções de inconsciente. Para não me prolongar em grandes explicações, vou aqui adotar a seguinte nomenclatura, disseminada amplamente na literatura psicanalítica: inconsciente linguageiro, inconsciente transferencial e inconsciente real.

Por inconsciente linguageiro compreende-se o período inicial da formulação de Lacan, mais especificamente formulado nos dez primeiros anos de seu Seminário. Trata-se do momento em que, influenciado pela Linguística estruturalista, desenvolveu o postulado de que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” (LACAN, 1953/1998). O início desse processo costuma ser remetido ao texto Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise Lacan (1953/1998), no qual toma a estrutura inconsciente como análoga ao sonho, o qual

tem a estrutura de uma frase, ou melhor, atendo-nos à sua letra, de um rébus, isto é, de uma escrita da qual o sonho da criança representaria a ideografia primordial, e que reproduz no adulto o emprego fonético e simbólico, simultaneamente, dos elementos significantes que tanto encontramos nos hieróglifos do antigo Egito quanto nos caracteres cujo uso a China conserva. (LACAN, 1953/1998, p.268)

Nessa concepção, o funcionamento do inconsciente está baseado em duas noções, ambas importadas do trabalho de Roman Jakobson (1963), a saber: a metáfora (a substituição de uma palavra por outra) e a metonímia (o deslizamento significante entre as palavras).

De acordo com o linguista, Lacan considera o processo de condensação do sonho e a formação do sintoma enquanto processos metafóricos. A metáfora é uma forma discursiva que está fundada em relações de similaridade, de substituição, “uma palavra por outra, eis a fórmula da metáfora” (LACAN, 1966b/1998, p. 510) e está no eixo paradigmático.

a metáfora se coloca no ponto exato em que o sentido se produz no não-senso, isto é, na passagem sobre a qual Freud descobriu que, transposta às avessas, dá lugar à palavra que é, em francês, ‘a palavra’ por excelência, a palavra que não tem outro patrocínio senão o significante da espirituosidade, e onde se vislumbra que é seu próprio destino que o homem desafia através da derrisão do significante (LACAN, 1966b/1998/ p. 512).

Já o processo de deslocamento do sonho e o processo do desejo são processos metonímicos. A metonímia está no eixo sintagmático, fundada nas relações de contiguidade, combinação, e é elaborada por meio de um processo de transferência de denominação, “a parte tomada pelo todo” (LACAN 1966b/1998, p. 509).

Essa consideração é relevante para refletirmos a respeito do manejo, posto que, a partir dela, vê-se que um dado elemento significativo pode ora aparecer no lugar de outro (processo metafórico), ora aparecer fundido com outro (processo metonímico).

Por inconsciente transferencial compreende-se a formulação elaborada no período equivalente aos próximos nove anos, do Seminário XI Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise ao Seminário XIX Ou pior. Esse momento é caro ao presente trabalho uma vez que permite compreender a relação do conceito de transferência como resistência e, nela, a predominância da presentificação da realidade sexual do inconsciente na forma do advento do objeto da pulsão, grafado por Lacan como (a, pequeno a).

Ressalvando que o conceito de pulsão será mais bem trabalhado no item 3.2 deste capítulo, cumpre, neste momento, esclarecer que, nesse tempo da elaboração, o inconsciente funcionava como uma espécie de reservatório dos frangalhos da infância de um determinado sujeito que, por não ter podido simbolizá-los, era obrigado a colocá-los em cena na transferência. Percebe-se, portando, que o texto de maior influência para Lacan foi Freud Além do Princípio do Prazer (1920), no qual o psicanalista se dedica à compreensão do que nomeia como “compulsão à repetição”.

Explicando como eventos desagradáveis acabam se impondo à vontade racional de alguém, Freud os descreve como fruto de ações de pessoas cuja neurose os leva a “comportar- se de modo puramente infantil”. Ao invés de emitir um julgamento moral sobre esses comportamentos, analisa-os remetendo-os a um modo de expressão do inconsciente que busca dar a ver “os traços de memória reprimidos de suas experiências primevas” (FREUD, 1920/1987, p. 53).

Essa compreensão é relevante para pensar a respeito do manejo, posto que, a partir dela, vê-se que um dado elemento significativo tende a se repetir continuamente, seguindo padrões que, ao menos em parte, são passíveis de cálculo. Assim, por exemplo, se uma pessoa tende a apagar “sem querer” um arquivo após ter sido criticado, é bom solicitar a confecção de uma cópia de segurança antes de submeter novas críticas.

Por inconsciente real compreende-se a formulação elaborada a partir do Seminário XX Mais Ainda, desde quando o autor passa, cada vez mais, a manifestar sua falta de

esperança no fato de que o inconsciente possa ser decifrado. A partir desse momento, o conceito de transferência – fim último desta tese – é reformulado radicalmente.

Nesse Seminário, Lacan faz uma torção fundamental na noção de inconsciente. O autor não mais toma o “inconsciente estruturado como uma linguagem”, mas o entende estruturado por uma linguagem.

Vocês veem que, ao conservar ainda esse como, me pego à ordem do que coloco quando digo que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Eu digo como para não dizer, sempre retorno a isto, que o inconsciente é estruturado por uma linguagem. O inconsciente é estruturado como os ajuntamentos de que se tratam na teoria dos conjuntos como sendo letras. (LACAN, 1972-1973/2008, p. 53).

Nesse momento, Lacan considera o inconsciente exterior ao sujeito suposto saber, o real como algo que irrompe, efeito de um acontecimento imprevisto e que não é passível de ser integrado em uma rede de sentidos. Quanto ao tratamento dado a ele, é preciso integrá-lo sem darmos um sentido.

No Prefácio à edição inglesa do Seminário 11, Lacan diz: “o espaço de um lapso – já não tem nenhum impacto de sentido (ou interpretação), só então temos certeza de estar no inconsciente” (LACAN, 2003, p. 567).

Não se trata mais de tentar dar sentido à realidade sexual do inconsciente, mas, sim, de colocar a nu a falta de sentido do objeto da pulsão. Essa noção é relevante para refletirmos a respeito do tema desta tese, posto que, a partir dela, vê-se que um dado elemento importante pode resistir a toda tentativa de apreensão racional. Ao invés de tentar combater esse tipo de elemento, cabe à pessoa que maneja a relação colocar-se a favor dele, transformando-o no elemento irredutível que funda o estilo.

Dados os contornos da experiência empírica que fundou a presente tese, vou privar-me de estender a reflexão a esse respeito, posto que, no material coletado para compor o corpus, não é possível ver, de forma tão nítida, o estilo singular da informante. Limitar-me-ei, no que segue, a apontar a prevalência da pulsão na transferência e, para tanto, o próximo ponto de parada é a elaboração do conceito de repetição, por sua vez, fundante do conceito de pulsão.