1. CIDADANIA E EDUCAÇÃO
1.2.4. O indivíduo em relação ao Estado: Identidade Nacional e Multiculturalismo
Pelas considerações feitas até o momento pode-se afirmar que a cidadania está ligada à relação do indivíduo ao Estado. Esta relação não se resume à condição legal.
Também não se resume a condição ética. Tampouco é uma condição ontológica de todo ser
24 No original - La ciudadanía no es simplemente un status legal definido por un conjunto de derechos y responsabilidades. Es también una identidad, - la expresión de la pertenencia a uma comunidad política
humano.
Para buscar uma nova perspectiva é preciso buscar um novo enfoque para a discussão. Nesse sentido, pode-se estabelecer que existem dois pontos de vista para a relação entre o indivíduo e o Estado. O ponto de vista do indivíduo e o ponto de vista do Estado. O primeiro ponto de vista leva a discussão do multiculturalismo.
O multiculturalismo não é uma proposta universalista que tenta unificar diversas culturas dentro de um Estado. O conceito de cidadania de Kymlicka e Norman ligado não só ao status legal, mas também à identidade, ao sentimento de pertencimento do indivíduo ao Estado vem nesse sentido. Cidadania seria uma identidade que unificaria culturas diferentes dentro de um mesmo aparelho político (Estado) através dos laços do pertencimento.
Em outro trabalho, Ciudadania multicultural (1996), Kymlicka relata a existência de duas espécies de múltiplas culturas em um Estado: a) Estados multinacionais (onde a nação significa uma comunidade histórica, mais ou menos completa institucionalmente, que ocupa um território ou uma terra natal determinada e que compartilha uma cultura e uma língua diferenciada) onde uma ou mais nações vivem dentro de um mesmo Estado, com minorias nacionais; b) Estados multiétnicos, onde a formação populacional foi efetivada pela imigração em grande escala. (Cf. KYMLICKA, 1996, 26 e Ss) Ambos enfrentam o problema de minorias de uma forma ou outra acabam tendo seus direitos suprimidos. Tal autor aponta o Brasil como um Estado multicultural e multiétnico e crítica a postura do governo brasileiro:
O Brasil tem sido especialmente insistente na hora de afirmar que não detém minorias nacionais; o certo é que o quase total extermínio de suas tribos indígenas está perigosamente perto de ratificar dita afirmação (trad. KYMLICKA, 1996, 40).25
É interessante notar que a discussão sobre multiculturalismo tem origem na Filosofia política norte-americana. Essa discussão trava-se entre as correntes de pensamento político (liberalismo e comunitarismo) e culmina nas atuais discussões sobre direitos da
25 No original - Brasil há sido especialmente insistente a la hora de afirmar que no tiene minorias nacíonales; lo cierto es que el casi total extermínio de sus tribus índias está peligrosamente cerca de ratificar dicha afirmación
minorias e ação afirmativa. A dicotomia principal é a discussão entre o liberalismo e o comunitarismo. Kymlicka amplia as correntes de pensamento da filosofia política, a partir do viés norte-americano, em 6 linhas, argumentando que a principal questão que se coloca é a da eqüidade. Para ele não se deve conceber a política de forma linear, como a clássica divisão de esquerda, direita e centro. Existem outras noções de eqüidade, também políticas, que foram sendo ignoradas pela filosofia política, mas que despertaram no interior dos movimentos sociais. Além disso, acredita que o pensamento político precisa ser categorizado de forma aberta, pronto para novas possibilidades. Enumera as principais correntes como: Utilitarismo, Liberalismo, Libertarismo, Marxismo, Comunitarismo e Feminismo. (Cf. KYMLICKA, 1990). Não cabe aqui distinguir cada uma, até mesmo porque seria impossível resumir as idéias do autor em poucas linhas. Entretanto, tal aspecto é importante para esclarecer o que se entende por multiculturalismo.
Na verdade, multiculturalismo não significa um grande consenso entre ideologias, ao contrário, mas a possibilidade de coexistência, mesmo em constante conflito, de diversos pontos de vistas culturais e políticos num mesmo Estado Nacional e as especificidades legais para tanto. Esse problema é evidente nos Estados Unidos e nos países europeus que detêm grande número de imigrantes estrangeiros em seu território. No Brasil, dentre as poucas traduções sobre o tema, destaca-se Andrea Semprini e o livro Multiculturalismo (1999), onde o autor esclarece que o multiculturalismo traz três questões que não se contrapõem, mas se complementam: a questão da diferença, o direito das minorias em relação às maiorias e, finalmente, a identidade e seu reconhecimento (Cf. SEMPRINI, 1999, 43 e Ss).
Por isso algumas propostas de educação para a cidadania buscam a identificação de parâmetros democráticos comuns, visualizando a urgência do diálogo entre culturas, o problema do etnocentrismo e da globalização. Como exemplo pode-se citar Philippe Perrenoud e François Audigier.
Hoje sonhamos com uma cidadania livremente assumida, sem doutrinação. Por muito tempo, a instrução cívica confundiu-se com a interiorização intensiva e pouco crítica de alguns princípios morais e com a preocupação de desenvolver um respeito incondicional às instituições, ao trabalho, à família, à lei, acompanhado de uma identificação com a pátria, com uma visão muito nacionalista da história e da geografia, com uma adesão ao colonialismo e, em certa medida, com o racismo e com o desprezo por outras culturas. Até
os anos 1930-1940, os manuais de leitura, assim como os de instrução cívica, eram catecismos mais ou menos laicos, dependendo do grau de separação da Igreja e do Estado.
Após a Segunda Guerra Mundial, iniciou-se uma evolução, ligada, sem dúvida, à descolonização e ao enfraquecimento - relativo do etnocentrismo dos países ocidentais (PERRENOUD, 2005, 22).
Perrenoud trabalha com a proposta de aquisição de conhecimentos básicos de ciências sociais para que os alunos possam refletir, a partir de uma razão crítica, o mundo. A proposta do professor francês resgata o ideário crítico do iluminismo e não somente o universalismo. Nesse sentido sua colaboração é interessante e importante. No mesmo sentido, outros dois autores estrangeiros seguem em sentidos opostos a discussão do multiculturalismo: J. Gimeno Sacristán e Peter Maclaren. Sacristán trabalha em seu livro Educar e conviver na cultura global (2002), a partir da dicotomia Liberalismo x Comunitarismo, principalmente no quarto capítulo denominado A cultura e a formação para a cidadania democrática. Para o autor, o ideal seria uma terceira corrente de educação cidadã, a qual chama de republicanismo cívico. Para tanto expõe a fragilidade do individualismo no liberalismo, bem como a fragilidade da dependência da comunidade no comunitarismo. Seu trabalho é inspirado nos problemas enfrentados na Espanha, inclusive onde diversas culturas convivem num único Estado (Cf. SACRISTÁN, 2002).
Outra perspectiva da discussão do multiculturalismo pode ser visto em Peter Mclaren, no livro Multiculturalismo revolucionário: pedagogia do dissenso para o novo milênio (2000). Enquanto Sacristán trabalha a perspectiva do multiculturalismo de forma teórica, Mclaren busca experiências práticas. Esse autor é muito influenciado por Paulo Freire e outros autores que buscam experiências de libertação a partir dos oprimidos. As inclusões de discussões de gênero e raça demonstram, como Kymlicka tinha apontado, que a questão política supera a linearidade direita e esquerda, instalando-se em outros espaços da vida.
Inclusive Mclaren trabalha com a cultura Hip-hop e a forma com que ela atua na construção da democracia nos guetos americanos (Cf. MCLAREN, 2000). O que essa corrente de discussão multicultural traz de novidade já pode ser percebido na expansão do significado da palavra cidadania. A política deixa de ser um espaço de discussão entre a esquerda e a direita para ser um espaço de discussão entre diversos interesses. A discussão sobre cidadania
caminha nas vertentes apontadas, mas também aparecem outras possibilidades de discussão, como a ingerência da idéia de consumidor na cidadania (Cf. CANCLINI, 2000, passim).
Todas essas discussões cercam a idéia de educar para a cidadania e influenciam a forma de se perceber o ensino de História.
O certo é que, do ponto de vista do sujeito, este precisa se identificar e se reconhecer no Estado. Sem esse pertencimento inexiste assunção de direitos e deveres ou formação de atitudes democráticas.