Buscamos evidenciar a conflituosa e indispensável relação entre o individual e a coletividade, ou seja, entre o indivíduo, a sociedade e a cultura no qual ele se encontra inserido. Especificamente, esta tese buscou evidenciar a inserção da artista plástica Mira Schendel na cultura brasileira e na tradição das artes plásticas, posto que Mira nasceu na Suíça e radicou-se no Brasil, no início da década de 50. A artista esteve em contato com diversas influências artísticas de vários países e colocou-as em prática, ou seja, atualizou a
tradição histórica e artística na qual se inseriu quando chegou ao Brasil, posto que foi neste país que a obra de Mira Schendel teve seu início.
O estritamente individual é impossível, posto que todos nós nos encontramos inseridos em determinado contexto histórico sócio-cultural. Em sua obra, Walter Benjamin muito bem realiza esta imbricação, como no ensaio “Infância em Berlim”, por nós utilizado, no segundo capítulo, para expor e elaborar o conceito de Experiência. Ao mesmo tempo em que este ensaio nos serviu como matéria para a exposição do conceito de Experiência, é possível perceber neste artigo os aspectos da relação entre tempo e memória e entre o individual e o coletivo, posto que Benjamin, apesar de realizar uma escrita biográfica, não se posiciona de forma confessional, mas sim, realiza um ensaio no qual a temporalidade histórica e o contexto cultural estão presentes. Outro fator que comparece neste texto refere-se à singularidade de sua escrita, repleta de poesia, e a forma fragmentada com que o autor construiu o ensaio, uma interessante forma de atualização da tradição.
Estética
Conforme exposto no primeiro capítulo, a noção de estética criada para esta tese corresponde à estética enquanto forma, ou seja, procura ater-se à relação do indivíduo com o mundo, seu modo de percepção e sua concepção da existência, bem como a cultura na qual se encontra inserido. Referimo-nos à forma pela qual o indivíduo estabelece as relações com o mundo, como afeta e é afetado por tudo o que o cerca. Esta singular movimentação de um indivíduo relaciona-se ao que procuramos construir como dimensão estética da memória.
Desta maneira, o encontro entre Mira Schendel e Walter Benjamin realizou-se por esta via estética, posto que ambos realizaram suas obras a partir da potência estética que buscavam através da inserção e da atualização que realizaram na tradição e na cultura da qual participaram. O capítulo três buscou apresentar a obra de Mira em sua construção, sua criativa busca em criar uma linguagem própria, uma linguagem singular através tanto da escolha dos materiais como da concepção de um estilo que imprimiu marcas inconfundíveis nos trabalhos da artista. O capítulo quatro procurou apresentar o singular modo de atualização da tradição na obra do filósofo e da artista através de pontos importantes para a construção e realização da proposta inicial da tese. Os cinco conjuntos de imagens de trabalhos da artista e trechos de
textos de Benjamin procuraram trazer os pontos pilares da tese. Cada um ao seu modo, todos se encontram em conjunção com as categorias aqui apresentadas e foram ressaltadas no encontro entre a artista e o filósofo.
Atualização
Categoria, nesta tese, articulada à tradição, à memória e à singularidade. Falar em
“atualizar” indica um movimento e, neste contexto, um movimento que implica a singularidade de um indivíduo frente ao seu meio histórico e cultural. O foco encontra-se na maneira de atuar de forma que a singularidade esteja em evidência, seja a comandante dos atos dos trabalhos inseridos no contexto social, sejam estes trabalhos artísticos ou não.
Cabe ressaltar que foi pontuado em diversos momentos desta tese o paradoxo benjaminiano entre ruptura e atualização. Para Benjamin, a questão da ruptura é altamente importante no movimento da atualização, ou seja, no movimento da Experiência. É fundamental que haja a ruptura para que o movimento singular de atualização da tradição possa ocorrer.
A categoria da atualização encontrou-se presente em todos os capítulos e é um ponto importante e atuante na estrutura desta tese.
Singularidade
Entre os elementos que sustentam esta tese, a singularidade pode ser localizada como o âmago desses pilares, o elemento aglutinador dos demais, posto que será o modo como se dará a atualização da tradição.
Procuramos trazer a singularidade da obra de Mira Schendel em composição com a singularidade da obra de Benjamin; sobre este último ressaltamos a sensibilidade de sua escrita, sua contundente crítica da cultura, seu posicionamento sobre temas como tempo, memória e história, entre outros pontos. Diante da forma altamente estilística com a qual
posiciona-se o filósofo tivemos a abertura para, também de forma própria, apresentar nosso estilo de escrita e nossa concepção singular sobre os temas propostos e elaborados.
Com relação à obra de Mira Schendel buscamos enfatizar as características que são, em nossa visão, as mais marcantes de sua obra. Especialmente no terceiro capítulo, uma condensada apresentação de sua obra tornou-se indispensável para que o que já havia sido dito e o que ainda restava a dizer ganhasse imagens em forma de palavras. O intuito foi fazer com que o leitor imaginasse os trabalhos citados enquanto realizava a leitura desta tese.
Procuramos alterar o encadeamento de uma leitura formal e elevar a imaginação do leitor aos seus recursos mais abstratos, de modo que ele pudesse montar, em sua imaginação, as partes que as palavras do texto foram indicando ao descrever os trabalhos da artista.
O contato com a singularidade da obra de Schendel nos levou ao conceito de Redução ao Gesto, conforme elaborado por Walter Benjamin. Em conjunção ao conceito de Experiência, entendemos que a atmosfera de efemeridade, de silêncio e vazio em composição com a relevante economia de elementos, características da obra de Mira, encontram-se em concordância com o Gesto benjaminiano. Buscamos mostrar que este foi um dos aspectos com os quais Mira criou a singular forma própria de sua linguagem plástica, o que se encontra em harmonia com o pensamento de que foi esta singularidade que permitiu a artista estabelecer o paradoxo entre romper e atualizar a tradição.
No quarto capítulo algumas imagens foram mostradas na intenção de fazer par com textos de Benjamin e com isso reunir os elementos com os quais esta tese trabalhou, assim como firmar a composição, o encontro proposto entre Mira e Benjamin.
Tradição
A perda da tradição e, consequentemente, a perda da Experiência gera, na contemporaneidade, uma ausência de referências. A cultura ficaria somente acumulada, sem função, sem o movimento de transmissão que seria fundamental para que a tradição se mantivesse viva e ativa. A posição de Benjamin, no entanto, enfatiza que esta perda da Experiência permite que uma nova forma de Experiência seja gerada. No pensamento benjaminiano há uma positivação do choque quando este favorece que um novo movimento criativo tenha seu início. Para Benjamin, o choque poderá alimentar a criação e este prisma
atravessou toda a tese, especialmente no que toca à questão da tradição quando, a partir de uma ausência de transmissão da cultura, esta deverá ser relançada de uma nova maneira.
Atualizar a tradição seria, por fim, o caminho para a constituição da dimensão estética da memória, pois esta consiste na criação de uma presença, de um modo singular de estar no mundo.
Acreditamos que tanto a artista Mira Schendel como o filósofo Walter Benjamin realizaram em suas obras essa atualização quando foram, cada um ao seu modo, buscar no passado referências culturais que os alimentaram na construção de suas linguagens, fato que resultou na criação de suas obras. Pelo fato de ambos terem erguido suas obras com tamanha singularidade e vigor foram os escolhidos para o encontro que esta tese realizou.