Mapa 24 – Vacinas A H1N1 aplicadas em 2010 por unidade da federação
3 O PAPEL DOS DIFERENTES AGENTES INDUTORES DA PRODUÇÃO E
3.5 O Inovacina – Programa Nacional de Competitividade em Vacinas
O Brasil é visto pelas indústrias farmacêuticas como um grande mercado consumidor, devido às compras do Ministério da Saúde para as demandas do PNI, cuja organização e amplitude da distribuição no território nacional por meio das
campanhas e da obrigatoriedade das vacinas em todas as faixas etárias visam o máximo da cobertura vacinal. Nesses termos, cada cidadão é considerado um consumidor de suas vacinas; de uma população próxima dos 200 milhões de pessoas (IBGE, 2013), algo em torno de 60 a 75% é alvo de vacinações obrigatórias, muitas vezes com mais de uma vacina ao ano.
No entanto, o PASNI, juntamente com o BNDES, concebeu em 2006 o INOVACINA (CONASS, 2007), para aumentar a capacidade de produção, diversificar as vacinas no país e estabelecer um sistema de controle de qualidade.
Esse programa visa o desenvolvimento científico, tecnológico e produtivo nessa área, integrando o conjunto de políticas adotadas para estimular a eficiência produtiva considerada um vetor dinâmico da atividade industrial pelas Diretrizes de Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior. Em suma, a finalidade do INOVACINA é criar condições para alcançar a autossuficiência nacional na produção das vacinas incluídas no PNI.
Essa autossuficiência pode ser atingida com o investimento em infraestrutura e no custeio da pesquisa e do desenvolvimento em vacinas, incluindo bolsas de pesquisa, com o investimento no estabelecimento de condições de boas práticas de produção (BPP) nos laboratórios públicos e privados sem fins lucrativos, em produtores de vacinas no país, com o aperfeiçoamento do sistema de regulação de vacinas, sobretudo dos mecanismos desenvolvidos pela ANVISA, e com o investimento numa rede pública de ensaios pré-clínicos e clínicos de vacinas, destinada a avaliar a segurança e a eficácia das vacinas produzidas.
Os executores desse programa são o Laboratório Bio-Manguinhos (RJ), o Instituto Butantan (SP) e o TECPAR (PR), que visam detalhar profundamente as doenças que a biotecnologia nacional tem mais condições de enfrentar atualmente.
As principais estratégias são a definição de políticas, a organização da produção, a modernização do parque produtivo, a avaliação, a regulação, o desenvolvimento e a inovação. Hoje, o PNI ainda depende da importação de elementos essenciais, sejam produtos finais, sejam concentrados de antígenos virais ou bacterianos de elevado conteúdo tecnológico, agregando os recentes avanços da pesquisa biotecnológica.
Atualmente, o Brasil é autossuficiente na produção de vacinas de uso rotineiro como a DTP (difteria, tétano e coqueluche), meningite meningocócica sorogrupos A e C, raiva humana e animal, febre amarela, sarampo, BCG (tuberculose) e hepatite B (FUNDAÇÃO SISTEMA ESTADUAL DE ANÁLISE DE DADOS, 2010). Tem também capacidade para envasar vacinas contra poliomielite, HIB (Haemophilus
influenza B) e gripe, estando as duas últimas em processo de absorção e
desenvolvimento de todo o ciclo tecnológico por dois dos produtores públicos: Bio- -Manguinhos e Instituto Butantan, respectivamente. Para outras três vacinas, há o processo de transferência de tecnologia: a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), a dupla viral (sarampo e rubéola) e a Influenza A H1N1, recentemente aplicada. Sendo a produção nacional toda realizada pelo setor público, os dois institutos têm franca liderança. Segundo o relatório Ciências da Vida Humana na Cidade de São Paulo (FUNDAÇÃO SISTEMA ESTADUAL DE ANÁLISE DE DADOS, 2010), a produção de vacinas demanda investimentos altos, pois o ciclo é longo, envolve concentração de produtores e contínua ampliação de vários produtos e requer políticas regulatórias fortes, dado que o principal cliente é o setor público.
Para termos uma ideia da complexidade desse mecanismo, analisemos a produção de vacinas contra Influenza A H1N1. Primeiramente, se introduzem vírus criados em laboratório em ovos de galinha fertilizados (contendo embrião), para se desenvolverem aí. Desse material, retira-se a substância ativa da vacina, como mostra a Figura 6.
Figura 6 – A produção de vacinas contra Influenza A H1N1 em
embriões de ovos de galinha
matéria-prima: incubação
matéria-prima: ovoscópio
inoculação: fase 1
inoculação: fase 2
formulação: colheitadeira
formulação: purificação
formulação: envase da vacina
Fonte: Muniz; Santana (2009).
Destacamos que a tecnologia empregada nesse processo deriva de uma transferência da indústria francesa Sanofi-Aventis desde o início dos anos 2000. O equipamento e as instalações são inspecionados segundo os padrões da ANVISA, e a referência para o tipo de organização e acomodação da produção é a fábrica da Sanofi-Aventis em Paris, na França. Outro dado importante é a seleção da granja que fornece os ovos, que atende aos padrões do Instituto Butantan e da ANVISA; por exemplo, a alimentação das galinhas deve ser livre de antibióticos, e a purificação do ambiente tem um caráter específico. Assim que o vírus é inoculado no ovo fertilizado, ele é replicado e se fixa no líquido alantoico (material excretado do embrião); de 100 mil ovos retiram-se cerca de 800 litros de líquido alantoico, contendo milhões de vírus replicados, que são colhidos. Na fase final, após sucessivas filtragens, a quebra do vírus em milhares de partículas e sua inativação resultam em 500 litros da vacina. A fábrica tem capacidade de funcionar o ano todo, sem necessidade de interrupção (MUNIZ; SANTANA, 2009).
Segundo Santos (2008b), podemos organizar as informações para conhecer e analisar o circuito espacial produtivo de um produto para entender todo o momento de produção. No caso da vacina, desde o desenvolvimento do vírus até o ponto em que a vacina está pronta para ser aplicada. Logo, é importante observar:
[...] vários itens distintos, sobre a matéria-prima – local de origem, formas de seu transporte, tipo de veículo transportador etc.; sobre mão de obra – qualificação, origem, variação das necessidades nos diferentes momentos da produção etc.; sobre estocagem – quantidade e qualidade dos armazéns, dos silos, proximidade da indústria, relação entre estocagem e produção etc.; sobre transporte – qualidade, quantidade e diversidade das vias de transportes dos meios de transporte etc.; sobre o consumo – quem consome, onde, tipo de consumo, se produtivo ou consumitivo etc. (SANTOS, 2008b, p. 45).
No presente caso, desde a concepção e a ordem para a produção da vacina, o processo passa pela granja que produz o vírus (no caso, do Instituto Butantan) até a vacina ser produzida, distribuída para as centrais de estocagem e ser depois distribuída pela logística da cadeia de frio para os postos de saúde até ser aplicada nos consumidores. Segundo Moraes (1985, p. 11), “discutir os circuitos espaciais da produção é discutir a espacialização da produção – distribuição, troca, consumo como movimento circular constante. Captar seus elementos determinantes é dar conta da essência de seu movimento”.