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4. METODOLOGIA

4.4 Instrumentos utilizados na produção de evidências e procedimentos de análises

4.4.1 O Instrumento Gerador dos Mapas Afetivos – IGMA

Como recurso para produção de evidências acerca da estima de lugar dos cidadãos-usuários do CSF São Geraldo foi utilizado o Instrumento Gerador dos Mapas Afetivos - IGMA7. Este é uma ferramenta apresentada por Bomfim (2010) que tem como objetivo identificar a disposição afetiva, ou mapa afetivo, das pessoas com relação aos lugares através de imagens e representações. No caso em questão, por meio de desenho e escrita. O mesmo é composto por duas partes. A primeira solicita que o sujeito desenhe e fale/escreva sobre as emoções e sentimentos com relação ao local e ao desenho. A segunda é composta por uma escala Likert que tem por objetivo complementar a primeira parte do instrumento.

O desenho cumpre a função de deflagrar e possibilitar que o sujeito entre em contato com suas emoções e sentimentos com relação ao lugar e dessa forma possa responder às perguntas que seguem de maneira a expressar aspectos mais relacionados à afetividade com relação aos lugares.

A primeira pergunta após o desenho é a respeito do significado desse para o sujeito. Neste caso, busca-se que o próprio sujeito exponha para o pesquisador o que quis representar com a imagem produzida. A sua resposta pode caracterizar o desenho como metafórico, quando este apresenta de forma mais intensa elementos simbólicos com relação ao lugar no sentido de expressar estados afetivos; ou cognitivo quando apresenta muitos elementos ou estruturas geográficas em si, de acordo com a proposta

dos mapas cognitivos de Lynch (1998). Assim, tanto a construção do desenho quanto a sua interpretação é realizada pelo próprio respondente, sem que haja uma interferência do pesquisador nesse processo.

Em seguida solicita-se que a pessoa fale ou escreva quais sentimentos são despertados pelo desenho. Dessa maneira, o sujeito é remetido ao estímulo inicial, o desenho, e à representação do lugar.

Na sequência pede-se que resuma, em no máximo seis palavras, os seus sentimentos com relação ao desenho. Dessa forma se busca definir as palavras-sínteses, que podem se caracterizar como qualidades, sentimentos, substantivos que já tenham aparecido nas questões anteriores ou outras que ainda não tenham sido reveladas. Com este elemento da pesquisa busca-se uma saturação das respostas, ou seja, uma maior clareza acerca dos sentimentos e emoções com relação aos lugares.

Em seguida, pergunta-se o que o sujeito pensa sobre o lugar. Neste momento, busca-se respostas ainda não apresentadas até o momento acerca de seus pensamentos com relação ao ambiente, através da elaboração textual. E no último elemento dessa primeira parte do instrumento se solicita que o interlocutor compare o lugar com algo. Dessa forma se pretende que o sujeito elabore uma metáfora através da analogia, figure o sentimento por meio da escrita e, dessa forma, aconteça uma nova síntese, de maneira mais complexa, da compreensão dos afetos com relação ao lugar.

A segunda etapa desse instrumento, que tem como propósito complementar a primeira parte, é composta por uma escala Likert8, na qual o sujeito avalia, utilizando uma escala de 1 a 5, o quanto concorda ou discorda de afirmações com relação aos sentimentos e emoções acerca do lugar.

Após a escala são apresentadas ainda algumas questões acerca das relações cotidianas do sujeito com o lugar, como os lugares percorridos por ele cotidianamente; os lugares mais representativos do ambiente; o que o interlocutor mais gosta ou menos gosta no lugar. Pergunta-se ainda o que em sua opinião poderia melhorar no lugar, dessa forma se busca estimular reflexões sobre possíveis propostas de intervenção no lugar. Para finalizar, são solicitados dados que visam caracterizar o respondente quanto aos dados sociodemográficos, como sexo, idade, origem, renda, bairro, cidade.

8 Escala psicométrica que busca retratar o quanto o sujeito concorda ou discorda de uma afirmação. A escala utilizada no IGMA tem 5 níveis de concordância: 1 = discordo totalmente; 2 = discordo; 3 = nem discordo, nem concordo; 4 = concordo; 5 = concordo totalmente.

Para analisar os dados da primeira parte do IGMA, as informações foram dispostas e categorizadas com base no modelo desenvolvido por Bomfim (2010), como especificado no quadro 1:

Quadro 1 - Síntese do processo de categorização voltado para elaboração dos mapas afetivos. Sujeito Dados sociodemográficos dorespondente.

Estrutura

A estrutura é classificada, com base no Mapa Cognitivo de Lynch, em cognitiva, caso apresente mais elementos geográficos; ou metafórica, caso apresente mais elementos simbólicos.

Sentido9 Explicação do sujeito acerca do desenho. Qualidade Qualidade que o respondente dá ao desenho. Sentimento Expressão afetiva do respondente ao desenho. Metáfora Analogia que o respondentefaz do lugar com algo.

Imagem afetiva10

Articulação, feita pelo investigador,entre as metáforas do lugar e as outras dimensões como sentimentos e qualidades descritas pelos sujeitos com o intuito de identificar seus afetos com relação ao lugar.

Fonte: Adaptado de Bomfim (2010, p. 151)

Na primeira linha do quadro são transcritas as informações relativas à identificação do respondente, como idade, gênero, renda, tempo de moradia no lugar, e demais informações necessárias para melhor caracterização dos sujeitos da pesquisa. Em seguida, o pesquisador classifica o desenho do sujeito em metafórico ou cognitivo. Os desenhos identificados como metafóricos são aqueles que fazem referência a elementos simbólicos, como paz, amor ou desassossego, destruição. E as imagens classificadas como cognitivas são aquelas que representam estruturas físicas, concretas. Assim, o desenho, por exemplo, de uma árvore pode ser classificado em um mapa como metafórico ou como cognitivo. Será metafórico se o sujeito, ao discorrer sobre o sentido

9 No instrumento de análise original, desenvolvido por Bomfim (2010), essa categoria é denominada “significado”, no entanto neste trabalho se optou por substituí-la por “sentido”. Utiliza-se como embasamento para essa alteração, as diferenciações entre significado e sentido estabelecidas por Vygotsky (2001). Para o teórico soviético, o significado está relacionado ao conceito, à estabilização, ou ainda, à generalização de ideias por um determinado grupo de pessoas. O sentido, por sua vez, diz respeito a construções semânticas particularizadas, ou seja, são elaborações dos sujeitos ainda não estabilizadas. Assim sendo, considera-se que ao se solicitar que o respondente fale ou escreva sobre o seu desenho, busca-se as suas elaborações particulares acerca da imagem, ou seja, o sentido que este lhe atribui.

10No instrumento de análise original, desenvolvido por Bomfim (2010), essa categoria é denominada “sentido”, no entanto, entende-se, conforme justificado na nota de rodapé 9, que o sentido já é descrito anteriormente, na terceira linha do quadro. Assim sendo, opta-se por denominar essa seção de “imagem afetiva”, considerando que é nesse espaço que o investigador, através das articulações das informações conseguidas, identifica os afetos do respondente em relação ao lugar.

da imagem, disser que o fez para representar sentimentos e emoções, e será cognitivo se este falar que desenhou a árvore que de fato existe no local em questão.

Assim a estrutura do desenho é classificada não apenas pela imagem observada pelo pesquisador, mas pelo sentido, que deve ser descrito na segunda linha da tabela de análise, atribuído a ele pelo respondente. Também do sentido do desenho, bem como dos sentimentos listados pelo respondente e da comparação que este estabelece com relação ao lugar em evidência, as células da tabela de análise intituladas de ‘qualidade’, ‘sentimento’ e ‘metáfora’ são preenchidas. Por último, na categoria ‘imagem afetiva’, o pesquisador, a partir da articulação das informações dispostas na tabela, identifica os afetos do respondente com relação ao lugar e constrói a imagem afetiva indicadora da estima de lugar do sujeito. Vale frisar que a referida análise parte, sobretudo do desenho, sentido e sentimentos expressos pelos próprios respondentes e não da interpretação livre do pesquisador.

No que se refere à escala Likert, os procedimentos de análise tiveram início com a transcrição das informações conseguidas para uma planilha no Excel, compondo assim o banco de dados a ser analisado.

Verificado que a escala Likert do IGMA apresenta mais perguntas indicativas de estima potencializadora (16 perguntas indicativas de agradabilidade e 16 de pertencimento) do que despotencializadora (12 perguntas indicativas de destruição e 12 de insegurança) foi realizado uma distribuição de frequência dos valores percentuais. Este procedimento consiste em verificar as porcentagens das respostas em cada categoria, e não apenas a soma bruta dos dados. Assim foi possível contornar as diferenças das respostas ocasionadas pela predominância de perguntas de uma categoria sobre a outra e obter a distribuição dos resultados de maneira equivalente.

Por meio tanto da primeira quanto da segunda parte do IGMA é possível compor o mapa afetivo das pessoas com relação aos lugares de acordo com as seguintes categorias: pertencimento, agradabilidade, contraste, insegurança e destruição. Sendo que as estimas de pertencimento e agradabilidade são potencializadoras, as de insegurança e destruição são despotencializadoras e as de contraste podem ser potencializadoras ou despotencializadoras (BOMFIM, 2010).

A disposição afetiva de agradabilidade se apresenta através de falas relacionadas a sentimentos de satisfação, prazer e vinculação com o local, por exemplo: “É muito bom morar aqui”. A de pertencimento aparece através de falas do tipo: “Tudo aqui tem a minha cara”, pois demonstra apego e identificação com o lugar. Já o

sentimento de destruição aparece através de discursos do tipo: “Este lugar é muito sujo, velho” e frase como “A gente nunca sabe o que pode acontecer aqui” demonstra uma afetividade pautada na insegurança. E por último, o contraste aparece quando o respondente diz, por exemplo, “aqui é muito perigoso, mas não saio de jeito nenhum”, pois revela a contradição de sentimentos, através das imagens de insegurança e pertencimento.Dessaforma, com esse instrumento é possível identificar a estima de lugar dos cidadãos-usuários com relação ao CSF Geraldo.