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O interesse local e a competência sobre a cidade

3 ANÁLISE DO ARCABOUÇO JURÍDICO REFERENTE À LEGISLAÇÃO

3.2 O DIREITO À CIDADE NA LEGISLAÇÃO INFRACONSTITUCIONAL: O

3.2.1 O interesse local e a competência sobre a cidade

Não obstante aos efeitos da modernidade sob alguns institutos do direito, o Estatuto das Cidades compareceu ao universo urbanístico para representar mais um mecanismo de avanço em favor da relativização da propriedade privada. Isso porque mesmo com o advento da Constituição Federal ao prever as cidades como um direito fundamental, a aplicação dessas diretrizes ainda encontraram óbices jurídicos e sociais para que realmente se efetivassem suas determinações, necessitando no diploma federal para implementação de normas gerais para tanto.

Em relação à propriedade privada, a legislação federal representou um avanço significativo na atuação do Estado em prol do interesse da coletividade. Isso porque a própria CF/88 se detinha da competência para legislar sobre o assunto até então.

238 RECH, Adivandro; RECH, Adir Ubaldo. Direito Urbanístico. Caxias do Sul: Educs, 2010. p. 59. 239 Idem.

240

DALLARI, Adilson Abreu; DI SARNO, Daniela Campos Libório. Direito Urbanístico e Ambiental. 2. ed. Ver. Belo Horizonte: Fórum, 2011. p. 217.

O advento do Estatuto da Cidade permitiu então, através de normas gerais, a intervenção do ente municipal na propriedade privada em favor da coletividade. Sobre um dos motivos dessa centralização, descreve Rech:

A Constituição brasileira de 1988, como se vê, ainda não apostou no município, pois, ao mesmo tempo que no seu art. 23 estabelece como competências comuns da União, dos estados e dos municípios praticamente todas as políticas públicas de interesse do cidadão, reservando assim, para a União e para os estados membros a maior “fatia do bolo” tributário, mantendo os municípios dependentes das iniciativas federais ou estaduais que normalmente não acontecem. Da mesma forma, o Estatuto da Cidade amplia o poder e a responsabilidade dos municípios para editar normas de direito que venham a estruturar um projeto de cidade sustentável, mas não aborda de onde devem partir os recursos para executar o referido projeto. Mais uma vez delegam-se responsabilidades aos municípios sem a preocupação de descentralizar receitas tributárias241.

O Estatuto da Cidade representa um avanço significativo. Uma das questões legais, que limitava a ação dos municípios no planejamento da ocupação urbana, diz respeito à propriedade privada, competência exclusiva da União. O Estatuto da Cidade vem estabelecer normas gerais ou instrumentos que autorizam os municípios a intervirem no direito de propriedade privada.

Neste sentido, não existe previsão expressa no texto constitucional sobre a competência dos municípios para legislarem sobre direito urbanístico. Em contrapartida a isso, é possível entender242 que a complementação da legislação federal e estadual pode ser, sim, competência do ente municipal.243 Há entendimento na doutrina de que o assunto planejamento urbano (ordenamento do solo e desenvolvimento urbano) são de interesse quase que exclusivamente local e, não obstante a isso, a competência deverá ficar vinculada ao município244.

Não há, também, como negar que o mais lógico é permitir aos municípios que inovem legislativamente sobre a matéria, vinculados estes aos preceitos que ditam as normas gerais editadas pela União e estados-membros. Vale ressaltar, segundo Rech, que tais leis de caráter geral, caso venham a desrespeitar o principio do interesse local, ameaçar a efetivação

241 RECH, Adir Ubaldo. A exclusão social e o caos nas cidades. Caxias do Sul: EDUCS, 2007. p. 123. 242

RECH, Adivandro; RECH; Adir Ubaldo. Direito Urbanístico. Caxias do Sul: Educs, 2010. p. 59.

243 BRASIL. Constituição Federal de 1988. Art. 30. Constituição Federal. Estabelece que “compete aos municípios suplementar a legislação federal e estadual no que couber.” Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 26 fev. 2017.

244

DI SARNO, Daniela Campos Libório. Ompetências urbanísticas. In: DALLARI, A. A. Estatuto da Cidade: Comentários à Lei Federal 10.257/2001. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2002. p. 69.

de um direito fundamental ou de uma cidade sustentável, poderão ser consideradas ilegais, diante do interesse local e da cidadania245.

Então, legislar sobre direito urbanístico é, sim, matéria de competência municipal, decorrente do interesse do seu território. O interesse local se realizará através da construção de um plano diretor, o qual está previsto na legislação federal, bem como fornece diversos instrumentos para a concretização dos princípios e ordenamentos previstos no próprio texto legal.

O Artigo 4º do Estatuto da Cidade246, no seu inciso III, consigna que a ferramenta mais importante ali presente é o plano diretor. Enumera diversos outros instrumentos, o qual serve como exemplo o parcelamento, edificação ou utilização compulsória do solo e/ou IPTU progressivo, sendo que ambos têm previsão no artigo 182, §4º da CF/88. Mesmo assim, a lei federal não priorizou em sua constituição outros mecanismos para tentar solucionar os problemas da urbanização247.

Não obstante ao tema desse trabalho ser o direito à cidade, onde o texto gravita em torno da expressão “território urbano”, não se pode aqui deixar de lado o fato de que o artigo 40 do Estatuto da Cidade248 positiva. Este dispositivo aduz que o plano diretor não tratará exclusivamente dos interesses urbanos, mas, sim, de toda área do respectivo município, o que levará a integrar ao interesse local, o território rural. Ou seja, não se deve mais ignorar a necessidade de maior atenção dos municípios na organização do espaço rural, o que até agora é notado nos Planos Diretores existentes.

Conforme José Afonso da Silva:

A função urbanística, em sua atuação mais concreta e eficaz, como temos dito, é exercida no nível municipal. Foi aí que nasceram os planos de desenvolvimento urbano, em forma de planos diretores, que estabeleciam regras para o desenvolvimento físico das cidades, vilas e outros núcleos urbanos do município249.

Ele segue ainda lecionando que, considerando a evolução desse pensamento, o planejamento urbano passou a ter que considerar a sistematização, além das áreas urbanas, do

245

RECH, Adivandro; RECH, Adir Ubaldo. Direito Urbanístico. Caxias do Sul: Educs, 2010. p. 60.

246

BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Art. 4o. “Para os fins desta Lei, serão utilizados, entre outros instrumentos:III – planejamento municipal, em especial: a) plano diretor;” Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LEIS_2001/L10257.htm>. Acesso em: 25 fev. 2017.

247

RECH, op. cit., p. 61.

248

BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Art. 40. “O plano diretor, aprovado por lei municipal, é o instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana.” Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LEIS_2001/L10257.htm>. Acesso em: 25 fev. 2017.

interior das cidades, legislando sobre todo o território municipal250, ou seja, não há como separar os interesses urbanos e rurais considerando eles como integrantes de um mesmo ente primário251, o município.

Logo, o ente municipal não tem margem para aplicar todo o interesse local sem que faça isso em consonância com as normas gerais previstas no Estatuto da Cidade. Tanto o plano diretor quanto qualquer outro ato administrativo deve existir, sob a validade que as normas gerais de direito urbanístico estabelecem, segundo o artigo 2º do Estatuto da Cidade, que orienta a possibilidade de assegurar o pleno desenvolvimento das funções sociais das cidades e da propriedade urbana, que então constituem um direito do cidadão252.