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A narrativa inicia no dia 24 de dezembro, quando Carlos – o filho mais velho – está aguardando os irmãos, Rui e Clarisse, para a comemoração de Natal em seu apartamento, depois de tê-los expulsado de lá 15 anos antes – o Rui por ser louco e a Clarisse por se comportar como uma prostituta – e não ter mais mantido contato com eles. Os três filhos retornam a Portugal, em virtude do desencadeamento da guerra civil em Angola, enquanto a mãe permanece no país, em sua decadente fazenda, onde vive com alguns de seus empregados, até o momento em que a propriedade e a casa são ocupadas por grupos de guerrilha e eles são obrigados a abandoná-las e vagar por lugares já em ruínas numa tentativa de se manter vivos.

Apesar de a temática histórica ser uma constante na narrativa antuniana, é interessante notar que esse passado é representado através de perspectivas particulares e diversas das personagens, uma vez que temos acesso a ele apenas pelo que foi vivenciado pela(s) própria(s) personagem(s) narradora(s), ou seja, através de uma experiência muito pessoal. Sendo assim, esse relato não pretende ter status de verdade histórica inquestionável, ao contrário, são ressaltados conflitos de pontos de vista, diversos ângulos de visão sobre o mesmo acontecimento, justamente para relativizar os eventos, já que, nesse texto, não há lugar para certezas apenas para questionamentos.

Se aceitarmos esse como um romance de família30, podemos considerar a menção a

várias gerações e a exploração do núcleo familiar composto por Isilda e pelas pessoas que moram na fazenda como representativos de um determinado contexto histórico-social. Assim, a sequência de gerações é particularmente eficiente para narrar processos sócio-históricos além, é claro, de traçar destinos individuais e coletivos ao longo da história. Por exemplo, nesse romance, têm-se informações dispersas sobre o avô de Isilda. Um homem que mantinha

30GALLE, Helmut Paul Erich. Evoluções do romance de família na atual literatura de língua alemã.Organon,

uma vida simples, ajudava os outros moradores e conservava uma boa relação com os negros. Já a família dos pais de Isilda mantinha um alto padrão de vida, dispunha de privilégios, possuía grandes plantações, mantendo os negros em sua posição de inferioridade, sendo necessários apenas ao trabalho na casa e nas lavouras. Quando Isilda casa com Amadeo e forma sua própria família, os maus-tratos e a violência impingida aos negros ganham destaque na narrativa, sendo a sua situação financeira já não tão privilegiada. Entretanto, ao final da narrativa, quem permanece com Isilda, protegendo-a e se sacrificando, literalmente, para salvá-la, são as suas duas empregadas negras.

Com isso, apesar da narrativa girar em torno dos portugueses brancos, emerge a todo instante algum fato que remete aos negros africanos: a maneira como são tratados, seu comportamento, suas características, como são vistos pelos colonos, sendo assim, eles conservam uma forte e constante presença na narrativa, apesar de se manterem numa posição de ‘coadjuvantes’ nos relatos. Com a saída dos colonos portugueses de Angola, os angolanos retomam seu papel de protagonismo na sua própria história. Além disso, o final do texto antuniano nos deixa com a impressão de que não haverá uma geração futura para dar continuidade a essa família de portugueses brancos, pois Carlos e a esposa se separam, Rui não tem condições de manter nenhum relacionamento e Clarisse, ao que parece, não quer ter filhos, visto já ter realizado um aborto. Predomina assim o esfacelamento dos laços familiares e a dispersão de seus membros. Com relação à organização narrativa, O esplendor de

Portugal está dividido em três grandes partes, cada uma dessas partes subdividida em 10

capítulos cujos títulos correspondem a datas. Não há um narrador que organiza a história, mas quatro narradores que se expressam em primeira pessoa: a mãe, Isilda, e os três filhos Carlos, Rui e Clarisse, a voz do pai surge apenas uma vez na diegese, dissolvida na fala de outra personagem. Cada um dos filhos – Carlos, Rui e Clarisse – é responsável pela narração de cinco capítulos, já a mãe conta sua história em quinze capítulos. Em cadauma das três partes, predomina a voz de um dos filhos, sempre intercalada pela voz da mãe. Conforme ilustrado abaixo:

1ª parte: Carlos – 24 de dezembro de 1995 Isilda – 24 de julho de 1978 Carlos – 24 de dezembro de 1995 Isilda – 5 de julho de 1980 Carlos – 24 de dezembro de 1995 Isilda– 21 de junho de 1982 Carlos – 24 de dezembro de 1995 Isilda – 4 de dezembro de 1984 Carlos – 24 de dezembro de 1995 Isilda– 26 de fevereiro de 1986 2ª parte: Rui – 24 de dezembro de 1995 Isilda–1 de setembro de 1987 Rui – 24 de dezembro de 1995 Isilda – 6 de janeiro de 1988 Rui – 24 de dezembro de 1995 Isilda– 10 de maio de 1988 Rui – 24 de dezembro de 1995 Isilda – 13 de agosto de 1989 Rui – 24 de dezembro de 1995 Isilda – 10 de outubro de 1990 3ª parte: Clarisse – 24 de dezembro de 1995 Isilda – 25 de março de 1991 Clarisse – 24 de dezembro de 1995 Isilda – 10 de abril de 1993 Clarisse – 24 de dezembro de 1995 Isilda–14 de novembro de 1994 Clarisse – 24 de dezembro de 1995 Isilda – 27 de setembro de 1995 Clarisse – 24 de dezembro de 1995 Isilda– 24 de novembro de 1995

A voz da mãe parece ser o elo que resta entre os membros da família, pois é a que perpassa as três partes e a mais recorrente. Assim, ainda que essa organização da narrativa pressuponha um diálogo entre as personagens, ou pelo menos uma tentativa de dialogar com o outro buscando restabelecer uma ordem familiar, ajustar relacionamentos mal resolvidos, essa interação não se efetiva, prevalecendo uma situação de incomunicabilidade. Cada uma dessas vozes dialoga somente consigo numa evocação constante de lembranças do seu próprio passado. Apesar de o passado ser um meio temporal único, podemos vislumbrar várias camadas de tempos passados, ou seja, desde tempos mais remotos até tempos mais recentes, que não seguem uma sequência cronológica. Isso significa que a rememoração de um evento pode suscitar a evocação de outro que por sua vez pode evocar outro, muitas vezes sem ligação direta com a ordem de eventos interrompida. No entanto, a narrativa reitera essa separação irremediável da família ao convergir todas as vozes para a mesma data 24 de dezembro de 1995, em uma última tentativa de reencontro, que não se realiza.

Através de um romance com múltiplas vozes, em que os limites entre os diferentes pontos de vista e os níveis temporais são praticamente abolidos, Lobo Antunes utiliza a memória e as lembranças como fios condutores de sua narrativa, exigindo do leitor um árduo trabalho de reflexão e participação ativa na própria construção/reconstrução da narrativa. Todas as vozes narrativas recorrem insistentemente ao passado, de modo que não apresentam nenhuma ou quase nenhuma perspectiva de futuro, predominam apenas projeções, logo questionadas no próprio texto.

Poder-se-ia pensar que um conjunto diverso de visões permitiria ao leitor delinear mais completamente a história de cada personagem, pois diversos pontos de vista sobre o mesmo assunto dão a impressão de se alcançar uma interpretação mais fidedigna dos acontecimentos e traçar com mais precisão determinado perfil. Todavia, no texto antuniano, essa multiplicidade de vozes e perspectivas enfatiza justamente a dispersão na construção de cada personagem, seu contínuo processo de despersonalização e consequente inconclusibilidade. Ademais, cabe ressaltar que isso ocorre, sobretudo, pela rememoração, o que acarreta o aparecimento de muitas lacunas e silêncios, devendo-se, portanto, ter consciência da incompletude e reversibilidade do sentido provisoriamente encontrado.

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