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2 CONSTRUINDO E ENRAIZANDO TENDÊNCIAS: DEFESA E

2.3 Política externa e de defesa na crise: Os governos Fernando de La Rúa (1999-

2.3.2 O interregno de Eduardo Duhalde (2002-2003)

À renúncia de Fernando de La Rúa, cujo governo acabou em uma dramática fuga de helicóptero da Casa Rosada, seguir-se-ia uma inédita rotação presidencial, com cinco

38 Rodríguez Giavarini exporia uma posição contrária à militarização do combate ao terrorismo em uma reunião de chanceleres da OEA, logo após o11 de setembro.

39Na versão traduzida do texto, de onde se extraiu a citação, o termo é “pressupostamente”. Cremos, entretanto, tratar-se de equívoco da tradução com o termo “presupuesto”, cuja tradução correta é “orçamento”; razão pela qual se fez a correção.

presidentes até o fim da semana, até que, finalmente, o peronista Eduardo Duhalde foi eleito pelo congresso para encerrar o mandato constitucional e convocar novas eleições. Por ser um governo interino, e que ocorria em meio ao caos, havia pouco espaço para atuação além das questões mais prementes. Desse modo, o núcleo da agenda externa de Eduardo Duhalde esteve impregnado da questão da dívida externa, seja nas tensas negociações com os órgãos internacionais ou na busca de apoio, bem ou malogrado, de outros países.

De início, o governo buscou amparo nos Estados Unidos, esperando que Washington acolhesse as demandas argentinas e desse o apoio necessário a um acordo de urgência com o FMI, para recompor as reservas e tentar dar ânimo à indústria. Contudo, já num contexto de inflexão de sua política externa pós 11 de setembro, os Estados Unidos não apenas não vieram em socorro como adotaram uma postura distante, de verdadeiro abandono.

Cabe ressaltar que, pouco antes do corralito, a missão do FMI no país deixou Buenos Aires e a posição dos EUA, aquiescente à do FMI, ficou clara na fala do Secretário do Tesouro, Paul O’Neill, ao afirmar que “Não é justo utilizar o dinheiro dos carpinteiros e dos encanadores americanos para resgatar empresas que fizeram maus investimentos em países de alto risco em busca de rentabilidade mais alta e mais rápida.” (O’NEILL apud RUSSELL; TOKATLIAN, 2003, p. 61).

A mensagem era clara: a Argentina era um país periférico, com baixíssima relevância para o quadro macro do sistema financeiro internacional, e não havia porque dispensar ajuda a um país cujo fracasso teria efeitos pontuais e não afetaria os nervos da economia internacional. As possibilidades de auxílio eram antes prescrições de receitas do que oferta de recursos materiais ou compartilhamento de ônus.

Segundo Roberto Lavagna, então ministro da economia, as tentativas de intervenção do FMI na Argentina se materializaram em recomendações de ajustes que significavam a proteção por parte do governo às instituições bancárias, transferindo para o erário os custos da crise (LAVAGNA, 2013).

A tentativa de ingerência do Fundo sobre o governo argentino se manifestou em outras recomendações, feitas na forma de exigências. Instruía-se o veto a trechos de leis, ao corte de gastos sociais, e, mais extremo, chegou-se a propor a criação de uma comissão de notáveis, especialistas em finanças, para gerir a política econômica do país naquele momento, retirando do governo argentino o poder de decidir e executar uma política pública das mais centrais para o poder do Estado (LAVAGNA, 2013).

Ao longo de sua breve gestão, o presidente Duhalde manteria abertos os canais de diálogo com os mercados internacionais, mormente o FMI, sem, contudo, aplicar as medidas de ajuste que o fundo propunha. Uma divergência essencial na forma de encarar a crise apartava o governo e o FMI. Para o fundo, as principais responsáveis pela crise eram as províncias, enquanto em Buenos Aires consolidou-se a visão de que essa responsabilidade era, sobretudo, do governo federal (LAVAGNA, 2013).

Nesse contexto, o presidente Duhalde e seu chanceler – Carlos Ruckauf – buscaram, em segundo momento, uma aproximação com o Brasil que se não rendeu dividendos materiais nas negociações da dívida, tiveram o efeito de reforçar uma imagem positiva do país vizinho.

Saraiva (2013, p. 118) defende que o Brasil apresentou um apoio político explícito à Argentina, reafirmando o país, e o MERCOSUL, como prioritários nas suas relações exteriores. Nessa mesma linha argumentam Russell e Tokatlian (2011, p. 8) que apontam que “nas circunstâncias mais dramáticas da crise, quando a própria sobrevivência política do governo esteve em jogo várias vezes, o Brasil foi visto como um ‘companheiro fiel’”.

Houve, de fato, um apoio retórico por parte do governo Fernando Henrique Cardoso, que afirmava que “quanto melhor vai a Argentina, melhor será para o Brasil. [...] A Argentina é um país muito importante para nós” (FHC DESCARTA..., 2001). Na prática, porém, o Brasil negou a concessão de um crédito para que a Argentina pudesse sanar o débito com o Banco Mundial (LAVAGNA, 2003).

Nos bastidores, existia um temor por parte do governo brasileiro de que houvesse contágio do país pela crise do vizinho, agravando o quadro da já crítica situação econômica doméstica. Nas palavras do então chefe da Casa Civil, Pedro Parente, “a visão era de que a gente deveria ajudar, deveria contribuir, mas não transformar aquilo em um abraço dos afogados” (PARENTE apud SPEKTOR, 2014, p. 213).

De todo modo, o período da crise consolidou uma imagem positiva do Brasil e remodelou as relações bilaterais no sentido de conferir um conteúdo de maior densidade política à parceria. Subjacente a essa iniciativa, além do impacto da crise que mostrou a inviabilidade de manter um alinhamento aos Estados Unidos, estava também o interesse de recompor as relações regionais em marcos de uma cooperação política.

Pretendia-se retomar uma agenda ensaiada nos anos 1980, minimizada nos anos 1990 em favor da pauta comercial, e cujo arrimo entendia-se que seria precisamente o

Brasil. Em relação aos Estados Unidos, um evento simbólico foi a abstenção argentina numa moção contra Cuba na Comissão de Direitos Humanos da ONU, após treze anos de votos favoráveis à reprimenda e a manifestação contrária à invasão do Iraque.

Após uma semana turbulenta, com uma sucessão de presidentes que mal chegavam a empossar seus gabinetes, o senador Eduardo Duhalde, derrotado na eleição de 1999, foi eleito presidente pelo Congresso Nacional. Empossado em janeiro de 2002, Duhalde teve uma curta, porém importante, administração, responsável por estancar a hemorragia político-econômico-social que atingia o país e promover o mínimo de estabilidade para realizar uma transição.

Na gestão Duhalde semeou-se a percepção de que a existência de laços políticos bem urdidos com a vizinhança latino-americana teria auxiliado o país em sua cruzada contra o establishment financeiro internacional. Preteria-se, assim, a ideia de pertencimento da Argentina ao terceiro mundo e buscava-se recuperar sua posição junto aos países subdesenvolvidos, com os quais compartilhava as mazelas típicas da periferia, brevemente opacadas pelo ufanismo dos anos 1990.

Eduardo Duhalde manteve Horacio Jaunarena no Ministério da Defesa, o que implicava duas mensagens importantes. A primeira era passar um verniz de coalizão política ampla – Jaunarena é político filiado ao radicalismo. A outra era a preservar calmos os ânimos militares, mantendo à frente da pasta um político cujo trânsito fluido na caserna serviria bem a eventuais necessidades de apaziguamento. A escolha de Duhalde fez Jaunarena Ministro da Defesa pela terceira vez em pouco mais de dez anos. Num contexto de tamanha gravidade, a continuação da gestão de Jaunarena ofereceu poucas novidades à política de defesa. No breve período Duhalde, a política de defesa esteve mais concentrada em uma atuação apaziguadora com as Forças Armadas do que propriamente comprometida com estabelecer diretrizes para a defesa.

Concentrado na recuperação econômica e na estabilidade institucional, Duhalde não tinha uma agenda para a defesa. O presidente chegou a afirmar que “nossas Forças Armadas existem, mas não sabemos para que” (QUIERE REDEFINIR..., 2002). Abriu- se, assim, espaço para que Jaunarena seguisse com a linha que já vinha adotando no MD. Nesse sentido, um importante ponto de continuidade foi a presença em Operações de Paz, vistas pelo presidente como relevantes para recuperar a credibilidade do país no exterior (DIAMINT, 2014, p. 315).

Outro aspecto de continuidade foi a pressão por uma agenda favorável à flexibilização da separação entre segurança e defesa. Sob o temor de certos setores com

os possíveis efeitos dos protestos sobre a segurança interna, aventou-se a possibilidade de fundir defesa e segurança sob uma única pasta. Além das razões pecuniárias, o então chefe do exército, general Roberto Brinzoni, afirmou que a distinção entre as duas esferas era artificial e fruto de divisões ideológicas “possivelmente justificadas no passado” (CLARÍN, 2002).

À época ministro Jaunarena negou que houvesse semelhante consideração e, em entrevista, ratificou essa posição (JAUNARENA, 2015). Entretanto, se a ideia não foi considerada efetivamente, isto não quer dizer que não contasse com a aquiescência do então ministro. Naquele momento, Jaunarena afirmava que era preciso manter essa ideia no horizonte, já que “a distinção entre segurança e defesa é uma categoria superada. A essa altura, dividir em compartimentos estanques é um anacronismo” (CLARÍN, 2002).

Finalmente, o presidente Duhalde convocou as eleições presidenciais às quais se apresentaram dezenove candidaturas. Um indício interessante da ampla descrença nos políticos tradicionais está no número de votos obtidos pelos dois principais partidos políticos da Argentina. Se nas eleições presidenciais de 1983, a União Cívica Radical e o Partido Justicialista somaram 85,86% dos votos, em 1994 esse percentual caiu para 57,1% e em 2003 foi de 49,03% (ZELAZNIK; ROVNER, 1995; ARGENTINA, 2003), com a ressalva de que, neste último pleito, três candidatos concorreram sob a bandeira do PJ.

No final do primeiro turno, os dois candidatos mais votados eram os peronistas Carlos Menem, ex-presidente, e o governador de Santa Cruz, Néstor Kirchner, apoiado por Duhalde. Diante da perspectiva de uma derrota acachapante, anunciada pelas pesquisas de opinião, Carlos Menem retirou sua candidatura e Kirchner foi eleito presidente com a menor votação proporcional da história republicana do país.

A frieza das estatísticas e indicadores econômicos muitas vezes omite o essencial: as relações sociais que estão por detrás da aparente isenção do dado estatístico. Ainda assim, importa apresentar alguns dados que dão uma ilustração do quadro argentino às vésperas da posse de Néstor Kirchner.

Apesar de um embrião de recuperação estar gestado já em 2002, no ano seguinte cerca de 20% da população economicamente ativa do país estava desempregada (CEPAL, 2006) e o PIB, somente em 2002, caíra 10,8%, acumulando, de 1999, uma retração de quase 18% (CEPAL 2003). Em 2003, a taxa de suicídios no país chegou ao seu máximo histórico: 14,1 por 100.000 habitantes (ARGENTINA, 2012b) e em pelo menos dez províncias o número de pessoas abaixo da linha da pobreza ultrapassava os

60% da população (INDEC, 2003), num país que, até então, era amplamente reconhecido por possuir alguns dos melhores indicadores sociais do continente.

3 A EFETIVAÇÃO DO CONTROLE E OS LIMITES DA CONDUÇÃO: A