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4 SÃO LOURENÇO DO SUL: IMIGRAÇÃO, COLONIZAÇÃO E

4.2 A colonização alemã no Rio Grande do Sul

4.2.1 O isolamento e as dificuldades nas colônias

A principal característica do sistema de colonização no sul, conforme Seyferth (1990), foi seu isolamento e sua homogeneidade étnica. Na interpretação de Moraes (1981), esses grupos ficaram isolados por muito tempo, sem os elementos nacionalizantes: o luso-brasileiro, a escola e estradas. Nos estudos que realizou na colônia de São Leopoldo, o autor mostrou como não foram assegurados aos imigrantes as condições necessárias de instalação das atividades produtivas e de reprodução social. Através da análise de cartas do Inspetor da colônia de São Leopoldo ao presidente da província, mostrou a penúria em que se achavam esses colonos nos primeiros anos, dependendo, para se manter, do subsídio do governo. Afirma o autor, referindo-se à falta de recursos na colônia: “O colono alemão empreendeu a conquista da terra que lhe fora destinada, transformando a mata e os descampados em áreas de agricultura, como um conquistador descalço” (MORAES, 1981, p.79). Além disso, irregularidades na distribuição dos lotes ocasionaram reclamações e tumultos.

A omissão do governo também se deu em relação à educação. Ainda que clamassem por escolas, esses colonos viveram longos períodos entregues a própria sorte. Diante da omissão do governo, foram abertas muitas escolas particulares, sendo os professores recrutados entre os próprios colonos, ensinando somente a língua alemã. Em 1858, 34 anos depois da instalação dos primeiros colonos, só existiam “duas escolas públicas na vila de São Leopoldo e 27 particulares” (MORAES, 1981 p.103) e só em 1864, o Governo contratou professores habilitados para ensinar a língua nacional nas colônias. Devido ao isolamento nos núcleos coloniais e à falta de professores que ministrassem a língua do país, não se alteraram, com as suas práticas cotidianas, sua concepção de trabalho e de vida comunitária (convívio social) no novo meio.

Moraes (1981) também destaca que a falta de estradas, de meios de comunicação, dificultou, desde os primeiros tempos, um maior contato com a população luso-brasileira, possibilitando o isolamento e a endogamia nas colônias, contribuindo para a conservação de seus costumes durante várias gerações.

Willems (1946) fala da difícil assimilação7 e aculturação8 desses alemães,

uma vez que conviviam com quem falava a mesma língua e viviam em núcleos nos quais não havia praticamente a miscigenação. Mesmo escolas e estradas foram insuficientes para a incorporação dos colonos, principalmente os mais velhos que não aprenderam o português na escola ou não puderam praticá-la pela pouca aproximação com os luso-brasileiros nas picadas onde viviam, tendo a comunidade um desenvolvimento populacional endogâmico.

Porém, diferenças no meio físico não admitiram a utilização de boa parte das experiências acumuladas no país de origem (padrões de habitação, vestuário, alimentação, etc.), implicando a aceitação de novos elementos culturais, provocando mudanças nos hábitos individuais e costumes da comunidade. É justamente aí que Willems identifica processos de assimilação incipientes.9

A cada geração, hábitos e costumes se transformaram. Também a vida material, o vestuário, a alimentação passaram por transformações. No princípio, segundo Roche (1969), esses agricultores tiveram que adotar a alimentação local, pois as condições geográficas e econômicas não permitiram que eles conservassem a sua alimentação de origem: o trigo, a batata-inglesa, a carne de porco, foram substituídos por milho, feijão-preto, mandioca, charque, etc. Porém, em seguida conseguiram cultivar seus alimentos tradicionais. Criando porco, abasteceram-se de banha e carne.

Roche (1969) destaca que o fato de serem proprietários das terras, deu a esses imigrantes e descendentes uma estrutura e uma mentalidade especiais, pois “as dificuldades da instalação e o processo da adaptação eram os mesmos para todos os imigrantes, fossem eles de origem urbana ou rural” (ROCHE, 1964, p.571). A necessidade de sobreviver apagava distâncias sociais e desenvolvia a solidariedade entre eles (ao menos no início da instalação), laços que pouco a

7 “O processo de assimilação consiste no aparecimento de atitudes novas emocionalmente

associadas a valores culturais novos com que o imigrante vai estabelecendo contatos” (WILLEMS, 1946, p.17), “é um processo de reajustamento a expectativas de uma sociedade culturalmente diferente” (WILLEMS, 1946, p.29-30). Assim, para o autor, atitudes novas e valores novos são fases do processo de assimilação, sendo a dificuldade básica que se opõe à esse processo, o sentimento de lealdade do imigrante à cultura do seu grupo. O autor ainda ressalta que a incorporação de novos valores se dá em série e não simultaneamente, fazendo com que “o comportamento dos imigrantes seja dirigido em parte por padrões antigos, e em parte por padrões novos” (WILLEMS, 1946, p.30).

8 “Mudanças nas configurações culturais de dois ou mais grupos que estabelecerem contatos diretos

e contínuos” (WILLEMS, 1946, p.37). 9

Willems (1946) e Roche (1964) destacam a adoção do cavalo e do equipamento do cavaleiro gaúcho, a bombacha, o poncho, o chimarrão, o churrasco como elementos unificadores.

52 pouco se afrouxaram, quando algum vizinho se destacava com base nos resultados materiais. Assim, foi se construindo uma hierarquia que se estabelecia dentro do grupo étnico homogêneo.

O autor destaca o papel dos comerciantes nas colônias. O armazém ou “venda” era parte integrante e essencial nas colônias. Lá se encontrava de tudo: café, açúcar, farinha, sal, bebidas, tecidos, chapéus, tamancos, ferragens, etc. Era o centro de compra e venda, a parada dos viajantes, o ponto de encontro, o elemento de coesão desses colonos que viviam isolados em seus lotes. Era o lugar onde se realizavam festas, bailes e reuniões. Podemos acrescentar que era lugar onde se tinha acesso à informação.

A família do comerciante, que se dedicava também à agricultura, foi abandonando essa prática. O comércio se acentuou e os comerciantes foram, cada vez mais, se distanciando da agricultura e se dedicando ao comércio e transporte da produção da colônia (tornaram-se “atravessadores”), resolvendo, porém, o problema do transporte nas colônias. Assim, o comerciante foi economicamente se diferenciando dos demais agricultores e sua ascensão se deu pelo crescimento da produção agrícola. Roche (1969) destaca entre essas famílias uma herança da profissão e o casamento de interesses (filhos de comerciantes se casavam com filhas de comerciantes). A profissão era para eles um instrumento de ascensão e preponderância socioeconômica na picada, uma forma de adquirir prestígio social. Exerceram influência, inclusive, na orientação da produção agrícola.

É preciso, ainda, mencionar as situações de conflito que marcaram a vida cotidiana dos alemães e seus descendentes, com a propaganda pangermanista no início do século XX e a propaganda do nacional-socialismo hitlerista e a instauração de uma campanha nacionalizadora10. Muitos colonos experimentaram perseguições

e desconfianças, devido à sua origem étnica. Foram fechadas muitas das escolas e estabelecimentos educacionais particulares, principalmente evangélicos, livros em alemão foram apreendidos e os colonos proibidos de falar sua língua em muitos lugares. Porém, segundo Moraes (1981), a campanha de nacionalização do Estado Novo, iniciada em 1937 com a pretensão de forçar a assimilação dos imigrantes alemães e seus descendentes, através da intervenção nas escolas e outras instituições comunitárias, e da proibição do uso da língua materna em público, teve

10 O termo “nacionalização”, segundo Roche (1969) trata da tentativa unilateral de adaptação de

efeitos definitivos, como o desaparecimento de escolas e instituições culturais, mas não anulou alguns princípios étnicos, especialmente aqueles vinculados à origem ou ao processo histórico de colonização comum e hábitos que compõe marcas distintivas.