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Saldanha (2005) explica o porquê da escolha dos itálicos para sua pesquisa:

“[O itálico é] uma tipografia, ou seja, uma referência de organização visual (ou articulação na terminologia tipográfica) da língua escrita que causa um impacto

3No Original: “Considering style as a personal attribute, as well as a textual one, allows us to attribute responsibility for stylistic choices and to go beyond the source text in search for motivation.”

inevitável no entendimento que o leitor terá do texto e na interpretação do texto lido.

Isto pode facilitar a leitura e destacar algumas partes da informação em detrimento de outras. [...] Além disso, os itálicos são um dos poucos recursos extralinguísticos que chama a atenção do leitor de maneira particular, e também um dos poucos recursos que podem ser controlados tanto pelo autor quanto pelo tradutor.”4 (SALDANHA, 2005, p. 88).

Com base em Walker (2001), Saldanha observa que os itálicos podem ser usados de três formas comunicativas, que são elas: distinção (por exemplo, para destacar o nome de um livro), diferenciação (por exemplo, para mostrar o uso de uma palavra estrangeira) e ênfase (para chamar a atenção para uma palavra em particular).

O itálico usado para diferenciação, contudo, pode destacar áreas de potencial interesse para os estudos da tradução. O estrangeirismo é obviamente de interesse do tradutor. Nas traduções, as palavras estrangeiras não são traduzidas, por exemplo, para identificar algum elemento cultural específico. [...] Em termos estilísticos, pode-se dizer que uma das mais interessantes características dos itálicos é a ênfase.”5(SALDANHA, 2005, p. 89-90)

Saldanha (2005) mostra que em inglês o itálico é usado para marcar na escrita um traço prosódico, em espanhol e português nem sempre o uso do itálico atende as mesmas propostas comunicativas. Ela aponta que os únicos traços que diferenciam o trabalho de dois tradutores são o uso de itálicos para ênfase e o uso dos itálicos e aspas para destacar uma palavra estrangeira.

Saldanha (2005) investiga o uso dos itálicos em três idiomas, o inglês, espanhol e português e busca “[...] determinar se a omissão ou adição de itálicos e aspas no texto alvo pode explicar as diferentes convenções tipográficas, ou se estas marcas são a mais significativa intervenção por parte do tradutor.”6 (SALDANHA, 2005, p. 92)

Novodvorski (2013) apoia-se em Saldanha (2005), entre outros. O autor afirma: “Um dos resultados alcançados por Saldanha (2005, p. 91) é que o uso do itálico em traduções para a língua inglesa, com frequência, substitui as marcas de citação (aspas) utilizadas nos textos

4No Original: “Typography refers to the visual organisation (or articulation, in typographic terminology) of written language. A text’s visual organisation will inevitably have an impact on how it is understood and interpreted by readers; it may facilitate readability or highlight some piece of information at the expense of others. […]Given the strict and conventional typesetting rules that apply to the literary narrative genre, italics are one of the few extralinguistic devices that can call the reader’s attention to particular forms, and also one of the few that the text’s originator (author/translator), rather than the text producer (typesetter), has control over.”

5 No Original: “Italics used for differentiation, however, can highlight areas of potential interest for the translation studies scholar. Foreign words are of obvious interest to translators. In translations, source language words that are not translated, for example, may point to culture-specific elements. […]In terms of stylistic significance, however, maybe the most interesting function of italics is the third one listed by Walker: emphasis.” (SALDANHA, 2005, p. 89, 90)

6No Original: “This would help us to determine whether the omission or addition of italics and quotation marks in the target texts can be explained as the result of different typographical conventions, or whether it marks a more meaningful intervention on the part of the translator.”

originais em espanhol e português” (NOVODVORSKI, 2013, p. 56). Este trabalho identifica o tipo de intervenções explícitas e verifica até que ponto as escolhas podem constituir padrões. Novodvorski (2013, p. 185) explica que o uso de itálicos e da pontuação são intervenções explícitas realizadas pelo tradutor. Com base em Olohan (2004, p.145), Novodvorski:

[...] entende que são de interesse para o pesquisador tanto as “escolhas inconscientes”, ou provavelmente menos visíveis, quanto as “intervenções conscientes” do tradutor ou mais deliberadas. [...] Por outro lado e como consequência dos passos anteriores, [...] analisa[r] se essas intervenções deliberadas podem configurar também um espaço de significação próprio do tradutor, para a explicitação de significados sócio-culturais e/ou referências históricas do TOs, com implicações sobre o estilo dos TTs e representação mental de seus leitores (MALMKJAER, 2003, 2004 apud NOVODVORSKI, 2013).

Enquanto a pesquisa de Saldanha (2005) foi guiada pelos dados, a pesquisa de Novodvorski tem uma metodologia também baseada em resultados obtidos em pesquisas anteriores. Novodvorski (2013) afirma: “Os itálicos são recursos extralinguísticos [...] que podem chamar a atenção do leitor para determinadas formas particulares, e sobre os quais tanto o autor do texto quanto o tradutor possuem controle.” (NOVODVORSKI, 2013, p. 56).

Os itálicos foram escolhidos por Saldanha por serem marcas que podem indicar as escolhas do tradutor em níveis subjetivos e motivacionais, o que pode mapear e identificar o estilo do tradutor. Saldanha afirma que:

Identificar as convenções linguísticas de cada idioma pode ajudar a determinar se o uso dos itálicos no TF pode ser explicado como resultado de convenções tipográficas diferentes, ou se essas marcas são uma intervenção mais significativa por parte do tradutor.7 (SALDANHA, 2011b, 425).

Para sua pesquisa, Saldanha escolheu dois pequenos corpora paralelos, CTPB (Corpus of Translations) de Peter Bush e CTMJC (Corpus of Translations) de Margaret Jull Costa, além de um amplo corpus usado como referência, o COMPARA. Novodvorski (2013) por sua vez escolheu como objeto de estudo um subcorpus do ESTRA,corpus literário destinado a pesquisas de estilo em tradução;assim, foram utilizadas três obras literárias do escritor argentino Ernesto Sabato, escritas em língua espanhola, em sua variante rio-platense, e suas respectivas traduções feitas para o português brasileiro pelo tradutor literário Sergio Molina.(NOVODVORSKI 2013. p. 64-65).

7No original: “[…] it is important to note where the conventions differ from one language to another or where contradictory traditions co-exist in a single language. This can help us determine whether the use of italics in the target texts can be explained as the result of different typographical conventions, or whetherit marks a more meaningful intervention on the part of the translator.”

Saldanha (2011c, p. 241) que, ao escolher os corpora de estudo também escolheu os tradutores que seriam analisados, explica:

Ambos Margaret Jull Costa e Peter Bush traduzem do espanhol e português para o inglês. Os TFs que eles têm trabalhado foram produzidos em diferentes contextos culturais, e no caso de Margaret Jull Costa, em períodos históricos diferentes.

Considerando a carga cultural e profissional deles, ambos são britânicos e vivem na Grã Bretanha por toda a vida adulta. [...] Isto significa que as diferenças do estilo deles não podem ser atribuídas por tradições tradutórias diferentes, ou por lealdade a diferentes pensamentos ou teorias.8 (SALDANHA, 2001c, p. 246)

Saldanha (2011a) propõe não apenas uma definição de estilo do tradutor, mas também a ampliação dos estudos da tradução a partir da investigação do estilo do tradutor, buscando uma “impressão digital linguística” (linguistic fingerprint)(p.239). Ao analisar as escolhas dos tradutores Margaret Jull Costa e Peter Bush, Saldanha pôde observar o estilo de cada um deles. Antes de refletir sobre o estilo dos tradutores, Saldanha (2005) precisou verificar as convenções linguísticas das línguas envolvidas buscando em manuais de uso das línguas e gramáticas da língua inglesa, portuguesa e espanhola. Ela analisou dois traços tipográficos, o itálico e as aspas. Araújo e Castro (2012) baseado neste estudo, analisou ambos os traços tipográficos, porém, as aspas somente quando relacionadas à tradução do itálico. No presente trabalho, será analisado apenas um traço tipográfico, o itálico, como um recorte do estilo do tradutor.

Saldanha (2005, 2011a, 2011b, 2011c) verificou que as línguas de culturas românicas, como o português e o espanhol, e as línguas de culturas germânicas, como inglês e holandês, apresentam diferentes preferências em relação ao uso do itálico: “Genericamente falando, enquanto algumas línguas [germânicas], como holandês e inglês, usam a prosódia para marcar uma informação importante, outras línguas de família românica tendem a inverter a ordem das palavras.”9 (SALDANHA, 2011b, 428). Porém, existem algumas regras comuns em todos os manuais de uso das línguas, como por exemplo, italicizar os nomes de navios, apelidos, animais de estimação, e também as palavras estrangeiras. O estrangeirismo é a única categoria para a qual se recomenda o uso do itálico em todos os manuais de uso linguísticos.

(SALDANHA 2005). A partir daí, Saldanha percebeu que seria possível chegar ao estilo do tradutor através das omissões e adições dos itálicos. O resultado foi que Margaret Jull Costa

8No original: “Both Margaret Jull Costa and Peter Bush have translated from Spanish and Portuguese into English. The source texts they have worked with have been produced in verydifferent cultural backgrounds, and in the case of Margaret Jull Costa, in different historical periods. Regarding the translators’ own cultural and professional backgrounds, both are British and lived in Great Britain for most of their adult,lives. […] This meant thatdifferences in their style would be unlikely to be attributable to different translation traditions or to allegiance to different schools of thought.”

9No original: “Generally speaking, while some languages, such as Dutch and English, use prosodic means to mark information focus, other languages, such as those of the Romance family, tend to rely heavily on word order.”

adicionou muitos itálicos de ênfase. No corpus COMPARA10 foram identificados 30 itálicos adicionados, no Corpus MJC, foram adicionados 39 itálicos e no corpus PB nenhum itálico foi adicionado. Assim, Margaret Jull Costa tem como traço de seu estilo o uso dos itálicos de ênfase, o que a distingue dos outros tradutores. Peter Bush escolhe como solução não perturbar o texto, mantendo as palavras no original, ou ter uma ilusão de transparência.

(SALDANHA 2005, 2011b).

Complementando o estudo do uso do itálico neste trabalho, utilizou-se também como base Frankenberg-Garcia (2005), segundo a qual o uso de palavras estrangeiras ou empréstimos tem duas finalidades: a primeira seria suprir a falta de um correspondente na língua de chegada que tenha um significado equivalente; a segunda, evocar significados além do que a palavra traz em sua forma escrita, ou seja, evocar um ou mais significados abstratos que não seriam identificados se o tradutor escolhesse encontrar uma palavra correspondente na língua alvo, o que ocasionaria a perda do contato com a cultura do texto fonte.

Frankenberg-Garcia (2005) explica a escolha do corpus paralelo utilizado, o COMPARA. Um amplo corpus bidirecional do inglês/português contendo textos publicados há menos de trinta anos, esse corpus possui a ferramenta “Complex Search facility” que permite que o usuário recupere palavras estrangeiras dos textos específicos automaticamente, o que foi utilizado como metodologia por Frankenberg-Garcia para computar a utilização de empréstimos linguísticos nos TTs. Os textos fonte são 15 obras em português traduzidas para o inglês e 15 obras em inglês traduzidas para o português.

Frankenberg-Garcia (2005) investiga os empréstimos linguísticos para observar as decisões dos tradutores e descobre que um fator que afeta a decisão individual do tradutor é o prestígio da língua. Com a investigação dos originais, pode-se verificar que a marca mais frequente de estrangeirismos é o itálico, e que essa marca pode variar de um texto para outro, como afirma Frankenberg-Garcia, “A palavra jeans, por exemplo, é marcada como estrangeira em dez textos em português (nove traduções e um texto original), mas deixa de ser marcada em três deles (uma tradução e dois textos originais)”11 (FRANKENBERG-GARCIA, 2005, p. 6). A autora acrescenta:

Palavras que foram usadas em itálico, apesar da acomodação generalizada para a língua através dos empréstimos, foram classificadas de acordo com suas origens -

10COMPARA http://www.linguateca.pt/COMPARA/ (version 6.0 accessedbetweenDecember 2004 and March 2005).COMPARA é um corpus paralelo bidirecional constituído de textos fontes e suas respectivas traduções em inglês e português.

11No original: “The word jeans, for example, is marked foreign in ten Portuguese texts (nine translations and one source text), but is left unmarked in three of them (one translation and two source texts).”

portanto, a palavra moussaka, que se tornou generalizada ao ponto de aparecer em vários dicionários de língua Inglesa, foi catalogada como o grego.12 (FRANKENBERG-GARCIA, 2005, p. 8).

Os resultados obtidos na citada pesquisa sugerem que o texto original em inglês admite com mais frequência os empréstimos, sendo mais adaptável ou mais influenciado pelas palavras estrangeiras do que os originais escritos em português. Assim, pode-se afirmar que, ao contrário dos leitores em português, os leitores da língua inglesa são mais expostos aos empréstimos linguísticos quando estão lendo originais, uma vez que os originais em inglês apresentam quatro vezes mais empréstimos. As traduções do inglês para o português tiveram quase seis vezes mais empréstimos do que as traduções feitas no sentido inverso. Entre os textos analisados, as traduções para o português continham, em média, 16 vezes mais empréstimos do que os textos originais. (FRANKENBERG-GARCIA, 2005, p. 10). Deve-se considerar também que palavras italicizadas na língua portuguesa, consideradas estrangeiras, muitas vezes já foram aceitas na língua inglesa, como foi o caso da palavra moussaka, conforme explicado anteriormente. É importante enfatizar que os empréstimos linguísticos e estrangeirismos são mais frequentes em textos originais em língua inglesa do que em textos originais em língua portuguesa; ao contrário, os empréstimos e estrangeirismos são menos frequentes em textos traduzidos em língua inglesa do que em textos traduzidos em língua portuguesa. Portanto, confirma-se também que o uso do itálico para marcar as palavras estrangeiras é uma convenção linguística menos comum aos pares linguísticos português/inglês do que aos pares linguísticos inglês/português.

Araújo e Castro (2012) estuda o itálico como traço do estilo de tradutores, levando em conta o estilo dos textos traduzidos. Para isto, o corpus escolhido foi composto de duas traduções do português europeu da obra Heart of Darkness, traduções feitas por Bernardo Brito e Cunha, em 2008, e Fernanda Pinto Rodrigues, em 2009. Araújo e Castro investiga a conservação, acréscimo e omissões dos itálicos. Sua categorização dos itálicos foi detalhada em “Nomes próprios de lugares”, “Nomes próprios de pessoas”, “Nomes próprios de embarcações” e “Referências culturais”, “Referências culturais ficcionais”, “Ironia”,

“Estrangeirismos”, “Ênfase” e “Onomatopeia”. Araújo e Castro (2012) encontra 8 (oito) acréscimos de itálicos, feitos por Brito e Cunha, enquanto Rodrigues acrescenta 18 (dezoito) itálicos.

12No original:“Words which were used in italics despite widespread accommodation into the borrowing language were classified according to their origins – thus the word moussaka, which has become generalized to the point that it appears in several English language dictionaries, was catalogued as Greek.”

É importante salientar que Araújo e Castro (2012) analisou os itálicos computando as repetições de palavras nos TTs e que, na presente pesquisa, a análise foi feita computando-se também as ocorrências de itálicos sem repetições de palavras. A categorização dos itálicos utilizada neste estudo é a mesma utilizada por Saldanha (2005, 2011a), de “Distinção”,

“Diferenciação” e “Ênfase”.

Com base na proposta de Saldanha (2005, 2011a, 2011b e 2011c) e utilizando um subcorpus literário, parte integrante do corpus ESTRA, o presente estudo pretende analisar as escolhas de Marcos Santarrita e Regina Régis Junqueira, em traduções do TF Heart of Darkness de Joseph Conrad, obra traduzida por diversos tradutores, dentre eles os dois citados, observando se há a possibilidade de atribuir a eles a responsabilidade pelas escolhas estilísticas através da comparação do uso do itálico e identificação de prováveis diferenças estilísticas em suas traduções.

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