4. Ditos e Escritos de Pedro Casaldáliga: A Carta Pastoral: uma Igreja da Amazônia em conflito
4.1. O Jornal Alvorada: A Carta do nosso bispo
“Lema episcopal: Humanizar la humanidade”.
D. Pedro Casaldáliga
No Brasil, em que pese a crítica mais recente, a história nacional ainda é a historiografia do Sudoeste, em suas proximidades com os espaços do poder político e econômico. Tudo o mais é conhecido como regional. O mesmo equívoco se espraiar por outros campos, a exemplo da literatura. O regional aí quer dizer de interesse (e importância) restrito, quer dizer ‘não nacional’. (BRANDÃO, 2012).
A reflexão acima ocupa lugar privilegiado, no prefácio, no livro “Práticas midiáticas e cidadania no Araguaia: O jornal Alvorada” (2012), de Marluce de Oliveira Machado Scaloppe. O trabalho é resultado da pesquisa de mestrado no domínio da História Cultural, sob a orientação da Profª Drª. Ludimila Brandão, da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT55, a qual é sua prefaciadora.
A prefaciadora levanta questões do ponto de vista do domínio da história cultural perscrutada pelas teorias da leitura sobre a constituição da escrita, da leitura e o impresso. Leva-se, nesse processo de constituição do texto, o modo e o lugar de produção, bem como sua circulação.
Nesse sentido, Brandão coteja com a discussão sobre a presença da edição/editor, proposta por Foucault (1969/70) e ampliada por Chartier (2014), em a “mão pesada” do capital, do liberalismo econômico, político, submetem as artes, as obras e os meios de comunicação (Jornais, TV), a procedimentos de
“rarefação”. Este que determina os sujeitos que falam,
[...] ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfazer a certas exigências ou se não for, de início, qualificado para fazê-lo. Mais precisamente: nem todas as regiões do discurso são igualmente abertas e penetráveis; algumas são altamente proibidas [...], enquanto outras parecem quase abertas a todos os ventos e postas, sem restrições prévia, à disposição de cada sujeito que fala. (FOUCAULT, [1971] 2006, p. 37).
55 A dissertação, como mesmo nome da obra, foi defendida em 2009. Na Universidade Federal de Mato Grosso.
Em Scaloppe (2012), é possível perceber, tangencialmente, a discussão sobre os efeitos de rarefação na produção e circulação do Jornal Alvorada, principalmente, no período de publicação dos anos 1970 a 1984 – recorte temporal da pesquisa – que coincide, em boa medida, como os tempos obscuros da ditadura militar-civil no Brasil (1964-1985)56. No entanto, Scaloppe, não aprofunda sobre a questão da “rarefação dos discursos”.
Segundo a autora, em 1970, “a Prelazia decide lançar o Alvorada para divulgar as ações da Igreja e servir como instrumento de ‘conscientização’ da população local”57. Diante dos objetivos da Prelazia, a pesquisadora inicia sua análise do jornal e concentra-se nas seguintes questões iniciais: “Qual era a proposta da Prelazia com a edição do jornal? Como e por que era feito? Que temas tratava? Qual foi o papel exercido pelo jornal na Prelazia de São Félix do Araguaia?”
Essas questões levaram-na a analisar os quase 40 anos de história do Jornal Alvorada. A justificativa da pesquisa se dá pela compreensão da autora de que “a imprensa é fundamental como instrumento de manipulação de interesses e de intervenção na vida social.” (SCALOPPE, 2012).
Para iniciar suas análises, a autora classifica o jornal em de três fases58, a saber, a primeira fase (1970 a 1984), em que o Alvorada circulava quase que mensalmente, era mimeografado, em tamanho ofício. O número não era fixo, dependia da quantidade de notícias consideradas importantes para o momento, bem como das condições de produção. O jornal, na maioria das
56 Ver SCAPOLLE (2012, p. 42-55) onde a autora analisa a partir de fragmentos do Ato
Constitucional 5 (AI5) e como ele afetou diretamente a imprensa brasileira.
57 Idem (2012, p. 16) a autora acentua que o Jornal, agora com quase 40 anos [2009], volta-se mais para assuntos eclesiais e não possui os mesmos objetivos e características de quando foi lançado, mas ainda é considerado importante veículo de comunicação na região noroeste de Mato Grosso.
58 Nessa primeira fase (1970-1984) descreveremos quase que literalmente o que descreve a pesquisadora porque nosso recorte temporal de análise é o mesmo. As demais fases serão sintetizadas. Adiantamo-nos que não analisaremos os exemplares do jornal em sua totalidade, como até certo ponto fez a autora. (SCALOPPE, 2012, p. 17-18). Para nossa pesquisa tomaremos como corpus as “Carta do nosso bispo” – primeira página do Jornal Alvorada, dos anos 70 até meados dos anos oitenta do século passado.
vezes chegava às mãos da população pelas mãos dos Agentes de Pastoral.
Com isso, destacamos:
Nesta fase, os títulos eram escritos à mão, de forma a destacar determinados assuntos, já que o uso da máquina de escrever limitava isso. A criatividade supriu a precariedade. Sem possibilidade de fotos, inúmeras ilustrações facilitavam a compreensão das informações pelo que pouco ou nada sabiam ler. As ilustrações retratavam cenas da vida rural e urbana local (construções, objetos indígenas, arte sacra, etc.). As pessoas eram, por sua vez, constantemente retratadas/identificadas como o homem do campo, com chapéu e instrumentos de trabalho nas mãos, como enxadas, machados, foices, etc. Os proprietários de terra eram os ‘tubarões’, ‘os gatos’, ‘os escorpiões’, etc. (SCALOPPE, 2012, p. 17).
Na segunda fase (1985 a 1994), o jornal sofreu grandes transformações:
passou a ser impresso em gráficas e se tornou bimestral. “O Jornal justificou para seus leitores as mudanças: saindo a cada dois meses, por que é impresso fora da região e as viagens supõem muita despesa: o papel, a impressão e o correio”. O formato continuou o mesmo (ofício), porém a revisão da matéria e diagramação passaram a ser realizadas por jornalistas profissionais e sua produção ficava aos cuidados dos Agentes de Pastoral, nos Patrimônios59.
Destaca-se que a partir desse momento o jornal passou a ter assinaturas, ou seja, inicia-se um processo de mercantilização do Jornal Alvorada. As mudanças não paravam por aí, o jornal passa então por um processo forte de reestruturação com a chegada de jornalistas à região. E essas mudanças propiciaram que fotos e cores fossem inseridas nas configurações das matérias.
A autora (SCALOPPE, 2012), quanto a essa fase, não aborda a temática do custo do material para Prelazia nem o valor atribuído a cada exemplar vendido aos assinantes. No entanto, em nossa pesquisa no acervo verificamos que alguns jornais levavam, em manuscrito, a sigla de (3C$ Cruzeiros); e diante do contexto socioeconômico da região, precário, o jornal não teve
59 Os Patrimônios eram os pequenos povoados.
mudanças apenas em sua apresentação, mas também, em seu modo de consumo e circulação da informação.
Na sua terceira fase (janeiro de 1995), o Alvorada passou a ser impresso no tamanho de tabloide; a capa ou “primeira página” passa a receber ilustração do pintor Maximino Cerezzo60 e a diagramação fica também aos cuidados do pintor. Limita-se para doze o número de páginas61; apresenta-se em colorido; e sua distribuição realiza-se da seguinte forma: metade dos exemplares ficavam na área da Prelazia – só em Confresa tinha duzentos assinantes –, a outra metade era encaminhada aos Agentes de Pastoral que se responsabilizam também pela venda das assinaturas. “Cerca de 50% dos custos do jornal são financiados por uma Congregação Religiosa. O restante dos custos é coberto pela própria Prelazia”.62
Após as primeiras descrições do Jornal Alvorada, a pesquisadora busca realizar seus estudos por meio de “recuperação do processo de produção do jornal, analisar o poder cultural e simbólico exercido pela mídia, que nasce na atividade de produção, transmissão e de recepção das formas simbólicas”.
Para essa verificação, fez-se necessário colocar em evidência o leitor, no contexto, segundo ela, para refletir sobre “a forma como os leitores apropriavam do jornal” e “a forma como os impressos chegaram às mãos dos leitores se apropriavam do jornal”. Feito isso, para o prosseguimento da análise, Scaloppe (2012, p. 22) faz
[...] um mapa da periodicidade, relacionando as edições com os acontecimentos e ação da Prelazia. [...] relacionei os textos publicados no jornal com o modo de atuação da Prelazia, para avaliar o papel exercido pelo jornal no lugar de produção social.
60 Padre espanhol conhecido como o pintor da Teologia da Libertação.
61 É importante ressaltar que em nossa visita ao acervo da Prelazia encontramos alguns exemplares, muito danificados, mas foi possível verificar que os primeiros exemplares tinham em média 15 a 16p.
62 A autora não apresenta a identificação da Congregação. E nós, diante dos documentos, também não conseguimos identificar, especificamente, a congregação. No entanto, pode-se deduzir que a ajuda veio do exterior, provavelmente da Espanha. Essa dedução se justifica quando consideramos a influência dos “amigos, companheiros”, assim D. Pedro se referia a eles em cartas aos amigos. Estes sempre se fizeram presentes na vida de D. Pedro e em seus projetos. Ora por oração e ora por oração e ajuda financeira. Como foi na construção do Ginásio de Esportes de São Felix do Araguaia, bem como na construção de pronto atendimento de saúde e escolas – na região.
O processo de produção de uma publicação, seja qual de qualquer tipo, resulta em um processo coletivo, do qual não se separa a materialidade da textualidade do impresso.”
(CHARTIER, 2007 apud SCALOPPE, 2012, p. 22).
A autora ancora-se nos estudos de Charter63 (1990-2004) com destaque ao tratamento dos estudos/conceitos de história cultural, e em Luca64 (2005) para quem a materialidade do impresso: “formato, forma de impressão, capa, presença ou ausência de ilustrações e fotos, números de páginas, etc., que são aspectos que enfatizam”, se faz importante, pois define a forma como o material chega ao leitor.
A autora se propõe suas análises alicerçada nas abordagens da Análise do Conteúdo [(Bacelar (2006); Herscovitz (2007; Bardin (1979)]. Esta sendo a referência mais citada no decorrer das análises da autora, tendo em vista que para ele [Bardin] “a unidade de significação a codificar e corresponde ao segmento do conteúdo a considerar como unidade de base, visando a categorização e a contagem frequencial. (BARDIN, 1979, p. 130 apud SCALOPPE, 2012, p. 23, itálico nosso). Essa consideração teórica possibilitaria ainda a concepção de “duas categorias65: título e texto, apontar o número de vezes que cada tema foi citado, ou mereceu ‘cobertura’ jornalística dentro do recorte temporal.” Ainda nesse percurso de análise busca-se também verificar:
[...] as estratégias e o conjunto de ideias, atitudes e práticas embutido nos discursos, da Prelazia dentro do contexto político, e socioeconômico do período [...]”, refletir sobre “em que condições de produção foi produzido o jornal e o que ele representou para os leitores da região do Araguaia.
(SCALOPPE, 2012, p. 20).
Scaloppe (2012), a partir da leitura de Bacelar (2006), de que “nenhum documento é neutro e pode carregar consigo a opinião da pessoa ou órgão responsável”, lança-se à análise do documento (o Jornal Alvorada) modelo de verificação do conteúdo a partir de temas. A noção de tema encampada pela
63 Ver (SCALOPPE, 2012, p. 18, 19).
64 Ver (idem, 2012, p. 22).
65 A categorização foi realizada por amostragem, ver (idem, 2012, p. 22).
pesquisadora, configura-se na possibilidade de “estudar motivações de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças, de tendências, etc.”; a partir de
[...] entrevistas (não diretivas ou mais estruturadas) individuais ou de grupo, de inquérito ou de psicoterapia, os protocolos de testes, as reuniões de grupo, os psicodramas, as comunicações de massa, etc., podem ser, e são frequentemente, analisados tendo o tema por base. (BARDIN, 1979. p. 131 apud SCALOPPE, 2012, p. 23).
Dessa maneira, elabora uma “tabela” de categoria (crescente) de temas mais recorrentes no jornal. Com efeito, divide os temas em dois eixos: a) questões sociais, b) questão indígenas. Scaloppe (2012), destaca que “a classificação e interpretação do conteúdo foram realizadas considerando o lugar de produção social dos textos”, a saber
Política: categoria em que se enquadram os textos que lidam com a política internacional, nacional e local, repressão, censura e eleições.
Economia: nesta categoria foram agrupadas matérias referentes a: FMI [Fundo Monetário Internacional], pró-alcool, custo de vida, emprego e comércio.
Questões sociais: categoria que reúnem texto sobre saúde, meio ambiente, transporte, mutirões na cidade, violência policial na cidade, clube de mães, clube de comadres.
Questões indígenas: nessa categoria estão presentes temas como CIMI [Comissão Indigenista Missionário], povos indígenas, demarcação de terras indígenas, saúde indígena e FUNAI [Fundação nacional do índio].
Igreja: pastoral, batismo, casamento, família, missa, novena, campanha missionária, Teologia da libertação, CNBB [Comissão nacional dos bispos do Brasil], Grupo pastoral, Conselho comunitário.
Terra: peão, posseiro, latifúndio, trabalho escravo, violência no campo e INCRA [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária].
Outros: poesia, teatro, livro, jogos de palavras, trovas, futebol, receitas e Alvorada. (SCALOPPE, 2012, p. 24-25, negrito da autora).
O Jornal Alvorada inicia sua publicação no início dos anos 70, sob a condução institucional da Prelazia de São Felix do Araguaia, na cidade de São Félix do Araguaia, estado do Mato Grosso. No entanto, seu processo informativo impresso, as matérias, isto é, as informações, notícias (nacionais e
internacionais), os recados, avisos que constituíam o jornal eram classificados, organizados de forma coletiva.
Tavares (2019), tal como Scaloppe (2012) descreve que: os conteúdos (pautas) selecionados para vincular no jornal eram encaminhados pelas lideranças locais que faziam parte da Prelazia, ou seja, as informações eram encaminhadas para a Prelazia. E depois, sob a condução do Padre Pedro Casaldáliga (1968) eram organizadas e elaborados os destaques para a impressão do Jornal Alvorada que até 1984 circulava mensalmente:
datilografado, mimeografado (conforme citado acima), com aproximadamente 15 a 17 páginas, sendo algumas manuscritas, com títulos quase de forma geral manuscritos com letras em caixa alta, seguidos por subtítulos datilografados.
Scaloppe (2012) observa que os títulos feitos à mão era uma estratégia de destacar determinados assuntos, já que o uso da máquina de escrever limitava esse tipo de destaque, e mais,
[...]. Sem possibilidade de fotos, inúmeras ilustrações facilitavam a compreensão das informações pelos que poucos ou nada sabiam ler. As ilustrações retratavam cenas da vida rural e urbana local (construções, objetos indígenas, arte sacra, etc.). As pessoas eram, por sua vez, constantemente retratadas/identificadas como homem do campo, com chapéu e instrumentos de trabalho nas mãos, como enxadas, machados, foices, etc. Os proprietários de terra eram os ‘tubarões’, ‘os gatos’, os ‘escorpiões, etc. (SCALOPPE, 2012, p.17).
Nas figuras abaixo pode-se verificar a capa do primeiro exemplar do Jornal Alvorada:
FIGURA 1 - ILUSTRAÇÃO: SCALOPPE (2012, P. 57) – CAPA ANEXO I JUL/1970.
Figura 2 arqv.16.0.58 P1, em setembro de 1978 Figura 3 – arq. 16.0.61. P1. Capa - dezembro de 1978
FIGURA 4 - ARQUIVO 16.0.61. P.2. DEZ/1978 FIGURA 5 – ARQUIVO 16.0.60. P10. OUT/1977
Como podemos observar nos documentos anteriormente dispostos, a confecção do Jornal Alvorada (nos primeiros anos década de 1970) foi precária, com exceção do primeiro exemplar que, acreditamos por ser a edição inaugural, buscaram realizar uma diagramação mais moderna para época. É importante destacar que nesse período a região do Araguaia, especificamente, em S. Félix do Araguaia, onde era confeccionado o jornal, não havia energia elétrica, telefone e correios.
Observa-se que os títulos são manuscritos pelos partícipes na elaboração do jornal. Na Figura 1 o título “Quem é o Papa?” vem acompanhado do subtítulo “Carta do nosso bispo” (datilografado). Em nossa pesquisa observamos que a “Carta do nosso bispo” posicionava-se em
destaque, ou seja, como a capa do Jornal Alvorada, a carta era a matéria principal, até meados de 1979.
Sabe-se que a “Carta do nosso bispo” era a notícia mais esperada por todos seus leitores com muita esperança e entusiasmo, uma vez que é pela
“voz” do bispo que o povoado era informado sobre o que acontecia, no entorno da região, no Brasil e no exterior.
Na Figura 2 vemos uma das primeiras capas que tem como título, também manuscrito, “Não há lugar para eles [um desenho de um casal, em uma casa humilde, com uma criança do colo da mãe] [e o título continua abaixo da ilustração] quando o povo NÃO TEM ESCOLA/NÃO TEM TERRA/NÃO TEM REMÉDIOS/NÃO TEM COMIDA (em letras maiúsculas).
Já na Figura 3 temos o título “Notícias de dentro”, escrito também de forma manuscrita, e os subtítulos 1, em letras datilografadas - “FAZENDEIRO DERRUBA CERCA NO CURICHÃO”, “VIOLÊNCIA NA MATINHAS”; subtítulo 2, em letras minúsculas datilografadas - “Assim eles queriam ser os bons do lugar”; subtítulo 3 na mesma formatação do anterior - “Moradores comentam”.
E na Figura 4 temos: “Notícias de Fora”, em subtítulos com letras garrafais, manuscritas: “CNBB CRITÍCA NOVA LEI DE SEGURANÇA NACIONAL”, “GOVERNO QUER MESMO ACABAR COM OS INDIOS”,
“CACIQUE XAVANTE FALA SOBRE EMANCIPAÇÃO”.
De acordo com Scaloppe, a utilização da escrita à mão nos títulos fora uma opção econômica e estratégica, ou seja, a formatação dos títulos, o formato datilográfico deixava muito espaço em branco e sua formatação não atendia à necessidade da equipe “de chamar a atenção do leitor”. Essa estratégia pode ser lida à luz dos trabalhos de Dominique Maingueneau (2008) como sobreasseveração: “um tipo de amplificação de certas sequências do texto” (MAINGUENEAU, 2008, p. 89), ou seja, um procedimento de destaque de determinada parte importante do texto para chamar a atenção do leitor e, consequentemente, poder ser destacada e dessa forma frequentar outros contextos.
A equipe da Prelazia também buscava aproximar-se, o máximo possível, da estrutura composicional do(s) gênero(s) do discurso jornalístico.
De entrada, constamos que o jornal não tinha uma seção de índice, no entanto, analisando os jornais, nota-se que a equipe da Prelazia seguia uma sequência
editorial e diagramação de jornal de grande circulação no Brasil dos anos sessenta e setenta do século passado.
A equipe do Jornal Alvorada, conhecida como O Grupo da Alegria do Alvorada, após o título de cada seção inseria os subtítulos que visualizamos, os quais eram datilografados em letras maiúsculas e que no decorrer da redação das notícias utilizavam padrões de escrita dos manuais de datilografia (espaçamento entre linhas, parágrafos, pontuação) como referência. Os avisos, as notas e recados destacavam-se pelo efeito de molduras.
Devido à impossibilidade de recursos tecnológicos, adequados à época, e financeiros, o jornal não se beneficiava de fotos ou imagens coloridas. No entanto, isso não limitou a equipe. Ela buscava reproduzir desenhos que privilegiavam as cenas do cotidiano da região.
Nas figuras 2, 3, 4 é possível ver desenhos feitos à mão que representavam os objetos utilizados pelos povos da região do Araguaia, como:
canoa e remo. A representação dos animais da região, sejam domésticos ou não, se fazia também por meio de desenhos. Os indígenas, ou seus ordenamentos culturais, eram representados em todos os exemplares do jornal. Na Figura 4 podemos identificar os povos indígenas com vestimentas tradicionais típicas de festa.
As imagens dos homens e mulheres brancas (os tori, designação dada pelos indígenas aos não-indígenas), principalmente no período de 1973 a 1984, são recorrentes nas manchetes do jornal. Na elaboração das imagens (do homem branco), conferimos que há uma padronização. Os homens, em especial, são representados na maioria das vezes, pela face (rosto), do quadril para cima, sentados. Esses padrões estendem-se às vestimentas e também a gestos. A partir dessas observações identificamos que os homens eram representados em posturas diferentes, ou seja, uns eram os peões e outros os fazendeiros.
Os peões usavam chapéu simples com aba aberta, vestimentas desleixadas, e em suas mãos tinham instrumentos de trabalho (enxada, facão,
foice). Um corpo peão se faz no cenário desenhístico66, ora como trabalhador, ora como trabalhador resignado, ora aguerrido com punho cerrado. As mulheres eram representadas no jornal ora como a mãe, ora como a trabalhadora campesina resignada, ora como trabalhadora aguerrida com punho cerrado.
As imagens do homem branco, por outro lado, eram caracterizadas de forma bem diferente: com bigode, chapéus maiores, visivelmente mais alinhados, com a ponta do chapéu sempre mais finas e altivo (uma dobra é feita nas abas do chapéu para ele ficar mais fino e empinado na ponta); a face desse homem é representada com linhas de expressão muito fortes, como um
“tubarão67”, olhar mais feroz, sempre à frente de grupo de homens e mulheres de punhos cerrados ou totalmente resignados. Um corpo feroz se faz no cenário desenhístico do Jornal Alvorada.
Na figura 3, em “Notícias de dentro”, observa-se que a escrita informativa é realizada na cadência cronológica temporal. Os acontecimentos eram narrados de forma retrospectiva, ativadas por datas, como podemos destacar:
Em 74, chegou na beira do Curichão, distante 100 km do Ribeirão Bonito, o fazendeiro Nagib Trabulis, de S. Paulo. Ele chegou querendo tomar conta das terras de mais de 10 posseiros. Como não achou apoio, foi embora. Mas, em agosto de 77, voltou de novo. [...]”.
Ainda no mesmo documento, “Notícias de dentro”, os editores do jornal informam sobre os últimos acontecimentos ocorridos no vilarejo “Matinha”, que vivenciava o horror da violência cotidiana devido ao vício do álcool. A estrutura narrativa dos acontecimentos vivenciados pela comunidade “Matinha” se rompe com a narrativa cronológica tradicional; e o investimento narrativo funciona por
66 Desenhístico pode ser compreendido, também, como rima. Ou seja, como estética da forma, de palavras que no ordenamento da estrutura da linguagem, do enunciado, produz imagens, de lugares, de objetos, sons; e no espectro sensitivo nos remete à memória de um cheiro, um
66 Desenhístico pode ser compreendido, também, como rima. Ou seja, como estética da forma, de palavras que no ordenamento da estrutura da linguagem, do enunciado, produz imagens, de lugares, de objetos, sons; e no espectro sensitivo nos remete à memória de um cheiro, um