2.1 O jornal impresso: le journal quotidien
2.1.2 O jornal Le Monde
O Le Monde surgiu sobre o pilar do antigo jornal Le Temps, que circulou na França de 1861 a 1942, quando foi fechado por questões políticas do período de guerra26. Durante décadas, o Le Temps, fundado por protestantes, representou as ideias da burguesia liberal, pois pregava a produção do máximo de liberdade sob o mínimo de governo, até que mudou de mãos em 1929. Passou a ser gerido por um consórcio de empresários que misturava política e imprensa, reforçando as suspeitas populares de que o jornalismo atendia aos interesses financeiros e estava submetido a influências muitas vezes escusas (EVENO, 2004).
O ano de 1944 trouxe à França novas regras para a imprensa, restabelecendo sua liberdade e clareza em seus negócios. O general De Gaulle torna obrigatória a publicação do nome de todos os dirigentes nas edições dos jornais, sendo que nenhum diretor poderia exercer outra profissão concomitantemente27. A ideia, segundo Eveno (2004), era proteger a imprensa do poder econômico.
Cerca de cinco meses após o ‘Dia D’, quando a maior parte da França já se encontrava libertada das tropas alemãs, um decreto do governo datado de 25 de novembro de 1944 confiou a gestão dos bens do Le Temps a uma nova equipe de administradores encabeçada pelo jornalista Hubert Beuve-Méry. Um dos objetivos de De Gaulle era que o Le Monde ultrapassasse os limites da França, que ganhasse o mundo, objetivo que parece ter sido atingido. O novo diretor hesitou entre Le
Continent (lhe parecia muito banal), Le Universe (nome de um antigo jornal de
conotação histórica e religiosa muito forte) e Le Monde.
La Société à responsabilité limitée Le Monde - SARL28 Le Monde foi criada
em 11 de dezembro de 1944, sendo que o primeiro número do jornal foi impresso na manhã de segunda-feira 18 de dezembro de 1944, antedatado de terça-feira 19,
26
Nesse mesmo ano, o jornal Le Figaro foi suspenso também por questões políticas, voltando a circular dois anos depois (EVENO, 2004).
27
Segundo Eveno (2004), as principais correntes da resistência francesa consideram que a imprensa da terceira república havia se vendido ao inimigo e se corrompido, sendo parcialmente responsável pela ocupação alemã na Segunda Grande Guerra. Os resistentes desejavam, então, criar uma imprensa nova, independente, que não corresse risco de cair nas mãos de “capitalistas de más intenções”.
28
seguindo o costume dos jornais parisienses que circulavam da tarde para a noite, o que se mantém ainda hoje. O primeiro número foi constituído de uma simples folha frente-verso, no formato de 67 cm de altura por 50 cm de largura. Atualmente seu formato é tabloide, equivalente à metade de um standard. Possui 28 cm de largura por 32 cm de altura e se mantém como um jornal de soir, ou seja, chega às bancas e aos assinantes por volta das 13 horas.
Segundo Eveno (2004), a lenta difusão do jornal se justificou pela audiência que ele adquiriu progressivamente junto a universitários, professores, estudantes, executivos de empresas e profissões liberais, o que permite afirmar que o Le Monde cresceu centrado sobre o mundo político e diplomático, assim como sobre o mundo dos negócios.
Em função de uma ordem do governo, que buscava restabelecer a economia francesa, em janeiro de 1945 os jornais foram obrigados a reduzir pela metade o consumo de papel – seja diminuindo o tamanho/formato do jornal ou a tiragem. O Le
Monde opta pelo formato que manterá durante 45 anos, o mesmo de seu
antecessor: 50 cm de largura por altura de 33,5 cm. A redução da tiragem se torna um golpe de gênio, pois os leitores se precipitavam nas bancas para obter um exemplar. A marca Le Monde se impôs sobre o axioma de que é melhor vender menos exemplares do que os concorrentes, mas fornecer ao leitor uma cota mínima de informações abaixo da qual não vale a pena fazer um jornal, segundo Eveno (2004).
O autor conta que foi na década de 1950 que o diário se firmou como jornal de referência das elites francesas, através de uma independência que conjugava austeridade e informação exaustiva. Nasceu denso, com abordagens sérias e, ao mesmo tempo, procurou captar a atenção do leitor fazendo apelo à sua inteligência e à sua cultura mais do que a reflexos visuais, diz Eveno (2004).
No ano em que surgiu, 1951, a Société des rédacteurs du Monde passa a deter uma pequena parte do jornal, ampliada em 1968, quando a Société des cadres e a Société des employés passam a participar da gestão da empresa através de um representante no conselho. Mas foi em 1997 que a Société des peronnels, que representa os funcionários, passa a deter uma parte significativa do capital do jornal (EVENO, 2004).
As relações do Le Monde com a publicidade, considerada por muitos jornalistas como mal necessário, foram objeto de debates tanto no meio da redação
quanto entre os leitores do jornal durante muito tempo. Para Hubert Beuve-Méry um anúncio não poluía as páginas redacionais do jornal, mesmo quando esse entrava em contradição aparente com as reportagens estampadas a seu lado. É à luz dessa tradição que se devem examinar as relações do Le Monde com a publicidade, afirma Eveno (2004).
Um exemplo dessa relação ocorreu em dezembro de 1995, quando a inserção de um cartaz publicitário governamental fez com que direção se visse obrigada a assegurar aos redatores e aos leitores que não havia risco de um contágio ideológico do Le Monde. Ainda hoje é comum o mediador do jornal retomar o tema em suas colunas para explicar que a publicidade é importante para a manutenção da empresa, porém costuma afirmar que não é aceito nenhum tipo de pressão sobre a direção e a redação29.
Apesar de sempre ter pregado e buscado autonomia editorial através da preocupação principal com a divulgação dos fatos, de ter um número considerável de leitores que se dizem de esquerda e de ter o respeito dos professores e do meio estudantil, o Le Monde não escapou da desconfiança e das críticas dos estudantes em relação ao movimento de Maio de 196830, assim como foi acusado por muitos, na virada dos anos 1970/80, de ter se tornado o jornal oficial do Partido Socialista e de François Mitterrand (EVENO, 2004).
29
Um exemplo diz respeito a um encarte da Benetton, inserido na edição de 15 de dezembro de 1996. Perverso, fantasmas sexuais, obsceno, ignóbil, foram palavras proferidas pela caneta dos leitores que se disseram chocados e ultrajados pelas fotos que faziam parte da publicidade. O mediador lhes respondeu, em sua coluna semanal, que ali nenhuma obscenidade estava estabelecida, pois não passava de um catálogo de objetos inabituais, desde um arsenal de próteses até uma série de objetos de uso íntimo, médico ou sexual, passando por uma pasta de dente negra, a tinta eleitoral homologada pela ONU para os países de terceiro mundo, até máscaras e roupas que protegem das radiações eletromagnéticas. “Para os espíritos curiosos havia aí informação em matéria de reflexão, só que leitores pudicos só viram obscenidades”, se defendeu o então mediador Thomas Ferenczi. Reações da mesma ordem vieram da redação do jornal. Essa confusão levou à anulação de outra publicação já programada da Benetton Colors. “Do que se trata em definitivo senão considerar que o leitor é somente muito fraco de espírito para fazer a diferença entre a publicidade e o redacional? E de estimar que a publicidade é ruim por sua natureza sem saber que os anúncios não se endereçam à redação, mas aos leitores?, questionou Ferenczi (EVENO, 2004, p. 568, tradução nossa).
30
O jornal recebeu dezenas de cartas e comunicados enviados por grupos, dos quais era difícil se distinguir a representatividade, como por pessoas que queriam expressar seu ponto de vista tanto a favor quanto contra a ideologia dos estudantes, tanto a favor como contra a ação e a repressão policial (JUNQUE, 1998). Para saber mais sobre o Le Monde e o movimento estudantil de 1968, ver MUSSE, C. F. Maio de 68 sob a ótica do periódico francês Le Monde: a narrativa jornalistica e a representação do real. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 28., 2005. Rio de Janeiro. Anais... São Paulo: Intercom, 2005. CD-ROM. Disponível em: <www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005>. Acesso em: 12 out. 2009.
Recentemente, ele virou tema de debate a partir do lançamento na França do livro La face cachée du Monde (A face oculta do Le Monde), dos jornalistas Pierre Péan e Philippe Cohen, em 26 de fevereiro de 2011. Segundo Duarte-Plon (2011), o livro de 600 páginas foi impresso fora da França e virou um acontecimento político- midiático com mais 40 mil cópias vendidas em poucos meses. Seus autores acusam o jornal de fazer denúncias sem ouvir as duas partes, de cinismo e de abuso de poder. Seus diretores, Jean-Marie Colombani e Edwy Plenel, foram acusados de favorecimento pessoal e de manterem a redação sob controle por meio de métodos autoritários e falsear seu balanço como empresa. As denúncias foram prontamente refutadas pela direção do jornal, no dia seguinte à publicação do livro, através do editorial intitulado Uma paixão triste, no qual o diretor de redação Edwy Plenel disse que o livro acumulava erros, mentiras, difamações e calúnias (PLENEL, 2011). Mesmo em meio a tantas acusações e defesas, os autores do livro reconheceram o poder de penetração e influência do jornal nos meios político e intelectual (DUARTE- PLON, 2011).
Durante os anos de 1982, 1984, 1990 e 1993, disputas internas pelo poder e problemas administrativos quase fecharam o Le Monde, que chegou a ser colocado à venda em 1993. Porém, o jornal acabou nas mãos da associação de seus funcionários: ainda hoje cerca de 40% de suas ações pertencem a eles. Em 1994, trocou seu estatuto de SARL (Sociedade limitada) por Société anonyme à directoire
et conseil de surveillance31 (Sociedade anônima) e conseguiu manter-se como referência na França e na Europa.
Em 2005, abalado pela queda nas vendas, a versão impressa do Le Monde “ouviu a voz dos leitores e fez a lição de casa, segundo seu editor-chefe na época e atual presidente, Jean-Marie Colombani” (LE MONDE..., 2005, s. p.). O jornal lançou, em novembro daquele ano, um novo projeto gráfico, com mais fotos e mais colorido, e reformulou parte de seu conteúdo para conquistar leitores mais jovens, sem perder a sobriedade.
De lá para cá o Le Monde impresso é dividido em três seções. A primeira recebe o nome de Atualidades do dia e inclui as notícias quentes32, com editoriais na página dois, além dos seguintes temas e análises dos fatos: planeta, internacional,
31
Sociedade anônima com diretório e conselho de vigilância – tradução literal.
32
Quente: diz-se da matéria jornalística com informações inéditas, que justificam publicação imediata. Opõe-se à matéria fria (RABAÇA; BARBOSA, 2001).
Europa, França, sociedade, economia e empresas, tecnologia e mídias. A segunda parte, Décryptages (decodificação) da informação, é dedicada a análises e bastidores das notícias e publica perfis, enquetes, reportagens e debates, enquanto a terceira parte, Cultura e você, examina tendências, estilo de vida e cultura, além de esportes. Sete suplementos acompanham o jornal, sendo quatro semanais: Le
Monde Economia, Le Monde dos Livros, Le Monde Magazine, Le Monde Televisão
e três mensais: Le Monde Educação, Le Monde Dinheiro, Le Monde M (sobre a arte de viver bem).
Ameaçado pela crise de 2008, o jornal fez uma recapitalização em meados de 2010. Sempre que isso acontece uma das cláusulas impostas aos investidores é sua independência editorial. Inclusive foi com o objetivo de garantir a liberdade de expressão dentro do jornal e sua independência editorial que, em 1985, foi criada a
La Société des lecteurs Du Monde (SDL), e hoje ela detém 7,71% do grupo e
engloba 12 mil leitores, segundo o site do jornal33.
Dois dos principais diferenciais do Le Monde são o fato de ele ser o único diário francês que pode realmente ser considerado de circulação nacional e internacional e o tipo e abrangência de sua cobertura internacional, em especial sobre assuntos que despertam atenção dos franceses. Segundo Tétu (2002), para o conjunto da mídia francesa, escrita ou radiotelevisionada, o Le Monde funciona como uma referência fazendo da informação nele publicada um modelo. Percebe-se no jornal um conflito relativo entre a organização do acontecimento e a organização temática explorada diariamente em suas páginas, exceto no que se refere ao espaço reservado à política. Sobre o modo de organização do Le Monde, Tétu (2002) explica que o jornal, ...
[…] impondo a priori um quadro para a percepção de tudo o que ocorre, produz desta forma, um “efeito de real” [...] não tenta produzir ou manifestar uma significação, mas uma referência: liga, sem dificuldades, a informação à referência. Não é por acaso que o Le
Monde aparece justamente como um jornal de “referência”: em sua
própria organização mostra que apenas reativa, sem interrupção, classes de acontecimentos que são a referência final (TÉTU, 2002, p. 194-195).
O Le Monde é tradicionalmente interessado por acontecimentos da América Latina, diferentemente de seus concorrentes, segundo Porto (2002). O autor, ao
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fazer um estudo que deu origem ao artigo A esquerda esquecida de Fernando
Henrique Cardoso, publicado no livro O Jornal, detectou que outro grande tabloide
francês, o Libération34, tradicionalmente conhecido como mais à esquerda do que o
Le Monde, não trazia nenhuma cobertura do Brasil entre os meses de setembro de
1995 e setembro de 1996. Outro exemplo da abrangência de sua cobertura internacional são os cadernos Le Monde Diplomatique, editados em vários países, entre eles o Brasil. Eles analisam, na língua do país onde circulam, os principais acontecimentos locais e ao redor do mundo, além de trazer artigos assinados por especialistas de reconhecimento internacional.
Atualmente o jornal circula em 120 países e tem tiragem média de 319 mil exemplares/dia, segundo a Association pour le contrôle de la diffusion des média - OJD (2011)35. A AudiPresse (2010), empresa responsável pela medição da audiência nos jornais cotidianos franceses, afirma que, em 2010, o Le Monde tinha 839 milhões de leitores/dia só na França. Os assinantes da edição em papel são também assinantes da edição on-line, que atualiza seu conteúdo durante o transcorrer do dia e o envia através de e-mails a seus assinantes. A equipe responsável pelo Courrier
des lecteurs informou, por e-mail, que em agosto de 2011 o público leitor do Le
Monde era divido em 59% de homens e 41% de mulheres.
A versão on-line do jornal passou a circular em 1995. Inicialmente, a equipe de jornalismo colocava em sua página na web dados fornecidos pela redação do Le
Monde. Porém, seus acionistas, temendo que os meios eletrônicos pudessem
ameaçar a imagem de independente que o jornal construíra, optaram por separar as duas redações.
A imagem se viu ameaçada porque a natureza eletrônica do Le Monde Interactif contradiz a filosofia do Le Monde impresso, que se orgulha de deter a responsabilidade exclusiva sobre seu conteúdo36. Para aumentar o conteúdo do site, o Le Monde Interactif foi obrigado a fazer parcerias com as quais não sonharia em evocar a menor associação no momento em que são preparadas suas edições no
34
Libération, cujo manifesto inicial, de tendência maoísta, proclamava o objetivo utópico de “ajudar
as pessoas e tomar a Palavra”, pretendia ser, pelo ao menos no início e no projeto de alguns de seus fundadores, uma espécie de écrivain public: a informação vem do povo e retorna ao povo (ROSS, 2005, p.166). Aqui écrivain public é profissional que escreve cartas ditadas por pessoas analfabetas; uma espécie de escriba. Um exemplo de écrivain public é a personagem de Fernanda Montenegro no filme Central do Brasil, dirigido por Walter Salles, em 1998.
35
Ver Tabela 6.
36
Na verdade, as mídias se desresponsabilizam em relação à opinião expressa por articulistas e colaboradores, mas, ao assumirem sua publicação, tomam partido.
papel. Ao desenvolver um site na internet, o jornal deixou de controlar seu destino, como faz no caso de suas edições impressas em papel (EVENO, 2004). A partir de 1998, o Le Monde Interatif passou a fornecer a seus/suas leitores/as o conteúdo do impresso, assim como artigos próprios. As assinaturas da versão on-line passaram a ser cobradas em 2002.
Atualmente, o assinante do jornal impresso também tem acesso à versão on-
line e todos os dias, a partir das 14 horas (hora da França), seus assinantes
recebem algumas notícias que lerão impressas mais tarde no papel. O mesmo acontece às segundas-feiras, quando o Le Monde não circula nas bancas.
2.1.2.1 As relações com os/as leitores/as
Na visão de Eveno (2004, p. 578, tradução nossa), o Le Monde se tornou alvo de críticas sobre mídias, sobretudo porque reúne leitores de diversos horizontes ideológicos, políticos, culturais e sociais, o que o conduz inevitavelmente a descontentar uma parte deles. Para se ter uma ideia, durante uma das crises pelas quais o jornal passou, em 1951, foi criada La Fédération des Comitês de Lecteurs du
Journal Le Monde, “que durou pouco e não fez muito barulho”. Para Hubert Beuve-
Méry, um jornal era obra de jornalistas e deveria certamente encontrar a demanda dos leitores, mas em nenhum caso deixar ditar sua conduta por eles. Mas foi exatamente essa demanda o que levou a direção do jornal a criar o posto de mediador, em 1994, sempre ocupado por jornalistas experientes, em fim de carreira. O jornal foi o primeiro diário francês a criar a função (EVENO, 2004).
A instituição de um mediador não poderia ter outras funções se não explicar aos/às leitores/as as escolhas e os tratamentos redacionais além de repercutir as queixas de seu público. Assim, os dois grandes primeiros mediadores do Le Monde encararam sua missão. Em sua primeira crônica, intitulada A troca, datada de 2 de abril de 1994, André Laurent37 afirma:
Na prática, o mediador do Le Monde será então um interlocutor privilegiado dos leitores, seu intercessor no seio do jornal para toda interrogação, incompreensão, queixa ou crítica e reciprocamente o porta-voz dos jornalistas para firmar seu bom direito, expor suas
37
Certa vez, André Laurens – antigo diretor do Le Monde –, quando ocupava o cargo de mediador, questionou: “O mediador está, por sua vez, tomado de dúvidas: será uma ideia realmente boa? [...] Será bem razoável ter aceito esta responsabilidade?” (MOUILLAUD, 2002b, p. 189).
dificuldades, obrigações e limites de seu trabalho, expor seus erros e debatê-los francamente (LAURENT, 1994, s. p., tradução nossa).
Quatro anos mais tarde, deixando seu posto, Thomas Ferenczi disse, em sua crônica intitulada Fim de mandato, datada de 26 de abril de 1998:
O mediador recebeu por missão favorecer uma melhor compreensão entre os leitores e redatores do Le Monde. Aos primeiros que lhes fazem parte suas críticas, ele tenta fazer compreender como trabalham os jornalistas, quais regras os aplicam e porque os acontece de se enganar. Aos segundos que são questionados em cartas de leitores, ele tenta explicar que estes, com ou sem razão, lhes reprovam (FERENCZI, 1998, s. p., tradução nossa).
Já para Robert Solé, mediador até 2004, sua função não era ser porta-voz do jornal, muito menos de seus leitores. “É, de fato, um recepcionista de críticas e sugestões de leitores, um intermediário entre leitores e jornal; uma espécie de juiz de paz” (SOLÉ, 2004). Ao tomar posse no cargo, em julho de 2011, Galinier (2011, tradução nossa) citou palavras de sua antecessora, Veronique Maurus, para quem o mediador não é nem porta-voz, nem juiz, nem professor menos um reparador de enganos; é menos um conciliador que um árbitro; é aquele que coloca mais questões que dá respostas: “não é esse o exercício do jornalismo?”.
Para os mediadores chegam, através das cartas enviadas por leitores, textos cada vez mais críticos, “pois o que toca no correio publicado é a intolerância de muitos dos leitores que escrevem raramente temperada por cartas felicitando o Le
Monde por contribuir com o debate de ideias” (EVENO, 2004, p. 580, tradução
nossa).
Ao longo do tempo, a partir dos leitores concretos cujos textos são publicados, se desenha o leitor abstrato que seria permanentemente insatisfeito com o jornal. “O Courrier des lecteurs é antes de tudo aquele dos descontentes”, diz Eveno (2004, p. 580, tradução nossa). “Ler o Le Monde todo dia e estar ligado a isso não significa aprová-lo 100% nem em lhe dar um cheque em branco. Também não é o idealizar e o tomar como um jornal perfeito”, afirmou o ex-mediador do jornal, Robert Solé, na coluna intitulada Palavras de leitores (SOLÉ, 2003).
Segundo o site38 do Le Monde, o mediador está encarregado de verificar se as regras profissionais estão sendo seguidas pelos jornalistas da empresa, assim
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como também é o responsável por fazer a intermediação das dúvidas de seus