• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 1: AS VIVÊNCIAS DA JUVENTUDE DE PERIFERIA

1.5 O jovem de periferia e o debate sobre a TV

Mas, se muitas vezes a mídia, incluindo a televisiva, reforça as imagens distorcidas da juventude, como o jovem pobre recebe essas representações? Para entender isso, esta pesquisa se baseará em uma corrente de estudos do campo da Comunicação que tem se ocupado dessa questão, analisando-a sob outros pontos de vista. Se por um lado a mídia pode reforçar os estigmas, por outro, os meios também podem atuar no combate aos estereótipos contra sujeitos e grupos sociais estigmatizados, como os jovens moradores das periferias urbanas. Para o propósito desta pesquisa, interessa especialmente os enfoques que os estudos dão a dois aspectos: a capacidade de os veículos também darem visibilidade a diferentes

31 Na palestra Juventude no Brasil: construindo agendas públicas e de pesquisa, na Quarta na Pós da Faculdade

discursos32 sobre os estigmatizados e de esses contestarem as representações midiáticas distorcidas, além de debaterem suas lutas identitárias.33

Para a pesquisadora Márcia Cruz (2007), que estudou os discursos sobre as favelas na mídia, os grupos sociais de periferias e as ONG’s têm utilizado os meios de comunicação para veicular representações que procurem desestigmatizar as áreas pobres. Segundo a pesquisadora, apesar de os moradores de periferia demonstrarem uma descrença nos meios de comunicação, apontados como a serviço das elites ou de interesses particulares, opinião que surgiu com bastante recorrência no debate com os jovens desta pesquisa, paradoxalmente, “[...] são a eles a quem, na maioria das vezes, recorrem quando querem que um assunto siga para o ‘julgamento’ da sociedade” (CRUZ, 2007, p. 53).

Partindo da premissa de que os meios de comunicação podem veicular diferentes representações sobre os que estão à margem, esses estudos são de interesse para esta pesquisa porque ajudam a esclarecer sobre os discursos que estão em jogo em Minha Periferia34 e como os jovens das periferias de Belo Horizonte os recebem. Além da possibilidade de a mídia dar outra visibilidade aos grupos minoritários, os veículos, inclusive a TV, podem configurar espaços de deliberação35 por reconhecimento social. A pesquisadora Rousiley Maia afirma que os indivíduos podem refletir sobre suas vivências, a partir do que é veiculado nos meios de comunicação:

O material dos media – não apenas noticiários ou programas de cunho informativo, mas também, formas diversas de entretenimento tais como telenovelas, peças publicitárias ou material ficcional – são potencialmente transformadoras das relações do cotidiano. Esses bens simbólicos, ao dramatizar conflitos vivenciados concretamente pelos indivíduos na sociedade ou trazer elementos de um mundo distante, ou um conjunto de questões e valores estendidos no tempo e no espaço, podem fornecer insumos para a politização das experiências pessoais (MAIA, 2008, p. 209).

32

Uma discussão sobre os conceitos de discurso e representação será feita no terceiro capítulo deste estudo.

33 Segundo Fischer (2008, p.18), “a mídia não ensina nem dita ‘tudo’ para os jovens. Existem rupturas, fissuras,

abertas pelos próprios materiais e discursos midiáticos, possibilidades inesperadas de construir a si mesmo como sujeitos, apesar de todas as normas e regulações, próprias dos meios de comunicação”.

34

Na avaliação de Cruz (2007), Central da Periferia e Minha Periferia adotariam o “discurso da diversidade” ao tratarem da favela como um espaço diversificado cultural, econômica e socialmente.

35 “Na perspectiva deliberacionista, o debate público é fundamental para obtermos avanços na sociedade. A

democracia passa necessariamente pela discussão e pelo confronto dos diferentes discursos sobre determinada questão” (CRUZ, 2007, p. 46).

Mesmo diante de representações midiáticas estigmatizantes os indivíduos podem ter um posicionamento refletido. Maia (2008, p. 210) destaca que, havendo um potencial crítico, “grupos subordinados frequentemente reúnem fragmentos de discursos hegemônicos e produzem contranarrativas que são elaboradas em seus próprios termos e nos espaços que lhe são próprios”. No entanto, a pesquisadora lembra que, nos ambientes informais, como nas conversações cotidianas, os argumentos nem sempre são valorizados. O ideal é que as causas dos sujeitos ganhem atenção pública, sendo encampadas pelas associações cívicas e movimentos sociais que “têm mais chances de expandir as discussões privadas, criar estratégias para chamar a atenção do público e dar início a discussões sobre tópicos que lhes interessam” (MAIA, 2008, p. 213).

Nos grupos focais realizados nesta pesquisa, buscou-se verificar se, por meio dos quadros de Casé, surgiria uma discutibilidade, com os jovens de periferia refletindo sobre a forma como eram representados na TV e sobre suas lutas identitárias. Ângela Marques observou a formação desse processo deliberativo, trabalhando com as impressões que as beneficiárias do Bolsa-Família tinham das notícias sobre o programa veiculadas na mídia:

[...] a reflexão acerca dos pontos de vista que ganham visibilidade nos meios de comunicação as auxilia não só a organizarem, de modo coletivo e negociado, diferentes dimensões e entendimentos ligados ao Programa Bolsa-Família, como também promove estranhamentos que as levam a repensar o modo como são vistas e tratadas por diferentes atores, principalmente aqueles que têm suas vozes transpostas para o espaço de visibilidade mediada, redefinindo, de maneira intersubjetiva, a posição na qual esses atores as colocam (MARQUES, 2007, p. 240).

Mesmo que os sujeitos se encontrem distantes das arenas políticas centrais e tenham dificuldades de desenvolver capacidades comunicativas e políticas que atraiam a atenção pública para suas demandas, segundo Marques, o processo de deliberação continua de grande importância nas lutas por reconhecimento:

[...] essas dificuldades não reduzem a importância da construção de espaços nos quais as pessoas politicamente empobrecidas podem discutir e refletir o real conteúdo de suas necessidades e anseios, tecendo, ocasionalmente, interseções com os discursos provenientes dos espaços ‘centrais’ de tomada de decisão (MARQUES, 2007, p. i).

Além dessa possibilidade de os grupos estigmatizados contestarem as representações veiculadas pelos grandes meios de comunicação, as mídias alternativas é que têm se tornado um terreno fértil para as lutas por reconhecimento social. Como se verá mais detidamente no próximo capítulo, alguns jovens de periferia vêm questionando a forma como são representados pelos meios de comunicação convencionais e encontram nos canais alternativos uma chance de se tornarem produtores36

Um exemplo disso são os fanzines. Como apontam Carolina e Dayrell, as publicações, de caráter artesanal e independente, são distribuídas pelos jovens editores aos amigos, agregando um círculo de colaboradores/leitores em torno de si: “são espaço de afirmação de identidade e de fortalecimento dos processos de troca entre os integrantes dos grupos e entre os diversos grupos” (CAROLINA; DAYRELL, 2006, p. 292).

ao invés de simples consumidores de produtos.

Além dos fanzines, as práticas dos jovens pobres se voltam para “as rádios comunitárias, a produção de vídeos e, de forma mais recente, a formação de redes via Internet” (SPOSITO, 2006, p. 219). Para a pesquisadora Raquel Paiva de Araújo Soares, professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o ideal é que fossem criados mais espaços de intervenção dos jovens. Soares afirma que se os jovens experimentassem o lugar de produtores seriam muito mais críticos em relação ao que recebem da mídia:

Eu sempre imagino o quanto seria educativo que os jovens, a partir de suas escolas, grupos, igrejas, etc, saíssem do mero lugar do consumidor de imagens e discursos para o de produtor. [...] Quem produz, aprende a ver, a analisar e não consome sem senso crítico (SOARES apud VIVARTA, 2004, p. 152).

Como Soares, comentando sobre experiências educativas com o rádio, o pesquisador mexicano Guillermo Orozco Gómez (2010) afirma que a escola deve se esforçar para que as práticas com esse veículo se tornem um espaço de experimentação, “transformando seres ouvintes em seres falantes”. No entanto, lembra que transformar

36

Cruz (2007, p. 53) lembra que o acesso dos moradores de favelas aos meios de produção dos grandes veículos é limitada: “Quando muito, eles são fontes para as matérias. De forma recorrente, grupos sociais de favelas demonstram que para se ampliar o entendimento sobre eles seria importante que também participassem na definição dos enquadramentos das matérias jornalísticas e dos programas de entretenimento”.

radiouvintes em “emissores de suas próprias palavras” é um “desafio que parece fácil, embora seja complexo” (GÓMEZ, 2010, p. 12).

Dayrell (2007) também cita a escola como um dos espaços em que a relação dos jovens com os meios de comunicação poderia ser explorada. O estudo não foca na produção midiática – embora se refira à ampliação do número de jovens que vêm deixando de ser apenas fruidores para se tornarem produtores de vídeos ou de programas de rádio –, mas afirma que a escola poderia contribuir muito na valorização dessas diferentes expressões culturais juvenis. Algumas instituições conseguem implementar iniciativas nesse sentido, mas muitas não; as propostas de valorizar as expressões juvenis, transformando os jovens “em emissores de suas próprias palavras”, como propõe Gómez (2010), acabam tomando outros direcionamentos:

Em várias escolas, percebe-se uma tendência em reduzi-las a determinado tempo e espaço, no recreio ou em atividades extraescolares, fazendo delas um meio de ocupar o tempo dos alunos, constituindo-se em um apêndice, sem nenhum impacto no conjunto do currículo. Ao mesmo tempo, há o risco de uma escolarização das expressões culturais juvenis, numa formalização e numa artificialização de tais práticas que pouco acrescentam ao jovem (DAYRELL, 2007, p. 17).

Concluindo este capítulo, pode-se dizer que as discussões da sociologia da juventude aqui apresentadas ajudaram a compreender melhor o jovem de meios populares e, por conseguinte, os sujeitos encontrados nas primeiras incursões pelo campo de pesquisa. Tomando como dimensões o trabalho, a escola, as sociabilidades, as expressões culturais, as lutas contra os estigmas, foi possível entender melhor as vivências dos jovens de camadas pobres. Também se discutiu as representações do jovem na mídia televisiva lembrando que, se por um lado a TV pode reforçar imagens estigmatizadas, por outro, pode produzir discursos contra as discriminações a esse grupo social. Foi debatida, ainda, a possibilidade de os meios de comunicação criarem, entre os grupos estigmatizados, espaços de deliberação por reconhecimento. O trabalho avança, tentando compreender, a seguir, em que contexto surgiram os quadros de Minha Periferia.