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O Junco: entre a geografia e o mito

No documento ivanateixeirafigueiredogund (páginas 55-60)

As batalhas nunca se ganham. Nem sequer são travadas. O campo de batalha só revela ao homem a sua própria loucura e desespero e a vitória não é mais do que uma ilusão de filósofos e loucos.

William Faulkner

Como leitor de Faulkner, Torres introduz, com a epígrafe acima, o romance Essa terra. O seu olhar, como um estilete, recorta os fragmentos dos textos que o provocam, apropria-se deles e desloca-os para o seu próprio texto, no qual os enxerta, estabelecendo, assim, um verdadeiro diálogo, um uma relação intertextual declarada.

Segundo Antoine Compagnon, a citação tem o privilégio, entre todas as palavras do léxico, de designar, ao mesmo tempo, duas operações: “uma pela qual se extirpa, outra, a do enxerto”.81

Ambas implicam uma série de intervenções sob forma de apropriações, cortes e deslocamentos.

Como leitora de Torres, intervenho em seu texto para incorporá-lo à minha reflexão. O leitor não pode evitar recorrer à sua memória de outros textos evocados por essa citação. E me vem à memória a frase: “William Faulkner, dono e proprietário absoluto”, que legenda um mapa detalhado, com nomes de povoados, rios, estradas, fazendas das famílias mais importantes de

81 COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Trad. Cleonice Mourão. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1986. p. 26.

uma região. Trata-se de Yoknapatawpha, um mundo imaginado, um lugar mítico criado por Faulkner, com base num município real do sul dos Estados Unidos, onde ele nasceu e cresceu, e do qual se vale para refletir sobre a decadência de uma sociedade de brancos aristocratas, donos de grandes plantações e exploradores do trabalho escravo, que tudo perderam após a guerra civil e a abolição dos escravos:

O sulino que vive em Yoknapatawpha carrega seu fardo de culpa, o quinhão da herança atribulada e dolorosa que começou com a escravidão e reage a tudo isso de maneira peculiar.82

Trata-se de um município simultaneamente real e imaginário, cuja capital é Jefferson, no estado do Mississipi.83 Yoknapatawpha aparece em vários livros de Faulkner, mas é em Absalom! Absalom! que o autor desenhou o mapa lembrado e mencionado, com a seguinte legenda: “Jefferson, sede do município; Área 2400 milhas quadradas – População, Brancos, 6298; Negros, 9313, William Faulkner, Dono e Proprietário Absoluto”.84

Sua obra consiste numa espécie de saga que entrecruza histórias de antigas famílias sulinas com a de brancos pobres, negros escravos e índios, como uma forma de releitura histórica do sul dos Estados Unidos da América.

No entanto, mais do que refletir somente sobre essa sociedade, a literatura de Faulkner tornou-se de grande relevância para a percepção da existência do homem no espaço, não importando em que lugar do planeta esse

82 O’CONNOR, William Van. William Faulkner. Trad. Alex Severino. São Paulo: Martins, 1963. p. 12. 83 FAULKNER, William. Absalom, Absalom! Nova York: Clássicos Literários dos Estados Unidos,

1994. p. 05-311.

homem habita, mas sim que ele é, em sua condição humana, passível de problemas semelhantes. O sul dos Estados Unidos, para esse escritor, é um estado mental, além de um lugar geográfico. Daí o caráter universal de sua obra.

Assim como Faulkner, Antônio Torres também criou uma cidade que, mais do que uma representação geográfica e política, tornou-se um lugar mítico. O velho povoado de Junco, no sertão da Bahia, deixa de ser, em seus textos, o lugar real no qual o escritor nasceu. Também não se trata apenas de mais um lugar que representa o sertão regional, tão descrito pela literatura brasileira.

Os fantasmas e as criaturas do universo romanesco de Antônio Torres não mais pertencem ao pequeno mundo da velha cidade de Junco. Pertencem à cidade solar da criação, ao lugar do sonho e do desejo de todo leitor. Ou melhor, a Junco que serve de paisagem ao romance [...] não é mais uma cidadezinha plantada na “boca do sertão” baiano, nas estradas de poeira levantada pelas sandálias da gente de um outro Antônio, que erguia igrejas e torres. O engenho da ficção integrou o lugarejo desconhecido na geografia literária.85 O Junco de Torres, como a Yoknapatawpha de Faulkner, flutua na memória e na sensibilidade de milhares de leitores. Ao referir-se ao seu território mítico, Torres recorre, como Faulkner, às lembranças de sua infância e adolescência, onde predominam cheiros, cores e sons, que fazem a mente ver, aguçam todos os sentidos:

O Junco: um pássaro vermelho chamado Sofrê, que aprendeu a cantar o Hino Nacional. Uma galinha pintada chamada Sofraco, que aprendeu a esconder seus ninhos. Um boi de canga, o Sofrido. De canga: entra inverno, sai verão. A barra do dia mais bonita do mundo e o pôr-do-sol mais longo do mundo. O cheiro do alecrim e a palavra açucena. E eu, que nunca vi uma açucena. Os cacos: de telha, de vidro. Sons de martelo amolando as enxadas, aboio nas estradas,

homens cavando o leite da terra. O cuspe do fumo da minha mãe, a queixa muda do meu pai, as rosas vermelhas e brancas da minha avó. As rosas do bem-querer: – Hei de te amar até morrer. Essa é a terra que me pariu.86

A partir dessa descrição poética, o Junco torna-se, a um só tempo, lugar de beleza e tristeza, dor e amor. O sofrimento do pássaro que, proibido de cantar seu próprio canto, domesticado, não tem a liberdade do vôo, mas liga-se à terra por ter aprendido a cantar o hino, como se através dos símbolos nacionais fosse possível fazer parte de um sonho de nação, sempre distante. A galinha Sofraco, aparentemente uma junção de sofrimento e fraqueza, mas que sobrevive da força e da esperteza de esconder seus ovos – proteger sua essência –, como forma de resistir diante dos obstáculos e das intempéries, fazendo alusão à própria população sertaneja que também precisou aprender a “esconder seus ninhos” para sobreviver. Sofrido, como todos os outros bois de canga, castrado, predestinado a sempre ir e vir, carregando o peso da continuidade de seu destino inalterável. O pôr-do-sol mais longo do mundo, com toda a sua melancolia, destinando a terra a viver à espera e da espera de nova luz, nova esperança para superar o crepúsculo. A palavra açucena – a mais linda e doce. Doçura que, em meio à aridez do sertão, nunca chegou a ser conhecida, a não ser pelo som da palavra. Outros sons: do aboio, do martelo amolando as enxadas, do canto dos trabalhadores na terra em que “cavam o leite”. A mesma terra seca que deveria ser, conforme desígnio bíblico, “terra de leite e mel”. As cores das rosas, o cheiro do alecrim, os sons. Imagens que se misturam e traduzem essa terra e que vão reconstruindo, aos

poucos, as lembranças e os resquícios do passado, para tornar a reconstruir também identidades e histórias.

Eis aí o Junco de Antônio Torres.

Nessa cidade ficcional, abrigam-se não as características regionais do sertão baiano, mas o ser humano em uma condição social desfavorável, retirante não só de seu habitat, mas de si mesmo:

Com o progresso do Centro-Sul do país e o desequilíbrio crescente entre esta região e o nordeste, uma nova humanidade de retirantes – não mais os retirantes da seca, mostrados pelo romance regional – habita as páginas da ficção torreana. São os migrantes de um outro Brasil, do Brasil perdido no tempo e nas roças abandonadas. Com a ilusão criada pelas luzes da Cidade Grande, o homem do Nordeste que plantava e colhia a vida neste chão, nessa terra, foi plantar sonhos e desilusões nas construções de concreto de São Paulo.87 Nesse Junco, como território mítico, o tema do exílio é sugerido, pelo escritor, especialmente em duas variantes. Primeiro, pelo exílio interno, ou insílio, em que o homem é enxotado de sua terra por motivos vários, entre eles, o descaso político, a falta de políticas públicas que possam desenvolver a região e evitar o êxodo, as intempéries do clima árido, a falta de perspectiva de desenvolvimento pessoal, a miséria, a fome, o analfabetismo, o desemprego, a marginalização, o preconceito ou qualquer outra forma de impedimento à vida plena.

Mas, uma outra variante do exílio parece ser mais marcante nas obras de Torres aqui em análise, o desexílio – termo cunhado pelo escritor uruguaio Mario Benedetti: “Quando o dicionário nos nega a palavra de que necessitamos, simplesmente temos que inventá-la. Mais de uma vez pratiquei

esse exercício verbal, mas nenhuma de minhas palavras inventadas tem tido tanto sucesso como desexílio”.88

As duas obras de Antônio Torres escolhidas como recorte para este trabalho, Essa terra e O cachorro e o lobo, concentram-se na volta dos exilados de Junco, como poderá ser visto a seguir.

No documento ivanateixeirafigueiredogund (páginas 55-60)