3. Sistema de Parentesco e de Casamento Pepel
3.4 O Kumar
Como já mencionados neste trabalho, a participação no Kumar nem sempre nasce da vontade dos cônjuges. Geralmente origina-se de um acordo de união firmado entre duas famílias que se concretiza com a realização desse ritual tradicional. Esse acordo, por sua vez, é feito com o intuito de garantir a continuidade das kinhas e legitimar descendências. Segundo Moreira (1994, p. 178):
Ainda recentemente o casamento constituía a forma privilegiada dos grupos de parentesco estabelecerem alianças entre si. Estas eram protagonizadas por indivíduos do sexo masculino com estatuto de senioridade sendo então vulgar que uma mulher ao nascer estivesse já "prometida" em casamento. A união afetiva dependeria de toda uma série de transferências de bens e serviços do grupo de
parentesco do homem para o da futura "noiva" que se realizariam até o momento em que esta fosse considerada apta para casar. Isto acontecia a partir da primeira menstruação e desde que o seu corpo apresentasse o desenvolvimento físico esperado.
O Kumar é um ritual que realiza-se em diferentes fases. A primeira fase compreende o pedido de casamento e um período de noivado. Geralmente são os pais do noivo que propõem o casamento aos pais da impli. Caso haja aceitação do pedido, segue-se uma série de ritos que deverão ser realizados até o dia da cerimônia (TURNER 1974).
Nesse período de noivado, uma das tarefas do noivo (nntoi) é auxiliar o pai (nlini) de sua noiva (negun) nos trabalhos da kudjar (lavoura). Ele pode ser auxiliado pelos seus amigos para realizar essa tarefa, que deve ser feita desde a colheita até o cultivo dos produtos. Porém, uma das minhas interlocutoras, confidenciou-me que já houve casos em que amigos do noivo, ao passarem a auxiliar constantemente o pai da noiva, sem a presença do noivo, acabaram adquirindo o direito de casar-se com a noiva do amigo. Sendo assim, ao analisar tal depoimento, podemos constatar que o cumprimento dessas tarefas pré-matrimoniais são atividades obrigatórias para o rito e, se não forem cumpridas, acarretam no cancelamento do acordo nupcial estabelecido entre as duas famílias.
Algumas vezes a negun só conhece o seu futuro marido no dia do casamento. Tal fato às vezes gera constrangimento e revolta, sendo que na tradição Pepel a jovem é obrigada a casar-se com qualquer homem escolhido pelo pai. Bambraca, mudjer garandi da tabanka de Pluto, afirma que foi casar sem saber quem seria marido. E complementa “antigamente quem dava o casamento eram os pais e eles não queriam saber se o homem era da sua idade ou se você o queria”.
Antes de se concretizar o casamento o noivo deve entregar o unhu aos irmãos da mãe da negun. Algumas das mulheres Pepel, que foram entrevistadas para este trabalho, afirmaram que o unhu é utilizado pelo homem para assegurar sua descendência e, ao mesmo tempo, garantir que os filhos de sua irmã recebam sua herança, após ele falecer. Como, segundo a tradição Pepel, não é permitido aos filhos herdar de seus próprios pais, mas sim do irmão de sua mãe, a existência do unhu garante que isto ocorra e que nenhum dos filhos da próxima geração fique desfavorecido Ou seja, é um elemento necessário para o funcionamento de algumas instâncias do sistema de parentesco, e não um pagamento que o homem realiza para obter´se uma esposa.
O unhu ficará sob responsabilidade dos irmãos da mãe da esposa e deverão ser entregues à família do marido após o falecimento deste, durante a realização do tchur. Este é
um encargo da esposa, caso ela não esteja viva, a tarefa caberá à filha mais velha. Durante o tchur de meu pai, eu, como filha mais velha, e pelo fato da minha mãe já estar falecida, fiquei encarregada de entregar o unhu à família do meu pai.
O unhu consiste em objetos e animais como, por exemplo, tecidos, galo, pinga, tabaco, cabrito e cachorro, os quais, por sua vez, são utilizados em momentos específicos do ritual.
O galo (oguka) deve ser sacrificado antes do corte do mur da cintura da noiva, a fim de averiguar se a cerimônia pode ocorrer. Após a ave ser morta, o djambakus analisa os testículos do galo, se os mesmos apresentarem uma coloração escura significa que há algum problema em relação àquela união e, portanto, o casamento não poderá ocorrer.
Se na tabanka da noiva houver um santuário de osai, é necessário que na cerimônia seja sacrificado um oul (cachorro) para essa entidade espiritual, a fim de garantir que os noivos sejam felizes em seu casamento.
O tabaco (otak) é um presente para ser compartilhado com todos os moradores daquela tabanka.
A farinha (ifor), consumida durante a cerimônia, é um presente da noiva para seus irmãos e irmãs, para retribuir pela farinha que ela consumiu durante o casamento dos irmãos ou de outros parentes.
Os objetos do unhu devem ser entregues no dia das núpcias. Eles serão conferidos pelos membros masculinos da linhagem da negun, liderados pelo irmão da mãe (alinha niet) da noiva. Caso falte algum item, eles iniciarão um longo debate com o noivo, questionando-o sobre o ocorrido. Entretanto, na maioria das vezes, tal discussão, que pode durar a noite toda, é uma provocação feita pelos familiares da noiva para verificar a determinação do noivo em casar-se. Ou seja, é um teste para averiguar se o noivo está disposto a enfrentar desafios e obstáculos para casar-se com a noiva. O interessante é que, neste momento da cerimônia, o noivo não pode responder as provocações feitas a ele, pois, antes da efetivação do casamento, ele não tem direito à fala. Dessa forma, durante esse embate verbal, ele será defendido por seus amigos e familiares.
Foto 19: Família da noiva conferindo o unhu.
Fonte: Jean, Biombo, 2017.
Os animais serão sacrificados no local onde ocorrerá o enlace dos noivos Vale ressaltar que, dentre os animais, o cachorro é o mais importante, pois ele é o símbolo da união, e, no momento de seu sacrifício, caso ele gana mais de uma vez, isso será interpretado como um sinal de mau agouro em relação aquele casamento.
A mãe (anin) da noiva ficará com os tecidos que fazem parte do unhu. Estes panos (ingut) são bens de prestígio e símbolos de poder que todas as mulheres procuram possuir, e, quando podem, juntam um número elevado desses panos para demonstrar o seu prestígio (CARVALHO, 1998, p. 106).
No dia das núpcias, o noivo fica inserido em um grupo masculino e a noiva em um feminino. Esses grupos são compostos por integrantes das famílias dos cônjuges. Após a conferência do unhu, o noivo é encaminhado ao local no qual se realizará outra etapa do ritual. A noiva só será encaminhada até lá se o noivo demonstrar alegria em recebê-la. A negun, trajando um pano branco ou preto, vai até o local acompanhada pela sua comitiva feminina. Os Bo int iek (anciãos) atuam na cerimônia como mediadores entre as duas famílias, buscando o entendimento de todos. De certa forma eles atuam como “padrinhos”, não apenas dos noivos, mas de toda a cerimônia. Os homens e as mulheres presentes organizam-se em um círculo em cujo centro ficarão os noivos.
Nesse momento, o noivo terá que romper com as mãos a mur, que está presa na cintura da noiva. A ruptura dessa linha, tecida pelas mulheres da comunidade, simboliza, além
da união do casal, a continuidade da linhagem, a legitimação da descendência masculina e a transformação da impli em mulher (nhar).
No dia seguinte à ruptura da mur, a mulher terá seu cabelo raspado por um dos amigos do marido. O corte do cabelo simboliza a ruptura da mulher com a moransa de seus pais. O cabelo que nascerá representa a nova relação familiar que se inicia. Quando o marido falecer, a mulher também cortará seu cabelo, como um sinal de luto.
Foto 20: Amigo do marido raspando o cabelo da mulher recém-casada
Fonte: Jean, Biombo, 2017.
Esse rito deve ser feito no centro da merchr da família da mulher recém-casada. Após o cabelo ser cortado, uma mudjer garandi, da família do marido, untará todo o corpo dessa nova nhar com óleo de palma (minkir). Essas ações, tanto o corte de cabelo (ti oel) quanto o besuntar de óleo pelo corpo, devem ser realizados silenciosamente. Após estes rituais ocorrerá uma grande festa.
Foto 21: A nova nhar, com o cabelo raspado e o corpo besuntado com óleo de dendê.
Fonte: Jean, Biombo, 2017.
Durante a festa a madrinha56 (nmakuno) do noivo preparará para os cônjuges uma refeição que somente os dois poderão comer. Apenas o noivo pode ter alguém exercendo a função de madrinha durante o Kumar. Porém, após o matrimônio, ela passará a atuar como uma segunda mãe para o casal, os auxiliando a resolver quaisquer conflitos entre eles.
Foto 22: Casal recém-casado comendo kubanba, comida sagrada, ofertada pela madrinha
Fonte: Jean, Biombo, 2017.
Foto 23: Nova nhar com panus di penti que ela ganhou dos convidados.
Fonte: Jean, Biombo, 2017.
Depois das festividades referentes às núpcias, a esposa será conduzida, pelo marido, à tabanka na qual a família dele reside, pois o novo casal passará a viver ali. Porém, os dois ainda não poderão dormir juntos; a noite de núpcias só ocorrerá vários dias depois, podendo mesmo ser até um mês após a mudança da noiva para a moransa do marido. Até este dia, a jovem esposa dormirá com uma acompanhante.
Transcorrido o tempo de espera, junto ao marido, ela passará curtos períodos de tempo na casa de vários de seus familiares. É somente quando a esposa retorna para a casa do marido que ocorrem as núpcias do casal, que são acompanhadas pelos familiares e amigos dos cônjuges.
O opi (cabrito) é uma presença constante nos casamentos Pepel, além de ser um dos sacrifícios mais comuns, ele também é utilizado para averiguar a virgindade da esposa. Se o cabrito berrar depois os noivos entrarem no quarto de núpcias significa que a nhar casou-se virgem. Porém, se o animal ficar quieto, é porque ela casou-se não sendo mais virgem.
A pinga (okana) também é utilizada para comprovar a virgindade da recém- casada. Porém, tal averiguação é feita pelo noivo, no quarto de núpcias. Se ele sair do quarto com a garrafa cheia de cachaça significa que a nhar casou-se virgem. Porém, se a garrafa estiver com metade do líquido significa que ela já não era virgem quando se casou. Se a esposa não for virgem, o marido dirige-se até a mãe dela e lhe entrega a garrafa, indicando que ela falhou na educação da filha. Atualmente a questão da virgindade da negun não tem
mais relevância no Kumar.
Com a noite de núpcias o Kumar encerra-se e o casal passa a viver junto à merchr da família do marido.
A poligamia é permitida ao homem Pepel. Dessa forma, quando há mais de uma esposa em casa elas recebem a denominação de kunbosas57. A esposa mais velha, a duna di
kasa, devido à experiência e ao fato de ter uma convivência mais longa com o marido, possui mais poder no ambiente domiciliar do que as esposas mais novas (noibas nobus).
Foto 24: Duna di kasa e noiba nobu.
Fonte:Kipp, Biombo, 1994.
Entre os vários ritos e cerimônias do povo Pepel, o Kumar é um dos mais importantes e valorizados, funcionando, inclusive, como um ritual feminino de passagem para vida adulta (TURNER, 1974; VAN GENNEP, 2011, RODOLPHO, 2004). Notamos que, embora atualmente na Guiné-Bissau muitas práticas culturais étnicas estejam se perdendo (PINTO, 2009), essa cerimônia de casamento tem sido mantida pelos integrantes da etnia Pepel. Sua preservação é conceitualizada como um ato de respeito aos antepassados, uma continuidade étnica e uma afirmação da existência do próprio grupo e de seus valores. Sendo assim, os jovens que ainda se unem maritalmente por meio dessa cerimônia tradicional reafirmam a existência de seu povo e a sua identidade Pepel. Além disso, os integrantes da
etnia lutam para que o governo local reconheça essa cerimônia como um ato legalizado de união civil, tornando, dessa forma, legal um ato que já é legítimo diante do grupo étnico.