4.2 Os textos analisados
4.2.9 O látex na Amazônia
Na revista de 1886, fascículo 134, e na revista de1887, fascículo 157, há colaborações do engenheiro Zózimo Bráulio Barroso, correspondente da Revista na Europa, sobre a extração do “cautchuc”, o látex extraído na Amazônia, para a fabricação da borracha. Um dos artigos apresenta um extrato da revista Tropical Agriculturist:
A devastação das matas de seringueiras do Amazonas, e as apreensões dos industriais pelo decréscimo, e a final extinção, de tão útil produto num futuro mais ou menos próximo, se a administração brasileira não acudir com as medidas próprias a preservar as matas, e regrar a extração do látex, de modo a não por em risco a vida da planta, como acontece ainda hoje, por ignorância, desleixo e cobiça (BARROSO, v.8, n. 134, p. 64, e v. 9, n. 157, p. 49)
Além deste texto, são reproduzidos outros, sobre o mesmo assunto, da revista Tropical Agriculturist, do Independent Journal do Sri Lanka, antigo Ceilão, e do India-Rubber and Gutta-percha Journal.
Nos textos, o engenheiro Zózimo informou que o látex era o terceiro produto de exportação do Brasil em valor, passando de 4.704 toneladas em 1870 para 9.624 toneladas em 1882. Este aumento de produção fora obtido com a migração de 40.000 cearenses para a Amazônia, fugindo da seca e com expectativas de vida nova. Na época o látex era utilizado no revestimento de cabos marinhos telegráficos, isolação de fios telegráficos, válvulas para
máquinas a vapor, tubos para gases, correias de transmissão, pneus, cordas, e inúmeras outras utilizações.
O látex da Amazônia era considerado o melhor do mundo, mesmo que o das outras áreas no Brasil em que se extraia o látex.
A colheita se fazia de modo primitivo e devastador, não se tratavam as árvores velhas e não se plantavam novas, apenas retirava-se o látex de forma agressiva para a árvore. Por exemplo, é sabido que as árvores não “talhadas” em agosto e setembro, quando mudam as folhas, continuam a produzir abundantemente por trinta anos, mas esse intervalo não era observado no Brasil. Uma árvore demora 25 anos para começar a produzir, portanto a reposição ou expansão deve ser feita com essa antecedência, o que também não ocorria no Brasil.
Os ingleses levaram mudas de nossas melhores plantas para o Sri Lanka e a Índia, onde foram plantadas, e em alguns anos estarão produzindo em condições técnicas melhores que as nossas, portanto, estarão produzindo em maior quantidade e mais barato do que na produção brasileira.
Há um relato de, M. Tessier, diretor da fábrica de borracha de M. Menier, reproduzido em um dos textos:
A grande procura de cautchuc nestes últimos anos, e a destruição que se faz nas árvores para colhê-los, induziram o governo da Índia a ensaiar a introdução de cautchuc americano na Índia. Esta operação teve bom êxito nestes últimos anos, graças aos cuidados de M. Cross, que foi mandado à América, em 1875, para procurar plantas de Castilloa Elastica. Enviaram-se estas plantas ao Sri Lanka e à Índia, onde elas prosperaram; em 1876 M. Cross foi ao Amazonas procurar plantas da Hevea Braziliensis.
Reuniu 1.000 plantas, e todos estes vegetais crescem admiravelmente no Sri Lanka e na Índia; é provável que, em uma época mais ou menos próxima, estas árvores produzirão cautchuc em quantidade suficiente, para libertar-nos da dependência em que nos achamos de cautchuc americano (TESSIER, apud BARROSO, RE, v. 9, n. 157, p. 49).
Para dar uma ideia melhor do problema que o Brasil em breve enfrentaria, o engenheiro Zózimo faz uma apresentação da atividade de extração da borracha, que segue aqui resumida.
A morada dos seringueiros é construída abrindo uma picada, deixando algumas árvores que servirão de apoio para o telhado, um assoalho levantado do chão, por causa das águas, apoiado nestas árvores ou em estacas fortes, tiras de cascas da palmeira buriti completam o assoalho. O madeirame do telhado é amarrado às árvores que ficaram em pé, e sobre elas colocam-se folhas de palmeiras, cobrindo o espaço suficiente para vinte pessoas. As
paredes são feitas com esteiras. A escada pode ser um grosso pau com os degraus talhados grosseiramente nele.
Fabricam vasos de barro para colher e guardar o látex, e colhem castanhas para o preparo do látex.
Pela manhã, entre as quatro e cinco horas, o seringueiro, vestido de calça e camisa de algodão, sai levando uma machadinha cujo gume tem cerca de três centímetros de comprimento. Caminha pela floresta e, a cada terceira seringueira que encontra, faz vinte incisões na casca e com barro amassado gruda uma pequena tigela abaixo das incisões, para receber a seiva leitosa que começa a pingar. Em algumas horas o seringueiro faz nova ronda, levando agora uma pequena tina, onde despeja o conteúdo dos vasos, mais ou menos um décimo de litro de seiva por árvore. O seringueiro limpa a incisão e prega outro vaso para a segunda colheita do dia.
O produto colhido na tina é levado para a cabana, faz um fogo e coloca sobre ele um pote de barro com forma de chaminé, dentro ou debaixo do qual aquecem as castanhas. O seringueiro, com a tina de seiva ao lado, senta-se diante do fogo e mergulha no “leite” um pau com um molde chato de barro em uma das pontas, e rola esta ponta coberta de leite no vapor branco que sai do pote. Em meio minuto, a seiva muda sua aparência para uma cor avermelhada. Quando está sólida, mergulha outra vez o pau na seiva, e assim por diante, agregando camada sobre camada, até obter-se grossura suficiente. Toma então outro pau e reinicia o trabalho até acabar com a seiva.
Quando os “pães” estão prontos, cortam-se com uma faca bem amolada e umedecida e penduram-se ao ar para secarem. Neste estado são vendidos.
No segundo dia refazem o caminho fazendo o mesmo processo para as segundas árvores, e no terceiro dia para as terceiras árvores. No quarto dia retornam às primeiras, que já não produzem a mesma quantidade de seiva.
Para a venda dos “pães” os seringueiros vão até canoas que percorrem os rios com vinho, cachaça, bagatelas e mercadorias ordinárias, e fazem a troca do látex por esses produtos.
Estas reportagem são importante por mostrarem o estado da indústria extrativa na Amazônia, no caso a mais rendosa na época. Esta situação deu origem ao “ciclo da borracha”, produzindo muita riqueza para uma elite espoliadora e “sem consciência de classe hegemônica”, pois não agiu para manter-se como tal. Ao mesmo tempo exaurindo quem produzia, deixando a miséria e o abandono após o curto ciclo. Este “ciclo da borracha”, junto com o “ciclo do pau Brasil”, possivelmente, foram os que deram as ideias centrais para a teoria dos ciclos econômicos na História do Brasil, questionados por Caio Prado (2011 e
1970) e por Celso Furtado (1967), que explicaram o desenvolvimento econômico do Brasil por questões estruturais, conforme está no capítulo 3 desta tese.
Pelos textos da Revista pode-se ter uma noção clara da “irresponsabilidade histórica” das elites amazonense e imperial da época, ao não tomarem nenhuma iniciativa para impedir um fim anunciado com antecedência. Se a elite imperial era cega para o que se passava na Amazônia, seus olhares eram voltados para o café e para o Sul e Sudeste, a elite amazônica era cega pela relação de classe espoliadora e cultura imediatista, e olhares voltados para a Europa, de costas para o Brasil.
4.2.10 A Abolição e a Proclamação da República na Revista, no CE e no IPB
No período que estamos estudando a Abolição e a Proclamação da República foram os eventos políticos sociais mais marcantes, e a forma como eles foram noticiados na Revista são de vital interesse para se analisar a relação dos engenheiros com esses eventos.
Na Revista após o dia 13 de maio de 1888, consta o seguinte editorial:
A Revista de Engenharia julga interpretar o sentimento de júbilo da classe profissional que representa, e que não pode progredir senão à sombra da liberdade, congratulando-se com todo o país e com a alta administração do Estado, pela passagem da áurea lei que marcou o termo da escravidão no Brasil.
A mais importante reforma, que desde a independência da nação se tem feito e, que novos e tão largos horizontes abre para a prosperidade deste país, não pode passar desapercebida pela classe que com ela tanto lucrará, nem desacompanhada de seus jubilosos aplausos. Honra e glória à propaganda que lhe abriu o caminho, e aos altos poderes do Estado, que a decretaram (RE, v. 10, n. 177, p. 1).
Posteriormente foram publicados, nas revistas do ano de 1888, textos de André Rebouças, onde ele apresentava sua posição de apoio à Abolição, ele fora um dos lutadores pela causa. Porém ele agregava que a abolição dos escravos não havia acabado, pois sem a distribuição de terras para os libertos produzirem e viverem, a escravidão continuaria sob outras formas.
Na ata do Clube de Engenharia do dia 15 de maio, publicada na Revista, foram tratados a aceitação de novos sócios e assuntos variados. No fim da sessão foi apresentada uma proposta relativa à Abolição:
O Dr. Carvalho de Souza propõe que seja inserido na ata dessa sessão um voto de júbilo pelo grande acontecimento nacional e mais fulgurante página de nossa história pátria, sendo unanimemente aprovado (RE, v. 10, n. 186, p. 119).
Na ata da sessão do IPB do dia 25 de maio consta a discussão sobre os meios de evitar os incêndios em teatros.
Na Revista publicada após o 15 de novembro de 1889, seu editorial comentou a Proclamação da República:
A Revista de Engenharia, publicação de caráter técnico e a serviço de uma classe, cuja arte tem por fim dirigir as grandes fontes de força da natureza para uso e conveniência da humanidade, não tem o dever de apreciar e comentar o extraordinário acontecimento, que teve lugar no dia 15 do corrente mês, nem as espantosas transformações, que dele decorreram.
Não pode, entretanto, deixar de o registrar porque, forçosamente, há de produzir certo abalo, que é para desejar venha a ser favorável, no progresso e desenvolvimento industrial deste grande país.
Com a norma de conduta, até o presente seguida por esta publicação, a vida e prosperidade de periódicos, como este, não dependem essencialmente da forma de governo, mais ou menos aperfeiçoada, adotada no país, em que vem à luz, contanto que nos estatutos fundamentais de tais governos existam certas e determinadas disposições liberais, no sentido da expressão.
Nunca a política assentou seus arraiais nas colunas desta Revista, e se alguma vez efeitos políticos se puderam derivar de artigos aqui estampados, foram inintencionais e puramente consequentes da força que resulta do desenvolvimento da inteligência, como bem o exprime o lema, de há muito, inscrito no alto desta coluna. A única segurança contra a escravidão política é o paradeiro que se forma pela difusão da inteligência, da atividade e do espírito público entre os governados. A inteligência inculta não pode ser juiz competente do progresso e da civilização, e o indivíduo, em que tal circunstância se verifica, forma uma concepção imperfeita e errônea de suas verdadeiras necessidades, e é fato provado pela experiência, ser extremamente difícil conservar nas classes governantes um padrão permanente e de quilate suficientemente elevado.
Até que ponto tais causas influíram para o movimento militar do dia 15, origem da radical mudança de forma de governo, que se acaba de operar, de monarquia constitucional para república federativa, não cabe aqui indagar, tão pouco prever quais as consequências que para o futuro possam sobrevir.
A mudança é fato consumado; os velhos moldes foram quebrados; e não é provável que se tente restaurá-los.
Não será a Revista quem vá apedrejar a monarquia no seu ocaso. Esta nunca lhe serviu de embaraço à independência com que se pronunciou sobre vários assuntos; pelo contrário, algumas vezes dirigiu-lhe expressões de animação.
Seria abdicar a toda nobreza de sentimentos praticar semelhante injustiça, que muito destoaria da moderação com que, afora o constrangimento reputado necessário, a família do Imperador deposto tem sido tratada pelo Governo Provisório, que se organizou para dirigir o país até a reunião do Congresso Constituinte que será convocado.
É chefe do Governo Provisório o Marechal Deodoro da Fonseca, e ocupam as pastas: da Guerra o Dr. Benjamin Constant, da Marinha o chefe de divisão Wandenkolk, e da Agricultura, Comércio o Obras Públicas o engenheiro Dr. Demétrio Ribeiro, tendo estado interinamente com a mesma pasta o sr, Quintino Bocayuva.
Operada, como se acha, a destruição da antiga forma de governo, estamos na fase da reconstrução, na qual é dever de todo cidadão calar quaisquer ressentimentos, e, empregando toda a disponível reserva de patriotismo, colaborar com todas as forças para que a nação se constitua com uma forma de governo duradoura, que venha a ser um penhor de paz, tranquilidade e progresso da pátria.
Apesar dos assuntos, de que tem se ocupado esta Revista, serem, em geral, puramente técnicos, no caso em que eles tem tido relações com questões sociais ou administrativas, foram sempre inspirados pelo mais adiantado espírito liberal e democrático; pelo que nenhuma alteração em seu programa necessita ela fazer para continuar, como até aqui, a promover o progresso do país, dizendo sempre
francamente a verdade, ainda que esta possa não ser agradável à administração pública.
Esperando que o Governo Provisório, que assumiu a tremenda responsabilidade de reger o país no período ditatorial até a reunião do Congresso Constituinte, continuará a manter, como tem feito, a paz e a tranquilidade pública e o respeito à propriedade e ao direito dos cidadãos, e que dos esforços coligados de todos resulte instituição capaz de garantir a felicidade de todos os habitantes do vasto território nacional, a Revista, convencida de que de forma mais aperfeiçoada de governo ninguém mais tentará retroceder, inclina-se respeitosa perante o advento da República Federativa dos Estados Unidos do Brasil (RE, v. 11, n. 222, p. 259).
No número seguinte da Revista consta uma notícia sobre uma reunião no salão do Clube de Engenharia ocorrida no dia 19 de novembro de 1889, por convite dos engenheiros Frederico Liberalli, Loureiro de Andrade e Anísio de Carvalho Palhano, quando elaboraram um abaixo assinado a ser enviado ao governo, com a assinatura dos 58 engenheiros presentes. O abaixo assinado continha o seguinte texto introdutório:
Os engenheiros abaixo assinados, reunidos em sessão no Clube de Engenharia, julgando interpretar os sentimentos da classe que representam, vêm manifestar seu apoio moral e material ao Governo Provisório dos Estados Unidos do Brasil (RE, v. 11, n. 223, p. 279).
Também foi noticiado na Revista que o novo Ministro do MACOP, o engenheiro Demétrio Ribeiro, estava por chegar ao Rio de Janeiro, e que o Clube de Engenharia escolhera uma comissão para recepcioná-lo. O CE convidava para participarem da recepção representantes do magistério da Escola Politécnica, a Escola Militar e os estudantes da Escola Politécnica. O IPB enviou uma comissão, a convite do CE, para participar desta recepção.
No na sessão do dia 20 de novembro de 1899 do IPB foi nomeada comissão para apresentar ao Governo Provisório os serviços do IPB no que estiver ao seu alcance, como instituição científica e técnica.
No dia 11 de dezembro o Ministro Demétrio Ribeiro chegou e foi saudado por vários oradores. Por fim ele discursou, e apresentou as bases para sua atuação, que seguem resumidas:
- Aceitou a manifestação como adesão à doutrina que representava.
- Encaminhar nosso país para a mais completa liberdade espiritual, liberdade religiosa, liberdade de ensino, liberdade de manifestação do pensamento, liberdade de imprensa responsável. Um governo forte e moralizado que se apoie na opinião pública. Um governo ditatorial e não despótico, fiscalizado pela opinião pública, provocando-a mesmo a pronunciar-se sobre todos os seus atos.
- Se a opinião está em atividade, não há ansiedade em consultarmos as urnas, estas se pronunciaram contra a República, e a República se fez. Um dos defeitos do regime eleitoral, é dar ao cidadão a impressão que votando está realizada sua tarefa de controlar o governo.
- No regime ditatorial republicano, o governo deve atender aos reclamos da opinião pública.
- O Partido Liberal, desmoralizou ele próprio, os seus intuitos.
- Venho trazer para o governo as opiniões de grandes pensadores que tem presidido a marcha evolutiva da humanidade.
- A liberdade religiosa começa com a separação imediata da Igreja do Estado. - Ensino público com liberdade espiritual, sem associá-lo a uma religião.
- Na administração a mais severa honestidade ao lado da mais completa publicidade. - Incorporar os proletários, classe geral da sociedade menosprezada até hoje, que mais atenção deve merecer do governo. Procuraremos adotar soluções para que o proletário não tenha um trabalho excessivo; para que ele possa constituir família e possuir domicílio próprio; bem como luzes imprescindíveis afim de saber cumprir o seu dever.
Após este discurso, foi substituído em 1o de fevereiro de 1890 por Francisco Glicério. Não completou 2 meses. Ele desagradou as bases do sistema anterior, e que continuavam como as bases da nova república.
A separação da Igreja do Estado e o ensino laico desagradaram à Igreja; a crítica ao Partido Liberal e o desprezo dos formalismos de um estado liberal, sejam as eleições, sejam os partidos políticos, desagradaram os partidos políticos e todos os que ansiavam por uma renovação no sistema político para dar-lhe maior representatividade; um discurso favorável aos “proletários” confrontando-se com as velhas oligarquias e os novos setores industriais e do café. Independente do fato dele ter razão em muitos pontos, sua inabilidade política foi completa, pois fez um discurso com pontos interessantes, sem ter uma articulação dos setores favoráveis às propostas por ele apresentadas. Revela-se a concepção positivista da república dirigida pelos sábios, e o povo apoiando-os.
O comportamento do CE e do IPB em relação à Abolição e à Proclamação da República, notadamente a falta de ações anteriores e poucas imediatamente posteriores, deixa claro o compromisso assumido por estes com o império por suas participações no Estado ampliado. Os engenheiros, como intelectuais orgânicos dos setores hegemônicos imperiais, também assumiram este compromisso, mas não de forma homogênea.
Pelos posicionamentos vistos no Primeiro Congresso de Ferrovias, o espaço conquistado no Estado ampliado com o Conselho Superior Técnico Consultivo junto ao MACOP, justificava apoiar o estado imperial. Por outro lado, havia também interesses ligados
a uma política de industrialização não apoiada pelo império, o que justificava uma oposição ao mesmo.
A movimentação no Clube de Engenharia de engenheiros assinando o manifesto nominalmente, sem a chancela do Clube, foi uma manifestação de setores na categoria favoráveis à república.
Estas contradições na categoria explicam, por um lado, sua baixa participação nos movimentos que levaram ao fim da escravidão e à Proclamação da República e, por outro, as adesões imediatas. Estas adesões são explicadas, também, pelas continuidades nas estruturas da sociedade, ao lado de descontinuidades. As continuidades possibilitaram aos engenheiros, rapidamente, se reposicionarem como intelectuais orgânicos dos novos setores hegemônicos do período republicano que se iniciava.
A Abolição e a Proclamação da República representaram rompimentos com a base do escravismo colonial pela abolição legal da escravidão e pelo fim do Estado Imperial altamente centralizado. Foram descontinuidades frutos dos movimentos sociais que lutaram por estas mudanças. A continuidade existiu porque foi mantida toda a base da propriedade privada, a única classe que mudou foi a dos escravos, que se tornaram libertos, e os novos setores hegemônicas ligadas à produção cafeeira do oeste paulista já existiam antes como parte das classes possuidoras dos meios de produção.
Havia a participação de engenheiros nos movimentos pela abolição e pela república, como era o caso de Rebouças, mas neste caso se manifestavam como cidadãos integrados a movimentos abolicionistas ou republicanos.
Fica clara, também aqui, uma diferenciação entre o IPB e o CE. A posição do Conde D'Eu como presidente do IPB deve ter pesado pelos laços pessoais criados nos anos em que dirigiu o IPB. Mas esta diferenciação está de acordo com a análise da origem diferenciada das duas instituições realizada por Marinho (2008), o IPB como uma instituição científica e técnica, e o CE como uma instituição, desde o início, ligada ao desenvolvimento industrial, e com a participação de empresários e comerciantes junto aos engenheiros.