4.2 O TRABALHO E O JORNALISMO
4.2.1 O labor e sua nova morfologia
Nota-se que o tema trabalho ganhou força nos anos 1980 até a atualidade, e mereceu por muitos anos a atenção de Karl Marx. Foi o centro de profundas discussões teóricas sobre a alienação e a exploração dos trabalhadores se adentrarmos ao cenário econômico. O capitalismo contemporâneo, assim nomeado por Antunes (2018), trouxe incomensuráveis mudanças na composição da classe trabalhadora em escala global. Hannah Arendt (2010), em uma de suas obras, “A condição humana”, se dedicou a descrever de forma sistemática sobre as relações de trabalho, apresentando algumas alternativas provenientes da vida moderna, que nomeou de vita activa e vita contemplativa.
Nessa descrição da vita activa que se desdobra em três atividades humanas básicas e fundamentais Labor, Trabalho e Ação que para autora seria: a) o labor, como processo biológico do corpo humano em prol da existência enquanto sobrevivência da espécie; b) o trabalho, como algo artificial, uma forma de alterar a relação do homem com o ambiente natural, afirmando que o trabalho é a mundanidade, e, por fim; c) a ação como um é o exercício direcionado ao homem, que é um dos fatores que os torna únicos e singulares, diretamente ligados com as relações políticas na interação humana, diretamente ligado às leis gerais do comportamento, ressaltando a pluralidade da condição humana e a liberdade. Para a autora, estes são os três pilares fundamentais da condição humana e das atividades consideradas por ela como tradicionais e acessíveis à todos os seres humanos (ARENDT, 2010).
Já a vita contemplativa se guia, segundo a autora, para um outro lado muito associado a áreas profissionais, como o dos naturalistas, filósofos e sociólogos que se permitem contemplar os acontecimentos. Arendt afirma que a vida dos filósofos na pólis grega, era voltada à essa contemplação do belo e do que acreditava-se ser eterno. Na pólis grega, a vita activa era para o público feminino e para os escravos, permitindo que os homens investissem na vida cívica. Partindo deste pressuposto, nota-se que a condição humana evidenciava a contemplação com um privilégio para poucos, mas que para que isso ocorresse pessoas deveriam se submeter à vita activa (o labor, o trabalho e a ação) em prol do benefício de uma classe (ARENDT, 2010). Olhando através deste tema delineado por Arendt (2010), nota-se que a filósofa, nas tradições do seu pensamento filosófico sobre o assunto, permite que seja analisada a sociedade contemporânea através destes dois pontos de vista: a vita activa e a vita contemplativa. Nota-
se ainda, que esses pensamentos também foram discutidos por Antunes (2012; 2014) em suas análises acerca da nova morfologia do trabalho, através do olhar sociológico.
A nova morfologia do trabalho ditada por esse modelo econômico no Brasil, pautado na superexploração da força de trabalho em prol do acúmulo de capital, se caracterizou por baixos salários, jornadas exaustivas, prolongadas e ritmos de produção intensificada. A partir de 1990, com a vitória neoliberal no Brasil, se intensificou a reestruturação produtiva do capital, que modificou a forma como as empresas organizavam as dinâmicas e rotinas laborais, novos métodos precisaram ser implementados e uma organização tecnologia tomou conta dos postos de trabalho.
Ricardo Antunes, tecendo uma análise e emitindo uma opinião sobre uma obra de Lukács (1981), descreve citando o próprio autor:
Deste modo, quando comparado com as formas precedentes do ser, orgânicas e inorgânicas, tem-se o trabalho, na ontologia do ser social, como uma categoria qualitativamente nova. O ato teleológico é seu elemento constitutivo central, “que funda pela primeira vez a contínua realização das necessidades, da busca da produção e reprodução da vida societal, a consciência do ser social deixa de ser um epifenômeno, como a consciência animal que [...] permanece no universo da reprodução biológica. [...] O lado ativo e produtivo do ser social “torna-se pela primeira vez ele mesmo visível através do pôr teleológico presente no processo de trabalho (e da práxis social)” (ANTUNES, 2006a, p. 138).
Nesta fala, Antunes (2006a) apresenta sua ideia sobre a importância da centralidade do trabalho reafirmando as ideias de Marx (1985) e Lukács (1981) de que o trabalho humano em nenhum momento pode ser removido da análise da sociedade e de seus processos sociais, uma vez que funda o ser social.
Ainda descrevendo a ideia da nova morfologia do trabalho, Antunes (2018) afirma que com os avanços das tecnologias da informação e comunicação (TICs) antes vista como o reino da felicidade no ideal do trabalho, pois acreditava-se na flexibilização do trabalho sendo possível trabalhar de forma remota online, hoje já tem uma nova conotação. A utopia da “sociedade digital e tecnologizada” que nos levaria ao suposto paraíso, sem o tripalium caminhando até para o não trabalho não passou de um mito criado pela não reflexão dos caminhos sociais que decidiu-se seguir. O “mito eurocêntrico” hoje toma uma escala planetária e os seres humanos pagam pelo caminho triados assim como o planeta terra visto que muitos minerais que hoje são matérias primas dos equipamentos digitais são extraídos no subsolo (ANTUNES, 2018 p.19).
Diariamente convive-se com notícias divulgadas na mídia sobre dados governamentais de ampliação de postos do trabalho, mas o que não é amplamente divulgado é a forma como
essas novas ocupações são estruturadas. O que é fatídico é que ao mesmo tempo em que se amplia o contingente de trabalhadores, há uma diminuição considerável dos empregos. Nota-se que quem consegue se manter empregado vivenciando na pele a corrosão dos direitos sociais e trabalhistas conquistados historicamente. Conforme se repelem inúmeros homens e mulheres do mundo profissional, surgem diversos outros postos de trabalho informais, intermitentes, flexíveis, precarizados, com remunerações incoerentes com o nível de exigência da ocupação (ANTUNES, 2018).
A implementação do espírito competitivo inerente das relações capitalistas para se fazer parte do cenário internacional de sucesso combinado com a Tecnologia, fez a busca pela produtividade se tornar uma rotina. Implementação de remuneração variável por produção, programas de gestão pela qualidade, dentre outras práticas comuns dentro da gestão empresarial, são apenas desígnios neoliberais, que tornaram possível a ampliação da intensa reestruturação produtiva e da flexibilização do trabalho no Brasil. Segundo Antunes (2018), as TICs possibilitaram a criação de cargos ocupacionais que são o infoproletariado ou o cibertariado, pois para viver na era da informatização, os trabalhadores, no mundo, precisam se adaptar ao processo de informalização. Mas, esses novos cargos são carregados da precarização e liberalismo como um processo social, o que evidencia a contraditória utopia que a tecnologia como o “reino da felicidade”, como já citado anteriormente.
Neste contexto, observamos que a realidade dos jornalistas no Brasil seria um exemplo trágico desta nova morfologia do trabalho espelhando este contexto global.