II. T EXTOS DO DEVIR
2.2 O lado animal da escrita
– Cegonhas, disse eu a instalar-me na borda da cama e a assentar a mão no tornozelo da minha mulher, passei há dias em Benfica e cegonhas foi coisa que não vi. Só prédios novos por toda a parte e um moinho junto de um muro em ruínas para a estrada, pegado a uma vivenda destelhada. Um moninho, um casarão apodrecido, grenhas de trepadeiras, mas nenhum pássaro a vogar por cima da desordem das acácias. Não se percebe que o bombista teime em habitar ali, eu despachava o terreno e alugava um andar em Moscavide, preferia o que quer que fosse a uma miséria daquelas. (António Lobo Antunes. Tratado das paixões da alma, p. 184).
E a quem não conviveu com um animal falta um certo tipo de intuição do mundo vivo. Quem se recusa à visão de um bicho está com medo de si próprio.
(Clarice Lispector. A descoberta do mundo, p. 519).
Tudo é rastro, vestígio ou fóssil. Toda forma sensível, desde a pedra ou a concha, é falante.
(Jacques Rancière. O inconsciente estético, p. 35).
O bestiário, tópico que povoa a obra antuniana, foi já contemplado pela crítica que recentemente afirmou que “a espécie de fabulário que a menção constante dos animais nos seus livros sugere tem muito a ver com a sua relação com as personagens e com o que eles representam, como metáfora e como partilha de vida, com os seres humanos.”41. Ainda que muitos animais pudessem ser aqui retomados devido à sua importância na ficção antuniana – cães, cavalos, touros, peixes e répteis –, selecionou-se, dentre eles, um que interessa em particular à discussão que será aqui desenvolvida, devido ao vínculo que estabelece com as personagens e que demonstra um inequívoco atrelamento à infância: as cegonhas aparecem, de forma recorrente, em todos os textos que tematizam Benfica, como uma marca de um tempo passado ora percebido como afirmativo, erguendo-se em contraposição aos objetos depauperados e contaminados pela negatividade do presente.
Dentre as várias espécies de pássaros que abundam na obra antuniana, a cegonha assume importância particular em Tratado das paixões da alma: ela é o significante fundamental na relação entre os dois protagonistas – o Juiz de Instrução e o Homem –, ao mesmo tempo em que é o elemento que conecta e faz convergir duas temporalidades, duas espacialidades e duas existências, em princípio, radicalmente distintas: a infância e a
atualidade das duas personagens, a quinta e a casa que os então amigos compartilharam e na qual cresceram juntos e, finalmente, a posição social diametralmente oposta que cada um assume no presente da enunciação – um juiz (homem de lei) e um terrorista (fora-da-lei). A incapacidade de ambos os amigos se desligarem da infância partilhada, a despeito do tempo transcorrido e das suas antagônicas trajetórias de vida, é marcada por essa imagem da cegonha, animal que pontua as três fases da narrativa: o interrogatório daqueles que poderiam levar ao paradeiro do Homem, a perseguição do Homem pelo Juiz de Instrução e, finalmente, a sua prisão:
Oxalá eu me engane no que respeita à patetice do Homem, desejou o Meritíssimo (...). Oxalá não seja tão cretino que decida vir despedir-se de Benfica, dos odores defuntos e das ruas que cessaram de existir, dos eléctricos de que não sobra nem o rego das calhas e da Estrada Militar substituída por um atropelo de prédios, oxalá haja desancorado da infância
e esquecido a barbearia do senhor Frias, a Adega dos Ossos, a Sapataria Saúl, a Porcalhota e principalmente as cegonhas, as cegonhas meu Deus, ai
as cegonhas, mal termine, daqui a três anos e onze meses, de pagar o apartamento em Miratejo, mudo para uma zona com pássaros, peço férias, visto o fato de treino e levo os dias no peitoril da janela a ver os ninhos crescerem nas palmeiras numa atenção desvelada.42 (Grifos meus).
Como salientou Eunice Cabral, “a representação de tonalidades líricas das cegonhas é indicativa do desejo implícito de conciliação da infância com a idade adulta, do passado com o presente, do filho-família com o filho do caseiro, do detido com o juiz”43, mas, ainda que nesse texto as cegonhas inscrevam, “no reino animal, soluções desejadas no mundo humano, como a referente à construção de uma família para a qual o ninho de cegonhas aponta”44, o fato é que esse desejo de conciliação permanecerá em negativo, interdito e irrealizável, uma vez que esses dois sujeitos, a despeito da tentativa do juiz de ajudar o amigo de infância, serão invariavelmente separados devido, em princípio, às suas ocupações e, ao final, pelo desfecho trágico que os aguarda: ambos, em distintos momentos, serão assassinados.
Entretanto, no que tange à presença animal na escrita antuniana, não se trata tanto aqui de elencar as inúmeras e diversificadas ocorrências desse tópico em sua extensa obra, mas de evidenciar que esse animal transvaza para a sua ficção sob uma forma própria de textualidade: o próprio texto “devindo” animal, assim se poderia ler o lado animal dessa escrita que, de
42 ANTUNES. Tratado das paixões da alma, p. 283.
43 CABRAL apud SEIXO. Dicionário da obra de António Lobo Antunes, v. 2, p. 76-77. 44 SEIXO et al. Dicionário da obra de António Lobo Antunes, v. 2, p. 77.
forma maníaca, opta por um dizer em negativo, encaminhando sua linguagem – habilidade marcadamente humana – em direção ao seu próprio “negativo” – ou seja, ao inumano.
Em A ordem natural das coisas, ao lado da transfiguração de Maria Antônia em árvore, outras metamorfoses ocorrem no texto e talvez a personagem que mais compactue de tal alomorfia seja Julieta: filha ilegítima, fruto do relacionamento extra-conjugal da mãe com um sujeito ruivo que, na narrativa, não é identificado com precisão, a condição para que a sua vida seja poupada é que a criança jamais deixe o sótão da casa materna, permanecendo reclusa e sem que ninguém de fora saiba de sua existência. A personagem cresce e vive isolada nesse espaço abscôndito, tendo como companhia apenas um gramofone e compactos de ópera, os quais escuta repetidamente e que parecem fazer-lhe as vezes de um interlocutor silencioso, já que ela se recusa a conversar com todos da casa, à exceção de seu irmão Jorge, por quem parece nutrir um carinho especial.
Trancada em sua “toca”45, Julieta tem ataques de fúria quando algo a desagrada, pondo-se a gritar, como um animal, ou servindo-se da voz mecânica de algum cantor lírico para substituir o seu grito orgânico. E, como um animal, ela será alimentada e tratada, mas nunca terá o afeto e a atenção de seu pai, e sua mãe, por temer a reação do marido e já desinteressada pela própria vida, também não atenderá às necessidades afetivas da filha. Ao longo da narrativa, essa personagem irá assumir, com cada vez maior intensidade, o seu devir- animal, aproximando-se, em um gradativo movimento alomórfico, de uma raposa que, como ela, habita um espaço recluso da casa: esse animal e a personagem Julieta estão freqüentemente associados, desde o momento em que a raposa, ao fugir da gaiola e tentar alcançar o sótão, esteve prestes a denunciar a sua presença oculta – “e a Dona Maria Teresa a gritar Liguem para a Legião e chamem o Fernando depressa antes que o animal se lembre de trepar ao sótão”46 –, até quando, ao final da narrativa, a existência negativada desse animal irá se confundir com a sua própria:
45 Veja-se a proximidade entre o caráter de toca que a moradia de Julieta assume e o quarto em que Kafka encerra o seu Gregor Samsa durante a manifestação do seu devir-inseto. Cf. KAFKA. A metamorfose; DELEUZE; GUATTARI. Kafka: por uma literatura menor. Julieta refere-se à sua habitação como “esconso em que me oculto como um bicho na terra”, aludindo à sua própria conformação inumana. ANTUNES. A ordem natural das coisas, p. 274. Há, ainda, na primeira narrativa dedicada a Benfica, outra situação de clausura, análoga à de Julieta: trata-se do sujeito do violino, que vive trancado em uma vivenda abandonada, ao lado da casa dos pais da personagem principal, e que assoma à porta de vez em quando, com aspecto doentio e sempre a tocar um violino desafinado. O modo como essa personagem é apresentada, fisicamente grotesco e mentalmente demente, confere-lhe um estatuto algo animalesco, muito próximo do de Julieta, incluindo a propensão de ambos para o assassínio de seres em situação mais frágil: Julieta tenta esmagar os frangos do quintal com um tijolo, enquanto o sujeito do violino agarra insetos e lhes arranca as asas.
A raposa morreu no primeiro dia
em que não encontrei nada de comer na copa e na véspera da visita do velhote ruivo (...)
e isto vinte e quatro horas após eu
me ter levantado da cadeira de balouço e espreitado no sentido de Monsanto, menos para a cadeia e a serra do que para aquilo que
sobrava de tufos de jarros no jardim da Calçada do Tojal, e nisto vi o bicho deitado no cimento da gaiola, de cujas fendas rompiam madeixazinhas de musgo,
e compreendi que não dormia, e
compreendi que morrera ao lado do seu tacho vazio, e compreendi que os gemidos dessa noite eram os sinais que utilizara para se despedir de uma existência absurda, ruidosamente absurda como a minha”47 (Grifo meu).
Nos textos ora em análise, a equiparação entre o humano e o inumano ainda se fará por meio do procedimento lingüístico de um “como se” – a existência da raposa é absurda como o é a de Julieta; Maria Antônia cai como caem as árvores –, mas esse processo metamórfico se acentuará continuamente nas obras seguintes, em especial nas mais recentes. Contudo, ainda que não apresente a radicalidade que se verificará em narrativas posteriores, essa confusão entre os estratos está sempre acompanhada de des-hierarquizações de outra ordem – como as temporais e de espacialidades – e conforma uma estratégia discursiva que já aqui se constitui como complexificador estrutural e um desafio considerável para o leitor. Porque se a alomorfia se processa em razão de um “como se”, toda a narrativa se desenvolve “como se” aquilo que é rememorado transcorresse no pleno presente da enunciação diegética, numa atualização do passado que surpreende, desconcerta e desloca tanto o leitor quanto os próprios sujeitos que narram: “e a minha infância se desenrolava perante mim como se estivesse a ocorrer naquele segundo”48 (Grifo meu). Assim, “absurda” não é apenas a existência em comum dessas duas personagens (Julieta e a raposa) que, esquecidas, acabam por sobreviver aos demais habitantes da casa, “absurda” é a própria forma que a ficção antuniana encontra para narrar essas histórias também elas “absurdas” se lidas desde a lógica convencional do romance, que ignora ou exclui a componente metamórfica do texto bem como das próprias existências que o texto narra. Estruturando-se a partir de outra lógica, a textualidade antuniana irá articular-se de modo a incorporar esses elementos de “absurdo”, de incessante metamorfose, de paradoxal repetição e transvazá-los para a própria superfície do texto.
Em seu inesperado encontro com aquele que ela intui ser seu pai biológico, Julieta confirma o paralelismo entre sua história pessoal e a da raposa, demonstrando uma
47 ANTUNES. A ordem natural das coisas, p. 264-265. 48 ANTUNES. A ordem natural das coisas, p. 241.
consciência ao menos parcial quanto a essa contigüidade que o humano estabelece com o animal:
Foi por sua causa que me prenderam aqui, foi por sua causa que não queriam que me vissem, foi por sua causa que me mandaram para a Guarda e não me ensinaram a ler nem a escrever e me proibiram de sair, foi por sua causa que me obrigaram a apodrecer na Calçada do Tojal, foi por sua causa que fiquei sozinha, sem água nem luz, à espera de morrer de fome como a raposa, nestas ruínas de casa, porque o meu pai não é o meu pai e você me fez, como o filho da costureira me fez o mar de Peniche e um búzio que chorava, à minha mãe?49 (Grifo meu).
A dessubjetivação dessa personagem se processa paralelamente ao arruinamento do espaço de Benfica, bairro onde ela e a família viveram e onde se construiu sua toca-quarto, evidenciando que o contínuo e invencível apagamento das referências faz “desaparecer” o próprio sujeito- habitante: “e permaneci a observá-lo sem descer as escadas, sem sair para o quintal, sem me chegar a ele, sem nada que se aparentasse em mim a alarme ou a espanto, certa de que tudo desaparecia ao meu redor convidando-me a desaparecer também”50. A dessubjetivação abre
espaço para uma nova relação desse sujeito com o mundo circundante e é então que Julieta passa a atuar como raposa, comungando de seu alimento e expondo, assim, o seu devir- animal:
e nessa tarde, ao sentir fome, procurei de comer na despensa e na cozinha sem encontrar mais do que latas de conserva vazias e boiões de compota a que se agarravam crostas de açúcar que o garfo não lograva separar do vidro de que faziam parte agora, como se de imperfeições dos frascos se tratasse,
e coloquei um copo debaixo de uma torneira e rodei o manípulo para abri-la, qualquer coisa percorreu devagar os canos da parede, um viscozinho tombou uma lágrima no ralo e calou-se, e eu pensei Cortaram a água, cortaram a luz, cortaram o gás, devem ter-se esquecido que existo se é que o chegaram a saber dado que fizeram da minha vida uma ausência perpétua (...)
de modo que acabei por utilizar, quando escurecia, o perfil de Monsanto se alaranjava e os buxos se apequenavam sobre a erva, a água do tacho da raposa para uma infusão das folhas da nespereira que resistia, doente de parasitas, no pátio da cozinha51
49 ANTUNES. A ordem natural das coisas, p. 269. 50 ANTUNES. A ordem natural das coisas, p. 265. 51 ANTUNES. A ordem natural das coisas, p. 265.
O que o texto antuniano propõe aqui se assemelha a uma limitrofia: “o que se avizinha dos limites mas também o que alimenta, se alimenta, se mantém, se cria e se educa, se cultiva nas margens do limite”, pois que toda a textualidade antuniana consiste, sobretudo, “em não apagar o limite, mas em multiplicar suas figuras, em complicar, em espessar, em desfazer a linearidade, dobrar, dividir a linha justamente fazendo-a crescer e multiplicar-se”52. Como
Derrida faz questão de frisar, não será o caso de contestar o limite “incontestável” que separa o homem do animal abordando de maneira antitética toda a história de si que se conta o homem e que constitui a própria Filosofia: ignorar essa divisão seria o mesmo que ignorar a diferença, as heterogeneidades e descontinuidades e voltar-se para a homogeneidade e para o contínuo; o que o pensamento derridiano parece indicar e que a ficção antuniana realiza enquanto textualidade é que
para além da borda pretensamente humana, para além dela mas de forma alguma sobre uma única borda oposta, no lugar do “Animal” ou da “Vida- Animal”, há, de antemão, uma multiplicidade heterogênea de viventes, mais precisamente (pois dizer “viventes” é já dizer muito ou quase nada) uma multiplicidade de organizações das relações entre o vivente e a morte, das relações de organização e de não-organização entre os reinos cada vez mais difíceis a dissociar nas figuras do orgânico e do inorgânico, da vida e/ou da morte. Ao mesmo tempo íntimas e abissais, essas relações não são jamais objetiváveis. Elas não permitem nenhuma exterioridade simples de um termo em relação ao outro.53
O animal é definido, desde Aristóteles até Lacan, como aquele que é privado de linguagem, ou, mais especificamente, privado de resposta, de uma resposta que nada tem a ver com uma simples “reação” instintiva, mas que configura o direito e o poder do animal de responder54. A obra antuniana dará ao animal esse “direito de resposta” expondo os seus sujeitos ficcionais a devires diversos (devir-raposa, devir-pássaro, devir-planta...), que se manifestam lingüisticamente pelo já referido “como se” e que alcançarão, inclusive, a posição de narradores, realizando-se não mais como simulação, mas como voz enunciativa. Em Que farei quando tudo arde?, por exemplo, as ocorrências dessa “assunção” da narrativa por parte do inumano são freqüentes: “(...) daqui a instantes o/dono da esplanada a desdobrar o toldo,
52 DERRIDA. O animal que logo sou, p. 57-58. 53 DERRIDA. O animal que logo sou, p. 60-61. 54 Cf. DERRIDA. O animal que logo sou, p. 62.
uma garça/seis garças/os bicos a interrogarem-me/– Era isto que esperavas Paulo?”55; ou “uma trepadeira perguntando-me a mostrar as folhas/– Sou uma genciana não sou?”56.
Podem-se aventar duas possibilidades para se pensar esse discurso direto do inumano no texto antuniano: 1. a personagem, quase sempre em situação de vacilação, vê esse inumano como um “crítico” ou “zombador em potencial” e imagina o que esse “animal” diria a respeito da sua situação, do seu impasse existencial; ou 2. sujeito (criticado/zombado) e inumano (crítico/zombeteiro) confundem-se e isso conformaria o devir-animal desse sujeito. Na primeira possibilidade, tratar-se-ia apenas de uma projeção do sujeito, que se mantém a uma distância segura do inumano (perspectivado, portanto, como objeto); ao passo que na segunda possibilidade o processo é algo mais complexo, porque não se resolve como “mera” projeção ou “imaginação” da racionalidade humana, mas abre, no discurso narrativo, um espaço de contato entre duas subjetividades distintas, uma imiscuição do animal no humano e vice- versa, uma sobreposição da voz humana e do ruído animal – ou do silêncio humano (já que o animal claramente enuncia o que o sujeito não é capaz ou não se atreve a dizer) e do grunhido animal, retirando esse inumano da posição de objeto e concedendo-lhe voz enunciativa.
Luc Ferry lembra que “A natureza é para nós [referindo-se aos modernos] letra morta. No sentido próprio: ela não nos fala mais, pois deixamos há muito tempo – no mínimo desde Descartes – de lhe atribuir uma alma e de acreditá-la habitada por forças ocultas.”57. Ora, o discurso ficcional antuniano vem precisamente mostrar que essa natureza, sim, diz-nos uma qualquer coisa que a linguagem do humano não estaria apta a enunciar senão assumindo para si a voz desse inumano; não, certamente, por acreditar essa natureza “habitada por forças ocultas” como se pensava mais ou menos até o fim do século XVIII, mas talvez por conceber a separação rígida entre o homem e a natureza como “apenas” um parêntese instaurado pelo Humanismo e que já não se sustenta mais na contemporaneidade, momento histórico em que muitos têm reivindicado uma “nova ordem ecológica”58.
O antropocentrismo moderno não tem lugar na obra antuniana porque essa é uma obra “simpática” à natureza, “simbiótica” com o animal que ela incorpora, ainda que se centre, paradoxal e predominantemente, nas relações humanas. Contra a pretensão universalizante de um Iluminismo que tenta igualar tudo o que ele considera como “humano”, conseqüentemente
55 ANTUNES. Que farei quando tudo arde?, p. 576. 56 ANTUNES. Que farei quando tudo arde?, p. 523.
57 FERRY. A nova ordem ecológica: a árvore, o animal e o homem, p. 19.
58 Veja-se, a esse respeito, a referida obra de Luc Ferry, para quem “O homem não seria mais, sob qualquer ponto de vista, ético, jurídico ou ontológico, do que um elemento dentre outros – para dizer a verdade, o menos simpático, pois o menos simbiótico dentro desse universo harmonioso e ordenado onde ele não cessa, com seu descomedimento, com seu ‘ubris’, de introduzir a mais deplorável desordem.”. FERRY. A nova ordem ecológica: a árvore, o animal e o homem, p. 24.
distinguindo-o do não-humano, a ficção antuniana recupera o que ficou ocultado ou que foi propositalmente banido do pensamento iluminista: a diversidade, multiplicidade e indefinição que a um só tempo perturbam (como o faz toda e qualquer indefinição) e sob as quais se assenta o mundo e o pensamento contemporâneos (como evidenciam as teorias na esteira de Foucault, Derrida e Deleuze).
Nessa rediscussão a um só tempo sociológica e filosófica do Humanismo, o animal desempenha papel fundamental. Ainda nas palavras de Ferry: “O animal é, pois, o primeiro ser que se encontra no processo de descentramento que conduz da rediscussão do antropocentrismo à consideração da natureza como sujeito de direito. Indo do homem ao universo (...) passa-se primeiramente pelo animal.”59. É ele, o animal, que, com sua
“equivocidade”, promoveria essa confusão dos gêneros que o cartesianismo conseguiu, por tanto tempo, inibir, mantendo o homem em seu lugar de honra – único lugar que realmente importava – e relegando o animal à posição de máquina60:
Não vejo em nenhum animal senão uma máquina engenhosa a quem a natureza dotou de sentidos para ela se recuperar por si mesma, e para se defender até certo ponto de tudo que tende a destruí-la ou perturbá-la. Percebo precisamente as mesmas coisas na máquina humana; com a diferença de que a natureza sozinha faz tudo nas ações do animal, ao passo que o homem participa das suas na qualidade de agente livre. Uma escolhe ou rejeita por instinto, e a outra por um ato de liberdade (...)61.
Se, como propõe Rousseau no seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da