I. 2 1 O legado de Galton
I.2. Alfred Binet (1857-1911)
I.2.2. O legado de Binet
Após a morte de Binet, suas pesquisas são progressivamente marginalizadas. Theodore Simon dá continuidade ao seu trabalho, mas se mantém à parte dos avanços da psicologia; ele insiste em usar os mesmos itens, ao contrário de Binet, que os submetia a constantes revisões. Simon tinha uma personalidade discreta – provavelmente uma característica necessária para se manter ao lado de Binet por tanto tempo. Com a morte de seu mentor, quem assume o laboratório de psicologia experimental da Sorbonne não é ele, mas Henri Piéron, um pesquisador de trinta anos de idade com uma boa rede de relações (Schneider, 1992).
27
The scale that we shall describe is not a theoretical work; it is the result of long investigations, first at the Salpêtrière, and afterwards in the primary schools of Paris, with both normal and subnormal children. These short psychological questions have been given the name of tests. The use of tests is today very common, and there are even contemporary authors who have made a specialty of organizing new tests according to theoretical views, but who have made no effort to patiently try them out in the schools. Theirs is an amusing occupation, comparable to a person's making a colonizing expedition into Algeria, advancing always only upon the map, without taking off his dressing gown. We place but slight confidence in the tests invented by these authors and we have borrowed nothing from them. (Tradução de Elizabeth S. Kite, 1916, disponível em http://psychclassics.yorku.ca/Binet/binet1.htm)
A obra de Binet voltou-se mais para a observação e o desenvolvimento de provas empíricas do que para a criação de teorias. Mas, sem dúvida, a noção da inteligência como multifacetada é um de seus legados para os psicólogos franceses, que sempre relutaram em aceitar a redução de habilidades complexas a um único número – o que faz sentido considerando-se que a Psicologia francesa sofreu uma influência mais direta da tradição médica.
O campo de aplicação da escala permanecerá puramente médico; nenhuma utilização social de grande porte ocorrerá no país, onde a industrialização se desenvolveu mais lentamente e a população era relativamente homogênea. Na França, a ligação entre educação compulsória e testes de inteligência não foi inspirada pela necessidade de selecionar os melhores no sistema de educação universal para as oportunidades mais limitadas de educação superior. Já havia um sistema de avaliação centralizado, bastante seletivo, do qual a escala serviria apenas como complemento para identificar as crianças que tinham dificuldade de acompanhar o currículo oficial.
Mas ao contrário do que ocorreu na França, a escala Binet-Simon passa a ser usada quase que imediatamente em vários países (EUA, Bélgica, Alemanha, Inglaterra, Itália, Suíça). O objetivo de Binet era estabelecer um diagnóstico individual, como exigia o sistema francês, e seu interesse sempre foi compreender a mente humana e promover a educação. Mas o método que criou, com testes simples que exigiam pouco tempo de aplicação, vai ao encontro das demandas por um instrumento para testar a inteligência de uma grande população; o instrumento passa a ser usado para atender a questões relacionadas à classificação de indivíduos absolutamente estranhas aos seus interesses e objetivos. Quando o psicólogo alemão Louis William Stern (1871-1938) substitui a expressão “nível mental” por “idade mental” e sugere dividi-la pela idade cronológica para obter uma expressão mais precisa do grau em que o examinando se situava acima ou abaixo da média para sua idade – o Quociente de Inteligência – abre a possibilidade de quantificação dos resultados da escala. Introduzido nos Estados Unidos com essa contribuição, o método de Binet sofre duas modificações centrais: quanto ao espírito do método e quanto ao espectro de aplicações. Isso faz com que seu nome passe a ser associado à mensuração da inteligência e fatalmente incluído nos capítulos sobre usos e abusos da Psicologia.
Como afirma Gould:
Se os princípios de Binet houvessem sido respeitados, e a utilização de seus testes houvesse correspondido às suas intenções, não teríamos de assistir a uma das maiores demonstrações de uso indevido da ciência em nosso século (Gould, 1991, p. 158).
Na edição de 1968 do Traité de psychologie experimentale, Paul Fraisse, Jean Piaget e Maurice Reuchlin afirmam “A. Binet merece o crédito pela criação da psicologia experimental propriamente dita.” Segundo Pollack e Brenner,
é tentador especular qual seria a posição da psicologia experimental infantil se Binet não tivesse desviado sua atenção para os problemas psicométricos e as diferenças individuais. É bem possível que os procedimentos experimentais tivessem sido padronizados décadas mais cedo, e que tivéssemos, muito antes de agora, um corpo de dados normativos sólidos sobre a maioria dos comportamentos da infância (1969, p. xiii).
Na obra Pioneers of Psychology, de Raymond Fancher, o capítulo 7 aborda as mensurações da mente. Mas não é lá que encontraremos Binet. Seu nome e sua obra estão no capítulo 12, “Developing Mind: Alfred Binet, Jean Piaget, and the Study of Human Intelligence” (A mente em desenvolvimento: Alfred Binet, Jean Piaget e o estudo da inteligência humana).
A injustiça de associar Binet à psicometria, decorrente principalmente da distorção de seu método e objetivos nos Estados Unidos, lentamente vem sendo reparada.
Como vimos, os “testes psicológicos” derivam de duas origens bem distintas. Na Inglaterra, Francis Galton, ambicioso e desejoso de reconhecimento, em um momento de crise existencial e profissional desenvolve uma interpretação pessoal da teoria de Darwin e é possuído por uma visão utópica cuja aplicação prática depende da comprovação de sua hipótese quanto à capacidade herdada; a estatística e os “testes mentais” dão credibilidade a seus argumentos, fundamentando-os “cientificamente”. Assim, Galton não tem dificuldade em convencer a si (e a muitos outros) de que a inteligência humana de fato é hereditária – argumento particularmente interessante diante dos problemas sociais que o país enfrenta. Durante a segunda metade de sua vida, a eugenia é o seu interesse central – “tornou- se sua paixão [...] quase literalmente um substituto da fé religiosa ortodoxa que abandonou após ler o desafio de Darwin à interpretação literal da Bíblia” (Fancher, 1979, p. 235). Embora seus testes não funcionem, Galton faz com que, daí em diante, toda a questão dos testes de inteligência permaneça inextricavelmente associada à genética, à eugenia e à controvérsia nature-nurture (hereditariedade x ambiente) – oposição de termos cunhada por ele. Mais ainda, dá início à crença de que a inteligência de fato possa ser medida – motivo pelo qual é considerado o “pai da psicometria”.
Do outro lado do Canal da Mancha, Binet, introvertido e avesso à promoção pessoal, interessado na psicologia individual, cria um instrumento para o diagnóstico de crianças que precisam de atenção no sistema educacional, para apreciar seu “nível mental”. Binet e Simon adotam o termo nível justamente por indicar a possibilidade de mudança e flutuação, mas o psicólogo alemão William Stern (1871 – 1938) cria a fórmula para o cálculo do Quociente de inteligência, substituindo o conceito de nível mental pelo de idade mental, que dá margem à concepção de algo fixo e imutável.
Os temores de Binet em relação ao uso indevido de seu instrumento se concretizam quando, em 1908, a escala cai nas mãos de Henri H. Goddard (1866-1957), um psicólogo estadunidense eugenista. Ele traduz a escala para o inglês e leva para os Estados Unidos um instrumento adulterado, tanto em termos do conceito de inteligência subjacente e das propriedades atribuídas à medida quanto em termos do espectro de aplicações a que a escala se presta (Martin, 1997). Não por acaso três eugenistas sintonizados com o momento histórico vivido pelos Estados Unidos nas primeiras décadas do século XX serão responsáveis pela implementação de amplos programas de testagem que afetarão a vida de muitos. Se, por um lado, os testes de inteligência de Binet se impuseram sobre os de Galton, nos Estados Unidos a visão de Galton se imporá sobre a de Binet.