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Capítulo 3. Do último governador ao primeiro presidente: os potentados sul rio-grandenses e o processo de independência (1820-1824)

3.3. O legado do insurgente: uma história de família

Antero José Ferreira de Brito não era somente um militar de alta patente.

Confluíam em si elementos de autoridade e prestígio que transcendiam sua carreira e sua pessoa.380 Seu pai homônimo fora um advogado nascido no Rio de Janeiro que se estabeleceu em Porto Alegre por conta de uma herança, uma estância deixada por seu tio em 1777. O tio em questão era o Capitão de Dragões Antônio Pinto Carneiro, de reconhecidos serviços à Coroa portuguesa e membro da elite local. Após passagem por Minas Gerais e pela Colônia do Sacramento, Pinto Carneiro foi designado para o Rio Grande de São Pedro onde administrou o maior aldeamento indígena da capitania. Ali utilizava a mão de obra indígena visando seus próprios interesses e estabeleceu uma bem sucedida parceria com o Coronel Rafael Pinto Bandeira, efetuando contrabandos e descaminhos da Fazenda Real. Tais crimes jamais foram apurados em profundidade a

379 AHRS. Carta de 23 de novembro de 1821do Governador João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun.

Correspondência dos governadores. Códice A 2.01, fl. 10v.-11.

380 A leitura dos atores sociais enquanto portadores de múltiplos status foi desenvolvida em nossa dissertação de mestrado e baseia-se no trabalho do antropólogo norueguês Fredrik Barth. COMISSOLI, Adriano. Os “homens bons”. Op. Cit. P. 83-76. BARTH, Fredrik. ―Scale and Network‖. Op. cit.

BARTH, Fredrik. Process and form in social life. Op. Cit.

despeito de inúmeras acusações e Carneiro não sofreu sanções. Ao obter o hábito da Ordem de Cristo contou com a ajuda de seu cunhado José Ferreira de Brito, pai do Doutor Antero e avô do insurgente Coronel Antero.381

O Doutor Antero José Ferreira de Brito, o pai, foi um homem bem relacionado em Porto Alegre, em grande medida pelo fato de ser o único advogado de que temos notícia na localidade no século XVIII. O bacharel foi autor de uma articulada peça retórica que minimizava a responsabilidade criminal dos envolvidos em contrabando.

Utilizando a linguagem jurídica defendeu que as ações de contrabando não se enquadravam nas leis vigentes, não sendo, portanto, crimes. Há de se ter em conta que o tio de Antero era um desses contrabandistas e embora já estivesse morto quando da chegada do advogado ao Continente de São Pedro não será absurdo imaginar que seus antigos sócios tenham buscado um defensor jurídico para seu benefício.382

Antero pai, faleceu em 1787, deixando uma viúva grávida e uma filha. Pouco após sua morte nasceu seu filho Antero. A mãe do rebento, dona Bernardina de Azevedo Lima, herdou do marido cerca de 3 contos de réis, responsabilizando-se por gerir as legítimas de seus dois filhos menores.383 Natural do Continente de São Pedro ela contava com suas próprias conexões. Seu pai era Domingos de Lima Veiga, antigo escrivão da Fazenda Real e ex-juiz de órfãos, sendo este um dos estímulos de seu marido a haver desposado.384 Bernardina casou-se novamente, desta vez com o comerciante Antônio Soares de Paiva, frequentemente envolvido na arrematação de contratos no Rio Grande de São Pedro.385 A família do segundo Antero José contava recursos materiais suficientes para custear seus estudos em um seminário fora do Rio Grande de São Pedro, onde inexistia tal instituição. Quando completou os estudos Antero tornou ao sul, abandonando a expectativa de uma carreira eclesiástica ao ingressar na Legião da Cavalaria do Rio Grande em 1808, sob comando de Manuel Marques de Souza.

Manuel Marques de Souza era casado com outra filha de Domingos de Lima Veiga, irmã da mãe de Antero, ou seja, era seu tio por parte materna. Juntos participaram das campanhas cisplatinas de 1811-12 e de 1816-20. Portanto, quando do concorrido ano de 1821 tio e sobrinho eram oficiais militares com folha de serviço

381 KÜHN, Fábio. Op. Cit. P. 366.

382 GIL, Tiago. Os Infiéis Transgressores. Op. Cit. P. 73.

383 APERS. Inventário de Antero José Ferreira de Brito, 1º COPOA, proceso 131, maço 9, ano 1787.

384 KÜHN, Fábio. Op. Cit. P. 356, nota 560.

385 Osório, Helen. Estancieiros, Lavradores e Comerciantes. Op. Cit. P. 292. MIRANDA, Márcia Eckert. A estalagem e o império. Op. Cit.

contando inúmeras vitórias. Tais sucessos lhes concederam tanto promoções quanto prestígio junto a seus comandados, fator fundamental para mobilizar soldados nas insurreições. Este prestígio era uma das medidas pela qual seus seguidores avaliavam a confiança em seus líderes. Marques de Souza amplificava o efeito de sua imagem de capitão congregando seus homens em torno de estandartes com seu brasão de família, uma distinção que conquistara em 1800. A concessão do príncipe Dom João lhe permitia usar seu escudo e armas ao ―entrar em Batalhas, Campos, Reptos, Escaramuças, e exércitos todos os mais atos Lícitos da Guerra e da Paz‖, servindo assim para engrandecer a sua figura pessoal.386 Não foi à toa que nomeou o sobrinho seu ajudante de ordens, pois o elo familiar se fundia à fidelidade forjada nos campos de batalha. Antero, por sua vez, reunia em seu legado pessoal um pai advogado, um padrasto comerciante e um tio militar, herdando assim as diferentes fontes de legitimidade da elite oitocentista.

Antônio Manuel Correia da Câmara e Antero, enviados juntos ao Rio de Janeiro, não só compartilhavam acusações, mas parentesco. A irmã mais velha de Antero, Dona Maria, casara-se com o Marechal-de-Campo Bento Correia da Câmara, irmão do incitador de escravos Antônio Manuel.387 A avaliação do governador Saldanha era de que Antônio e Antero agiram coordenadamente numa única e ampla conjura, que era liderada pelos mesmos insurgentes de abril. Havia mais. Fora acusado de cúmplice de Antônio certo Francisco José Coelho, caixeiro de Antônio Soares Paiva.388 Este último não sabemos se trata-se do padrasto de Antero José ou do filho de mesmo nome, seu meio-irmão. Em ambos os casos os laços familiares entrelaçam os principais contestadores do extremo sul. Em última análise podemos somar ao conjunto familiar o filho e o neto de Manuel Marques de Souza (todos com o mesmo nome) que na época já se encontravam integrados às tropas militares. Embora a pecha de corcundas deva ser entendida como uma depreciação de seus opositores, a existência de uma facção política constituída por laços de família, lealdades de guerra e tratos econômicos, menos do que por ideais, adquire substancial consistência. Trata-se de uma família de elite na acepção do Antigo Regime português, cuja atuação adquire grande coerência pelos múltiplos

386 APERS. ―Registro de uma Carta Régia de Padrão de Armas Nobreza e Fidalguia ao Coronel da Legião da Cavalaria deste Continente hoje Brigadeiro Manuel Marques de Souza‖, 5 de maio de 1800, Fundo Câmara, registros diversos, livro 1, fl. 19v-21.

387 Nascido em 1783 na vila de Rio Pardo, estudou no colégio São José da cidade do Rio de Janeiro, ingressando no Colégio dos Nobres em Lisboa em 1805. Participou das Guerras Peninsulares em Portugal e em 1819 está de volta ao Rio Grande de São Pedro. CARVALHO, Mario Teixeira. Op. Cit. P.

187. ALMEIDA, Antônio da Rocha. Vultos da Pátria, Vol. II. Porto Alegre: Globo, 1964. P. 27-33.

388 AHRS. Carta de 23 de novembro de 1821. Op. Cit.

elos partilhados. Antero José Ferreira de Brito carregava consigo, portanto, um legado de serviços, de antiguidade na terra e de sólidas ligações parentais.389

Nosso desafio é compreender a possibilidade de Antero José Ferreira de Brito e seus familiares disporem de soldados para realizarem os três motins de que são acusados, tendo em conta sua efetivação nas vilas de Porto Alegre e Rio Grande.

Falamos não da cadeia de comando militar, antes sim da capacidade de arregimentar homens para uma ação que antes de tudo era ilegal e contrária aos poderes legítimos. É bem possível que esta mobilização se valesse das idéias liberais que fervilhavam nas mentes dos homens do oitocentos, fazendo-os criar inúmeras expectativas ao usar palavras como justiça e liberdade e condenar um abstrato despotismo. Não subestimando a força que tal ideário exerceu para o convencimento e adesão aos insurgentes gostaríamos de propor outra chave de leitura que seja capaz de explicar o domínio da elite sobre parte da população também em tempos menos conturbados que o ano de 1821. Propomos pensar em Antero José Ferreira de Brito e em seu tio Manuel Marques de Souza como potentados locais: chefes pessoais que estabelecem laços interpessoais de dependência com seus chefiados. Embora a dependência tenha fundamento na desigualdade de acesso a recursos materiais pesam na elaboração desses laços escolhas recíprocas (orientadas ao outro) que expressam certo grau de confiança e de expectativas.390

Os feitos de Manuel Marques de Souza e Antero José Ferreira de Brito constituem o que Marshall Sahlins considera ação sistêmica, pois dependiam do lugar social que ocupavam.391 O fato de emitirem ordens e seus homens as acatarem se ligava a suas capacidades de comando e de liderança, atributos que não lhes eram exclusivos naquela sociedade. A comando nos referimos à hierarquia militar formal e à obrigação de serviço nas tropas a que todos os vassalos homens estavam obrigados. Por liderança entendemos não somente a parcela institucional da direção das tropas, mas a habilidade

389 FRAGOSO, João. ―A formação da economia colonial no Rio de Janeiro e de sua primeira elite senhorial (séculos XVI e XVII)‖, Op. Cit. HAMEISTER, Martha Daisson. O Continente do Rio Grande de São Pedro. Op. Cit. KÜHN, Fábio. Op. Cit. CUNHA, Alexandre Mendes. ―Patronagem, Clientelismo e Redes Clientelares: a aparente duração alargada de um mesmo conceito na história política brasileira‖, História, São Paulo, v. 25, n. 1, p. 226-247, 2006.

390 O entendimento dos potentados locais como chefes de clientelas personalistas aplica postulados expressos por CUNHA, Mafalda Soares. Op. Cit.

391 A ação sistêmica é aquela na qual o sujeito está investido de poder institucional. Por exemplo, ―a singularidade histórica de Napoleão foi historicamente investida de poder em virtude da posição suprema que ocupava em entidades coletivas – a França, o exército – que eram organizadas do ponto de vista hierárquico precisamente para transmitir e implementar a as vontade‖. SAHLINS, Marshall. Op. Cit. P.

150. Como a proposta de Sahlins exige o conhecimento da ordem cultural da sociedade nosso esforço se dirige a explicar seus elementos constitutivos.

de tornar esta obrigação uma adesão espontânea, a qual se baseia na confiança pessoal entre líder e liderados. A transação entre os atores sociais, portanto, baseia-se na confiança de que operando juntos aumentavam suas chances de sucesso diante da inevitável incerteza do resultado de suas ações.392

Para que o comando formal se fundisse à liderança informal exigia-se uma série de características. Era necessário interligar os envolvidos numa mesma parentela, isto é, um grupo de forte solidariedade entre seus membros que fomentasse a confiança e a expectativa entre os mesmos. Dentro da parentela aumenta a confiança de que as expectativas sobre o comportamento dos membros seja atendida, isso em decorrência dos compromissos morais e sociais mútuos.393 Os compromisso não são todos iguais, dependendo dos recursos detidos por cada indivíduo e das obrigações envolvidas, isto é, a confiança não é igual entre todos os sujeitos, nem as obrigações a qual estão submetidos, o que implica um quadro relacional dinâmico.

O líder/comandante se destaca por controlar recursos em número superior aos seus subordinados, o que permite dispensar favores aos últimos, deixando-os em débito.

Embora frequentemente esses bens tenham uma expressão material como terra, dinheiro ou alimentos, eles podem também ser a capacidade de prestar serviço ou de empregar mão-de-obra.394 A distinção não reside no tipo de bem, mas no controle dos mesmos.

Portanto, parte do poder do líder deriva da capacidade de dispensar bens àqueles que lhe requerem. O ciclo se completa com o débito a ser pago pelos favorecidos, que ficam obrigados a pagar o auxílio recebido com os recursos que dispõem. A concessão de favores e o pagamento em dias dos débitos criavam e mantinham a confiança dos dois lados da equação. Em palavras simples, confiar significa que um sujeito A projeta que o

392 ―The whole interaction depends on and maintains relations of trust; the prestations on the bridge are in a sense token prestations‖. BARTH, Fredrik. ―Models of social organization I‖, in. Process and form in social life.Op. Cit. P. 43. Uma interessante leitura de como Barth influenciou a micro-história italiana encontra-se em ROSENTAL, Paul-André. ―Construir o ―macro‖ pelo ―micro‖: Fredrik Barth e a

―microstoria‖‖, in. REVEL, Jacques. Jogos de escalas. Rio de Janeiro, Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998.

393 Os laços parentais do grupo podem ser sanguíneos, rituais, alianças diversas ou dependências. O importante é o reconhecimento dos membros ao grupo, o que implica um parentesco de competência funcional baseado na referência de um indivíduo comum, nesse caso o líder da parentela. ZONABEND, Françoise. ―Da família. Olhar etnológico sobre o parentesco e a família‖, in. BURGUIÈRE, A. &

LEBRUN, F. História da Família, Vol. 1. Lisboa: Terramar, 1996. P. 51-52. Os compromissos mútuos são abordados por Eisenstadt e Roniger, que classificam a confiança como a manutenção das obrigações familiares mútuas. A utilização dos autores do termo em inglês strain é particularmente feliz para as relações interpessoais, pois o mesmo denota tanto linhagem ou ancestralidade quanto tensão ou atrito por uso excessivo, confluindo na família o sentido de pertencimento e de coerção a um conjunto de regras (explícitas ou não). EISENSTADT, S. N. & RONIGER, L. Op. Cit. P. 8-9 e 30.

394 BOISSEVAIN, Jeremy. Op. Cit. P. 147.

sujeito B aja de determinada maneira em situações específicas.395m Por fim, atuava sobre o aumento da confiança a projeção carismática do líder, interpretada aqui como resultado da aplicação de qualidades pessoais em situações reais, ou seja, sua performance.396

No Rio Grande de São Pedro um comandante que se pretendesse líder tinha de mostrar-se capaz de recrutar homens para o serviço de Sua Majestade. As forças armadas portuguesas de fins do século XVIII e início do XIX não apresentavam a racionalização e o corporativismo dos atuais exércitos profissionais. Eram tropas que dependiam de lealdades anteriores e o quadro de oficiais era composto menos pela formação profissional do que pelas hierarquias sociais vigentes, dependendo de favorecimentos clientelísticos.397 As tropas luso-brasileiras apresentavam sistema tripartido no qual a 1ª linha era composta de soldados que se dedicavam exclusivamente ao serviço militar. As forças de 2ª e 3ª linhas (respectivamente Milícias e Ordenanças) mobilizavam temporariamente os moradores das localidades ao serviço militar quando necessário. Apesar da inexistência de soldo este serviço era obrigatório a todos os homens em idade competente e sua negativa era punível com prisão. As Ordenanças raramente eram destinadas ao combate, mas policiavam as povoações, em especial quando as demais forças estiveram mobilizadas nas campanhas na Banda Oriental entre 1811 e 1828.398

395 Uma aplicação clara dessa interpretação ao contexto do Rio Grande de São Pedro oitocentista consta em COSTA, Miguel Ângelo Silva da. ―Em nome de ―nossos amigos políticos‖: vínculos pessoais, poder e influência ao tempo do Império do Brasil‖, in. Anais: produzindo história a partir de fontes primárias. VIII mostra de pesquisa do Arquivo Público do Rio Grande do Sul. Porto Alegre:

Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas - CORAG, 2010.

396 A construção sociológica da liderança, como resultado de relações sociais, econômicas e interpessoais, se beneficiou das leituras de BOISSEVAIN, Jeremy. Op. Cit. QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. ―O coronelismo numa interpretação sociológica‖, in. FAUSTO, Boris. História Geral da Civilização Brasileira III. O Brasil Republicano 1. Estrutura de poder e economia (1889-1930). São Paulo:

Difel/Difusão Editorial, 1977. HESPANHA, António Manuel & XAVIER, Ângela Barreto, ―As Redes Clientelares‖, Op. Cit. CASTELLANO, Juan Luis & DEDIEU, Jean-Pierre. Op. Cit. GIL, Tiago Luís.

Coisas do caminho. Op. Cit.

397 SOUZA, Adriana Barreto de. Duque de Caxias: o homem por trás do monumento. Rio de Janeiro:

Civilização Brasileira, 2008. P. 52-53.

398 ―A importância dos efetivos não-profissionais era mesmo enorme: nos primeiros anos após a independência, o exército tinha apenas três unidades na província do Rio Grande do Sul, enquanto as Milícias contavam com sete. Como herança do Império Colonial Português, o Estado Brasileiro nascia com uma grande dependência em relação aos particulares, para a defesa militar de seus interesses nos confins meridionais.‖ FARINATTI, Luís Augusto Ebling. Op. Cit. P. 207. Sobre recrutamento ver também PEREGALLI, Enrique. Recrutamento militar do Brasil colonial. Campinas: Editora da UNICAMP, 1986.

Criadas a partir dos terços de auxiliares em 1796, as milícias provarem-se a força militar mais expressiva do extremo sul, servindo de base para a formação da Guarda Nacional após 1831.399 Seu poderia provinha da superioridade numérica. Mapas das tropas de 1806 mostram que as 31 companhias de cavalaria miliciana mobilizavam um total de 2913 praças, dos quais 2600 eram soldados.400 Distribuídas por distritos essas companhias reuniam entre 36 e 181 soldados, que respondiam, via de regra a um capitão, um tenente e um alferes. A proporção entre líderes e liderados girava em torno das dezenas, sendo que na maior das companhias, a do distrito da Lombas na freguesia de Viamão, cinco oficiais lideravam cinco cabos e menos de duzentos soldados. Em contrapartida as tropas regulares – Dragões, Legião de Cavalaria Ligeira e Batalhão de Infantaria e Artilharia – somavam um efetivo de 914 praças, dos quais somente 728 eram soldados.401 As milícias eram superiores às tropas de linha em mais de três vezes, o que explica porque entre 1822 e 1831 haviam sete regimentos milicianos contra apenas três do exército no Rio Grande de São Pedro, condição que atesta a dependência militar que o poder central tinha em relação aos líderes locais.

Entrementes, havia interesses para a Coroa fomentar a supremacia das milícias no belicoso território meridional. Elas eram formadas pelos habitantes da capitania, conhecedores da região e custavam muito pouco aos cofres da Fazenda Real/Imperial. A Junta da Fazenda contabilizou as despesas do ano de 1806 em 104 contos de réis, dos quais 61 eram soldos militares. Ao regimento de Dragões de Rio Pardo, o mais dispendioso, pagavam-se quase 29 contos, enquanto a Cavalaria Miliciana, sem soldos aos soldados, custava a bagatela de 547.200 réis, menos de 1%. O municio da carne e farinha gerava uma despesa total de 9.313.152 réis, dos quais somente 430.672 (4,6%) eram destinados às milícias, sendo o restante consumido pelas tropas de linha.402 As tropas custeadas pelos capitães rio-grandenses eram mais numerosas e menos onerosas ao poder central, o que o levou a decidir por sua otimização em quatro regimentos de oito companhias cada, sendo estas compostas por 64 soldados, para não serem excessivamente grandes. O armamento foi definido em uma espada e duas pistolas, mas não está claro se este seria custeado pela Coroa.

399 Para o processo de transformação das milícias na Guarda Nacional ver RIBEIRO, José Iran. Quando o serviço os chamava: milicianos e guarda nacionais no Rio Grande do Sul (1825-1845). Santa Maria:

Editora da UFSM, 2005.

400 AHU-RS. Consulta de 12 de setembro de 1807 ao Conselho Ultramarino, cx. 12, doc. 733.

401 AHU-RS. Ofício de 11 de outubro de 1807 do governador Dom Diogo de Souza, cx. 12, doc. 746.

402 AHU-RS. Ofício de 15 de outubro de 1807 do governador Dom Diogo de Souza, cx. 13, doc. 750.

Os líderes militares no Rio Grande de São Pedro – tanto naturais quanto migrados e ligados às famílias da região – ocupavam postos nas três modalidades de tropas, sendo comum a ostentação de patentes de oficial. Antero José Ferreira de Brito era coronel de Milícias em 1821. Seu tio Manuel integrara diversas forças militares durante sua longa carreira, iniciada aos vinte e seis anos de idade em 1769: Voluntários, Dragões, Cavalaria Ligeira. Atuou como ajudante de ordens do General João Henrique de Bohm em 1775 e 1776, nas operações para retomada da vila de Rio Grande frente aos espanhóis e ―se distinguiu e assinalou, acreditando o seu valor, e presença de espírito no assalto do Forte da Trindade, assim como em muitas outras ocasiões‖. Essa performance de sucessos concedeu-lhe o comando da fronteira de Rio Grande, na qual era responsável por ―manter a paz e boa harmonia entre as duas nações que a cada passo havia pretexto de se alterar pelas contestações que diariamente sujeitavam os particulares de uma e outra parte, movidos de interesse das pastagens e uso dos campos

Os líderes militares no Rio Grande de São Pedro – tanto naturais quanto migrados e ligados às famílias da região – ocupavam postos nas três modalidades de tropas, sendo comum a ostentação de patentes de oficial. Antero José Ferreira de Brito era coronel de Milícias em 1821. Seu tio Manuel integrara diversas forças militares durante sua longa carreira, iniciada aos vinte e seis anos de idade em 1769: Voluntários, Dragões, Cavalaria Ligeira. Atuou como ajudante de ordens do General João Henrique de Bohm em 1775 e 1776, nas operações para retomada da vila de Rio Grande frente aos espanhóis e ―se distinguiu e assinalou, acreditando o seu valor, e presença de espírito no assalto do Forte da Trindade, assim como em muitas outras ocasiões‖. Essa performance de sucessos concedeu-lhe o comando da fronteira de Rio Grande, na qual era responsável por ―manter a paz e boa harmonia entre as duas nações que a cada passo havia pretexto de se alterar pelas contestações que diariamente sujeitavam os particulares de uma e outra parte, movidos de interesse das pastagens e uso dos campos