3.1 Os temas e as imagens: (re)criados pela interpretação do leitor cooperante?
3.1.1 O leitor adolescente e a criação de sentidos
A capacidade de sonhar, assim como a capacidade de imaginar, que o imaginário humano possui, são fundamentais para a criação, para a descoberta de novos sentidos. A imaginação seria o elo de ligação entre o consciente e o inconsciente – imaginar significaria formar imagens. A palavra escrita ou falada que utilizamos para comunicar, para transmitir o que desejamos, é cheia de símbolos e/ou imagens – tal como o imaginário humano – o que facilita a aprendizagem significativa (os afetos, a identificação com os heróis) e incrementa o raciocínio mágico e a criatividade. Potenciar o imaginário infanto-juvenil como fator de desenvolvimento e de renovação de potencialidades e competências, eis o nosso propósito.
Não há dúvida de que Ana Saldanha concebeu um leitor ativo. Aquele que inicia uma aventura e que é impelido a continuar, cooperando na descodificação do texto literário. É a autora, afinal, que orienta este leitor48: impele-o a ir até ao fim, com a introdução do suspense49; direciona-o para o passado das personagens, introduzindo analepses50; desafia-o, apresentando-lhe acontecimentos paralelos51; convida-o a entrar nas divagações desta ou daquela personagem, mostrando-lhe a sua perspetiva52; fá-lo parar para se cultivar sobre assuntos científicos53 (…). Esta cooperação interpretativa que funciona como um jogo, apela à participação ativa do leitor no preenchimento dos “espaços vazios” (Iser, 1989: 139), mantendo-o ocupado a tentar provar a sua capacidade interventiva e criadora, até onde o levar o seu imaginário.
Nesta demanda, paralela à demanda de cada protagonista do texto literário, o leitor descobre indícios, recolhe pistas, decide o caminho a seguir. Azevedo (1995: 33) afirma que é a nossa “enciclopédia”54
que nos configura como leitores únicos e originais. Que a construção do significado do texto é medida por essa competência de forma que “qualquer leitura contribui para a fecundação e reorganização da sua
48
O narrador tem o papel primordial em todo este processo de orientação leitora. 49
É melhor não ires. Daqui a pouco escurece”(GV:41) 50
“ Mas afinal a quem é que saía o novo bébé? Sim, a quem é que ele saía?” (NPNC: 13) 51
“ E se foi pelo parque? Eu bem a avisei, mas tu sabes como ela é. (…) É na secção local. Ah, aqui está. Queres ouvir? (…) Mais um ataque do lobisomen (…) Ontem na rua da Floresta!” (GV: 86)
52
“ É um documentário sem qualquer traço de ficção que a Diana passa na sua cabeça.” (PS: 52) 53
“Capítulo XIII Hereditariedade – Dá-se o nome de hereditariedade ao fenómeno biológico em virtude do qual certos caracteres de um ser vivo (…)” (NPNC: 57)
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70 “enciclopédia”, que, por sua vez, condicionará todas as leituras posteriores. As alusões intertextuais com os contos tradicionais permitem ao leitor adolescente antecipar sentidos possíveis e, assim, “fruir muitas das linhas de leitura que a construção textual potencialmente sugere, antecipando, com sucesso, informações que não são dadas como explícitas.” (Azevedo, 2006: 43). Segundo o mesmo autor, o texto literário, no seu diálogo com o leitor, permite ainda atualizar determinados valores de natureza social, histórica e ideológica (idem: 40).
Propusemos aos leitores do clube de leitura a descoberta de alguns dos sentidos, ocultos na estrutura mais profunda dos textos literários por detrás de símbolos, imagens, jogos de sons e de cores, até de linguagem. Em suma, o texto literário, “dada a sua capacidade de gerar efeitos perlocutivos, convida o leitor a desenvolver uma significativa atividade de cooperação interpretativa, mobiliza a sua memória cultural e literária, incita-o a detectar marcas de intertextualidade e alerta-o para a necessidade de estabelecer pontes entre um tempo passado e um tempo presente” (Campos, 2006: 24).
Todo o texto literário é plurissignificativo e o seu sentido é determinado pelo leitor. O texto literário proposto por Ana Saldanha é construído por uma dialética entre duas narrativas: a da literatura e a do cinema. Que o leitor preencha então todos os espaços por meio de representações imagéticas, que se aproprie do seu conteúdo, que atualize o discurso da autora, construindo novos sentidos.
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Parte II - Estudo empírico
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1. Apresentação do estudo
Não é recente este enfoque na promoção da leitura por prazer e na angariação de mais e melhores leitores. Se por um lado o contexto nacional nos apresentou variadíssimos projetos a desenvolver e nos orientou quanto aos textos literários, na sua adequação aos grupos etários e à sua qualidade literária – e reportamo-nos ao Plano Nacional de Leitura – também é certo que a nível local e organizacional desenvolvemos práticas estimuladoras do prazer de ler, de contacto com os livros e os seus autores. Algumas das atividades locais que temos desenvolvido foram, por exemplo, “Formar leitores para simplesmente LER”55, “1 encontro, 1 escritor”56, “Ler.com/ domingosmonteiro”57, “Festival de Contos”58, “Hora do Conto”, “Noites de embalar”, “Semana do Livro”, “Semana da Leitura”, “Clube de Leitura”, “Tertúlias”, entre outras. Com este estudo pretendeu-se desenvolver um trabalho mais direcionado, com a opção deliberada por uma autora e por uma coleção, pelas razões que já foram explicitadas anteriormente. Era nosso propósito intervir diretamente junto de um “leitor” que, por circunstâncias várias, se afasta nitidamente de práticas de leitura sistemáticas. Neste sentido, estabelecemos um conjunto de objetivos para o nosso estudo, que recordamos aqui:
• Conhecer a relação dos jovens com a leitura literária.
• Estudar a receção das obras de Ana Saldanha pelo público infanto- juvenil.
• Demonstrar a importância da literatura no aprofundamento do conhecimento do mundo e de nós mesmos.
• Identificar os contributos da Biblioteca Escolar, através da animação de um clube de leitura, no desenvolvimento da leitura literária.
55
No âmbito do projeto THEKA. 56
O projeto continua em desenvolvimento. O vídeo resumo do ano letivo 2010/11 pode ser visionado em
http://w3.dren.min-edu.pt/gift/tvktve/TVktveantigo/10_11/retratos.htm 57
Projeto financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian no ano letivo de 2009/10 e ainda em
desenvolvimento que possui um blogue próprio no endereço http://lercomdomingosmonteiro.blogspot.pt/ 58
Podemos acompanhar o registo de todas as atividades na página do facebook das Bibliotecas Escolares em https://www.facebook.com/#!/BibliotecasEscolaresApANMF e no blogue Ciberleituras.
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