2 A DEFICIÊNCIA INTELECTUAL
3.6 O letramento e sua interdependência com os gêneros
Não é possível falar sobre letramento sem falar de gênero, uma vez que há uma relação de interdependência entre fala/escrita e gênero textual para que se possa materializar a linguagem. A esse respeito, Bakhtin (1997), além de defender que existe o caráter social dos fatos da linguagem, defende também que há uma variedade de atos sociais produzidos por diferentes gêneros, acarretando uma multiplicidade significativa das produções de linguagem. Ao falarmos em produções da linguagem, entendemos que a escolha de um gênero é determinada em função da peculiaridade da troca. A partir dessa propriedade, o filósofo russo afirma que:
Nós aprendemos a moldar nossa fala às formas do gênero e, ao ouvir a fala do outro, sabemos de imediato, bem nas primeiras palavras, pressentir-lhe o gênero, adivinhar o volume (a extensão aproximada do todo discursivo), a estrutura composicional dada, prever-lhe o fim, em outras palavras, desde o início, somos sensíveis ao todo discursivo. [...]. Se os gêneros de discurso não existissem e se não os dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez a cada processo da fala, se tivéssemos de construir cada um de nossos textos, a comunicação verbal seria quase impossível (BAKHTIN, 1997, p. 302).
De acordo com a explicação de Bakhtin, podemos afirmar que, quando um emissor fala, um autor escreve/desenha, um receptor ouve/lê um enunciado, ele tem uma visão antecipada do texto como um todo acabado pelo conhecimento prévio que tem dos gêneros a que está exposto cotidianamente nas relações sociais intermediadas pela linguagem. Graças ao nosso conhecimento prévio dos gêneros do discurso, não precisamos prestar uma atenção constante a todos os detalhes de todos os enunciados que ocorrem à nossa volta. Somos capazes de identificar, por exemplo, um cupom fiscal ou um folheto publicitário sem maiores dificuldades e nos concentrar em um número reduzido de elementos. A noção de gênero está tão estruturada em nossas mentes que,
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diariamente, é comum ouvir afirmações do tipo “li seu e-mail”, “recebi seu torpedo”, “curti seu comentário”, “não entendi a piada”, “deixei um recado pra ele”, “postei sobre isso no blog”. Isso prova que as trocas sociocomunicativas são dinâmicas e sofrem variações na sua constituição em cada época da evolução humana e, em muitas ocasiões, acarretam a criação e utilização de novos gêneros.
Se os gêneros são um elemento fundamental para a comunicação, então eles fazem parte do processo de construção social e cultural de todas as pessoas. Eles são, de fato, uma parte dessa substância que, de acordo com Miller (2012) e Bazerman (2006, 2007), explicam o conhecimento que a prática cria.
Segundo Bazerman (2007), a familiaridade com os gêneros é fundamental para que aconteça a comunicação entre as pessoas e para que se compreenda a complexidade das interações e, a partir disso, para que se possa ponderar as próprias ações comunicativas em relação às ações comunicativas de outros interlocutores. Para o autor, “os complexos sistemas de cooperação e participação social podem ser desenvolvidos através desses comportamentos tipificados” (BAZERMAN, 2007, p. 76). Por meio desse processo interativo, social e histórico, as pessoas são capazes de identificar os tipos de ações ao seu dispor e as formas apropriadas de executá-las.
Se o letramento exige que façamos uso de práticas sociais e culturais, o uso do gênero não é apenas um padrão de formas para realizar nossos propósitos comunicativos, pois nos ajudam a compreender e conseguir participar dessas práticas em uma comunidade. Considerando essa função do gênero, é fundamental compreendê-lo como um constituinte específico e importante da sociedade, cuja estrutura comunicativa garante aos interlocutores o poder de realizar comunicação situada, que pode se manifestar em mais de uma situação, em mais de um espaço-tempo concreto. Para tanto
As regras e os recursos de um gênero fornecem papeis reproduzíveis de falante e de ouvinte, tipificações sociais de necessidades sociais e exigências recorrentes, estruturas tópicas (ou movimentos e passos) e modos de relacionar um evento a condições materiais, transformando-as em restrições ou recursos. Em suas representações de espaço-tempo e na intervenção no espaço-tempo, o gênero se torna um determinante do kairós15 retórico – um meio pelo qual definimos uma situação no espaço-tempo e compreendemos as oportunidades
15 Segundo Miller (2012), kairós é uma palavra originária do grego antigo que significa o “momento certo ou oportuno”. Os antigos gregos possuíam duas palavras para tempo: chronos e kairós. A primeira refere- se ao tempo cronológico ou sequencial; a segunda significa um momento relativo a um intervalo indeterminado de tempo em que algo especial acontece. Enquanto chronos é quantitativo, kairós possui uma natureza qualitativa.
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que ela oferece. (MILLER, 2012, p. 50).
Considerando a afirmação de Miller, conclui-se que quanto mais interagimos e partilhamos nossas experiências, mais nos tornamos eficientes em reconhecer tais conjunturas e em construir as interpretações de cada um sobre os eventos. Algumas vezes, isso pode representar um aumento de cooperação, de satisfação mútua e de pontos de encontro para acordos, portanto essa coordenação kairótica pode levar a tipos de orientações partilhadas e a participações igualmente partilhadas.
Bazerman (2007) defende que a familiarização com os gêneros e registros correspondentes aos sistemas de que as pessoas participam permite que o indivíduo, utilizando-se de algum mecanismo de raciocínio ou da linguagem, compreenda a complexidade das interações e equacione suas ações comunicativas em relação às ações comunicativas de muitas outras pessoas. É importante compreender que esses complexos sistemas de cooperação e participação social podem ser desenvolvidos por meio desses comportamentos tipificados, ou seja, por meio dos gêneros. Por essa razão, características genéricas estão intrinsicamente relacionadas aos letramentos, pois precisam um do outro para que a comunicação, de fato, se realize.