CAPÍTULO II – A QUESTÃO DO ABOLICIONISMO MAÇÔNICO NA IMPRENSA PARAENSE IMPRENSA PARAENSE.
2.4 O LIBERAL DO PARÁ E SUA FACE ABOLICIONISTA
Este jornal, na mesma linha de todos os demais, usava como forma de propaganda abolicionista o intenso noticiário sobre a libertação de escravos, buscando também ressaltar o papel da Maçonaria nesta campanha libertária, com na notícia abaixo:
―Manumissão – O Sr. João Baptista Machado Janahu, em attenção à Maçonaria brasileira, deu liberdade à sua escrava Raymunda, como consta do annuncio que está sendo publicado neste jornal‖185.
Este tipo de notícia será uma constante ao longo da existência deste jornal.
Destacaremos aqui, alguns pontos, do noticiário diário desta publicação, que percorreu a década de 1870, intensificando a publicação de notícias que vinculavam a Maçonaria à campanha abolicionista, como em seu número 107, em que noticia a ―posse das luzes e dignidades da Loja Cosmopolita‖186, destacando a presença de oitenta senhoras que abrilhantaram a referida festa, na
qual, a ―Loj:. Em signal de regosijo pelo festivo dia da posse da nova diretoria, dando expansão aos elevados sentimentos da beneficência que sempre tem praticado, entregou três cartas de liberdade e prometeo remir a uma menina de 9 annos, com o producto do Tronco de Beneficência, que nessa noute rendeu, 202$000 rs, elevado a 302$000 rs, pela generosa oferta de 100$000 feita nessa ocasião pelo maçom o sr. João Francisco Fernandes‖187. E o jornal não deixa
de criticar a Igreja e o Bispo D. Antonio de Macedo Costa, já que, neste mesmo período, estamos em plena ―questão religiosa‖, envolvendo a Igreja e a Maçonaria, ao estender, na mesma notícia, o seguinte comentário:
―Actos como este não precisam de comentários‖
184 IDEM. P. 174
185 O LIBERAL DO PARÁ. No. 53. 06/03/1873. p.1. Biblioteca Arthur Vianna – Centur, Belém, 186 Referência à posse dos novos dirigentes da Loja Cosmopolita.
―Desengane-se o sr.d. Antonio. A Maçonaria perseguida pelos jesuítas, sairá triunphante como sairão os primitivos christãos da luta com o paganismo‖188. Mantida a grafia original. Vê-
se que aí há uma referência a D. Antonio de Macedo Costa, elogiando a entrega de cartas de liberdade feita pelas lojas maçônicas.
Ainda em 1873, o mesmo jornal em seu número 28 noticia uma ―reunião do povo maçônico‖, realizada em um domingo ―as 11 horas da manhã‖, ―no edifício da loja Harmonia à travessa do Pelourinho‖, para mais adiante afirmar que ―‖assumio a direcção dos trabalhos o ilustre irmão Sr. Dr. Assis, venerável da Loja ―firmeza e Humanidade‖, a quem o respeitável irmão delegado do Grande Oriente outhorgou os necessários poderes‖. Noticiando ainda, que:
―Por indicação do Sr. Muniz, venerável da loja ―Harmonia e Fraternidade‖, correu o tronco da beneficência, cujo producto resolveu-se que fosse aplicado à libertação de crianças do sexo feminino e entregue à ―Sociedade philantropica d`emancipação de escravos‖.
―ainda não sabemos quanto produziram as esmollas dadas para esta obra de caridade que foi recebida pelo Sr. Dr. Samuel, presidente d`aquella sociedade‖189.
Fica muito claro o engajamento da Maçonaria paraense, desde o final dos anos 1860 até a abolição na luta pela fim da escravidão no estado e no país, do qual os jornais são os maiores divulgadores da ação dos maçons no estado. Ações estas que envolviam não somente a libertação de escravos em loja, mas a arrecadação de fundos, através dos troncos de beneficência recolhidos em loja, como também nas festas realizadas pelos maçons, além dos editoriais assinados por reconhecidas figuras de maçons e liberais, onde as publicações maçônicas ou os jornais ―profanos‖, mas de propriedades de maçons, ou com a presença destes em seu corpo editorial, desencadearam e deram continuidade à campanha abolicionista, a qual, sem a presença e o apoio de uma instituição tão influente na época, talvez não tivesse a mesma envergadura. Continuando ainda a demonstrar através das publicações daquele período e da atuação dos homens ligados à Ordem Maçônica, abordando ainda os acontecimentos da década de 1870, para posteriormente, adentrarmos na intensificação da campanha na década de 1880, a década da abolição.
Interessante fato ocorre ainda no ano de 1873, quando noticiando mais uma vez a libertação de cativos em lojas maçônicas, aparece o nome do Dr. Antonio Lemos, figura notável da história do Pará, principalmente da cidade de Belém, onde foi intendente e, ainda hoje considerado o maior dos prefeitos que a cidade teve, sendo responsável pelo seu embelezamento
188 IDEM.
à época da borracha190, tendo sido sócio de Joaquim José de Assis, o Dr. Assis, no jornal a Província do Pará, do qual, posteriormente tornou-se único proprietário, o que demonstra o nível e a qualidade dos maçons envolvidos na campanha abolicionista.
Esta informação, constante do Nº. 90 do ―O Liberal do Pará‖, é interessante também porque mostra como as lojas maçônicas atuavam de forma conjunta e articuladas na ação de libertar escravos, sempre acompanhado de noticiário e editoriais propagandísticos da campanha libertária então realizada.
Em cima de um editorial em que exalta o ―acto de philantropia que bem caracteriza os nobres e louváveis fins que caracterizam os filhos da viúva‖, ou seja, os maçons, que como já foi explicado, segundo a lenda de Hiram, o arquiteto do Templo de Salomão, este era filho de uma viúva da tribo de Neftaly, daí os maçons serem também conhecidos como os ―filhos da viúva‖. Neste noticiário, que informa que as lojas maçônicas ―Firmeza e Humanidade‖, ―Harmonia‖ e ―Cosmopolita‖, libertaram em uma festa maçônica, três crianças191.
Ressalte-se, que o mesmo noticiário, destaca que ―é Assim que esta santa associação responde às torpes acusações e aos embustes e calúmnias que contra ella espalha uurbi et orbi a satânica seita de Loyola‖. Para mais adiante afirmar que com atos assim, a Maçonaria age contra aqueles ―que pretendem fazer recuar o carro do progresso‖192.
Outro aspecto relevante na participação da Maçonaria na campanha abolicionista é o fato de que grande parte do apoio financeiro dado às sociedades emancipadoras, vinha da contribuição das lojas maçônicas, como informa o mesmo Liberal do Pará em sua edição de 13/02/1873, em que, ao lado de uma noticia sobre a libertação de mais uma criança escrava, feita pela Loja Harmonia, informa que a mesma loja entregou nesta ocasião à Associação Philantropica de Emancipação de Escravos, na pessoa de seu presidente, Samuel Wallace MacDowell, ―a quantia de duzentos e quarenta e seis mil reis ( 246$000), producto do Tronco de Beneficência, para applicar à manumissão de escravos‖193.