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A COMUNIDADE INTERNACIONAL

II. O LIVRE COMÉRCIO

327. Continua a valer o ensinamento de Leão XIII, na Encíclica

Rerum Novarum: em condições demasiado diferentes, o consenti-

mento das partes não basta para garantir a justiça do contrato, e a regra do livre consentimento permanece subordinada às exigências do direito natural a regra. O que era verdade acerca do justo salário individual, também o é acerca dos contratos internacionais: uma economia de intercâmbio já não pode apoiar-se sobre a lei única da livre concorrência, que freqüentes vezes leva à ditadura econômica. A liberdade das transações só é eqüitativa quando sujeita às exigências da justiça social.

(Populorum Progressio, n. 59)

328. Deve ser instaurada uma maior justiça no que se refere à repartição dos bens, tanto no interior das comunidades nacionais, como no plano internacional. Nas transações mundiais é necessário superar as relações de forças, para se chegar a pactos favoráveis, em vista do bem de todos. As relações de força jamais estabeleceram de fato a justiça de maneira duradoura e verdadeira, se bem que, muitas vezes, o alternar-se das posições permite encontrar condições mais fáceis de diálogo. O uso da força, de resto, suscita da outra parte a prática das forças adversas, donde um clima de lutas que dá azo a situações extremas de violência e a abusos.

Mas, conforme já o temos afirmado muitas vezes, o dever mais importante da justiça é o de permitir a cada país promover o seu próprio desenvolvimento, no sistema de uma cooperação isenta de todo domínio, econômico e político. Certamente que a complexidade dos problemas levantados é grande no emaranhado atual das interdependências. Impõe-se também ter a coragem necessária para empreender uma revisão das relações entre as nações, quer se trate da repartição internacional da produção, de estrutura das permutas,

de verificação dos lucros, de sistema monetário—sem esquecer as ações de solidariedade humanitária—de pôr em questão os modelos de crescimento das nações ricas, para transformar as mentalidades abrindo-as no sentido da prioridade do dever internacional e para renovar os organismos internacionais, em vista de uma maior eficácia. (Octogesima Adveniens, n. 43)

329. Mas não se podem usar nisto dois pesos e duas medidas. O que vale para a economia nacional, o que se admite entre países desenvolvidos, vale também para as relações comerciais entre países ricos e países pobres. Sem o abolir, é preciso ao contrário manter o mercado de concorrência dentro dos limites que o tornam justo e moral e, portanto, humano. No comércio entre economias desenvol- vidas e subdesenvolvidas, as situações são demasiado discordantes e as liberdades reais demasiado desproporcionadas. A justiça social exige do comércio internacional, para ser humano e moral, que restabeleça entre as duas partes pelo menos certa igualdade de possibilidades. É um objetivo a atingir a longo prazo. Mas para o alcançar é preciso, desde já, criar uma igualdade real nas discussões e negociações. Também neste campo se sente a utilidade de con- venções internacionais num âmbito suficientemente vasto: estabeleceriam normas gerais, capazes de regular certos preços, garantir determinadas produções e sustentar certas indústrias nascentes. Quem duvida de que tal esforço comum, no sentido de maior justiça nas relações comerciais entre os povos, traria aos países em vias de desenvolvimento um auxílio positivo, cujos efeitos seriam não só imediatos, mas também duradouros?

III. P

AZ EGUERRA

330. A paz não é a mera ausência de guerra, nem se reduz ao simples equilíbrio de forças entre os adversários, nem é resultado de opressão violenta : antes é, adequada e propriamente, definida «obra da justiça» (Is 32, 7). É fruto da ordem pelo seu Fundador divino inseriu na sociedade humana. Deve ser realizada, em perfeição progressiva, pelos homens que têm sede da justiça. Pois, embora o bem comum do gênero humano seja moderado em seus princípios fundamentais pela lei eterna, em suas exigências concretas fica sujeito a contínuas mudanças, no decorrer dos tempos: a paz nunca é conquistada de uma vez para sempre; deve ser continuamente construída. Além disso, por ser a vontade humana fraca e ferida pelo pecado, a realização da paz exige de cada um constante domínio das paixões e vigilância eterna da autoridade legítima.

Mas não é só isso. Aqui na terra não é possível obter a paz de que falamos sem que se garanta o bem-estar das pessoas , sem que os homens comuniquem entre si espontaneamente as riquezas do coração e da inteligência. Para a construção da paz são de todo indis- pensáveis a vontade séria de respeitar os outros homens e povos e sua dignidade, bem como o exercício diligente da fraternidade, Destarte a paz se apresenta também como fruto do amor, que avança além dos limites daquilo que a justiça é capaz de proporcionar.

A paz terrestre, porém, que surge do amor ao próximo, é a imagem e efeito da paz de Cristo que promana de Deus Pai. Pois o próprio Filho encarnado, príncipe da paz, por sua cruz reconciliou todos os homens com Deus. Restabelecendo a união de todos em um só Povo e um só Corpo, em sua própria carne aniquilou o ódio e, depois do triunfo da ressurreição, derramou o Espírito da caridade nos corações dos homens.

Por isto todos os cristãos são instantemente convidados para que, «praticando a justiça na caridade» (Ef 4, 15), se associem a todos os

homens sinceramente pacíficos, para implorar e estabelecer a paz. Impelidos por este espírito, só podemos calorosamente aplaudir aqueles que para reivindicar os seus direitos, renunciam ao emprego da violência e recorrem aos meios de defesa, que aliás estão ao alcance também dos mais fracos, contando que isso seja viável sem lesar direitos e obrigações de outros ou da comunidade.

(Gaudium et Spes, n. 78)

331. O respeito e o desenvolvimento da vida humana exigem a paz. A paz não é somente ausência de guerra, e não se limita a garantir o equilíbrio das forças adversas. A paz não pode ser obtida na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas, sem a livre comunicação entre os seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos, a prática assídua da fraternidade. É a «tranqüilidade da ordem» (Sto. Agostinho, De civitate Dei, IX, 13, 1); fruto da justiça e efeito da caridade.

(Catecismo da Igreja Católica, n. 2304)

332. As injustiças, as desigualdades excessivas de ordem econômica ou social, a inveja, a desconfiança e o orgulho que grassam entre os homens, ameaçam sem cessar a paz e causam as guerras. Tudo o que for feito para vencer essas desordens contribui para edificar a paz e evitar a guerra: «Pecadores que são, os homens vivem em perigo de guerra e este perigo os ameaçará até a vinda de Cristo. Mas na medida em que, unidos na caridade, superem o pecado, superarão igualmente as violências até que se cumpra a palavra: «De suas espadas eles forjarão relhas de arado, e de suas lanças, foices. Uma nação não levantará a espada contra a outra, e já não se adestrarão para a guerra»» (Is 2, 4; GS, n. 78).

333. É preciso respeitar e tratar com humanidade os não com- batentes, os soldados feridos e os prisioneiros.

Os atos deliberadamente contrárias ao direito dos povos e as seus princípios universais, como as ordens que os determinam, constituem crimes. Uma obediência cega não é suficiente escusar os que se lhe submetem. Portanto o extermínio de um povo, de uma nação ou de uma minoria étnica deve ser condenado como pecado mortal. Deve-se moralmente resistir às ordens que impõem um genocídio.

(Catecismo da Igreja Católica, n. 2313)

IV. A

RMAMENTOS

334. Nos é igualmente doloroso constatar como em estados economicamente mais desenvolvidos se fabricaram e ainda se fabricam gigantescos armamentos. Gastam-se nisso somas enormes de recursos materiais e energias espirituais. Impõem-se sacrifícios nada leves aos cidadãos dos respectivos países, enquanto outras nações carecem da ajuda indispensável para o próprio desenvolvi- mento econômico e social.

(Pacem in Terris, n. 109)

335. «Tive fome e não me destes de comer (...) estava nu e não me vestistes (...) estava na prisão e não fostes visitar-me» (Mt 25, 42–43). Estas palavras adquirem um maior cunho de admoestação ainda, se pensamos que, em vez do pão e da ajuda cultural a novos estados e nações que estão a despertar para a vida independente, algumas vezes, se lhes oferecem, não raro com abundância, armas modernas e meios de destruição, postos ao serviço de conflitos armados e de guerras, que não são tanto uma exigência da defesa dos seus justos direitos e da sua soberania, quanto sobretudo uma forma de

«chauvinismo», de imperialismo e de neocolonialismo de vários gêneros. (Redemptor Hominis, n. 16)

336. O ensinamento da Igreja católica é portanto claro e coerente. Deplora a corrida aos armamentos, pede pelo menos uma progressiva redução mútua e verdadeira assim como as maiores precauções contra os possíveis erros no uso das armas nucleares. Ao mesmo tempo, a Igreja reclama para cada nação o respeito da independência, da liberdade e da legitima segurança.

(Mensagem à II Sessão Especial das Nações Unidas para o Desar-

mamento, n. 5)

337. Uma corrida louca aos armamentos absorve os recursos necessários para um equilibrado progresso das economias internas e para auxílio às Nações mais desfavorecidas. O progresso científico e tecnológico, que deveria contribuir para o bem estar do homem, acaba transformado num instrumento de guerra: ciência e técnica são usadas para produzir armas cada vez mais aperfeiçoadas e destrutivas (…). (Centesimus Annus, n. 18)