No segundo capítulo, o exercício do poder foi definido como uma tentativa de governar a conduta alheia, com o propósito de direcionar as ações dos sujeitos, aumentando a possibilidade de umas em detrimento de outras. Neste capítulo, meu objetivo foi examinar a configuração do livro didático sob o ângulo da noção foucaultiana do poder. Argumentei que o livro didático apresenta uma estrutura que predetermina fortemente os objetos de ensino e os distribui na linha do tempo. Ele estabelece também a linha metodológica, ao definir os procedimentos didáticos através dos quais os conteúdos devem ser trabalhados em sala de aula. O livro didático pode ser visto, dessa forma, como um importante instrumento de poder que é capaz de direcionar de forma duradoura o fazer pedagógico do professor em sala de aula. Nas palavras de Neuner (2003, p. 400), o dispositivo constitui “o instrumento central de controle do ensino e, como tal, influencia continuamente a conduta de professores e aprendizes”54.
Ora, seguindo as orientações de Foucault sobre a análise das relações de poder (cf. seção 2.3), é importante investigar os motivos que impulsionam o governo do trabalho docente, no ensino de alemão, já que, como formula o filósofo, “não há poder que se exerça sem uma série de miras e objetivos” (FOUCAULT, 1976a, p. 105). Alguns desses motivos já foram identificados, no decorrer dos últimos dois capítulos.
Assim, em primeiro lugar, vimos que o emprego de um livro didático importado serve para introduzir e estabelecer, no Brasil, uma abordagem comunicativa de ensino, a qual tende a ser considerada mais eficaz que a tradição
54 No original alemão: “Das Lehrwerk ist [...] das zentrale Instrument der Unterrichtssteuerung, das nachhaltig das Verhalten von Lehrenden und Lernenden beeinflusst.”
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local de ensino e que, por isso, costuma ser favorecida pelos órgãos alemães que dão fomento ao ensino da língua neste país.
Além disso, foi discutido também que a adoção de um livro didático, dentro de uma determinada instituição escolar, facilita a padronização do ensino e exime a instituição da tarefa de ter que elaborar um planejamento curricular próprio.
Um outro aspecto a considerar é que a produção de materiais para o ensino de DaF representa um mercado lucrativo para editoras alemãs que atuam no ramo. Nesse cenário, como explica Neuner (1998, p. 173), é muito importante para uma editora dispor, em sua paleta de produtos, de um livro didático de orientação global para o ensino em nível básico, uma vez que esse tipo de material serve como uma espécie de “âncora” para outros produtos, tais como materiais suplementares, paradidáticos e livros didáticos para o nível intermediário, que podem ser vinculados ao material de base (cf. NEUNER, 1998, p. 173). Há, portanto, também forças mercadológicas que atuam no sentido de direcionar o fazer pedagógico e vincular a ação do professor a um determinado livro didático.
Finalmente, o olhar sobre a história dos métodos de ensino evidenciou que o governo do trabalho docente via livro didático também pode ser motivado por determinadas concepções teóricas, que dão fundamento a uma metodologia. Assim, no audiolingualismo, pautado no paradigma behaviorista, o programa do ensino era legitimado pelas ciências e não devia ser alterado pelo professor. Em consequência, o livro didático, naquela época, apresentava uma configuração muito fechada, estruturando fortemente o campo de ação possível do professor.
No quadro metodológico atual, por outro lado, as razões do governo do fazer pedagógico são muito menos evidentes. A abordagem construtivista, como vimos, nega a eficácia de uma progressão única via livro didático, e concede, em teoria, um considerável poder de decisão ao professor, na construção do(s) percurso(s) de ensino e aprendizagem em sala de aula. Também o Quadro
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Europeu Comum de Referência para as Línguas defende uma conduta mais liberal na estruturação dos processos de ensino e aprendizagem. O atual cenário do ensino de alemão comportaria, portanto, uma relação mais flexível do professor para com os materiais que aplica em sala de aula. No entanto, o livro didático convencional continua a conduzir o professor em suas ações de ensino.
91 5. Discursos sobre o livro didático
“O discurso pode ser, ao mesmo tempo, instrumento e efeito de poder, e também obstáculo, escora, ponto de resistência e ponto de partida para uma estratégia oposta.”
Foucault (1976a, p. 111-112)
Neste capítulo, pretendo analisar alguns discursos que circulam na área de DaF a respeito da configuração do livro didático convencional e sua influência sobre o fazer pedagógico do professor. Parto, com Foucault, do pressuposto de que o discurso representa um elemento estratégico em uma relação de poder e que ele pode servir para fortalecer ou contestar uma determinada constelação de forças.
Assim, na primeira parte deste capítulo, procuro identificar os discursos que legitimam a presença do livro didático convencional, na área de alemão como língua estrangeira. Na sequência, farei uma análise dos discursos que apontam para um movimento em busca de uma superação da relação estabelecida entre o professor e o livro didático e que, portanto, podem ser considerados como discursos de resistência na atual conjuntura da área.
Examinarei também duas metáforas – do cozinheiro e da pedreira – que aparecem na literatura especializada sobre DaF e que sintetizam, a meu ver, os discursos que dão sustento e que questionam a atual dinâmica de forças entre o professor e o livro didático.
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Finalmente, na última parte deste capítulo, analisarei algumas metáforas que professores de alemão formularam sobre o tema, durante um curso de atualização por mim organizado, e que revelam como os próprios professores enxergam sua relação com o livro didático.