Compreender o município como parte de um todo complexo de relações econômicas, políticas, administrativas e sociais é fundamental para podermos inferir a importância que a municipalização da educação tem num país como o nosso.
Aparentemente, existe uma contradição entre os poderes locais e o poder nacional. O poder central, se exercido, implicaria numa centralização e numa falta de autonomia das localidades.
É preciso ponderar sobre vários aspectos. Para muitos, o fortalecimento dos municípios, ou das esferas locais, pode significar o aumento de sua autonomia e a constituição de bases para desenvolver práticas pedagógicas que favoreçam a igualdade e o exercício da cidadania. Isso implicaria, portanto, em maior democratização e participação popular. No entanto, temos que considerar outra hipótese: no século XXI, o local pode ser a livre expressão do fortalecimento das individualidades, da fragmentação, em oposição ao coletivo e aos aspectos sociais e políticos da nação.
O pesquisador Juan Casassus aponta que poderia ocorrer, nos dias atuais, um consenso em relação à descentralização da educação. Pois,
O conceito de descentralização aparece hoje comumente associado ao de democratização. Assim, um Estado será tanto mais democrático quanto mais descentralizado. Na medida em que o pensamento sobre a descentralização traz implícita uma idéia democrática de autonomia dos atores sociais, compreende-se porque todas as correntes de pensamento que aspiram uma democracia na região chegam rapidamente a um acordo sobre suas benesses. (CASASSUS, 1990, p. 12).
Porém, continua o autor,
É também notável que, frente às limitações reais que o Estado apresenta na situação atual, se tenha optado por políticas cuja justificativa aponta no sentido da descentralização, ao invés da opção por soluções que levem a reforçar o Estado nacional e central, como seria de se esperar dos responsáveis de um tal sistema. (CASASSUS, 1990, p. 14).
Casassus segue sua linha de raciocínio e argumenta que as questões relacionadas à crise do Estado moderno e à debilidade das sociedades, especialmente as latino-americanas, forjam os argumentos de que esta é a única saída plausível. No entanto, mesmo quando esse argumento parece ser válido ao nível lógico, na prática,
O grau de atomização, de informalidade e de desarticulação que apresentam algumas sociedades coloca em dúvida a exeqüibilidade da implementação de uma estratégia de fortalecimento ligada à descentralização: corre-se o risco, face às deficiências de gestão que se manifestam, de as escolas com menos recursos ficarem abandonadas. (CASASSUS, 1990, p. 16).
Essas posições favoráveis à descentralização criam, supostamente, um consenso em relação às formas e às políticas públicas adotadas pelos diferentes governos. Mas, segundo o mesmo Casassus, esses consensos são formais, aparentes, e resultariam da variedade de diferentes significados, ações e feitos que são atribuídos ao mesmo termo. Pois, como tem predominado a perspectiva econômica,
O significado e a lógica da descentralização refletem um processo que leva à individualização e à privatização, onde o principal instrumento de descentralização é o mercado. Num contexto de penúria financeira, essa perspectiva é uma tentação não declarada que ronda a maioria dos processos de descentralização educacional. (IDEM).
No momento em que o capitalismo internacional mais precisa fragmentar as ações dos indivíduos e dos grupos sociais para manter sua hegemonia, as intervenções que veem o local como saída estratégica para as ações das comunidades podem ser um perigoso caminho.
Isso porque a ordem atual da ideologia neoliberal é que a fragmentação dos Estados-nacionais se consolide e dê lugar à valorização do local, dos micropoderes. É valorização do indivíduo a partir do individualismo. As grandes totalidades cedem
para a fragmentação do espaço e do tempo e, consequentemente, da ação dos indivíduos.
Ou, como afirma Marilena Chauí,
Categorias gerais como universalidade, necessidade, objetividade, finalidade, contradição, ideologia, verdade são consideradas mitos de uma razão etnocêntrica, repressiva e totalitária. Em seu lugar, colocam-se o espaço-tempo fragmentados, reunificados tecnicamente pelas telecomunicações e informações; a diferença, a alteridade; os micropoderes disciplinadores, a subjetividade narcísica, a contingência, o acaso, a descontinuidade e o privilégio do universo privado e íntimo sobre o universo público; o mercado da moda, do efêmero e do descartável. Não por acaso, na cultura, o romance é substituído pelo conto, o livro pelo paper, e o filme pelo vídeoclip. O espaço é a sucessão de imagens fragmentadas; o tempo, pura velocidade dispersa. (CHAUI, 1993, págs. 22-23).
Essa questão está diretamente relacionada aos avanços da ideologia neoliberal sobre a forma de fazer política, as representações e concepções acerca da estrutura atual do Estado e o papel que ele desempenha nas políticas públicas, neste caso, em relação à educação.
Desde o começo do século, quando se opera um importante processo de centralização política nos países da região, a oferta educacional deixou de ser uma atividade localizada nos municípios, como herança da tradição dos cabildos (conselhos de representantes das comunidades indígenas na América espanhola) para passar a ser uma função privilegiada do Estado. O desenvolvimento da educação passou a ser uma função monopólica do Estado. Mais ainda: o desenvolvimento da educação articulou-se de tal forma à dinâmica do Estado que, ao longo do século, transformou-se no principal instrumento para a própria constituição do Estado, tanto como Estado-nação quanto Estado-planejador. Na construção do Estado-nação, a contribuição da educação se deu pela expansão da cobertura do sistema educacional, que facilitou a incorporação progressiva da população à cidadania, à nova institucionalidade, ou seja, à aquisição dos códigos culturais básicos que formam as normas e identidades nacionais. Na estruturação do Estado- planejador, a contribuição consistiu na formação e distribuição das habilidades básicas necessárias ao processo de industrialização. Pode-se, então, perceber que a evolução do desenvolvimento da educação está intimamente ligada à evolução do Estado. Por isso, a crítica da primeira está estreitamente associada à crítica do Estado em sua forma atual. (CASASSUS, 1989, p.15).
Desse modo, entendemos que é preciso uma atenção especial ao utilizarmos as questões vinculadas ao poder local, ou localismos, para estabelecer um elo com a participação popular ou a democracia.
A participação popular das comunidades nas lutas e nos enfrentamentos para a conquista de suas reivindicações é parte imprescindível, no geral, da história política do país e, no particular, para as conquistas em relação à educação para a população pobre. Porém, as lutas e a organização das comunidades em seus locais de moradia, de trabalho ou de estudo não estão em oposição ao central ou ao nacional.
Não há apenas lutas locais. As lutas, os problemas e as necessidades locais são produto das diretrizes nacionais.
O que a ideologia do capitalismo monopolista apregoa é justamente que, em nome do local, esqueçamos as diretrizes gerais, abrindo filosófica e ideologicamente mão das categorias universais em detrimento da atomização das relações e da fragmentação das ações coletivas.
Para todas as áreas vitais de atendimento à população, seria necessário pensarmos a totalidade ao invés das particularidades. Desse modo, ao pensarmos a educação para um país, devemos fazê-lo na totalidade desse processo, da educação infantil – desde a creche – até a educação superior e os cursos de pós- graduação. Pensar a educação municipal, ou as séries iniciais do ensino básico, dissociada do restante da educação nacional é um erro que tem levado não só à fragmentação da educação pública, mas ao esfacelamento da concepção de um sistema educacional que deveríamos ter para o desenvolvimento do país.