• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 1 – HISTORIOGRAFIA E O MUNICÍPIO

1. O LOCAL EM FACE DA MICRO-HISTÓRIA: PREÂMBULO

Debruçando os olhos sobre uma fotografia de 21 de setembro de 1986, na qual registrou o “Desfile da Primavera” na então vila de Varzedo, eles captam imediatamente que sete crianças estão fantasiadas como Branca de Neve e os Sete Anões, apesar de que um desses “Sete” está escondido atrás da Branca de Neve que praticamente é o foco. Com mais curiosidade, os olhos observam que atrás daquele grupo alguém, podendo ter sido uma aluna ou um aluno, carrega um cartaz com a frase fácil de ser lida “Vamos

colorir a Primavera”, que tem nos seus ângulos flores de papéis coloridos. Atrás do (a) aluno (a), vê-se que há uma aluna num vestido branco de listras azuis – o que poderia ser o contrário também – e usando um chapéu que carrega uma grande flor vermelha. Quando os olhos saem desses detalhes maiores, logo eles partem para o “pano-de- fundo” do retrato, a começar pelas casas ligadas umas às outras pela parede-meia num perímetro que vai até onde termina a rua, logo substituída por imensas árvores. Nessa parte do logradouro, veem-se residências com uma janela e uma porta, com duas janelas ladeadas, uma porta, todas arqueadas e pintadas de azul, e a fachada da casa pintada de laranja-escuro. Ao lado de uma casa verde, veem-se duas outras que de tão similares e juntas parecem ser uma, com duas janelas emparelhadas e as portas, sendo que na primeira tem alguém com a cabeça do lado de fora. Após elas, um imóvel maior surge com quatro aberturas defronte a um poste condutor de energia elétrica, a frente de outros dois fincados à calçada, onde o derradeiro poste fica defronte a última casa registrada na foto contendo uma janela, uma porta e mais três janelas a seguir, vindo o poste elétrico 121.

A introdução textual deste capítulo a partir da descrição de uma fotografia de 1986 é, na verdade, com o intuito de demonstrar como num âmbito “macro” se consegue observar o âmbito “micro” ao lançar o olhar microscópico. Esclarecendo melhor esta

121

Essa descrição preliminar corresponde a uma fotografia que registrou do “Desfile da Primavera” o momento da passagem dos alunos da 4ª série do primeiro grau, os quais estavam fantasiados de Branca de Neve e os Sete Anões, que estudavam no Prédio Rural de Varzedo, anexo da Rua de Cima, lecionado por Helenita Sampaio Bitencourt, professora Mita. Apesar de não estar exposta aqui, a dissecação feita no primeiro parágrafo deste capítulo obedece aos detalhes do clichê. Agradecimentos à professora Cláudia Sampaio Souza pelo empréstimo do material em dezembro de 2008.

argumentação usando a metáfora da fotografia, quando o estudioso da micro-análise centra sua investigação sobre um peremptório tema, ele se preocupará em tentar responder seus questionamentos percorrendo o plano “macro” de forma minuciosa para ver o quanto ele influi na estruturação do plano “micro”, muitas vezes incólume aos desvios dos olhares macroscópicos. Da mesma forma, a questão que propõe ser levantada aqui é a seguinte: será que tanto a história local quanto a micro-história podem tentar solucionar juntas às interrogações que não são respondidas por umas linhas historiográficas? A própria pergunta já vem auferida da resolução, pois sabemos que é inadmissível desdenhar as variadas ramificações da historiografia por todas elas observarem aos seres humanos nas suas pluralidades com base em óticas diferentes.

A ciência histórica é o fio de Ariadne que conduz o investigador a encontrar a saída nas intricadas documentações com que ele se depara a cada temática palmilhada, seja esta de quaisquer naturezas. A decisão em estudar o processo de emancipação político- administrativa da vila de Varzedo entre 1985 e 1989 é a de buscar encontrar aquela “saída” nos labirínticos registros documentais da época que remontam o local e sua sociedade. Sabe-se, mormente, que aquele lugar de poucas ruas pavimentadas, com as suas casas coladas pelas paredes-meia que guarneciam agentes históricos absolutamente heterogêneos e, em alguns momentos, paralelos, que era a vila de Varzedo, estava incrustado num torrão potencialmente maior, onde mais agentes históricos habitavam lugares maiores e menores, singulares e plurais, uns poucos mais ricos e uns muitos mais pobres, que era o Recôncavo sul, assim definido por ser uma microrregião inclusa no Recôncavo baiano, torrão maior, e que era responsável por uma agricultura de subsistência diversificada, como as culturas de laranja, de mandioca, de cacau, de fumo e a criação bovina 122. As definições, porém, sobre região vêm sendo elaboradas por estudiosos das ciências humanas há longas datas, mais precisamente a partir da segunda metade do século XX.

O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, autor dos clássicos da antropologia cultural Casa-grande & Senzala, de 1933, e Sobrados e Mocambos, de 1936, foi um dos primeiros estudiosos a levarem para o debate conceitos envolvendo a região naquela primeira obra, porém buscou aprofundar a definição regionalista sobre um viés

122

Para saber sobre as sub-regiões do Recôncavo baiano, como o Recôncavo açucareiro (sub-região central), o Recôncavo fumageiro (sub-região norte) e o Recôncavo da agricultura de subsistência (sub- região sul), ver OLIVEIRA, Ana Maria Carvalho dos Santos. Recôncavo sul: terra, homens, economia e poder no século XIX. (Dissertação de mestrado em História/ UFBA). Salvador-Bahia. 2000.

culturalmente superior em seu estudo Manifesto Regionalista, publicada em 1967, que tratou de ser “[...] expresso numa substância talvez mais histórica que geográfica e certamente mais social do que política. [...]” 123. A concepção freyreana 124 destrinçada nesse trabalho defende a idéia de que o regional precisa diferenciar-se do que é pertencente ao Estado, de modo que deve haver “[...] o sentido de regionalidade acima do de pernambucanidade – [...] – do de paraibanidade – [...] – ou do de alagoanidade – [...] – de cada um [...]” 125 que habita o imenso mosaico denominado região Nordeste. Nesse período, o desenvolvimento dos estudos analíticos para definir o que é a região nasceu da intenção antropológica ligada a estrutura cultural que poderia caracterizar não cada Estado nordestino, mas da ligação cultural de todos eles juntos que esclareceriam “[...] o modo regional e não apenas provincial de ser alguém de sua terra [...]” 126, como Freyre ainda declara no seu Manifesto. Ele ainda reforça sua pretensão em torno da valorização regional linhas à frente:

Seu fim não é desenvolver a mística de que, no Brasil, só o Nordeste tenha valor, só os sequilhos feitos por mãos pernambucanas ou paraibanas de sinhás sejam gostosos, só as rendas e rêdes feitas por cearense ou alagoano tenham graça, só os problemas da região da cana ou da área das sêcas ou da do algodão apresentem importância. Os animadores desta nova espécie de regionalismo desejam ver se desenvolverem no País outros regionalismos que se juntem ao do Nordeste, dando ao movimento o sentido orgânicamente brasileiro e, até, americano, quando não mais amplo, que êle deve ter. 127

Aquela “nova espécie de regionalismo” defendida pelo sociólogo pernambucano objetivava sobrepujar as limitações territoriais dos Estados criadas pelas leis governamentais para que forjasse uma horizontalidade entre as regiões brasileiras, o que, consequentemente, evitaria que umas sobrevalorizassem mais que outras com base numa mobilização espiralada que identificaria o Brasil a partir daquele momento. Tanto que Freyre argumenta a possibilidade daquela mobilização alcançar um patamar

123

Cf. FREYRE, Gilberto. Manifesto Regionalista. 4ª edição. Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais – MEC. Recife. 1967. P. 28.

124

Derivado de Gilberto Freyre ou o que diz respeito a sua teoria antropológico-cultural.

125

Idem. Idem.

126 Ibidem. Ibidem. 127

“orgânicamente brasileiro e, até, americano”, ciente nas suas palavras de que o “seu” regionalismo seria um equilíbrio entre as diversas regiões brasileiras – Norte, Nordeste, Centro-oeste, Sul e Sudeste – podendo servir de exemplo a uma organização regional entre os países americanos e, até mesmo, entre os países do mundo. A gradação grafada pela tese freyreana no trecho citado é iniciada de forma decrescente – “Brasil”,

“Nordeste” – para, inversamente, tomar uma direção crescente, gradual – “Nordeste”,

“brasileiro”, “americano” – seguindo a idéia antecipada de que o “macro” (forma decrescente) não consegue viver sem o “micro” (forma crescente) e vice-versa.

Essa linha de raciocínio protetora do regionalismo chega, em certos momentos, a um patamar de ufanismo que o sociólogo destrata o sistema republicano como o causador da segregação entre as regiões após arraigar o “estadualismo” 128, o qual segregou os Estados mais ricos dos mais pobres que certamente Freyre estava se referindo a “política do café-com-leite”, sistema pragmático governamental centralizador que revezou o poder da presidência da república do Brasil no eixo São Paulo- Minas Gerais – o primeiro Estado produtor de café e o segundo criador de gado – entre 1894 e 1930. Talvez aquele “brado sublevador” que foi o Manifesto de Freyre tenha sido a reclamação de um representante da elite nordestina decadente, econômica e politicamente, ou mesmo uma provocação do mesmo ao observar a “vitimização” 129 do Nordeste ao dizer que esse estava “[...] perdendo a tradição de criador ou recriador de valores para tornar-se uma população quase parasitária ou uma terra apenas de relíquias: o paraíso brasileiro de antiquários e de arqueólogos. [...]” 130.

Salta aos olhos, na verdade, que a “briga” pela valorização da região como representação legitimamente identitária de um país, na visão freyreana, era contra o modernismo, oriundo do Sudeste do Brasil, precisamente de São Paulo, através de escritores como Mário de Andrade, que na Semana de Arte Moderna de 1922 criou um impacto cultural na literatura, na pintura, na escultura e na música. Para Freyre, o Modernismo era a própria personificação cataclísmica de inovação da cultura brasileira ao substituir “[...] os mais saborosamente regionais nomes de ruas e de lugares velhos

128

Ibid. p. 30.

129

O mesmo que se colocar na posição de vítima ou auto considerar-se “esquecido” pelos poderes públicos. Sobre como o Nordeste adquiriu esse caráter a partir de estereótipos criados por seus “revolucionários” e “reacionários”, ver ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 2ª edição. Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, Recife. Cortez, São Paulo. 2001, o qual aqui neste capítulo também é trabalhado.

130

[...] para nomes novos: quase sempre nomes inexpressivos de poderosos do dia. [...]”

131, o que seria uma forma de exclusão daquilo que realmente representava o Brasil que

eram as regiões, cada qual com suas características territorialmente idiossincráticas sem alguma delas ser ou pretender ser superiora a outra, não obstante o conceito freyreano voltar-se mais para a questão cultural tanto ao acalentar o Regionalismo como ao exorcizar o Modernismo.

Permanecendo por um bom tempo a dialética entre as regiões, no final dos anos 70 começa a entrar em vigor uma versão marxista para definir região representada por Francisco de Oliveira em sua obra Elegia para uma re(li)gião, que no próprio título torna dúbia a análise sobre o território regional – no caso, o Nordeste – dominado pelo capitalismo que delimita o espaço. Primeiramente, o ambiente que o Brasil estava envolvido na época, o período ditatorial, influenciava a publicação de trabalhos acadêmicos escritos por descontentados ao statu quo estabelecido em 1964, o que não foi diferente na pena do sociólogo Francisco de Oliveira. Assim como Gilberto Freyre, ele preocupou-se em conceituar região a partir da visão sobre o Nordeste, mas diferenciando-se na direção tomada que adentrou pela percepção dialeticamente marxista, quando ele diz ser aquela região o “[...] o velho Nordeste dos “coronéis” e da burguesia açucareira, convocando as forças da burguesia internacional-associada e do imperialismo para liquidar as classes populares que lhes roubavam a hegemonia política, [...]” 132. Ao precisar seu conceito de região, Francisco de Oliveira aprofunda mais a sua visão dialético-marxista:

Não se desconhece as dificuldades para precisar o conceito de região; a região pode ser pensada praticamente sob qualquer ângulo das diferenciações econômicas, sociais, políticas, culturais, antropológicas, geográficas, históricas. A mais enraizada das tradições conceituais de região é, sem nenhuma dúvida, a geográfica no sentido amplo, que surge de uma síntese inclusive da formação sócio-econômica-histórica baseada num certo espaço característico. 133

E completa este trecho:

131

Idem. P. 41.

132

Cf. OLIVEIRA, Francisco de. Elegia para uma re(li)gião. 3ª edição. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 1981. P. 15.

133

[...] privilegia-se aqui um conceito de região que se fundamente na especificidade da reprodução do capital, nas formas que o processo de acumulação assume, na estrutura de classes peculiar a essas formas e, portanto, também nas formas da luta de classes e do conflito social em escala mais geral [...]: a face interna do imperialismo é essa incoercível tendência à homogeneização do espaço econômico, enquanto sua face externa na maioria das vezes não apenas aproveita das diferenças regionais reais, como as cria para seu próprio proveito. 134

A alusão enfocada aqui é percebida imediatamente pela luta de forças economicamente contrárias, mas ele inicia dizendo que a região pode ser analisada “sob

qualquer ângulo das diferenciações, econômicas, sociais, políticas, culturais, antropológicas, geográficas, históricas”, findando com a concepção de que a idéia de região corresponde “na especificidade da reprodução do capital”. Ou seja, mesmo aludindo à região como um bojo polarizador de caracteres diferenciados que a identificam e a singularizam, ela é traduzida como caulícola do sistema capitalista, detentor da sapiência em conseguir enraizar-se desde grandes metrópoles, passando por capitais de médio porte até chegar aos distantes rincões. Na versão de Francisco de Oliveira, a capacíssima maneira que o capitalismo tem de se conservar é justamente pela perpetuação que o torna, concomitantemente, homogêneo e disseminado na região, na qual essa “[...] seria, em suma, o espaço onde se imbricam dialeticamente uma forma especial de reprodução do capital, e por consequência uma forma especial da luta de classes, onde o econômico e o político se fusionam e assumem uma forma especial de aparecer no produto social [...]” 135.

Ele aqui abandona a definição de a região ser analisada sob vários enfoques para ser definitivamente batizada como local onde as classes antagônicas se enfrentam sobre a imbricação entre “o econômico e o político”, que é refletida numa determinada sociedade gerida pelo capital que a faz ocupar uma posição de subserviência. Ao externar essa argumentação, aqui reinterpretada para seu entendimento, o sociólogo da USP delineia o Nordeste como aquela região dos “coronéis” – “político” – e da burguesia açucareira – “econômico” – ligados ao capital internacional para manterem-

134 Ibidem. Idem. 135

se na conservação dos seus ganhos financeiros e sociais, unidos para barrarem quaisquer avanços das classes inferiores ou populares. O fato de endossar esse prisma é marcante no autor a ponto de ele descrever a formação das “regiões” sob o enfoque capitalista:

[...] O que preside o processo de constituição das “regiões” é o modo de produção capitalista, e dentro dele, as “regiões” são apenas espaços sócio-econômicos onde uma das formas do capital se sobrepõe às demais, homogeneizando a “região” exatamente pela sua predominância e pela consequente constituição de classes sociais cuja hierarquia e poder são determinados pelo lugar e forma em que são personas do capital e de sua contradição básica. [...]. 136

Recapitulando a versão marxista de divisão da exploração das classes dominantes sobre as classes dominadas aludindo ao “modo de produção capitalista”, Francisco de Oliveira consegue apontar que o capital é o suscitador das “regiões” quando essas estão sob a égide de uma região detentora de maior centralização econômica, aglutinando à sua dependência todas as outras que ficam à sua orla principalmente por a região polarizadora ocupar essa posição motivada pelos grupos economicamente fortes que instituem escalonamentos definidores entre os que detêm capital financeiro e respaldo político e os que nada detêm. Em termos gerais, a “região” é formada pela presença da classe dominante que exerce a reprodução da desigualdade sócio-econômica num determinado território, impedindo a inserção de formas produtoras externas aos seus domínios de modo a ocorrer o que o autor chama no seu texto de “‘fechamento’ de uma

região pelas classes dominantes” 137, sendo essas tanto econômicas como políticas. Como o torrão elegíaco aqui é o Nordeste, o sociólogo conceitua-o como circunscrição territorial ainda indefinida:

[...] No caso sob exame, do Nordeste do Brasil, dificilmente se conseguirá evitar o ter que enquadrar a “região” econômica e política nos limites das divisões territoriais-político-administrativas dos Estados que compõem o Nordeste brasileiro. Entretanto, vale a pena também argumentar a favor desse enquadramento, não apenas pelo caráter inacabado e tentativo da proposta de “região” que aqui se contém, mas

136 Ib. p. 30. 137

sobretudo porque os limites territoriais-administrativos dos Estados que compõem o Nordeste brasileiro estão carregados da própria história da formação econômico-política nacional e de suas diferenciações; [...]. 138

Para ele, no Nordeste existe a difícil sina de conseguir centralizar entre si os Estados constituintes pela razão de cada um deles possuir disparidades internas no tocante a acontecimentos históricos dentro dos seus limites, malgrado boa parte deles possuir como singularidade variações lingüísticas. É de fato a veracidade dessa assertiva de Francisco de Oliveira ao revermos o período regencial no Brasil oitocentista (1831- 1840) intumescido de revoltas espalhadas em algumas províncias do império, e mais precisamente no Norte da nação 139, onde a Cabanagem (Recife-Pernambuco), a Sabinada (Salvador-Bahia), a Balaiada (Maranhão), a Revolta dos Malês (Salvador- Bahia), a Praieira (Recife-Pernambuco) efervesceram aquele período, ao mesmo tempo em que ele diz-nos que devido essas disparidades históricas a região Nordeste seria desprovida de uma definição autenticamente limitada. Isto quer dizer que o Nordeste é reconhecido não por ser região ampla, mas por ter “regiões” unificadas sob uma denominação que os Estados do Sul e do Sudeste passaram a atribuir à todos os que migravam do Nordeste para aquelas duas regiões por causa da “’região’ da indústria”

140: os “bahianos” 141, por ser a Bahia um Estado de representação encorpada sobre os

outros nordestinos.

Esse enfoque do estudioso Francisco de Oliveira permaneceu pelos anos 1980 como mote na maioria das academias brasileiras que corroboravam o discurso marxista da luta de classes nas regiões do Brasil em detrimento de uma visão regional mais antropológico-cultural. Nos anos 90, contudo, muitos foram os estudos que enviesaram por uma definição de região muito mais interpretativa que abarcasse plurais idéias sobre como o território regional nasce muito além do que de uma maneira espontânea, mas em boa parte das vezes pela intromissão diretamente dos poderes públicos, como foi o caso do Nordeste. Transformando sua tese de doutoramento em História, defendida na

138

Ib. p. 32.

139

No século XIX, o termo “Nordeste” ainda não existia, pois foi criado em 1919 pela Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS), sendo utilizado o termo “Norte” para abranger todas as províncias da Bahia até o Grão-Pará. Para saber mais sobre o Nordeste e sua “invenção”, ver ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Op. cit. p. 68.

140 OLIVEIRA, Francisco de. P. 38. 141

Unicamp 142, em livro, Durval Muniz de Albuquerque Júnior reúne inúmeras obras da antropologia, das artes plásticas, da literatura, da música, dos veículos de comunicação e da história para revisá-las tendo como objetivo detectar os “estereótipos” que forjaram a região hoje definida como Nordeste na obra A invenção do Nordeste e outras artes, trabalho acadêmico que na sua linguagem compreensiva esmiuçou “[...] todo o universo de imagens negativas e positivas, socialmente reconhecidas e consagradas que criaram a própria idéia de Nordeste. [...]” 143, de acordo a introdução de Margareth Rago.

Antes de defender catilinariamente seus estudos definidores do Nordeste, Durval Muniz expõe o seu entendimento sobre região destacando a mobilidade exercida por seus pontos limítrofes que a definem singularmente, sob a ajuda ou não dos Estados, pois ela independe da participação desses para sobreviver. A identificação de uma região é palco para que os conflitos de poder entrem em cena, sejam eles políticos, econômicos, sociais e culturais, muitas das vezes executados num plano microfísico. O trato do historiador com o conceito de região é cauteloso no sentido de explanar a relevância que os Estados têm para ela como territórios que a identificam, mas não coloca o Estado como principal ator que mobiliza a região. O que o autor pretende é expor de instantâneo que uma região é confirmada não somente pelos poderes públicos – lê-se Estados – e sim pelo estreitamento de formas de agir, de pensar e de falar dos habitantes de uma região tratadas pejorativamente como padrões tipicamente