Mapa 5 Brasil: exportação do NFC (suco não concentrado)
2.3 O local, o global e a interdependência dos lugares
O avanço da técnica e da tecnologia fez com que o espaço passasse a ser analisado com outros olhares, devido à grande fluidez presente neste, principalmente, com a ligação do local ao global. O movimento incessante de mercadorias, de informações, de pessoas e de capital, adicionou às análises dos geógrafos o estudo em rede, contudo, esta não é um fenômeno novo, porém, “antes tinha uma rede organizando o espaço, mas não um espaço organizado em rede” (MOREIRA, 2007, p. 58). Nesse sentido, “o circuito espacial
de produção abarca as diferentes etapas do processo produtivo, articulando dialeticamente o lugar e o mundo” (CASTILLO e FREDERICO, 2010, p. 464), ou seja, incorpora os elementos fixos presentes nos lugares, as redes que os conectam, assim como os fluxos que se estabelecem entre eles.
A linha demarcatória entre as fronteiras territoriais é, aparentemente, diluída com o processo de globalização, dando a sensação de homogeneidade espacial, os costumes, as vestes, a alimentação estão cada dia mais parecidos em todos os lugares, como uma tendência a ser seguida. Fast food, marcas de refrigerante, de tênis, de jeans, dentre outros, que se espalham pelo planeta, principalmente, tendo a internet como aliada no processo de exposições e propaganda.
Desse modo, segundo Moreira (2007, p. 59) “a distância perde seu sentido físico diante do novo conteúdo social do espaço” e a ideia do termo globalização enquanto aldeia global, termo que dá a impressão dos lugares cada vez mais próximos e homogêneos, ganha força. A distância física não é mais empecilho e o local se comunica com o global e na maioria das vezes não tem relação nenhuma com a localidade vizinha, entrando em declínio a teoria de pólos de crescimento de Perroux3 (forma piramidal).
A teoria de Perroux coloca a indústria motriz4 como principal geradora de um pólo de crescimento, a antiga organização matriz e filiais. Contudo, atualmente as empresas se apresentam conectadas através de redes, e com tendência a apresentarem uma divisão do trabalho mais flexível, a exemplo da flexibilização nos contratos de trabalho, e da terceirização. Outro fator é que a hierarquia era concebida de acordo com a área de influência (local, regional, nacional), entretanto, hoje o local pode desenvolver vínculos muito mais consistentes com o global que com o regional (LENCIONI, 2006).
Portanto, ainda para Lencioni (2006, p. 70) “a densidade dos fluxos de comunicação faz com que alguns lugares se tornem próximos a outros mais distantes, enquanto lugares vizinhos podem conhecer poucas relações entre si”, e acrescenta que a rapidez dos transportes e capacidade de fluidez das redes, fazem com que as cidades que estão no meio do caminho entre o ponto de partida e de chegada, tornem-se invisíveis, como se o indivíduo entrasse num túnel e as paisagens passassem despercebidas.
3 Teoria de Perroux - enfatiza o efeito de dominação exercido pela grande empresa capaz de inovação, e a
interdependência setorial como fator de localização das firmas, por consequência, de desenvolvimento regional.
4 Principal geradora de um pólo de crescimento, que tem capacidade de incrementar o desenvolvimento
Em contrapartida, lugares muito distantes podem apresentar estreitas relações, principalmente, em decorrência do desenvolvimento das redes de informação e comunicação, através dos cabos de fibra ótica e são chamados, por Lencioni (2006), de proximidade relativa.
Moreira (2007, p. 60) afirma que “é o lugar que dá o tom da diferenciação do espaço” considerando o lugar a partir de dois grandes autores Santos (1996) e Tuan (1983) o primeiro diz que o lugar é um agregado de relações internas e externas (horizontais e verticais) e o segundo diz que lugar é identidade, sentido de pertencimento. “Esses conceitos não se anulam, podem ser vistos como dois ângulos distintos de olhar sobre o mesmo espaço do homem no tempo do mundo globalizado” (MOREIRA, 2007, p. 60).
Castillo e Frederico (2010, p. 469) afirmam que para ampliar os circuitos espaciais é necessário “uma logística eficiente, envolvendo um número maior de regiões e agentes, e torna necessária a proliferação de normas que facilitem e racionalizem a circulação das mercadorias”.
Neste sentido, com a mundialização, fez-se necessário estabelecer normas em escala mundial. A comercialização feita entre todos os continentes necessitam de regras, e essas são estabelecidas para monitorar e, de certa forma, padronizar a produção em todos os países, por isso são feitos certificações de qualidade de produtos e serviços e a conversão de alguns produtos em commodities, que são de grande importância no mercado internacional.
Se o lugar, enquanto único no espaço é o que dá o tom da diferenciação, e esse mesmo sofre influências externas (globais) e internas (fruto da história e cultura locais), não faz sentido falar no mundo como aldeia global, ou na total homogeneização dos espaços. Portanto, ao mesmo tempo em que a ligação em rede homogeneiza os espaços, a história e a dinâmica endógena de cada lugar resguarda suas características particulares.
“Lugares ou segmentos inteiros podem ser incluídos, ou ao contrário, excluídos, dos arranjos espaciais, a depender de como os interesses se aliem e organizem o acesso do lugar às informações da rede” (MOREIRA, 2007, p. 61). Sendo assim, não ocorre todo o tempo uma disputa entre localidades ou entre regiões, não há região escolhida para ser periférica e a escolhida para ter ascensão, mas o capital, utilizando-se dos mais variados macetes para ampliar sua reprodução, ora torna uma região importante, ora ela se deprime, mas sempre segundo seus interesses e a atratividade da região em determinado momento.
A atração de capital, seja em forma de investimentos estruturais como asfaltos, portos, aeroportos, seja investimentos em forma de diminuição dos impostos, ou a própria isenção, são trazidos para a região para promover a acumulação de capital da empresa, não para promover o desenvolvimento da região (que é o que deveria ser considerado a priori).
Para que uma empresa se instale em determinado lugar deve ser analisado, segundo Amaral Filho (2010), a quantidade máxima de incentivos ofertadas, volume do investimento, quantidade de emprego direto a ser gerado pelo projeto, setores e cadeias produtivas, localização geográfica, impactos interindustriais e intersetoriais gerados pelas compras de insumos e serviços, responsabilidade social da empresa. O incentivo fiscal deve ser analisado, não pode ser determinado na camaradagem ou simplesmente como forma de continuar dando força ao capital. Deve ser estudado e obedecida algumas regras como a concorrência fiscal estabelecida entre as localidades ou estados; a relação entre os custos relativos; e a relação custo-benefício.
O mesmo autor ressalta que se houver cuidado nas análises e cumprimento das regras estabelecidas tanto pela empresa, quanto pela região que irá sediá-la, há possibilidades de uma região deprimida ascender e se igualar a outra região. E acrescenta que “não se trata de penalizar a lógica de mercado e a eficiência que lhe é peculiar, apresentada por certa região polarizadora, mas de promover a sua difusão para outras regiões potencialmente candidatas” (AMARAL FILHO 2010, p.12).
O autor ainda argumenta que no mundo das firmas, quando há um desequilíbrio na correlação de forças entre estas, o Estado é convidado a intervir, procurando evitar a formação de estruturas oligopolistas ou de monopólio, promovendo divisões no controle do capital. No mundo das regiões o Estado intervém, mas com o propósito de redistribuir a força de atração das regiões, o que significa corrigir as desigualdades regionais, e afirma:
De toda maneira, a eficácia da escolha do projeto dependerá em grande parte dos objetivos fixados pelo governo em relação ao que pretende desenvolver para a economia local, pretensão essa que pode variar de uma estratégia que visa a densidade industrial ou simplesmente a expansão da oferta de emprego, ou a combinação das duas. No caso da densidade industrial, o dilema passa a ser o tipo de atividade ou de indústria a ser privilegiado. Neste caso, é comum perguntar o que seria mais razoável: apoiar uma indústria nascente, uma indústria já existente, ou simplesmente uma atividade ou indústria inexistente? (AMARAL FILHO, 2010, p. 23).
Compreende-se, no entanto, que todas as empresas hoje, ainda que instaladas em determinado lugar com o intuito do desenvolvimento regional, está em rede com o mercado mundial, e a rede é o auge do caráter desigual e combinado5, pois, a fluidez
espacial (migração entre territórios “opacos” e “luminosos” tanto de pessoas, mercadorias e capital) junto ao traço marcante do modo capitalista de produção, que é a desigualdade, posto que só o trabalho gera riqueza e é necessário que existam trabalhadores explorados para ampliar as riquezas dos detentores do capital, culmina numa “dimensão espacial que se consubstancia no processo de regionalização, ou seja, de diferenciação de áreas” (BAGGIO, 2008, p. 43).
“Para entrarem em rede, os países lugarizam-se mediante a organização regional, só depois saem em voo livre pela verticalidade” (MOREIRA, 2007, p. 62), ou seja, para abarcar o mercado mundial e lançar-se nas relações exógenas, os países, lugares ou regiões, mantêm-se fortemente ligados às suas singularidades, pois o mercado exige o diferente, novos produtos a serem comercializados, é necessário um mergulho em sua particularidade, para então alçar voos rumo ao global.
E é nessa relação que a cultura é mercantilizada, o diferente no espaço mundial transforma-se em atratividade, como por exemplo, a tranquilidade e o bucólico do campo vendido através dos hotéis fazenda, assim, segundo Baggio (2008, p. 43) “desde o início a lógica espacial do capitalismo objetiva-se territorialmente de forma seletiva e pluralística conferindo diferenciação entre os lugares que participam da globalização”.
As redes se constituem como forças produtivas fundamentais de uma economia cada vez mais mundializada, elas expressam as relações de circulação do capital, que evidencia uma das dimensões do espaço como meio (mediação necessária à reprodução do capital) não como lugar (LENCIONI, 2006). Desse modo, o espaço garante a fluidez, o ritmo frenético das empresas em busca de incentivos fiscais, das pessoas buscando melhores condições de vida, das informações (principal matéria-prima do espaço rede), do capital, das mercadorias.
Segundo Baggio (2008, p. 44) “sob a lógica do capital, os mecanismos de diferenciação de áreas se tornam mais evidentes precipitando a formação de regiões desigualmente desenvolvidas, porém articuladas entre si [...] a diferenciação opera como um componente fundamental à oxigenação da economia de mercado, pois requer diversificação e inovação permanentes”, posto que para o capitalismo não é viável apenas
produzir produtos, mas há também a produção de consumidores, e para continuar a produção a todo vapor, é necessário diversificar, pois a competição e competitividade implica diferenciação e criatividade.
O trabalho intelectual e criativo cria uma série de ativos não materiais ou intangíveis, como invenções técnicas, know-how, marcas, desenhos, criações literárias e artísticas. Discute-se o papel desses ativos, resultantes da inovação, expressão e criatividade, como uma fonte não física de geração de valor. Assim, o capitalismo atual estaria cada vez mais relacionado à capacidade de produzir e controlar estes intangíveis (LIMA, 2006) e acrescenta:
No final do século XX, discutiu-se a importância das “indústrias criativas”, que representariam atividades econômicas que colocam a criatividade como um elemento essencial em seu processo produtivo. As atividades criativas não são, necessariamente, novas, mas adquiriram uma maior importância econômica e social com o surgimento da sociedade do conhecimento. São as indústrias da música, do audiovisual, do design, do software, da moda, da fotografia e de outros segmentos que lidam com conteúdos simbólicos. Esses segmentos se constituiriam em um componente cada vez mais relevante, na economia contemporânea, por contribuírem para o desenvolvimento econômico e, também, como veículos de identidade cultural das nações (LIMA, 2006, p. 2).
De acordo com Harvey (2004), tem-se observado que as empresas que concorrem nos mercados mundiais, geram, de um lado, produtos mundializados, mas necessitam oferecer produtos com singularidade, para enfrentar os concorrentes mundiais. Daí passa- se a observar que os valores simbólicos dos bens articulados com afirmações culturais não são um atributo geralmente universal.
O mercado exige o novo, o criativo, o diferente, para atrair cada vez mais consumidores, e, dialeticamente, o singular, pertencente a determinado lugar, ao ser transformado em mercadoria, seja a paisagem, os costumes, a culinária, entre outros, tornam-se mundializados.
Outro fator observado no modo de produção capitalista é o modo como o individualismo é enaltecido, o profissional criativo recebe muitos prêmios por contribuir para o aumento dos lucros da empresa, reforçando a ideia de esfacelamento do coletivo, além da insegurança no trabalho, caso o trabalhador não esteja apto, ou criativo o suficiente.
E nisso se configura no que Smith (1988) chamou de vaivém do capital, este migra para o local, empresa ou região que ofereça maior lucro, incentivo fiscal, com mão de
obra mais barata, mercado consumidor acessível, e quando determinado lugar atinge o desenvolvimento necessário, e a taxa de lucro começa a cair, aquela área antes desenvolvida entra em decadência, o capital migra de novo e o subdesenvolvida começa a crescer, economicamente falando. Nesse sentido, uma área desenvolvida transforma-se em subdesenvolvida, e noutro momento pode se (re) desenvolver.
Tem-se como exemplo nas grandes cidades a diferenciação dos bairros, o centro há um tempo era local de moradia da população mais abastada, posteriormente, com o aumento populacional, do número de lojas, de fábricas, fez com que a população migrasse para a área suburbana, desvalorizando o centro enquanto morada, mas (re) desenvolvendo enquanto comércio.
Segundo Smith (1988, p. 212), “numa perspectiva mais geográfica, Marx observou que o capital cresce enormemente num lugar, numa única mão, porque foi, em outros lugares, retirado de muitas mãos”. Isso explica também o porquê de haver “superacumulação do capital em um pólo, e superacumulação de trabalho em outro” (SMITH, 1988, p. 213).
Portanto, não há uma região deprimida e outra super valorizada pelo capital de forma constante e fixa, a região que num determinado momento é enaltecida, desenvolvida, com um número maior de empregos, estabilidade econômica, noutro momento passa ao subdesenvolvimento, com um número grande de desemprego, instabilidade, inflação, porque, quando passa a apresentar lucro menor, o capital migra, e leva ao desenvolvimento desigual, porém combinado, por isso, segundo Smith (1988, p. 193) “na medida em que uma solução começa a ter resultado, ela cava sua própria cova”.
A região citricultora do estado de Sergipe vivenciou o vaivém do capital, com períodos de ascensão e crise, todavia, as altas quantias que circulavam e que fora reduzida não tem relação com um “querer” do próprio capital, mas na incansável busca do lucro. Migrar para o estado vizinho ou para o Sudeste, ou para qualquer outra região, tem relação apenas com o lucro. Contudo, mesmo com o incessante movimento do capital, o circuito espacial precisa ser completo, para a expansão capitalista e produção do espaço.
E mesmo diante do atual quadro de crise, a produção de laranja contribui para o aumento do Produto Interno Bruto no estado, assim como, ainda tem muitos trabalhadores nesse ramo, contribuindo para o circuito da commodity, com a exportação, em especial para a Holanda, como também, as exigências no plantio vindas do exterior são sentidas no estado, como o plantio de mudas selecionadas, que tenham frutos com mais líquidos para a produção do suco, bem como, com o controle de pragas.