• Nenhum resultado encontrado

O locus político deste discurso

No documento arnaldoericohuffjunio (páginas 58-62)

Espero que o locus teórico-metodológico desde o qual me posiciono tenha ficado suficientemente claro ao leitor. É tempo, porém, agora de aclarar também nosso locus pessoal (político, religioso, etc.), ainda que ambas as esferas, a teórica e a pessoal, necessariamente se confundam nesse trajeto. Ao bom observador, um intelectual define-se a si mesmo em grande medida por suas opções teóricas, que são também políticas. É bom que se faça, entretanto, ao menos uma tentativa de reconhecimento das condições de produção de nosso próprio discurso histórico também em nível pessoal.163

Acredito que se, de alguma forma, é verdade que é preciso considerar as já mencionadas críticas feitas por Pierucci ao que chama de sociologia ‘religiosa’ (e não da religião), e dos riscos que esta apresenta a um esforço de objetividade científica,164 é também

161

As expressões “modo de ver” e “modo de fazer” foram emprestadas de José D’Assunção BARROS, O campo

da história, especialidades e abordagens, p. 132. 162

Mircea ELIADE, Tratado de história das religiões, p. 30.

163

Sobre a necessidade de uma prática reflexiva, ver p. ex. George MARCUS, After the critique of ethnography..., p. 45-46.

164

Antônio Flávio PIERUCCI, Interesses religiosos dos sociólogos da religião; Idem, Sociologia da Religião: área impuramente acadêmica, p. 237: “(...) para grande parte dos cientistas sociais que estudam religião no Brasil existe uma especial dificuldade de decidir até onde, em seu trabalho intelectual, vai a ciência e até onde vem a religião (...) Dilemas que se exponenciam quando o autor se mete [!] a estudar sua própria religião. O que, aliás, costuma acontecer. (É muita ilusio junto, diria Bourdieu.)”; ver tb. a resposta ao último texto escrita por Marcelo Ayres CAMURÇA, Da boa e da má vontade para com a religião nos cientistas sociais da religião brasileiros, p. 82: “(...) a ‘sociologia da sociologia da religião brasileira dos últimos 25 anos operada por Pierucci, no meu entender, resulta um tanto unilateral, pois centrando seu foco prioritariamente nos ditos ‘interesses religiosos’ dos sociólogos da religião, termina por desconsiderar outras facetas da mesma ordem, como, por exemplo, o inverso disto: possíveis interesses concorrenciais dos sociólogos à esfera institucional religiosa, implicando em uma análise desfavorável da religião sob a capa de um discurso científico e objetivo” [grifo no original]; para tal

verdade, por outro lado, que as abordagens feitas pelos ‘de dentro’ podem trazer a vantagem de ser o resultado de um processo longo de maturação e também de apresentar informações mais compreensivas e bem acuradas.165 Que se mantenha, todavia, o alerta de Pierucci, a fim de evitar substantividades quer religiosas, quer científicas. Sendo assim, mesmo sem concordar com o pressuposto claro de objetividade científica que Pierucci parece sustentar, assumo aqui, à procura primeiramente de honestidade intelectual, a sugestão que faz a partir de Bourdieu: “assumir bem-analisadamente a própria pertença religiosa, caso haja. Objetivá- la, torná-la objeto, submetê-la a um esforço de objetivação reflexiva sem complacência”166 – ainda que tal atitude em busca de uma “objetivação sem complacência” assuma nova e necessariamente uma forma subjetiva.

Essa pesquisa tem, na verdade, muito de minha própria história de vida, talvez mais que em outros casos. Sou um filho deste grupo que me proponho a estudar. Meu pai e minha mãe dedicaram a maior parte de suas vidas a atividades na IELB, ele como pastor, ela como psicóloga e diretora de um projeto social. Por parte dele, temos ascendência alemã (Huff), por parte dela, nacional (Silva). Também minha primeira formação acadêmica foi o bacharelado em teologia, pelo já mencionado Seminário Concórdia, e fui eu mesmo pastor dessa igreja por cerca de seis anos, nas cidades de Candelária (como estagiário de teologia), Cachoeira do Sul (como capelão e professor na ULBRA) e Porto Alegre (como capelão e educador no projeto social SEMEAR), sempre no Rio Grande do Sul; desligando-me dessa atividade, por meio de uma licença de estudos, justamente para escrever a tese que ora apresento.

Durante o período de formação em teologia e de atividades pastorais, estive regularmente interessado nas relações entre igreja e sociedade. Foi assim que, no mestrado, essa preocupação me levou a estudar os temas do culto e da liturgia, tendo apresentado ao Instituto Ecumênico de Pós-Graduação da Escola Superior de Teologia, vinculada esta à IECLB, em 1996, uma dissertação que discutia as relações entre culto e vida/cultura, a partir de um recorte feito através dos temas experiência religiosa e espiritualidade.

percepção desfavorável, ver tb. Antônio Flávio PIERUCCI, “Bye bye, Brasil” – o declínio das religiões tradicionais no Censo 2000; e Antônio Flávio PIERUCCI e Reginaldo PRANDI, A realidade social das religiões

no Brasil, religião, sociedade e política. 165

Ver, p. ex., Antonio G. MENDONÇA, Comentários sobre um texto prévio de Luís Dreher – UFJF..., p. 190: “Vem então a pergunta incomodativa: o de ‘fora’ ou o de ‘dentro’? Tenho observado que a maioria dos trabalhos escritos (teses, livros, etc.) sobre religião no Brasil permanece em nível preponderantemente descritivo, não indo às estruturas de pensamento que estão por trás do fenômeno. Acho, por exemplo, que não temos progredido muito no estudo do pentecostalismo por essa razão. Falta a compreensão, o sentido e a descoberta da ‘essência’ que vem antes do fenômeno. Não estamos conseguindo sair do excesso de empirismo e, por isso, dando razão aos desprezadores das ciências sociais que fazem questão de ‘desconhecer’ seus clássicos, principalmente Weber” [!].

166

A vontade de conhecer mais sobre a realidade brasileira levou-me, então, a buscar uma outra formação em nível de graduação, dessa vez em história. Nesse período, na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), dei os primeiros passos na direção da construção desta pesquisa, preocupado na época em analisar as relações entre a IELB e a sociedade gaúcha durante a I Guerra mundial. A abordagem da história cultural representou, nesse contexto, uma possibilidade de combinar meus estudos de teologia e de história, bem como as leituras de antropologia da religião (do ritual, mais especificamente) que fizera no mestrado.

Depois disso, já no processo de pesquisa e escrita desta tese, experienciei também outros momentos de maturação, como durante um período de estudos no Programa de Pós- Graduação em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e durante o estágio de doutoramento no Departamento de Antropologia da Vrije Universiteit Amsterdam.

Penso, assim, que a tese que apresento ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora é, por um lado, o resultado de anos de atividade religiosa entre luteranos descendentes de alemães e do que poderíamos chamar, com uma pitada de humor, de ‘participação observante’, o que pode ser interessante antropologicamente; mas é também, por outro lado, o resultado de uma formação acadêmica diversificada que me levou a formular temas e abordagens determinados e a buscar uma perspectiva interdisciplinar. Assim, em termos etnográficos, poderíamos dizer que o locus desde o qual escrevo é o de um ‘nativo’ descrevendo sua própria ‘tribo’. Um nativo, porém, que busca uma reflexão sistematizada e crítica a partir de algum treinamento em teologia, história e ciências sociais.

De outra forma, as questões investigativas que me proponho – a saber, sobre a formação dos discursos, memórias e identidades que fundamentam o Luteranismo da IELB e as posturas políticas destes decorrentes nas conjunturas brasileiras –, bem como seu tratamento, têm a ver, por um lado, com as experiências de conservantismo tanto religioso, quanto político, que experimentei internamente à instituição, e, por outro, com a formação acadêmica que venho procurando, a qual poderia ser dita “socioculturalista” e que me leva, aqui, à “relativização” – ao colocar em relação – do Luteranismo Confessional Ortodoxo. Acresça-se a isso a compreensão de que as respostas a que chegamos vêm também possibilitadas por um (saudável) distanciamento em relação à própria IELB que o programa de doutorado nos proporcionou na UFJF, tanto por tratar-se esta de uma instituição pública, na qual o pesquisador pode estar de certa forma desobrigado das fidelidades político-

discursivas inerentes às confissões religiosas, como pelo simples fato de esta se encontrar longe do Rio Grande do Sul.

Por sua vez, as limitações desta pesquisa em termos do que houver de ideológico em nosso discurso historiográfico e que venha a embotar nossa visão, os tratamentos que puderem ser considerados tendenciosos ou obliterantes, bem como aquilo que não venhamos a “enxergar” neste horizonte, tudo isso deve ser colocado em relação ao exercício reflexivo que aqui apresentamos. Mea culpa.

Se pensarmos, por fim, as categorias propostas por Droogers sobre as relações de poder inerentes à pesquisa,167 entendo o locus desde o qual escrevo (a quarta dimensão dessas relações de poder) como sendo um resultado da própria confluência de jogos de poderes internos, externos e no nível das crenças que envolvem a IELB: as vivências na igreja, os estudos de teologia e história, o envolvimento político no projeto social, etc. Antes, portanto, de buscar uma distinção clara entre ‘nós’ e ‘eles’, preciso atentar, como sugere Marcus, para uma crítica bifocal constante entre observador e observado, bem como para um exercício dialógico ao invés de exegético.168 A tarefa é árdua, sei – e qual não seria diante de um objeto tão fugidio? –, mas creio também ser possível a construção de algum conhecimento válido.

167

André DROOGERS, The power dimensions of the Christian community, p. 275.

168

No documento arnaldoericohuffjunio (páginas 58-62)