2. ORIGINAL/TRADUÇÃO
2.1. A QUESTÃO DO ORIGINAL
2.1.2. O logocentrismo e a impossibilidade da origem
A linguística saussuriana contribui para que o essencialismo se apegue a si quando estabelece não só a dicotomia forma/substância, mas também a oposição fala/escrita. Em
diálogo com Saussure (2006) e outros, Derrida (1973) escreve um livro inteiro, a Gramatologia, sobre a instauração desta dicotomia no pensamento ocidental e suas consequências.
De acordo com Derrida (1973), já nas teses aristotélicas se identifica uma sobrevalorização da fala sobre a escrita, na medida em que a fala era considerada a representação imediata do pensamento ou mesmo da alma, enquanto a escrita, por representar a própria fala, era por sua vez um acesso não imediato ao logos.33 Essa dicotomia se estabeleceu em um contexto de busca da essência ou da origem das coisas, na qual outras oposições haviam sido estabelecidas, a exemplo de corpo/alma e de sensível/inteligível, para ficar com somente dois pares caros a Platão,34 mestre de Aristóteles. Quando a fala e a escrita se juntam a essa cadeia dicotômica, constata-se que:
[e]ntre o ser e a alma […] haveria uma relação de tradução ou de significação natural; entre a alma e o logos, uma relação de simbolização convencional. E a primeira convenção, a que se referiria imediatamente à ordem da significação natural e universal, produzir-se-ia como linguagem falada. A linguagem escrita fixaria convenções, que ligariam entre si outras convenções. (DERRIDA, 1973, p. 13)
Dito de outro modo, a voz seria a expressão natural dos significados existentes no logos, os quais por sua vez representariam o modo como o espírito humano capta o mundo inteligível. Portanto o logos seria a “origem da verdade geral” (DERRIDA, 1973, p. 4; grifo nosso) sobre as coisas, e a fala, o mecanismo de acesso direto a essa fonte de verdade. Direto porque, se não
33 O termo logos vem do grego lógos, o qual, segundo o dicionário Houaiss, pode significar: “linguagem, proposição, definição; palavra; noção, razão; senso comum; motivo; juízo, opinião; estima, valor que se dá a uma coisa; explicação; a razão divina.” Na filosofia grega, o mesmo dicionário aponta o uso do termo em três vertentes. Primeiro, no pensamento de Heráclito, para quem logos seria o “conjunto harmônico de leis, regularidades e conexões que comandam o universo, formando uma inteligência cósmica onipresente que se plenifica no pensamento humano”. Sentido parecido teria seu uso no neoplatonismo, corrente para a qual o logos seria a “inteligência ativa, transformadora e ordenadora de Deus em sua ação sobre a realidade, semelhante a um instrumento de ação ou um princípio intermediário entre a divindade e o universo material”. O terceiro uso se daria entre os estoicos; logos como “força criadora e mantenedora do universo, agindo como princípio ativo que anima, organiza e guia a matéria, além de determinar a lei moral, o destino e a faculdade racional dos homens” (Cf. LOGOS. In: INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS. Grande dicionário Houaiss da língua portuguesa. 2015. Disponível em: <http://houaiss.uol.com.br>. Acesso em: 17 ago. 2015). Em Derrida (1973), logos aparece explicitamente como pensamento — “[…] no ‘pensamento’ como logos […]” (DERRIDA, 1973, p. 13) —, mas, a tirar por duas comentadoras do teórico, Mota (1997) e Rodrigues (2000), em coadunação com o racionalismo grego, logos pode também ser compreendido como razão — o Houaiss, inclusive, traz este termo como sinônimo daquele —, como pensamento racional. (Cf. MOTA, 1997, p. 2; RODRIGUES, 2000, p. 194).
34 O mito da caverna, alegoria da “ascensão da alma ao mundo inteligível” (PLATÃO, 2006, p. 212) — em contraposição ao mundo visível — é exemplo da importância das dicotomias no pensamento platônico. Cf. PLATÃO, 2006.
se efetivou por completo o “apagamento do significante na voz” (DERRIDA, 1973, p. 24), fazendo da mesma “a experiência única do significado produzindo-se espontaneamente, do dentro de si” (DERRIDA, 1973, p. 24), teria havido ao menos uma mudança no status do significante fônico: este seria “não-exterior, não-mundano, portanto não-empírico ou não- contingente” (DERRIDA, 1973, p. 9); seria o significante primeiro, em relação ao qual todos os outros derivariam, notadamente o significante escrito.
Tal privilégio dado à voz teve duas implicações as quais interessam para pensar a questão do original: o logocentrismo e o que aqui se está chamando de impossibilidade da
origem.
Ao se legitimar a oposição como forma de compreender o mundo; ao se construir um pensamento inteiro baseado em uma cadeia de pares de opostos, a envolver fala/escrita,
significante/significado, sensível/inteligível, etc.; os pais do pensamento ocidental nos legaram
a dicotomização como um dos principais mecanismos de cognição. Derrida (1973) chama esse fenômeno de logocentrismo. E não se trata de mero estabelecimento de opostos. Com efeito, estabelece-se uma hierarquia entre os dois conceitos que formam par, e um deles acaba por se tornar mais valioso em detrimento do outro. É o que sucede com a oposição fala/escrita, a qual, advinda dos gregos, se perpetua, por exemplo, no pensamento rousseauniano, que toma a escritura como suplemento da fala (DERRIDA, 1973, p. 177). E também na linguística saussuriana, na qual, ainda que não seja tratada como algo natural, a fala (parole) ainda tem privilégio sobre a escrita, pois aquela é vista como manifestação da língua (langue), enquanto a escrita, “sua única razão de ser” (SAUSSURE, 2006, p. 33) seria representar a língua.
Ora, se a escrita é apenas representação, ela própria não faz parte do jogo da língua. Eis um exemplo claro de uma das características basilares do logocentrismo: a exclusão do termo preterido das estruturas e instituições que seu xifópago engendra para garantir a própria superioridade (cf. EDKINS, 2007, p. 96). Para Derrida (1973), a hierarquia logocêntrica da fala sobre a escrita é a única explicação para que Saussure (2006), em admitindo a arbitrariedade do signo, fizesse uma diferenciação entre letra e fonema, quando o esperado seria “excluir toda relação de subordinação natural, toda hierarquia natural entre significantes ou ordens de significantes” (DERRIDA, 1973, p. 54). De sua parte, Derrida (1973) não vê diferença entre significantes fônicos ou significantes gráficos nem nada que impeça que ambos criem uma relação — a qual não deve ser confundida com hierarquia. Se se pode tomar o significante gráfico como representação do significante fônico, é igualmente válido considerar o
significante fônico uma representação do significante gráfico. Com esse argumento, busca-se romper a dicotomia fala/escrita, e para isso vem a calhar o conceito de escritura: “inscrição e primeiramente instituição durável de um signo” (DERRIDA, 1973, p. 54). A fala, nesse contexto, é tão somente uma escritura fonética, um tipo de escritura possível.
As implicações dessa mudança de perspectiva são enormes. É que o privilégio da fala em bases logocêntricas — também chamado de fonocentrismo — instaurou uma metafísica na qual a origem das coisas é identificável e recuperável, uma vez que a mesma se confunde com a presença (cf. DERRIDA, 1973, p. 15); afinal, se da fala se alcança o significado, a própria presença do sujeito ou das coisas postas diante do sujeito suscitam, pela fala, sua essência. Entretanto a arbitrariedade do signo, que tira dele qualquer característica intrínseca, faz com que seja a diferença entre uns e outros que os caracterizem, como Saussure (2006) já havia afirmado. Ou seja, um signo se caracteriza pelo que não é. Não há essência presente, não há significado transcendental, a despeito da brecha para se afirmar que sim, encontrada na ideia saussuriana de substância. Na medida em que o fonema recebe o mesmo status dos demais significantes; e na medida em que um significante (por exemplo, um fonema) pode significar outro significante (por exemplo, um grafema); constata-se que “o significado subsiste em várias estruturas de relações, não é único e irrepetível, mas radicalmente arbitrário” (RODRIGUES, 2000, p. 197). Que “todo signo já é um signo de um signo, não remete a alguma coisa presente em algum lugar” (RODRIGUES, 2000, p. 196). Que “a própria coisa é um signo” (DERRIDA, 1973, p. 60). E, consequentemente, que não há demarcação possível de origem. Por isso mesmo Derrida (1973) fala em rastro como aquilo que surge quando se descarta a presença: “O rastro é verdadeiramente a origem absoluta do sentido em geral. O que vem afirmar mais uma vez, [sic] que não há origem absoluta do sentido em geral” (DERRIDA, 1973, p. 79-80).
Sobre o termo rastro, é válido destacar a nota que Miriam Schnaiderman e Renato Janini Ribeiro, tradutores de Derrida (1973), fazem: rastro é como traduziram o substantivo francês
trace, que não deve ser confundido com trait (traço) nem tracé (traçado), pois, enquanto estes
remetem a linearidade — um conceito derivado da metafísica da presença —, aquele “se refere a marcas deixadas por uma ação ou pela passagem de um ser ou objeto” (DERRIDA, 1973, p. 22, nota de rodapé). O rastro é um entrecruzar de pegadas, são pistas do significado justapostas, deixadas por um signo e que levam para outros signos, que levam para outros signos, que levam para outros signos… sem rota linear demarcada. Talvez as ideias de Lakoff & Johnson (2002) sobre a natureza metafórica da cognição sejam, em sua limitação de teoria estrutural e linear,
uma maneira de vislumbrar o rastro; afinal, a metáfora é uma espécie de negação da essência, no que aproxima signos tão distintos quanto um homem e um ser microscópico — ele é um
verme! As metáforas linguísticas surgiriam então como produto do deslocar-se de um signo a
outro sem constrangimentos essencialistas, sem a preocupação de encontrar le mot juste flaubertiano, mas antes se deixando entrever qualquer rastro daquilo que se quer significar. Quanto ao conceito metafórico, no que tem de associação originária (por exemplo, tempo-
dinheiro-valor-recurso), os próprios Lakoff & Johnson (2002) o admitem como ponto de
partida contingente (a associação tempo-dinheiro como fruto da cultura capitalista).
Pensar a relação original/tradução pela óptica de Derrida (1973) é problematizar o status do original. A noção de logocentrismo revela, incontinente, como o original carece se opor à tradução para ser definido — sem o texto traduzido, o texto original é somente um texto — e, ao mesmo tempo, como o original mantém a tradução sob sua sombra, chegando mesmo a expulsá-la para um espaço exterior ao de seu domínio, sob a pretensa legitimidade de sua hierarquia superior, calcada na posse da origem da significação. Mas tal superioridade, sabe-se agora, só se sustenta enquanto houver qualquer possibilidade de se defender o acesso ao significado puro, fixo de um signo; de apontar sua presença. E a teoria da escritura derridiana cerra todas as brechas ao declarar que não há nada fora o texto.35 Com isso não se quer negar a possibilidade de existir um mundo real, mas ressaltar que estamos limitados a representá-lo somente, pois, se nosso pensamento e nossas comunicações — pela voz, pela escrita, pelo gestual, pela pintura — são escrituras, ambos compõem textos, e um texto, definitivamente, é uma representação (ZEHFUSS, 2009, p. 143).
Desse ponto de vista, o original se mostra como texto ordinário, simulacro, mediação, representação provisória de rastros de significados — tal qual a tradução. Seria viável até afirmar que o original é ele próprio uma tradução, porém se continuaria a reproduzir a lógica logocêntrica, a oposição hierarquizada. Sem tratar do logocentrismo, Paz (2012) identifica essa problemática e propõe uma solução não logocêntrica no trecho a seguir:
35 A frase original é: “il n’y a pas de hors-texte” (DERRIDA apud ZEHFUSS, 2009, p. 143) — “não há nada exterior ao texto”, “não há nada fora do texto” ou talvez “não há nada fora o texto” (traduções nossas, com base nas traduções para o inglês de Zehfuss (2009): “there is nothing outside the text”, “there is nothing outside-text”.
Nenhum texto é inteiramente original, porque a própria língua, em sua essência, já é uma tradução: primeiro, do mundo não verbal e, depois, porque cada signo e cada frase é a tradução de outro signo e de outra frase. Contudo esse raciocínio pode inverter-se sem perder a validade: todos os textos são originais porque cada tradução é distinta. Cada tradução é, até certo ponto, uma invenção e assim constitui um texto único. (PAZ, 2012, p. 2-3; tradução e grifo nossos36)
A ideia de Paz (2012), de tratar cada texto como único, parece, sim, escapar do logocentrismo presente no par original/tradução, na medida em que apregoa o apagamento dos vínculos que atam a tradução ao original. No entanto esse apartamento total entre ambos pode ser intolerável ou julgado desinteressante para o debate. Diante disso, é preferível a alternativa não logocêntrica dada por Rodrigues (2000), de tradução como transformação do “original” (aspas necessárias):
Na medida em que o original não é um objeto fixo, o que se dá, o que sobrevive não é simplesmente uma essência que receberá outra aparência, pois esse suposto original não tem uma identidade independente de uma leitura, fora da trama de intertextualidade em que se insere, ou em algum momento que exclua a relação espaço-temporal. O original vive, sobrevive, na e pela sua própria transformação produzida pela leitura. A tradução não transporta uma essência, não troca ou substitui significados dados, prontos em um texto, por significados equivalentes em outra língua. A tradução é uma relação em
que o “texto original” se dá por sua própria modificação, em sua transformação. (RODRIGUES, 2000, p. 206; grifo nosso)
Mais do que por manter vínculos com o “original”, a ideia de tradução como transformação destaca-se por horizontalizar tais conexões. Se, no logocentrismo, a tradução é vista como inferior, porque há sempre alguma perda, com a ideia de Rodrigues (2000), ela se torna algo que remete ao original, mas que é obrigatoriamente diferente do mesmo. Consequentemente, qualquer comparação de intuito jerarquista seria descabido.
Por profícuas que sejam ambas as alternativas acima, considerando-se que o pensamento logocêntrico prevalece, continuaremos neste capítulo a explorar as ideias que derivam dele em relação à dicotomia original/tradução. O item a seguir, último desta seção, é dedicado à
36 “Ningún texto es enteramente original, porque el lenguaje mismo, en su esencia, es ya una traducción: primero, del mundo no verbal y, después, porque cada signo y cada frase es la traducción de otro signo y de otra frase. Pero ese razonamiento puede invertirse sin perder validez: todos los textos son originales porque cada traducción es distinta. Cada traducción es, hasta cierto punto, una invención y así constituye un texto único” (PAZ, 2012, p. 2- 3).
fidelidade, o mandamento primeiro do reino do original. Em especial, foca-se na figura do tradutor; afinal, se a fidelidade perdura é porque existem pretensos fiéis.