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2 AS EXPECTATIVAS NO PENSAMENTO DA “ESCOLA DE CAMBRIDGE”: MARSHALL E PIGOU

2.1 ALFRED MARSHALL

2.1.1 O Longo Prazo e as expectativas em Marshall

De acordo com o que anteriormente foi mencionado, a diferença entre os dois subperíodos que compõem o Longo Prazo, “longo prazo” e “muito longo prazo”, é que no primeiro apenas a capacidade produtiva pode variar, enquanto que no segundo isto pode ser verificável para todos os recursos produtivos. No que se refere às expectativas dos agentes marshallianos apenas o primeiro é importante, pois o segundo se encontra fora de seu horizonte de percepção. Assim, o “muito longo prazo”, indicado por Blaug (1985), não é o conjunto de condições que são expectadas pelos agentes, mas como elas se apresentarão de fato, ou seja, o desfecho que o futuro exibirá como resultado de todas as ocorrências de mercado que se deram em tempo pretérito, em decorrência das diversas formas de organização que possam ter acontecido (MARSHALL, 1996, v. 2, pp. 27-28).

O “muito longo prazo” é o período onde todas as relações de mercado terão se realizado. Neste ponto se verificará um equilíbrio estável entre oferta e procura normais, correspondente a satisfação máxima do sistema, pois não há mais espaço para a existência de excedentes, seja do produtor ou do consumidor, nas trocas a serem efetuadas (MARSHALL, 1996, v. 2, p. 121).

49 Podemos dividir as economias derivadas de um aumento da escala de produção de qualquer espécie de bens

em duas classes: primeira, as dependentes do desenvolvimento geral da indústria; e segunda, as dependentes dos recursos das empresas que a ela se dedicam individualmente, das suas organizações e eficiência de suas administrações. Podemos chamar as primeiras de economias externas, e as últimas de economias internas. (MARSHALL, 1996, v. 1, pp. 315-316)

50 Seguindo a linha cronológica o mais coerente seria começar a discussão por CP ao invés de LP, mas como a

atenção da próxima seção será centrada na análise de CP de Pigou, assim como a que será feita no próximo capítulo em relação à Robertson, aqui se adota o caminho inverso e se inicia pela apresentação de LP.

Devido à inexistência do componente expectacional no “muito longo prazo” aqui apenas será discutido o mecanismo do “longo prazo”. Com isso, no restante desta seção o termo ou sua abreviação (LP) se referirá sempre a este período, o que deixa subentendido que a capacidade produtiva é variável, mas os recursos produtivos não.

Em LP são as expectativas dos empresários relacionadas aos preços futuros dos bens (preços de oferta) e sua comparação com os correspondentes custos de produção51, que definirão se a capacidade produtiva de uma empresa, indústria ou mesmo global aumentará, diminuirá ou ainda permanecerá a mesma: “O preço cuja expectativa induziu as pessoas a empreenderem negócio deve ser suficiente para cobrir à longo prazo o custo que supõe o estabelecimento de relações comerciais, e uma parte proporcional desse custo deve ser computada para formar o custo total de produção.” (MARSHALL, 1996, v. 2, p. 47)

Desta forma, para que novos investimentos produtivos sejam realizados é necessário que os preços futuros dos bens sejam expectados em um patamar que cubra os custos médios de

produção (VARIAN, 2006, Cap. 21). Caso isto não se verifique, além de não ocorrerem

novos investimentos, haverá saída dos empresários presentes em uma indústria qualquer que apresente esta situação (MARSHALL, 1996, v. 2, pp. 54; 86).

Com isto dito, pode-se observar que os custos de produção exercem o papel chave na determinação da estrutura produtiva em LP. E tendo em consideração que não se produzirá por preços expectados abaixo do nível de custo médio, pode-se indicar que são também os custos que definem o valor em LP (MARSHALL, 1996, v.2, pp. 34-36), ou seja, os elementos da oferta são preponderantes nesta periodicidade analítica. O papel da procura aqui se limita a modificações nas quantidades, sendo sempre o limite dado pelos custos de produção.

Veja-se então como se realizam os ajustes em LP, tendo em consideração que o apresentado se dá em uma firma representativa e as situações em questão são estáticas. Seguindo Marshall (1996, v. 2, Cap. XII e XIII) é possível indicar que aumentos na procura normal ocasionarão respostas da oferta condizentes com o tipo de rendimento52 apresentado pela indústria em

51 Entre os componentes dos custos de produção cabe mencionar o custo do capital, ou a taxa de juros, que

regula o equilíbrio entre a oferta e a procura de recursos da poupança, garantindo que os novos investimentos possam ser realizados (MARSHALL, 1996, v. 2, pp. 168-169).

52

[...] a parte desempenhada pela natureza na produção apresenta uma tendência ao rendimento decrescente, o papel do homem tem uma tendência ao rendimento crescente. [...] Se as ações das leis do rendimento crescente e

questão. No caso de rendimentos decrescentes, os possíveis aumentos das quantidades ofertadas serão acompanhados de aumentos nos preços; em se tendo rendimentos crescentes, os potenciais aumentos das quantidades ofertadas serão seguidos por reduções nos preços; e, com rendimentos constantes, aumentos nas quantidades ofertadas não modificarão os preços – cabe indica que em qualquer das situações o preço que se alcançará será o responsável pelo estabelecimento de um novo equilíbrio, adequado à nova situação estrutural, resultante da ampliação da capacidade produtiva realizada para atender a expansão da demanda.

Tem-se ainda, como consequência dos tipos de rendimentos apresentados pelas indústrias, que a magnitude do aumento das quantidades ofertadas será maior para as de rendimentos crescentes, seguidas pelas de rendimentos constantes e, por fim, pelas de rendimentos decrescentes. No mesmo sentido, por diminuírem menos, os preços serão maiores nas últimas, do que nas primeiras e as possuidoras de rendimentos constantes ocuparão posição intermediária entre elas.

Para o aumento do bem-estar do conjunto social as indústrias que mais contribuem são aquelas que auferem uma maior produção, com um menor custo, que se reflete em um menor preço para a coletividade. Ou seja, as indústrias que apresentam rendimentos crescentes.

Como os fatores que alteram a relação entre preço e custo de produção no LP são aqueles de caráter estrutural, os decorrentes aumentos ou diminuições da capacidade produtiva instalada são ajustamentos necessários para a adaptação à nova relação entre oferta e demanda normais. Desta forma, as expectativas dos agentes, que os levam a executar os investimentos, ou desinvestimentos, serão sempre condizentes com o resultado esperado da ação. Pois estes estarão perfeitamente adequados às novas relações de utilidade existentes, que promovem o equilíbrio do sistema, e que o levam à no “muito longo prazo” alcançar a satisfação ótima pelo pleno emprego dos fatores de produção.