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3. O programa das comemorações de 1959

3.4. O lugar da História

Mas tal como se havia anunciado, e tal como fora o objectivo das comemorações de 1940, pretendia-se que os festejos se fundassem na exaltação da História: “O passado ia entrando pelas casas a dentro, através das crónicas dos autores já conhecidos pela sua obra histórica (...), recordando origens, feitos e lembranças de lugares e figuras que refrescavam a memória e articulavam um presente fracturado e cansado de fracturas”47. Em 1940 destacaram-se Rocha Martins, Leitão de Barros e João Barreira com publicações, respectivamente, na revista Arquivo Nacional e nos jornais O Século, Diário da Manhã e Diário de Notícias. Em Aveiro, o semanário Litoral iniciou a secção “Efemérides Aveirenses” em 5 de Abril de 1958, coordenados pelo Dr. António Cristo, como forma de colaborar com a Comissão de História do Milenário de Aveiro e do Segundo Centenário da sua elevação a cidade. A secção despertou algum interesse e a sua publicação foi suspensa quando a Comissão manifestou o desejo de coligir os apontamentos num volume. Mas a demora em tipografar o trabalho, e o desejo de continuar a satisfazer o interesse dos leitores do Litoral48 levou à retoma, no semanário, em Setembro, da publicação interrompida.49

É notória, pois, neste capítulo, a vontade de transmissão de uma identidade nacional assente na valorização do passado. Em Aveiro, para celebrar os momentos históricos da sua fundação e da sua elevação a cidade, escolheram-se dois vultos – Santa Joana e João Afonso de Aveiro – sobre a biografia dos quais a imprensa da época se debruçou.

47

Margarida Acciaiuoli, Exposições do Estado Novo 1934-1940. Lisboa, Livros Horizonte, 1998, p.32. 48

Litoral, Aveiro, nº254, 5/9/1959, p.1. 49

As notícias históricas da autoria de António Cristo seriam editadas pela C.M.A. com o título “Mil anos de História – Efemérides Aveirenses”, em Dezembro de 1959.

A 27 de Junho de 1959, o dia antecedente à procissão de Santa Joana Princesa, o Litoral dedicou a primeira página exclusivamente à padroeira de Aveiro, com um artigo e um retrato.

Figura 30: Primeira página do Litoral de 27/6/1959, dedicada a santa Joana Princesa.

A filha do rei D. Afonso V e irmã do rei D. João II escolheu a vila de Aveiro, que chamou a sua “Lisboa a pequena”, para se dedicar à clausura. Neste artigo, refere-se que “o fogo que andava na alma (da princesa), ao sopro das suas austeridades, tornou-se labareda e fez-se clarão, a queimar e a iluminar de Caridade – que é amor de Deus e dos homens – toda a vila e o reino todo”. Valorizavam-se as suas “muitas bondades”, a sua virtude, a sua religiosidade católica, a sua presença dignificante, e o seu amor pelos valores universais e intemporais da Verdade, do Bem, da Justiça. Ao recordar-se a princesa Santa Joana nas festas jubilares, pretendia-se evocar um auge espiritual e impor o exemplo das virtudes da padroeira, como um meio de alcançar a “restauração universal pela elevação dos homens”.

A segunda personagem histórica evocada foi João Afonso de Aveiro. A obscuridade que envolve a sua biografia gerou na imprensa local alguma polémica suscitada por um estudo do Dr. Francisco Ferreira Neves, publicado em 1957 no Arquivo do Distrito de Aveiro sob o título “Naturalidade e família de João Afonso de Aveiro, navegador e poeta do século XV”50. Defendia a tese de que houvera apenas um só João

50

Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. XXIII, 1957, pp.65-84. Francisco Ferreira Neves, natural de Aveiro, era professor liceal licenciado em Ciências Matemáticas. Foi um dos fundadores da revista Arquivo do Distrito de Aveiro e dedicou-se à cultura local publicando inúmeros estudos.

Afonso de Aveiro, navegador e poeta do Cancioneiro Geral, que, contrariamente ao que o apelido indiciava, tendo induzido em erro muitos historiadores, era natural de Coimbra. Tão pouco teria descoberto o reino de Benim, atendendo a que, segundo alguns historiadores, já o rei D. Afonso V lá tivera feitores51. O Dr. António Cristo deu estas afirmações como infundadas, contrapondo que o navegador João Afonso e o poeta do mesmo nome seriam indivíduos diferentes, sendo muito frequente, no século XV, pessoas diversas e contemporâneas usarem os mesmos nomes e apelidos52. O Padre António Brásio também veio defender as origens aveirenses de João Afonso alegando que ainda não tinha aparecido nenhum documento que comprovasse que o navegador não fosse natural de Aveiro53, embora fosse crível que algum ou alguns dos seus ascendentes fossem aveirenses. O próprio presidente da câmara, Dr. Alberto Souto, debruçou-se sobre o assunto para amenizar a polémica e sublinhou o que considerava relevante: na impossibilidade documental de comprovar a sua origem, o que importava era a certeza de ele ter sido um dos homens de D. João II que contribuiu para a descoberta do caminho marítimo para a Índia, ao ter empreendido “patrióticas” expedições pelo sul do Atlântico54. João Afonso partiu em 1485, navegou pela Guiné, entrou pelo Rio Formoso e descobriu o reino de Benim. Este facto, segundo Alberto Souto, bastava ao povo de Aveiro para fazer a “ligação histórica” dessa terra “à história das glórias imortais que Portugal conquistou pelos mares”55.

Como anteriormente ficou referido, para imortalizar esta gesta, foi oferecida, pelo Governo, uma estátua de João Afonso de Aveiro à cidade. A personagem a imortalizar foi proposta pelas entidades locais a despeito de não se relacionar directa e historicamente com o milenário da fundação da cidade ou com o segundo centenário da sua elevação a cidade. Foi escolhido João Afonso de Aveiro por ser um vulto ligado aos Descobrimentos e porque simbolizaria simultaneamente a acção marítima dos aveirenses56.

51

Francisco Ferreira Neves cita João de Barros, que deu conta do feitor Afonso Cerveira, e António Galvão, que atribui a descoberta do Benim a Siqueira. João Afonso teria redescoberto o reino e fundado uma feitoria no porto de Gató, que servia a capital. In:“Para a história da estátua de João Afonso de Aveiro”, Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. XXV, 1959, pp.280-285.

52 Litoral, Aveiro, nº242, 13/6/1959, pp.1-4. 53 Litoral, Aveiro, nº253, 29/9/1959, pp.1-2. 54 Litoral, Aveiro, nº247, 18/7/1959, p.1. 55

“Discurso proferido pelo presidente da Câmara Municipal de Aveiro, Dr. Alberto Souto, no Acto da Inauguração da Estátua de João Afonso de Aveiro, no dia 5 de Julho de 1959”, in: Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. XXV, p. 269.

56

Francisco Ferreira Neves, “Para a História da Estátua de João Afonso de Aveiro”, in: Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. XXV, p. 280.

Por estranho que possa parecer, as comemorações jubilares consagraram dois vultos históricos que pouco ou nada tiveram a ver com as efemérides. Além disso, as duas datas históricas que motivaram as comemorações jubilares não foram assinaladas. Nada aconteceu no dia 26 de Janeiro, em que a condessa Mumadona, no ano de 959, assinou o testamento, nem tão-pouco no dia 11 de Abril, em que D. José, no ano de 1759, deu foros de cidade à antiga vila.